Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo - SES/SP
Coordenadoria de Controle de Doenças - CCD
Centro de Vigilância Epidemiológica - CVE
 MANUAL DAS DOENÇAS TRANSMITIDAS POR ALIMENTOS

Blastocystis hominis/Blastocistose
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1. Descrição da doença – o agente é encontrado em pessoas sintomáticas e assintomáticas. Nas infecções sintomáticas apresenta um quadro com diarréia líquida, dor abdominal, prurido perianal, perda de peso e flatulência acentuada. Permanecem ainda várias dúvidas se este agente seria causador de doença. Contudo, sabe-se que sua baixa prevalência pode ser devida a dificuldades na técnica de identificação laboratorial, uma vez que para sua detecção, não se deve diluir as fezes. Frequentemente, este agente aparece associado a outros parasitas, bactérias e vírus. Também é encontrado em pacientes que usam antibióticos, medicamentos para câncer, ou com outras doenças como as endócrinas, Doença like-Crohn, colites, etc..

 

2. Agente etiológico – há várias controvérsias sobre a classificação taxonômica desse agente. Foi considerado levedura, fungo e depois ameba flagelada ou protozoário (esporozoa). Recentemente, com base em biologia molecular (seqüenciamento genético) B. hominis foi classificado como pertencente ao grupo dos Estramenopolis. Esse grupo é definido como um conjunto evolutivo heterogêneo de protistas multicelulares e unicelulares incluindo-se a alga marrom, diátomos, crisófitos, mofos, lodos, etc..

 

Ciclo de vida:

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Fonte: DPDx/CDC/Atlanta/USA

 

Seu ciclo de vida e a forma de transmissão estão ainda sob investigação. A forma clássica encontrada em fezes humanas é o cisto, os quais variam em tamanho, de 6 a 40 mm (1). A presença de um cisto de paredes grossas (1) nas fezes parece ser o responsável pela transmissão externa, possivelmente por via fecal-oral, devido à ingestão de água ou alimentos contaminados (2).  O cisto infecta as células epiteliais do trato digestivo e multiplica-se de forma assexuada (3), (4). Formas vacuolares do parasito dão origem à multi-vacuolos (5a) e formas amebóides (5b). Os multi-vacuolos desenvolvem-se em pré-cistos (6a) que por sua vez, originam um cisto de parede fina (7a), acreditando-se ser este o responsável pela auto-infecção. As formas amebóides dão origem a um pré-cisto (6b), o qual se desenvolve em cisto de parede grossa por esquizogonia (7b). Os cistos de paredes grossas são excretados nas fezes.

3. Ocorrência - o agente é de distribuição mundial. A infecção é denominada de blastocistose. No estado de São Paulo, em 2008, ocorreu uma notificação de um surto alimentar associado a restaurante, em estância turística, envolvendo 5 pessoas, tendo sido identificado o agente nas fezes de uma das pessoas doentes.

 

4. Reservatório – ser humano; pouco se conhece sobre seu modo de transmissão e outros hospedeiros. Relaciona-se às condições precárias de higiene e saneamento.

 

5. Período de incubação – não se conhece bem seu período de incubação.

 

6. Modo de transmissão - disseminada por pessoas que ingerem água ou alimentos contaminados com fezes infectadas.

 

7. Susceptibilidade - geral.

 

8. Diagnóstico laboratorial – o diagnóstico é baseado no achado de cistos nas fezes. Não diluir as fezes, pois pode haver lise dos microrganismos e resultar em falso negativo. É muitas vezes, confundido com leucócitos.

 

9. Tratamento – o tratamento deve ser feito com metronidazol ou iodoquinol.

 

10. Medidas de controle - 1) notificação de surtos: a ocorrência de surtos (2 ou mais casos) requer a notificação às autoridades de vigilância epidemiológica municipal, regional ou central, para que se desencadeie a investigação das fontes comuns e o controle da transmissão através de medidas preventivas (medidas educativas, verificação das condições de saneamento básico e rastreamento de alimentos). 2) medidas preventivas - previne-se a infecção evitando-se ingerir água ou alimentos que possam estar contaminados com fezes. Lavar as mãos depois de usar o banheiro e antes de preparar alimentos. Lavar bem e desinfetar vegetal e frutas, antes de ingeri-los. Em regiões com condições de saneamento precárias e água não segura, ferver a água antes de beber e para preparar alimentos, especialmente, para lavar vegetais e frutas. Refrigerantes e sucos industrializados, pasteurizados, café e chás quentes são seguros. Em creches com crianças que usam fraldas utilizar critérios rígidos de higiene e lavagem de mãos com água morna e sabão, todas as vezes que trocar fraldas, mesmo usando luvas. 3) medidas em epidemias - A investigação epidemiológica parte da notificação dos casos suspeitos ou do isolamento do agente no exame laboratorial, e deve ser imediatamente realizada pela equipe de vigilância epidemiológica local. A investigação tem como objetivo identificar e eliminar o veículo comum de transmissão. 

 

 

11. Bibliografia consultada e para saber mais sobre a doença

 

  1. Albrecht H, Stellbrink HJ, Koperski K et al. Blastocystis hominis in human immunodeficiency virus-related diarrhea. Scand J Gastroenterol 1995; 30:909-14.
  2. Cavalier-Smith T. A revised six-kingdom system of life. Biol Rev Camb Philos Soc 1998; 73:203-266.
  3. CDC/USA. Blastocystis hominis. Fact Sheet. URL: http://www.cdc.gov (utilizar o comando search).
  4. DPDx. CDC/Atlanta/USA. Blastocystis hominis. URL: http://www.dpd.cdc.gov/dpdx
  5. Markell EK, Udkow MP. Blastocystis hominis: pathogen or fellow traveler? Am J Trop Med Hyg 1986; 35:1023-6.
  6. Miller RA, Minshew BH. Blastocystis hominis: An organism in search of a disease. Rev Infect Dis 1988; 10:930-8.
  7. Patterson DJ. Protozoa, evolution and systematics. In: Housmann K, Hulsmann N, editors. Progress in Protozoology. Stuttgart: Fisher; 1994. p. 1-14.
  8. Silberman JD, Sogin ML, Leipe DD, Clark CG. Human parasite finds taxonomic home. Nature 1996;380-398.
  9. Ukdow MP, Markel EK. Blastocystis hominis: prevalence in asymptomatic versus symptomatic host. J Infect Dis 1993; 168:242-4.
  10. Zuckerman MJ, Watts MT, Ho H. et al. Blastocystis hominis infection and intestinal injury. Am J Med Sci 1994; 308:96-101.

 

 

Informe Técnico elaborado pela Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar do
Centro de Vigilância Epidemiológica - SES/SP

e-mail para correspondência - dvhidri@saude.sp.gov.br

 

São Paulo, Julho de 2008.