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TEMA: ESTRATÉGIAS DE ABORDAGEM PARA A EXPOSIÇÃO AMBIENTAL AO CHUMBO NO ESTADO DE SÃO PAULO


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Problema
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Efeitos na Saúde e Parâmetros Aceitáveis
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Os programas de Controle
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Proposta de Atuação
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Bibliografia
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Figuras:
1 (Efeitos do chumbo inorgânico em crianças e adultos ) e 2 (Correlao entre chumbo no sangue e solo)


Este documento foi elaborado por Dra. Clarice Umbelino de Freitas
Divisão de Meio Ambiente do CVE

 

 

 


I - O Problema:

Introdução

O chumbo se encontra naturalmente na crosta terrestre em concentrações de aproximadamente 13mg/kg. Acredita-se que sua concentração venha aumentando significativamente como resultado da atividade humana. A mineração de chumbo já era conhecida pelos gregos e romanos. Durante a Revolução Industrial e nos princípios do século ocorreu um maior incremento da produção e utilização deste metal, particularmente com o seu uso como antidetonante de gasolina e produção de baterias para automóveis.

Aproximadamente 80% do chumbo que se encontra na atmosfera provem da gasolina. A indústria de acumuladores é a fonte principal de chumbo secundário (ECO/OPS, 1989), mas outras fontes devem ser consideradas do ponto de vista ambiental como: revestimento de metais e outras fontes expostas e corrosão, tintas, esmaltes, cerâmicas vitrificadas com cozimento a baixas temperaturas, soldaduras de embalagens de alimentos, solo contaminado por indústrias emissoras de chumbo, remédios folclóricos (particularmente provenientes de países orientais), cosméticos, etc. (CDC, 1992 e Meditext, 1998). A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda pesquisa constante de outras fontes de exposição ao chumbo (WHO, 1992).

A exposição humana ao chumbo pode se dar por várias fontes: solo, ar, água e ingestão sob várias formas (WHO, 1992).

A absorção do chumbo pode ocorrer por via digestiva e respiratória (partículas finas). A absorção pela pele só é referida para o acetato de chumbo (Meditext, 1998). Esta absorção é diferencial entre crianças e adultos. O chumbo inalado pelo trato respiratório baixo é completamente absorvido, já pelo trato gastrointestinal (principal via de absorção), os adultos absorvem 10 a 15% da quantidade ingerida enquanto as crianças e mulheres gestantes mais de 50%. Esta absorção aumenta quando há deficiência orgânica de ferro, cálcio e zinco (CDC, 1992 e Meditext, 1998).

O chumbo absorvido se distribui no organismo. No sangue, os estudos têm mostrado que sua meia vida é de 25 dias. Em torno de 95% do chumbo absorvido se deposita nos ossos e dentes, os restantes 5% nos tecidos moles e sangue. Do chumbo no sangue, 1% se encontra no plasma e 99% associado aos eritrócitos. A vida média do chumbo nos tecidos moles é em torno de 40 dias e nos ossos mais de 25 anos. Em estados de stress como gravidez, lactação e doenças crônicas este metal pode ser mobilizado dos ossos e se constituir em fonte de elevação de seus níveis sangüíneos (CDC, 1992).

 

Estudos em vários países têm estimado que aproximadamente 4% de todas as crianças têm níveis elevados de chumbo no sangue (WHO, 1992). Estimativa de crianças em áreas metropolitanas dos Estados Unidos chega a números mais elevados. A partir de dados coletados de 1976 a 1980 estimou-se que 17% das crianças apresentam níveis de chumbo acima de 15g/dl; 5,2% acima de 20g/dl e 1,4% mais que 25g/dl (MMWR, 1988). Estes níveis são diferenciais de acordo com o local de moradia . Segundo Rifai et al., na área urbana 18,6% das crianças apresentam níveis de chumbo no sangue maiores que 10g/dl e nas áreas suburbana e rural 2,4% e 5,8% respectivamente (Meditext, 1998). Nos Estados Unidos os níveis de chumbo no solo em áreas próximas a grande tráfego de automóveis chegam a 800ug/g, e na poeira das casas com pintura a base de chumbo, a 10.000ug/g. Exposições elevadas também ocorrem nas proximidades de minas, fundições de chumbo e fábricas de acumuladores. São exemplos disto as contaminações do solo em El Paso (México), onde se alcançaram níveis maiores que 300ppm (ECO/OPS, 1987); Suíça com níveis na poeira de 14.000ug/g (WHO, 1992); Caçapava (São Paulo) com níveis no solo de 40kg/km/30 dias, provocando morte de animais (CETESB, 1993); e estudo efetuado por Silvany (1996) em Santo Amaro, Bahia.

O consumo do chumbo vem diminuindo de forma mais acentuada nos países industrializados, basicamente por problemas de contaminação ambiental e por sua toxicidade para o ser humano. Ao lado disto vêm se desenvolvendo substitutos deste metal por outros produtos menos tóxicos e contaminantes (ECO/OPS, 1987).


 

 

 

 

 

II -Efeitos na Saúde e Parâmetros Aceitáveis

O chumbo pode causar diversos males à saúde. Interfere na produção da hemoglobina, causa distúrbios renais, neurológicos e no encéfalo (Meditext, 1998). Seus efeitos podem evidenciar-se a vários níveis de concentração sangüínea e podem ser correlacionados com estes níveis. A figura 1 apresenta uma síntese dos efeitos do chumbo no organismo bem como os níveis mínimos de detecção associados aos respectivos efeitos. Na realidade é nas crianças que os danos podem ocorrer mais precocemente. Comitê da FAO/OMS (1994), acerca dos efeitos e limites de exposição ao chumbo, coloca que a estimativa de queda do Quociente de Inteligência (QI) é de 1 a 3 pontos para cada aumento de 10g/dl de chumbo no sangue em crianças. De acordo com a literatura atual, estes efeitos podem ocorrer quer por exposição ambiental, quer por transferência placentária mãe feto (Reprotext, 1998). Por terem uma barreira hematoencefálica ainda em desenvolvimento, nas fases precoces da vida as crianças intoxicadas por chumbo podem apresentar distúrbios do comportamento, da audição e rebaixamento do QI. São relatados também retardo do crescimento, anemia e perda de peso (Meditext, 1998), mesmo com baixos níveis de concentração sangüínea de chumbo.

Entre 1986 e 1988 vários estudos demonstraram alterações neurocomportamentais em crianças com níveis de chumbo no sangue entre10g/dl a 14g/dl, mas a definição de um nível tóxico de chumbo continua a baixar. Já foram descritos efeitos no crescimento a níveis sangüíneos de chumbo de 4g/dl. Tomando a ampla gama de efeitos do chumbo no organismo e sua relação com as concentrações sangüíneas, suspeita-se que ainda não temos um limite seguro de sua concentração no sangue em crianças. Mesmo em adultos, efeitos são descobertos à medida em que se refinam os métodos de análise e mensuração (CDC,1992).

O método mais seguro para avaliar a contaminação de chumbo em crianças é a concentração de chumbo no sangue, medida por espectrofotometria de absorção atômica em forno de grafite por detectar baixas concentrações, com baixo desvio padrão do método. Várias outras medidas podem ser efetuadas, tanto para fins de verificação de efeitos, como para avaliar suspeita de exposição crônica. Para fins de Saúde Pública destaca-se a zincoprotoporfirina (ZPP), que é indicada para screening populacional, apesar de estudo realizado pelo National Health and Nutrition Examination Survey ter indicado que 58% de 118 crianças com níveis de chumbo acima de 30g/dl foram detectadas como normais pela ZPP (CDC, 1992). A ZPP é recomendada também para detecção de exposições crônicas (Meditext, 1998). Outros exames também podem ser realizados para detecção de exposições anteriores como o Raio X de pulso e joelho (Meditext, 1998).

Uma concentração de chumbo no sangue menor que 10ug/dl é recomendada como aceitável pelo OMS, Center for Disease Control (CDC) e American Conference of Governmental Industrial Hygienists (ACGIH). A ACGIH recomenda este limite também para mulheres grávidas (LOLI, 1998). A ingesta semanal de chumbo considerada como aceitável é de 25mg/kg (FAO/OMS, 1994).

 

 

 


III - Os Programas de Controle

Panorama no Mundo

Reunião realizada em Bangkok (Tailândia) pelo WHO/UNEP, como parte do programa HEAL (Human Exposure Assessment Location) apontou que o uso do chumbo como aditivo da gasolina ainda se constitui em problema ambiental para a maioria dos países (WHO, 1992). Neste encontro, dos 35 países participantes 17 apresentaram estudos de exposição e efeitos do chumbo no organismo. Dentre estes 17, cinco dos estudos faziam parte de um programa nacional de controle da emissão deste poluente e/ou se constituíam em avaliação dos resultados (Alemanha, Hungria, Israel, Japão, Suíça). Os demais países que apresentaram estudos de exposição sem citar programas nacionais de controle foram: Chile, Croácia e Slovênia, República Checa, Lituânia, Filipinas, Polônia, Rússia, Singapura, Tailândia, Vietnã. Tendo como exceção Israel, que descreve um programa de controle voltado para as fontes de emissão do chumbo, os demais não descrevem como são estruturadas as atividades, restringindo-se apenas aos resultados de monitorização ambiental (ar, água, alimentos, solo, cigarro, sangue) e estudos de corte transversal.

Nos Estados Unidos a EPA (Environmental Protect Agency) inicia programa de redução de chumbo como aditivo na gasolina em 1970, e já em 1992 considera que este não mais se constitui em problema de saúde pública (CDC, 1992 e CDC, 1998). O uso de chumbo como pigmento nas tintas foi eliminado em 1970 (CDC, 1998). Noticiário do CDC (1998) avalia que em conseqüência disto os estudos de screening dos níveis de chumbo em 76% das crianças de 1 a 5 anos caíram de 15g/dl para 3,6g/dl entre 1978 e 1991. Em 1991, coordenado pelo CDC, em conjunto com a EPA, agências de Saúde Pública dos estados e outras instituições, foi lançado um plano estratégico de 20 anos com a finalidade de identificar crianças expostas ao chumbo, prevenir a exposição, tratar e remover altos níveis de chumbo no ambiente. O programa inclui na rotina médica a investigação da intoxicação por chumbo no diagnóstico diferencial de crianças com alterações do desenvolvimento neuropsicomotor, screening populacional, vigilância laboratorial dos resultados de exames de chumbo em crianças, em conjunto com dados relativos ao exame médico dos suspeitos, investigação e controle dos contaminantes ambientais e ações de polícia sanitária (CDC, 1992; CDC, 1997; CDC, 1998; NCEH, 1997). De acordo com os protocolos estabelecidos para os clínicos, são previstas comunicações às agências responsáveis pelas ações de polícia e, estabelecidas condutas médicas como citadas a seguir.

 

Interpretação dos resultados de teste de chumbo no sangue e atividades de

seguimento: classes de crianças baseadas nas concentrações de chumbo no sangue

Classe

Pb m g/dl

Comentários

I

£ 9

Criança considerada não intoxicada

IIA

10 a 14

a presença de grande proporção de crianças com estes níveis indica atividades de prevenção; as crianças devem ser reexaminadas com freqüência

IIB

15 a 19

criança deve receber intervenção nutricional e educacional; se persistem estes níveis devem ser feitas investigações ambientais

III

20 a 44

deve ser feita investigação ambiental; a criança deve ser vista por médico para avaliação da necessidade de tratamento da intoxicação*

IV

45 a 69

deve ser feita investigação ambiental; a criança deve receber tratamento de intoxicação inclusive com quelação

V

³ 70

é uma emergência médica. Tratamento e manejo ambiental devem ser feitos imediatamente

Extraído de CDC, 1992

*O Tratamento da intoxicação por chumbo deve ser feito em ambiente hospitalar devido a seus efeitos colaterais (Meditext, 1998)

 

Quarenta Estados e Departamentos locais americanos participam deste programa. É previsto no orçamento fiscal de 1997 um novo screening populacional dirigido para as áreas e grupos de risco anteriormente identificados (NCEH FACTBOOK, 1997 e NCEH, 1977).

 

Na França, adaptando os critérios de internação de resultados de níveis de chumbo no sangue do CDC, existe um sistema nacional de vigilância do saturnismo infantil, envolvendo 30 departamentos de saúde (RNSP, 1998).

Na medida em que as fontes de emissão do chumbo são controladas, a contaminação do solo passa a representar um grande risco para a Saúde Pública. A partir das diversas fontes (gasolina, tintas, indústrias) o chumbo se deposita no solo e vai alcançando altas concentrações, podendo contaminar a água e a vegetação, além de ser mobilizado pelo vento até as vias respiratórias. Existe uma grande variação nas concentrações de chumbo encontradas no solo, desde menores que 100ppm até maiores que 11.000ppm (WONDER, 1992). O chumbo é estável, não dissipa ou biodegrada. Sob condições naturais a absorção do chumbo por outros materiais é muito lenta, e pode se constituir em fonte de exposição por longos períodos. Em geral, para cada aumento de 1000ppm no solo há um aumento das concentrações sangüíneas de chumbo de 3 a 7g/dl.(WONDER, 1992)

Crianças pré-escolares e fetos são a população mais vulnerável à exposição ao chumbo. Esta maior vulnerabilidade de dá por uma combinação de fatores incluindo: 1) o sistema nervoso em desenvolvimento aumentando a suscetibilidade para os efeitos neurológicos do chumbo; 2) crianças pequenas estão mais em contato com o solo e colocam freqüentemente as mãos e objetos na boca; 3) a eficiência da absorção do chumbo é maior em crianças que em adultos; 4) deficiências nutricionais de cálcio e ferro são mais comuns em crianças. Como pode ser visto na figura 2, existe correlação entre os níveis de chumbo no solo e no sangue de crianças. Recomenda-se para prevenir a exposição criar barreiras entre a criança e o solo, ou remover sua crosta superficial (WONDER, 1992). Medidas como impermeabilização ou uso de plantas que têm alta absorção de chumbo são recomendadas por outros autores (EPA, 1990).

Apesar da complexidade do estudo da exposição ao chumbo e seus efeitos para a saúde, Kjellstrõm (WHO, 1992) propõe uma abordagem simplificada e aplicável para países em desenvolvimento. São abordados os seguintes passos:

1- Identificar uma sub população que deva estar exposta a altos níveis de chumbo adotando um grupo de referência adequado.

2- Tomar amostras de sangue de ambos os grupos (crianças de 1 a 2 anos e de suas mães). Recomenda uma amostra pequena (N=25 por grupo)

3- Encaminhar a um laboratório de referência para análise do chumbo.

4- Avaliar os resultados e decidir se são necessários estudos posteriores ou a tomada de medidas preventivas.

5- Se estudos posteriores são necessários, seguir protocolos estabelecidos. Recomenda-se que os testes psicológicos e comportamentais só sejam realizado se existem recursos suficientes para o grande número das análises necessárias e, onde existam estes dados padronizados para crianças.

O Problema no Brasil

Apesar de não contarmos com um programa oficial de prevenção da exposição ambiental ao chumbo, várias medidas já foram tomadas no sentido de proteger a população.

Desde 1978 o chumbo não é mais utilizado como antidetonante da gasolina. Níveis aceitáveis de chumbo são regulamentados para alimentos e água (Portaria 16 e CONMA, 1986). Quanto à concentrações aceitáveis em humanos, só existe regulamentação para a exposição ocupacional.

Dentre os setores não regulamentados encontramos uma tendência na indústria de maior porte nacional de seguir os parâmetros estabelecidos nos países mais industrializados. Segundo informações obtidas através da Associação de Fabricantes de Tintas, há uma tendência iniciada na década de 1990 de substituição do chumbo como pigmento. No momento as tintas de uso doméstico produzidas no Brasil são isentas de chumbo. Com efeito, o manual de tintas e vernizes (Fazenda, 1995) não recomenda o uso de chumbo nas tintas. Entretanto, o chumbo ainda é utilizado como anticorrosivo de outros metais (Zarcão) em portões de ferro, geladeiras, carros, fogões, bicicletas, etc. Após o uso do Zarcão se faz a cobertura com tintas contendo outra composição. A ausência desta cobertura representa risco de exposição. Ainda de acordo com a Associação de Fabricantes de Tintas, alguns esmaltes contêm chumbo na sua composição.

Estudo realizado pelo Instituto Adolfo Lutz, em artigos escolares (Garrido, 1990), onde se analisaram borrachas, lápis preto, canetas hidrográficas, tintas para colorir, etc., encontrou chumbo nestes produtos. O estudo recomenda a necessidade de regulamentação da produção dos mesmos.

Os produtores de enlatados também substituíram o chumbo da soldagem das embalagens de alimentos. Não encontramos análises de alimentos enlatados. Quanto a alimentos in natura, estudo efetuado por Sakuma (1989) concluiu que estes se encontravam com concentrações de chumbo seguras para o consumo humano. Atualmente vem sendo realizado um outro estudo enfocando os sucos de frutas, ainda não concluído.

A partir de 1986, para a instalação de indústrias poluidoras faz-se necessário o Relatório de Impacto Ambiental bem como das medidas mitigadoras deste impacto (EIA/RIMA). Este relatório é analisado e julgadas a pertinência das medidas, só então é aprovado (CONAMA, 1986). As indústrias instaladas antes desta regulamentação não são obrigadas a seguir estes protocolos, exceto se comprovado algum dano ambiental, quando então podem ser submetidas a Ação Judicial por crime ao meio ambiente, podendo ser condenadas a corrigir ou ressarcir o dano causado (Machado, 1982).

 

Constitui-se problema não só as empresas fundadas antes de 1986, como também o processamento ilegal do chumbo. De acordo com informações do Centro de Vigilância Sanitária (CVS) da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES), existem várias pequenas empresas e fundições domiciliares de chumbo, sem observação dos devidos cuidados de contaminação, pondo em risco não só a saúde dos trabalhadores como a dos residentes no domicílio.

São raros os estudos brasileiros de exposição ambiental ao chumbo. Silvany (1996), em Santo Amaro (Bahia), medindo concentrações de chumbo através do método da ZPP encontrou níveis médios de 65,5g/dl em crianças residentes no raio de 500m de uma empresa fundidora. Estes níveis se mantêm desde 1980 devido a ausência de medidas mitigadoras da contaminação do solo. Em Cubatão (São Paulo), Santos (1993) encontrou níveis médios de chumbo no sangue em crianças de 1 a 10 anos de 17,8g/dl em estudo realizado em 6 bairros do município. No Município de Caçapava (São Paulo), levantamento preliminar apontou altos níveis de contaminação em crianças, tendo algumas delas apresentado concentrações de 40g/dl de chumbo no sangue (CETESB, 1994). Estas crianças residiam próximo a uma indústria de fundição de chumbo. A empresa se localizava em área rural com predomínio de criação de gado leiteiro. No estudo realizado por Okada (1997) em 218 amostras de leite comercializado para consumo humano, foram encontradas 43 com níveis de chumbo acima do limite máximo estabelecido pela legislação brasileira.

No Brasil não há prática clínica consolidada de análise de chumbo no sangue, ou propostas de screening mesmo em crianças com alterações no desenvolvimento neuropsicomotor. Quanto à tentativa de estabelecimento de um parâmetro de não expostos em crianças, encontramos um estudo isolado (Salgado, 1992) que compara as concentrações de chumbo no sangue entre crianças residentes em cidade do interior de São Paulo e Contagem na Bahia. As médias encontradas foram 20,8 e 23,9m g/dl respectivamente. Estudo realizado na região metropolitana de Londrina (área residencial) em adultos, encontrou mediana de concentração de chumbo no sangue de 7,9g/dl (Paolielo, 1997).


IV - Proposta de Atuação

Diante da complexidade e multiplicidade dos efeitos e fontes de exposição ambiental ao chumbo, as atividades preventivas devem abordar as várias facetas que envolvem o problema, conjugar esforços das várias instituições envolvidas na questão ambiental bem como ser factível economicamente.

As propostas aqui elencadas visam suscitar a discussão em torno do problema, no sentido do seu encaminhamento. Buscamos para isto sugerir as instituições provavelmente envolvidas em cada passo, a partir dos instrumentos legais que dão base para suas atuações.

De acordo com o que foi exposto anteriormente, podemos supor que nosso problema mais crucial com relação ao chumbo é a contaminação do solo, particularmente nas proximidades de indústrias de produção e recuperação deste metal e das fábricas de baterias. Estabelecer esta questão como prioridade, não exclui a necessidade de outras atividades de monitorização da contaminação do chumbo em produtos que podem ser consumidos ou inalados pelas pessoas; regulamentação complementar, e propostas que visem um diagnóstico mais realista da nossa situação de exposição e contaminação em humanos. Alertamos para o fato de que as propostas aqui elencadas se destinam à exposição ambiental ao chumbo. A exposição ocupacional requer abordagem diferenciada.

  1. Sobre a contaminação do solo:

A contaminação do solo pode ser abordada através de atividades de controle

sanitário (Vigilância Sanitária VS, Secretaria da Agricultura-SAA, Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental-CETESB, Município); estudos transversais (Vigilância Epidemiológica e Município); atividades de monitorização do solo (CETESB, SAA e Município); descontaminação do solo (o responsável pela contaminação) e atividades educativas (todas as instituições). Os passos a serem seguidos seriam:

1- Por se tratar de atividade que envolve várias instituições, em níveis de atuação diversos para atuar em problemas localizados, entendemos que cada município deve coordenar as suas atividades e buscar apoio nos níveis hierárquicos pertinentes das instituições. O apoio do Ministério Público no sentido de fazer cumprir a Lei é imprescindível. Claro está que a disponibilização da informação entre as instituições é condição indispensável para o desenvolvimento da proposta. O município, presente em todos os foro, deve também ser aglutinador e disseminador da mesma.

2- O município, em conjunto com a CETESB e a Vigilância Sanitária fariam o levantamento dos possíveis fontes de contaminação.

3- Seria solicitado ao responsável pela contaminação a análise do solo das proximidades, para averiguação da suspeita. Atividade esta coordenada pelo município, CETESB e VS.

4- Caso se conclua pela contaminação do solo:

4.1- Realizar avaliação do processo de produção e emissão do poluente (município, CETESB,VS)

4.2- Comunicar ao serviço responsável pelas ações de Saúde do Trabalhador para avaliação específica

4.3 - Realizar estudos de corte transversal em pequena amostra de crianças residentes próximo a indústria. Como não dispomos de estudos suficientes para o estabelecimento de um parâmetro de normalidade no Estado, as médias de chumbo no sangue devem ser comparadas com grupo de crianças não expostas do mesmo município considerando aceitável a concentração de chumbo no sangue de 10m g/dl conforme proposto pela OMS. A coordenação desta atividade será feita pelo município, Vigilância Epidemiológica das DIR e CVE.

4.3.1 - Concluindo o estudo pela exposição das crianças ao chumbo:

4.3.1.1 Realizar atividades educativas no sentido de minimizar a exposição (todas as instituições)

4.3.1.2 Exigir do responsável pela contaminação uma avaliação da extensão da mesma, através de análise do solo (município, CETESB,VS)

4.3.1.3 Caso haja uso do solo para produção de alimentos, realizar monitorização e/ou interdição se for o caso (SAA,VS)

4.3.1.4 Exigir do responsável pela contaminação medidas mitigadoras para o problema (município, CETESB,VS)

4.3.1.5 Avaliar a necessidade de estudos de exposição populacional mais abrangente (todas as instituições)

4.3.2 O estudo concluiu que não há exposição significante

4.3.2.1 Solicitar do responsável pela contaminação, avaliação da extensão do problema e medidas mitigadoras (município, CETESB,VS)

4.3.2.2 Comunicar ao serviço responsável pelas ações de saúde do trabalhador para avaliação específica.

5 Caso se conclua que os níveis de contaminação do solo estão dentro de padrões aceitáveis concluir o caso.

 

2- Outras Medidas de Controle

- Esclarecer a população acerca dos riscos e fontes de exposição ao chumbo, particularmente no que se refere aos já identificados como: usar apenas o Zarcão na pintura dos portões, guardar alimentos em cerâmica vitrificada, pinturas antigas na residência, consumo de alimentos enlatados de marcas não idôneas, etc.

- Estabelecer rotinas de monitorização laboratorial periódica para produtos de consumo (alimentos) ou contato humano (tintas, gasolina), através do Laboratório de Saúde Pública, no sentido de garantir níveis aceitáveis de contaminação do chumbo nestes produtos, com a divulgação dos resultados ou sua interdição se for o caso.

- Regulamentar aspectos ainda não contemplados pela legislação brasileira dando ao consumidor oportunidades de ações judiciais de ressarcimento em caso de dano à saúde, ou contaminação acima dos limites estabelecidos. A regulamentação também pode permitir outras atividades de controle sanitário.

- Estimular estudos no sentido do estabelecimento do nosso limite aceitável de concentração de chumbo no sangue.

 

 

 

3- Atividades de Vigilância Epidemiológica

As crianças são o grupo mais vulnerável tanto para exposição quanto para efeitos adversos à saúde decorrentes da contaminação por chumbo como citado anteriormente, devido a isto são bons marcadores de exposição e efeito. Por outro lado, o diagnóstico de um distúrbio neurocomportamental não se constitui em tarefa simples. Para ter uma idéia da nossa situação de danos à saúde decorrentes da exposição ao chumbo propomos o estabelecimento de serviços sentinela (clínicas de neuropsiquiatia e psicologia de hospitais universitários), que a partir dos casos avaliados em sua rotina, incluiriam a intoxicação por chumbo como possibilidade etiológica de distúrbios neurocomportamentais.

Estes casos seriam notificados para investigação de novas fontes de exposição; identificação de necessidade de inquéritos populacionais mais aprofundados e para dar pistas de quantificação de efeitos adversos à saúde.