Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272
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Setembro, 2004   Ano 1   Número 9                                                                       retorna
Diagnóstico Laboratorial da Febre Maculosa Brasileira

Elvira Maria Mendes do Nascimento; Silvia Colombo
Instituto Adolfo Lutz


A febre maculosa é uma doença infecciosa aguda, transmitida pela picada de carrapatos. Caracteriza-se por início brusco com febre alta, cefaléia, dores musculares intensas, e prostração, seguida de exantema máculo papular.O agente etiológico é uma bactéria Gram-negativa intracelular obrigatória, denominada Rickettsia rickettsii. No Brasil, o principal vetor da doença é o Amblyomma cajennense.

O diagnóstico laboratorial das riquetsioses consiste em provas inespecíficas e específicas. Dentre as provas específicas, os métodos sorológicos são os mais usuais, como Weil-Felix, Fixação do Complemento, Microaglutinação, Hemaglutinação Indireta, Aglutinação de Látex, Ensaio Imunoenzimático (Elisa) e Imunofluorescência Indireta. É necessária a realização do diagnóstico diferencial de outras doenças, como meningococcemia, sarampo, febre tifóide, dengue, leptospirose, febre amarela e doença de Lyme, entre outras.

A reação de imunofluorescência indireta (RIFI) é a técnica de referência utilizada pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e por muitos laboratórios de Saúde Pública. É um teste simples e econômico para o diagnóstico precoce de riquetsioses, estudos soroepidemiológicos e para a diferenciação de isolados de riquétsias (BROWN et al., 1983; RAOULT et al., 1986; SCOLA, RAOULT, 1997). A RIFI pode ser usada para detectar anticorpos IgG e IgM em amostras pareadas de soro, na fase aguda e de convalescença da doença (CDC, 2002).

O teste de microimunofluorescência, uma adaptação da RIFI, tem sido utilizado para a tipificação de riquétsias, principalmente nos estudos sobre determinação das relações taxonômicas e epidemiológicas entre riquétsias do Grupo da Febre Maculosa (GFM). Este teste é simples, bastante aplicável, possibilita com uma única gota de soro diluído a reação simultânea com 9 a 16 antígenos diferentes, aumentando a capacidade de diferenciação entre as cepas do GFM e Grupo Tifo (PHILIP et al., 1978).

Na escolha do teste sorológico a ser utilizado no diagnóstico de infecções agudas devem ser consideradas a sensibilidade e a duração do período necessário para o aparecimento de títulos de anticorpos detectáveis. Para os estudos soroepidemiológicos, recomendam-se testes com alta especificidade para evitar resultados falso-positivos. Na escolha do teste é preciso considerar as quantidades e custos dos antígenos necessários e o material mínimo requerido.

Com o objetivo de reduzir a demora dos diagnósticos, vários métodos laboratoriais foram desenvolvidos para a detecção direta de riquétsias nos materiais clínicos de pacientes em fase de infecção aguda, como a imunodetecção de riquétsias em tecidos (Imunohistoquímica) ou em células endoteliais circulantes extraídas de sangue total além do isolamento em cultura de células sistema "shell vial" e a amplificação de DNA riquetsial pela reação em cadeia da polimerase, PCR (SCOLA, RAOULT, 1997).

A imunohistoquímica é a metodologia utilizada para o diagnóstico em biópsia de pele de pacientes infectados (antes da antibioticoterapia ou dentro das primeiras 48 horas pós-antibiótico) ou em tecidos de autópsia, frescos ou preservados em formalina, embebidos em parafina e, então, submetidos à imunofluorescência ou imunoperoxidase. É uma técnica preconizada pelo CDC, departamentos de saúde pública, hospitais universitários e laboratórios comerciais dos Estados Unidos (CDC, 2000).

O isolamento "sistema shell vial" possibilita a obtenção de resultados positivos antes da soroconversão sendo, portanto, utilizado no diagnóstico de casos agudos. Pode ser realizado a partir de materiais como triturado de coágulo, plasma, biópsia de pele, tecido de necrópsia e amostras de artrópodes. Tais materiais podem ser inoculados em animais experimentais, culturas primárias de embrião de galinha ou em linhagens de células VERO, HeLa, WI-38, LLC-MK2, BSC-1 ou Hep-2 entre outras (COX, 1941; CORY et al. 1974; JONHNSON, PEDERSON, 1978). A multiplicação riquetsiana pode ser acompanhada através do efeito citopático (ECP) e a confirmação do grupo de riquétsias é feita através da RIFI (KELLY et al, 1991; PAYA et al., 1987; SCOLA; RAOULT, 1997).

O isolamento seguido de caracterização molecular é fundamental para a descoberta de novas riquetsioses, especialmente em regiões onde as riquétsias ainda não tenham sido identificadas, pois diferentes riquetsioses podem apresentar as mesmas manifestações clínicas e os testes sorológicos, frente a determinados antígenos, podem resultar positivos em função da existência de reações cruzadas (JONHNSON, PEDERSON, 1978; WALKER. CAIN, 1980).

As técnicas de biologia molecular para a detecção e identificação de riquétsias podem ser baseadas na reação em cadeia da polimerase (PCR), PCR associada à análise de polimorfismos de tamanho de fragmentos de restrição (PCR/RFLP) ou, ainda, PCR/Sequenciamento. A PCR tem sido utilizada com freqüência, para a detecção de riquétsias em amostras humanas (sangue e tecidos) e em artrópodes. A PCR/RFLP, primeira técnica molecular utilizada na identificação de riquétsias, apresenta resultados reprodutíveis, porém, muitos isolados apresentam o mesmo perfil eletroforético, não sendo possível a identificação de todas as espécies do GFM (SCOLA, RAOULT, 1997). As recentes análises de seqüências de bases de fragmentos de genes riquetsiais amplificados pela PCR, permitiram a diferenciação de inúmeras espécies. Os diagnósticos baseados na PCR podem ser realizados em laboratórios ou centros de referência, necessitando de infra-estrutura relativamente simples, fornecendo resultados rápidos (24 horas) e positivos em pacientes previamente submetidos à terapia com antibióticos. Esta técnica é a de escolha para diagnóstico precoce, especialmente antes da soroconversão (SCOLA, RAOULT, 1997).

Referências Bibliográficas

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PHILLIP, R.N.; CASPER, E.A.; BURGDORFER,W.; GERLOFF, R.K.; HUGHES, L.E.; BELL, E.J. Serologic typing of rickettsiae of the spotted fever group by microimmunofluorescence. J Immunol, v. 121, p.1961-1968,1978.

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SCOLA, B.L.; RAOULT, D. Laboratory diagnosis of rickettsioses: current approaches to diagnosis of old and new rickettsial diseases. J Clin Microbiol, v. 35, p.2715-2727,1997.

Agência Paulista de Controle de Doenças