Introdução
A influenza (gripe) é
uma doença viral aguda do trato respiratório, contagiosa,
transmitida através das secreções das vias respiratórias(1).
Caracteriza-se pelo início súbito de febre, associada a calafrios,
dor de garganta, cefaléia, mal-estar, dores musculares e tosse não
produtiva. Nos idosos é mais freqüente a ocorrência de complicações
como pneumonia e maiores taxas de hospitalização e mortalidade(2). O
período de incubação em geral é de 1 a 4 dias e a transmissão se
dá através das vias respiratórias.O agente etiológico da influenza
é o Myxovírus influenzae, da família Orthomyxovíridae, e possui três
tipos antigênicos distintos A, B e C(3).
A doença epidêmica
é causada pelos vírus influenza do tipo A e B, freqüentemente
associada com a elevação das taxas de hospitalização e óbito, por
isso, merece destaque em saúde pública. Em anos epidêmicos, a taxa
de ataque atinge aproximadamente 15%, sendo ao redor de 2% em anos não
epidêmicos. Em comunidades fechadas, este número sobe para 40% a
70%, ficando a taxa de ataque secundário situada ao redor de 30%. A
morbidade e a mortalidade devido à influenza e suas complicações
podem variar ano a ano, dependendo das cepas circulantes e do grau de
imunidade da população geral e da população mais suscetível.
Em agosto de 2002, a
Divisão de Doenças de Transmissão Respiratória, do Centro de Vigilância
Epidemiológica “Professor Alexandre Vranjac”, foi informada pela
Direção Regional de Saúde de Araraquara sobre a ocorrência de um
aumento das consultas médicas nas unidades básicas de saúde e
pronto-socorros do município de Araraquara; os pacientes queixavam-se
de febre, sintomas gastrointestinais e respiratórios, constituindo-se
de um surto de doença febril a esclarecer. Aos médicos, parecia uma
virose cursando com quadro clínico de leve a moderado; não houve
aumento no número de internações e nem óbitos. A doença
disseminou-se rapidamente nas salas de aula, locais de trabalho e
domicílios.
Objetivos
Os objetivos desta
investigação foram:
Ø
confirmar a ocorrência
de um surto;
Ø
descrever o surto em
relação a tempo, lugar e pessoa;
Ø
identificar e
caracterizar o vírus respiratório;
Ø
recomendar as medidas de
prevenção e controle.
Metodologia
A
metodologia utilizada foi:
Ø
busca ativa de casos –
revisão de prontuários e fichas de atendimento;
Ø
estabelecimento de
definição de caso;
Ø
realização da coleta
de secreções da orofaringe e nasofaringe nos casos que estavam em
fase aguda (no máximo três dias depois do início dos sintomas);
Ø
monitorização semanal
dos atendimentos segundo a definição de caso suspeito.
A partir da análise de dados (busca de casos e revisão de prontuário),
foi estabelecida a seguinte definição de caso suspeito: indivíduo
que apresentar febre alta, tosse, cefaléia e dor de garganta,
acompanhado ou não de queixas gastrointestinais (náuseas, vômitos,
diarréia, dor abdominal) independente de faixa etária e situação
vacinal.
Resultados
De julho a setembro, ocorreu um surto de doença respiratória aguda
na cidade de Araraquara (situada a 273 Km da Capital paulista), com
uma população de 174.380 habitantes, densidade demográfica de
172,89 hab/km. Foram notificados durante este período, pela Vigilância
Epidemiológica Municipal, 3.783 casos desta doença. A duração
aproximada do surto foi de dez semanas, com pico entre os dias 20 e 24
de agosto, havendo um aumento gradativo, atingindo pico máximo na 1ª
semana de setembro (6 de setembro ), conforme gráfico 1.
Gráfico
1
Distribuição do número de casos segundo data de
atendimento no PS de Araraquara, Araraquara/ SP, 16/7 a 30/9/2002

A porcentagem das faixas etárias mais atingidas
dos casos notificados durante o surto foram pessoas entre 5 e 12 anos
(35%), seguida de 1 a 4 anos (25%), 20 a 29 anos (11%), 13 a 19 anos
(10%), 30 a 39 anos (6%), menores de 1 ano (5%), 40 a 49 anos (4%), 50
a 59 anos (3%), 60 a 69 anos (1%), 70 e mais (1%) e menores de 1 ano
(1%) (gráfico 2).
Gráfico
2
Distribuição
percentual dos casos segundo faixa etária, Araraquara,
julho a
setembro de 2002
Foram
coletadas 20 secreções da orofaringe dos pacientes que apresentavam
sintomas que caracterizavam a doença respiratória em fase aguda, no
máximo três dias após o início dos sintomas; e 14 amostras
pareadas de soro (primeira amostra na fase aguda da doença e a
segunda, de 14 a 21 dias após a coleta da primeira amostra). As
amostras foram encaminhadas para Instituto Adolfo Lutz (IAL) para
realização do diagnóstico laboratorial. Para tentativa de
isolamento viral destas amostras foram utilizadas culturas de células
MDCK (rim de cão), Vero (rim de macaco verde africano) e Hep-2
(carcinoma de laringe humana). Os vírus isolados foram identificados
pelo teste de imunofluorescência indireta, utilizando-se anticorpos
monoclonais do painel respiratório da Chemicon. O vírus da influenza
do tipo B isolado foi caracterizado antigenicamente pelo teste de
inibição da hemaglutinação, utilizando-se soro imune específico
fornecido pela Organização Mundial da Saúde como estirpe B/Hong
Kong/ 330/2001.
O diagnóstico sorológico foi realizado pelo teste de inibição de
hemaglutinação, utilizando-se estirpes do vírus influenza A(H1N1),
A(H3N2) e tipo B(4).
Discussão
Houve
um surto de Influenza no município de Araraquara, que em avaliação
retrospectiva (julho a setembro) observamos, já na segunda quinzena
de julho, uma média de 35 casos atendidos por dia, havendo um aumento
gradativo que atingiu pico máximo na 1ª semana de setembro. As
faixas etárias mais acometidas foram as das crianças, adolescentes e
adultos jovens, com mínimo acometimento na faixa etária acima dos 60
anos.
A
vigilância local constatou surtos nas cidades vizinhas (Américo
Brasiliense e Matão), próximas ao município de Araraquara, no período
de 2 à 20/9, onde também foi isolado o influenza B. As faixas etárias
mais acometidas foram as crianças, adolescentes e adultos jovens.
A
investigação laboratorial identificou a estirpe B/Hong
Kong/330/2001, variante do B/Victoria/02/88, que estava circunscrita
ao sul da Ásia Oriental desde 1991(5). A detecção dessa
variante para além do continente asiático, em maio de 2001, no Havaí
acarretou sua disseminação para os diferentes continentes (figura
1).
Detectou-se
também no surto de Araraquara uma variante da estirpe B/Hong Kong/330/2001 na
Oceania, denominada B/Brisbane/32/2002, cuja circulação foi também registrada
no Distrito Federal (figura 2).
Segundo
a Coordenação da Vigilância Epidemiológica Municipal, um surto de influenza não
havia ocorrido nos últimos 11 anos e causou transtornos sociais, tais como
falta às aulas e ao trabalho e aumento no número das consultas médicas,
esgotando a capacidade dos equipamentos de saúde. A constatação da proteção dos
idosos decorreu dos anticorpos contra a estirpe B/Victoria/02/88, cuja
circulação foi registrada globalmente por volta de 1991(6).
Quanto às medidas adotadas, foi recomendado a monitorização de atendimentos por
síndrome gripal na Regional de Saúde de Araraquara, para adoção de medidas de
controle e prevenção, caso necessário; notificação ao CVE na suspeita de novo
surto; divulgação dos resultados da investigação para os profissionais de saúde
e para a comunidade.
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Bull., 35: 3-8, 1979.
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W.
H. O. Reconsideration of influenza A virus nomenclature: A W.H.O
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Palmer,
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Hampson,
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Paiva,
T. M.; Ishida, M. A.; Gonçalves, M. A.; Benega, M. A.; Souza, M. C. O &Cruz, A. S. – Occurrence of
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2002. Rev. Inst. Med.
Trop. S. Paulo 45 (1): 51 – 52, January – February, 2003.
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Relatório elaborado pelo Serviço Especial de Saúde do Município de
Araraquara (Sesa). Setembro /2002.
-
Doenças
Infecciosas e Parasitárias, Ministério da Saúde, Secretaria de
Vigilância Epidemiológica, Departamento de Vigilância Epidemiológica,
3ª Edição Vol. II.
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