Introdução
A Salmonella Enteritidis, uma bactéria considerada emergente, surge nos Estados Unidos e países da Europa, nos anos 80, como o sorotipo mais comum de
Salmonella causador de surtos ou casos esporádicos de diarréia associados ao consumo de ovos crus ou mal cozidos e de
aves(1). Segundo alguns estudos, ocupou o nicho ecológico deixado pela erradicação da
Salmonella Gallinarum das aves, propiciando dessa forma um aumento das infecções em
humanos(2). É uma toxinfecção alimentar, enquadrando-se, genericamente, no grupo de doenças designadas por Salmoneloses.
Causa geralmente febre, cólicas abdominais e diarréia que pode apresentar grumos de
sangue.
A doença dura entre 4 e 7 dias, e a maioria das pessoas se recupera apenas com a reposição de sais e líquidos. Contudo, a diarréia pode ser severa, e o paciente pode necessitar de hospitalização. Geralmente é mais grave em idosos, crianças, gestantes e imunodeprimidos, podendo a infecção se disseminar através da corrente sangüínea para outros órgãos e causar a morte, exigindo, nestes casos, pronto tratamento com antibiótico.
As principais complicações são artrite, cistite, meningite, endocardite, pericardite e
pneumonia(3).
Investigações epidemiológicas de surtos por
S. Enteritidis, com casos que demandaram internação, mostram a importante gravidade dos
casos(4). Além disso, cabe destacar a resistência da S. Enteritidis a
antimicrobianos(5), inclusive das cepas circulantes no estado de São Paulo, conforme estudo realizado no IAL, que detectou que 65% das cepas eram resistentes a antibióticos, a maioria a uma ou duas drogas, algumas
delas multiresistentes a até sete
antimicrobianos(6).
Surtos transmitidos por alimentos (incluída a água) são de notificação compulsória e desde 1992 o Centro de Vigilância Epidemiológica “Alexandre Vranjac”
(CVE) é o responsável pela coordenação estadual de suas investigações e coleta de dados, conduzidas por equipes municipais e/ou regionais. Nos anos de 1999 e 2003, o sistema de vigilância de surtos de doenças transmitidas por alimentos
(VE/DTA) foi reavaliado e enfatizado o treinamento das equipes regionais e municipais em metodologia de investigação (estudos de coorte e de caso-controle), modificado os formulários de coleta para melhoria da qualidade do registro de
dados(7,8), reorganizado os fluxos de envio de amostras para os laboratórios para aumentar a detecção do agente etiológico, buscando ainda uma maior integração com a vigilância sanitária e outros órgãos responsáveis pelo controle de qualidade da água e do alimento.
A identificação precoce de surtos, de sua epidemiologia e fatores
que contribuem para sua ocorrência, é uma prioridade na investigação
e fornece subsídios importantes às ações de controle e prevenção.
A vigilância epidemiológica de surtos de diarréia, identificando
patógenos, vias de transmissão e fatores de risco, é também
essencial para as ações de vigilância sanitária, fornecendo subsídios
para intervenções adequadas em práticas de preparação de
alimentos, programas de educação de manipuladores, conscientização
dos consumidores, revisão de regulamentos sanitários. Também
contribui para a melhoria do atendimento médico ao paciente, para
mudança de condutas no tratamento da doença, para a redução de
riscos de morbidade e mortalidade, prevenção e controle de surtos,
dentre outras medidas.
Nos Estados Unidos e Europa a Salmonella é considerada um
grave problema de saúde pública, que demandou não apenas a implantação
de uma rede Network de notificação e informação entre os países
sobre o patógeno, com recentes esforços para inclusão dos países
da América Latina(9,10,11), como a modificação de seus códigos
sanitários. Tais esforços visam não apenas as práticas de higiene
para a criação de aves e produção de ovos, mas a conscientização
do consumidor sobre os perigos da bactéria(1,12,13,14).
O mecanismo de transmissão através do consumo de ovos intactos, que
poderiam, portanto, ter sido infectados antes da postura, só
recentemente tornou-se conhecido. Assim, além da contaminação
externa dos ovos pela matéria fecal eliminada pelas galinhas, a S.
Enteritidis contamina os ovários da galinha (transmissão
transovariana(3)). Dessa forma, apesar de medidas rígidas
de higiene estabelecidas pelos regulamentos em vários países,
inclusive no Brasil e Estado de São Paulo, pelo Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), secretarias de
Agricultura e Vigilâncias Sanitárias, para a criação das aves e
produção dos ovos, os desafios para o controle dessa bactéria têm
sido grandes.
De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos,
estima-se que há um ovo contaminado com S. Enteritidis para
cada 20 mil ovos, o que significa que naquele país cerca de 2,7 milhões
de ovos, anualmente, podem conter essa bactéria(12).
Embora sejam inúmeros os trabalhos publicados que indicam a importância
da S. Enteritidis como um problema de saúde pública no
Brasil, e grande a ênfase dada, a partir de 1999, ao sistema nacional
de vigilância epidemiológica de surtos de doenças transmitidas por
alimentos, ainda são escassos os dados sobre a situação das
Salmoneloses em nível nacional.
No Estado de São Paulo, além da implementação da vigilância
epidemiológica de surtos, a vigilância da Salmonella inclui a
notificação obrigatória e encaminhamento da cepa identificada para
o Instituto Adolfo Lutz (IAL) para confirmação e sorotipagem.
Um estudo realizado pelo IAL, no período de 1991 a 1995, analisando
5.490 cepas de Salmonellas (2.254 cepas de infecções humanas
e 3.236 cepas de materiais de origem não humana), já detectava um
crescente aumento do sorotipo, que passava de 1,2% em 1991 para 64,9%
em 1995(15). Uma avaliação realizada pela DDTHA/CVE sobre
as características de surtos em restaurantes, com dados notificados
no período de 1999 a 2002, mostrou a importância das bactérias como
causadoras dos mesmos, e dentre elas, a S. Enteritidis,
veiculada por alimentos preparados principalmente à base de ovos, em
especial a maionese feita com ovos crus(16).
O presente estudo teve como objetivo avaliar a tendência de surtos de
diarréia por Salmonella e S. Enteritidis no Estado de São
Paulo, identificar os fatores/práticas de risco e alimentos
associados, estimar a incidência de casos por S. Enteritidis e
a importância da doença como problema de saúde, e apresentar as
recomendações propostas aos órgãos reguladores responsáveis pelo
controle sanitário dos alimentos implicados.
Métodos
Para avaliar a tendência da ocorrência de surtos de diarréia por Salmonella
e S. Enteritidis, estimar a incidência de casos de diarréia
por S. Enteritidis e identificar fatores/práticas de risco e
alimentos associados, foram examinados dados de surtos de diarréia
notificados ao sistema de VE-DTA DDTHA/CVE, no período de 1999 a
2003, de outras fontes secundárias de registros de dados
(AIH/Datasus) e de outros estudos realizados em nível estadual,
nacional ou internacional.
Resultados e Discussão
Entre 1999 e 2003 foram notificados ao CVE 1.024 surtos de diarréia,
envolvendo 27.499 casos. Dos 459 surtos com etiologia identificada,
325 (70,8%) foram causados por bactérias. Dentre os surtos por bactéria,
140 (43,1%) foram devido à Salmonella, envolvendo 3.001
pacientes. Dos 74 surtos por Salmonella com identificação do
sorotipo, 66 (89,2%) foram devido à S. Enteritidis (quadro 1 e
figura 1).
Quadro 1 - Surtos de diarréia de doenças transmitidas por alimentos e respectivos casos notificados ao
CVE, estado de São Paulo, 1999 a 2003*

Fonte: DDTHA/CVE-SES/SP
(*) 2003 = Dados provisórios obtidos de relatórios,
enviados até primeira quinzena de dezembro de 2003
Figura 1 - Distribuição percentual dos surtos por Salmonella notificados ao
CVE, segundo o sorotipo - ESP, 1999 a 2003*

Fonte: DDTHA/CVE-SES/SP
(*) 2003 = Dados provisórios obtidos de relatórios, enviados até primeira quinzena de dezembro de 2003
O número alto encontrado de Salmonella sp., isto é, não
sorotipada, indica que, apesar das orientações feitas em
treinamentos, as cepas não estão sendo encaminhadas para o IAL para
a devida identificação.
A incidência geral média de casos de Salmonella em surtos de
diarréia notificados ao CVE, no período de 1999 a 2003, foi de
1,6/100.000 habitantes. Entretanto, uma análise sobre morbidade
hospitalar realizada pela DDTHA/CVE para o ano 2002, referente a
pacientes internados em hospitais conveniados ao SUS (fonte:
AIH/Datasus) mostrou que 1.045 pacientes foram hospitalizados com
diarréia devido à S. Enteritidis, o que representou uma taxa
de 2,7/100.000 habitantes somente por esse sorotipo. Por sua vez, o
coeficiente de casos envolvidos em surtos pelo mesmo sorotipo, em
2002, notificados ao CVE, foi de apenas 0,6/100.000 habitantes. Os
casos internados, rastreados, não foram notificados ao sistema de
vigilância, indicando que, além de uma importante subnotificação,
as taxas por S. Enteritidis na população seriam bem mais
altas.
A distribuição do número de surtos de diarréia por bactérias, por
Salmonella e Salmonella Enteritidis, pode ser
observada pela figura 2.
Figura 2 - Distribuição do número de surtos por bactérias, Salmonellas e
Salmonella Enteritidis, notificados ao CVE - ESP, 1999 a 2003*

Fonte: DDTHA/CVE-SES/SP
(*) 2003 = Dados provisórios obtidos de relatórios, enviados até primeira quinzena de dezembro de 2003
Quanto aos alimentos implicados, verificou-se no período que ovos
crus ou mal-cozidos e outros pratos à base de ovos estavam associados
a 70% dos surtos por S. Enteritidis e a 67% por Salmonella
sp. (sem a identificação de sorotipo). Essa relação com ovos
sugere que o percentual por S. Enteritidis pode ser bem mais
alto, se essas Salmonella sp. fossem subtipadas. Aves, carnes
bovinas e suínas foram implicadas em cerca de 5% dos surtos por S.
Enteritidis e em quase 15%, por Salmonella sp. Outros
sorotipos identificados não estavam associados a ovos ou aves. O
principal fator de risco identificado foi o hábito alimentar da
população em preparar maionese com ovos crus, coberturas de bolo e
musses com claras cruas ou ingestão de ovos mal-cozidos, hábitos ou
práticas que são responsáveis por grande parte dos surtos, não
apenas domésticos, mas em restaurantes e outros estabelecimentos que
comercializam alimentos preparados com ovos(16).
Observou-se, também, que os casos de Salmonella apresentam
maior freqüência nos meses de verão, que concentraram, nos anos
analisados, cerca de 40% do total de surtos por essa bactéria.
Estimativas sobre a incidência de toxinfecções por S.
Enteritidis com base nos dados do sistema AIH/Datasus e de surtos
notificados ao VE DTA, do ano 2002, e em parâmetros obtidos em
estudos anteriores, conduzidos pelo CVE(17,18,19,20,21), permitem
inferir que, anualmente, ocorrem mais de 50 mil casos de diarréia e
cerca de 6.000 internações devido a esse sorotipo, o que
representaria um coeficiente de casos de 145/100.000 habitantes
(quadro 2 e figura 3).
Quadro 2 - Número de casos e coeficientes* de S. Enteritidis (SE) registradas por fontes oficiais e estimadas** para o
Estado de São Paulo, ano 2002

Fonte: DDTHA/CVE
(*) Coeficientes por 100 mil habitantes (população utilizada ano 2002=IBGE);
(**) Segundo os parâmetros dos estudos do CVE (17, 18,19, 20, 21)
(***) Fonte: AIH/Datasus
(****) Fonte: VE DTA - DDTHA/CVE
Figura 3 - Pirâmide de Incidência das Diarréias: Casos internados e casos envolvidos em Surtos por
S. Enteritidis registrados por fontes oficiais e estimadas no estudo -
ano 2002

Segundo a Associação Paulista de Avicultura (APV)(22), o
brasileiro consome 94 ovos per capita ano. Aplicando este parâmetro
de consumo de ovos para a população do Estado de São Paulo e
utilizando o parâmetro internacional de contaminação do ovo pela S.
Enteritidis(12), estima-se que cerca de 380 mil ovos
podem conter essa bactéria, e que, se preparados inadequadamente,
podem causar casos de diarréia esporádicos ou surtos. Fatos que
agravam essa situação são o transporte e armazenamento no comércio
sem a devida refrigeração dos ovos e o armazenamento caseiro também
geralmente fora da geladeira que permite a multiplicação da bactéria,
e a venda e/ou uso de ovos com cascas quebradas.
Apesar de esforços das Vigilâncias Epidemiológica e Sanitária para
a conscientização do problema junto aos consumidores e manipuladores
de alimentos, de matérias educativas divulgadas na imprensa, de
material técnico e educativo disponível na Internet
(http://www.cve.saude.sp.gov.br, Doenças Transmitidas por Água e
Alimentos), a própria mídia, através de programas ou matérias
sobre culinária, ainda mantém o hábito do preparo de maionese com
gema crua(23).
Conclusões
A análise da distribuição dos surtos no período e estimativas da
incidência de casos de diarréia mostram que a S. Enteritidis
é um importante problema de saúde pública no Estado de São Paulo e
está associada, principalmente, ao hábito do consumo de ovos crus
ou mal cozidos. Detectou-se ainda uma significativa proporção de
surtos por Salmonella associada ao consumo de aves, carnes
bovina e suína, provavelmente, decorrente do cozimento inadequado do
produto ou de outros fatores críticos no preparo.
Á despeito das conhecidas medidas de controle sobre as granjas, no âmbito
dos órgãos da Agricultura, e da legislação sanitária vigente, os
estudos conduzidos pelo CVE indicam que há necessidade de se
introduzir outras medidas que protejam o consumidor de ovos e aves
para a redução da morbidade da doença por Salmonella e S.
Enteritidis.
Com base nestes achados, o CVE encaminhou recomendações como subsídios
para a elaboração de uma nova regulamentação sanitária à Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ao Mapa, sugerindo, além
da ênfase nos programas de controle microbiológico e higiene das
granjas, que nos rótulos das embalagens contenham advertências sobre
os riscos à saúde ao consumir o produto cru ou mal cozido à saúde,
dentre outras orientações de uso, preparo e conservação(24).
O estudo em questão mostrou também uma maior sensibilidade do
sistema VE DTA no Estado de São Paulo em captar surtos veiculados por
alimentos, quando comparamos o período analisado com os anos
anteriores. Contudo, a subnotificação e a notificação tardia de
surtos representam ainda um importante desafio. Melhorar também a
capacidade de identificação laboratorial de patógenos e implementar
a vigilância ativa da Salmonella com base em laboratório são
prioridades para monitorar as tendências da S. Enteritidis e
de outras salmoneloses, assim como imprescindíveis para avaliar as
contribuições de medidas sanitárias que deverão atingir não
apenas o produtor, mas o consumidor, visando a redução destes surtos
e casos na população.
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elaboração de regulamentação específica para redução de
riscos à saúde no consumo dos alimentos implicados. (Ofício
Hídrica/CV No. 100/2003, de 23 de junho de 2003, dirigido à
ANVISA e ao MA e demais órgãos em âmbito estadual e federal
relacionados). São Paulo: Secretaria de Estado da Saúde; 2003.
Em relato verbal o médico patologista, que realizou a necropsia,
fez referência ao pulmão como o órgão mais acometido nos três
casos, com pneumonite, congestão e necrohemorragia. Os outros
órgãos apresentavam apenas alterações inespecíficas.
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