Introdução
A propriedade situa-se numa colina que
desemboca num lago, utilizado para lazer e pesca. Possui duas casas
para os meeiros, dois barracões para embalagem da produção e
armazenamento dos agrotóxicos e sete mil pés de figo. São dez
moradores, nove adultos e uma criança. Possuem cachorros e galinhas.
Relatam presença de capivaras e roedores.
Retrospectiva
Em 28/5/04 a Vigilância em Saúde de
Louveira foi notificada pela Santa Casa do Município, sobre o óbito de um
paciente com suspeita de intoxicação por agrotóxicos. Imediatamente,
a equipe técnica iniciou a investigação do caso, relatado a seguir:
Em 26/5/04, A.P.S de 17 anos, residente
na chácara, agricultor, procurou o P.S. da Santa Casa, acompanhado
por familiares, queixando-se de tonturas, indisposição, diarréia e fraqueza, há cinco dias. Referiu manipular agrotóxicos.
Encontrava-se desidratado e foi internado para hidratação e para ser
submetido a exames. O primeiro hemograma apresentou significativa
plaquetopenia.
Em 27/5/04 o paciente iniciou quadro
neurológico com agitação e convulsões. Foram solicitados novos
exames, incluindo LCR (normal), hemograma (plaquetopenia) e exames que
confirmam insuficiência renal. Não apresentou icterícia nem
hemorragias. Às 6 horas foi constatado óbito, sendo atestado intoxicação
exógena aguda.
A partir desta investigação, a Vigilância,
com a participação da Secretaria Municipal de Agricultura,
desencadeou, no mês de junho, ações dirigidas para prevenção de
novos acidentes e orientações aos microagricultores da região sobre
o uso adequado dos agrotóxicos e Equipamentos de Proteção
Individual (EPI) ; fez alerta aos profissionais de saúde e publicou
matéria educativa no jornal da Cidade. Realizou o 2º Evento
Municipal sobre Saúde e Segurança do Trabalhador Rural, contando com
a participação da equipe do Centro de Controle de Intoxicações da
UNICAMP, que iniciou o monitoramento clínico/laboratorial desses
trabalhadores.
Simultaneamente, foram tomadas as
medidas legais cabíveis, como instauração de inquérito policial,
Comunicado de Acidente de Trabalho e denúncia ao Ministério do
Trabalho. Até então, toda investigação estava direcionada somente
para intoxicação por agrotóxico.
Na manhã do dia 29/6, a Santa Casa de
Louveira transfere para a UNICAMP o paciente S.C., 38 anos, tio de A.P.S.,
residente e trabalhador na mesma propriedade, com quadro de confusão
mental, oligúria, prostração, dispnéia e demência. Foi a óbito
às 18 horas.
No dia seguinte, o Núcleo de Vigilância
Epidemiológica da UNICAMP notificou a Vigilância Epidemiológica (VE)
da Direção Regional de Saúde de Campinas (DIR XII)
as suspeitas de leptospirose, hantavirose, febre maculosa e intoxicação por
agrotóxico. Foram
encaminhados materiais para análise no IAL, realizada necropsia e
atestado como causa da morte diátese hemorrágica e choque séptico.
Numa investigação mais minuciosa, foi
constatado que o paciente supracitado havia procurado o PS da Santa
Casa de Vinhedo, no dia 25/6, referindo indisposição, febre, diarréia
e vômitos. Foi liberado com diagnóstico de "virose". Família
referiu que o mesmo havia sido picado por carrapato.
Nesse mesmo dia (30/6), a Santa Casa de
Louveira transferiu para UNICAMP R.C.S, 42 anos, cunhado de S.C.,
com febre, cefaléia, vômitos, diarréia e comprometimento do estado
geral e com as mesmas suspeitas diagnósticas. Após tratamento, teve
alta no dia 8/7.
Diante de novas ocorrências e definição
territorial (a propriedade está localizada no município de
Vinhedo), implementou-se a integração das Vigilâncias municipais,
assessoradas pela VE e VISA da DIR XII e Sucen, desencadeando visita
ao local, para inspeção/investigação, no dia 2/7, inclusive com a
participação de técnico do Centro de Vigilância Sanitária.
Tendo
em vista o observado na inspeção/investigação, foram tomadas as
seguintes providências:
-
lavrado Termo de Interdição
e Apreensão (cautelar) dos produtos agrotóxicos;
-
solicitada adequação de área
física para acondicionamento dos figos separada do armazenamento
dos agrotóxicos, bem como descarte das embalagens;
-
orientações para os
moradores quanto à necessidade de se evitar acúmulo de lixo em
torno das casas, para diminuir ou sanar a atração de roedores até
o local, bem como orientações de como proceder à limpeza e
desinfecção da casa, frente às suspeitas de hantavirose e
leptospirose;
-
intensificação do
monitoramento dos moradores, voltado ao novo perfil epidemiológico;
-
coleta
de carrapatos por técnicos da Sucen e dos municípios;
-
coleta
de água de vários pontos da propriedade (lago, poço e casa) e
peixes para investigação de agrotóxicos;
-
intensificação
das informações aos profissionais de saúde e população.
No
dia 15/7, J.C.R., 26 anos, residente e trabalhador na mesma
propriedade foi internado na Santa Casa de Louveira, referindo cefaléia,
febre, mialgia e vômito há um dia. Com piora progressiva do estado
geral, foi transferido para a UTI da UNICAMP, apresentando exantema,
insuficiência respiratória aguda e choque séptico. Mantem-se
internado até a presente data por complicações de uma internação
prolongada.
Em
19/7, A.C.C.F, 38 anos, médico veterinário da VE da DIR que
participou da visita ao local, foi atendido na Unicamp, com história
de febre, mialgia, dor abdominal, exantema, prostração, petéquias e
artralgia, desde 14/7.
Submetido
a exames clínico-laboratoriais, foi notificado e tratado
ambulatorialmente para febre maculosa, pois referia picada de
carrapato.
Em
20/7, M.A.C, 43 anos (mãe de A.P.S, irmã de S.C. e cunhada de
R.C.S.), procurou a Santa Casa de Louveira com dor abdominal,
indisposição, inapetência e emagrecimento. Foi encaminhada à
Unicamp para investigação diagnóstica, sendo avaliada no PS, ficou
em observação por algumas horas. Submetida a exames clínico-laboratoriais,
e devido ao vínculo epidemiológico, foi notificada como suspeita de
febre maculosa, hantavirose e leptospirose. Vinha sendo monitorada
pelo CCI da Unicamp, desde o primeiro óbito, para intoxicação por
agrotóxico.
ANÁLISE TABULAR DOS
CASOS - FEBRE MACULOSA
| Paciente
|
Sexo/Idade
|
Início
Sint.
|
Quadro
Clínico
|
Result.
Lab.
|
Evolução
|
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A
. P.S.
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M
/17
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25/Mai
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Tontura,
tremores, adenamia,
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FMB
SNR não reagente
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óbito
em 27/5/04
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palidez,
agitação,diarréia e cólicas, adinamia e vômitos
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HANTA
não reagente
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S.C.
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M/38
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24/Jun
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Febre,
cefaléia, mialgia, vômito, diarréia, confusão mental,
|
Exame
imuno-histoquímico
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Óbito
29/6/04
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dispnéia,
prostração
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FMB
positivo
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HANTA
negativo
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Lept
negativo
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Dengue
negativo
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R.C.S.
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M/42
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28/Jun
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Febre,
cefaléia, mialgia,exantema, vômito, diarréia,
|
FMB
positivo
|
Internação
com alta em 8/7
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prostração
e hiperemia conjuntival
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Lepto
negativo
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HANTA
negativo
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J.C.R.
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M/26
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14/Jul
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Febre,
cefaléia, mialgia,exantema, vômito,
|
HANTA
negativo, demais
|
Internação
UTI até presente
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prostração,
insuficiência respiratória aguda, choque séptico
|
Aguardando
resultados
|
data
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A.C.C.F.
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M/38
|
14/Jul
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Febre,
cefaléia, mialgia,exantema, prostração, petéquias,
|
FMB
não reagente
|
Tratamento
ambulatorial
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|
artralgia
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M.A
C.
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F/43
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16/Jul
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Mialgia,
dor abdominal, indisposição, inapetência
|
Aguardando
resultados
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Em
monitoramento
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disúria.
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Investigação
acarológica
Laudo da pesquisa de carrapatos
coletados nos dias 1 e 2/7/04, tendo sido capturados uma fêmea de Ambhyomma
cooperi na armadilha atrativa de CO2 e 37 larvas de Ambhyomma
(micuin) no corpo dos capturadores. Sobre esses carrapatos, pode-se
dizer que o Ambhyomma cooperi tem como hospedeiros primários as
capivaras, sendo que na região de Campinas bactérias da espécie Rickettsia
belli já foram isoladas destas espécies de carrapatos. Estudos
complementares são necessários para avaliar a importância epidemiológica
que estes carrapatos representam na transmissão da febre maculosa brasileira na região.
Também foi identificado em um dos cães
carrapato da espécie Rhipicephalus sanguineus.
Resultados das amostras coletadas
Os laudos de análises para pesticidas
nos peixes e na água, foram negativos.
Conclusão
O surto está caracterizado como sendo
febre maculosa brasileira e aguardamos demais resultados laboratoriais
pendentes. Os moradores continuam sendo monitorados.
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