Bepa Dezembro 2010; 7(84) ISSN 1806-4272
ARTIGO ORIGINAL

 

 

 

Alessandra GutierresI*; Luis Felipe Cantini TolezanoI; Elizabeth Visone Nunes WestphalenI; Roberto Mitsuyoshi HiramotoI; Jeffrey Jon ShawII; José Eduardo TolezanoI

 

INúcleo de Parasitoses Sistêmicas. Instituto Adolfo Lutz. Coordenadoria de Controle de Doenças. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil.

IIInstituto de Ciências Biomédicas. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

 

 

 

RESUMO

 

O diagnóstico de certeza da leishmaniose cutânea depende do encontro do agente etiológico. A técnica tradicional de cultura (TTC) realizada em tubos demanda prolongada incubação, grande volume de meio de cultivo e de amostra. A técnica de microcultura (TMC) realizada em placas de 96 poços utiliza pequeno volume de meio de cultivo e de amostra, possibilitando realizar diversos inóculos por amostra examinada. O crescimento de L. (V.) braziliensis (MHOM/84/LTB300) foi realizado nas duas técnicas objetivando determinar o número mínimo de parasitas necessários para a proliferação. A partir de diluições seriadas de suspensão com L. (V.) braziliensis, foram obtidos inóculos em concentrações de 1x100 até 1x103 para o cultivo. Na concentração de 1x103 foi observada proliferação parasitária a partir de 48 horas do cultivo. Um único parasita (1x100) foi suficiente para permitir a proliferação nas duas técnicas. No inóculo de concentração 1x101 a TTC atingiu 1x108 parasitas, porém a proliferação foi observada primeiramente na TMC. Na concentração de 1x103 a TMC atingiu 2x108 parasitas. Concluiu-se que a TMC é uma estratégia que permitiu o cultivo a partir de uma única forma flagelada. Novos estudos estão sendo realizados para avaliar a viabilidade da TMC na utilização como método diagnóstico.

 

PALAVRAS-CHAVE: Microcultivo. L. (V.) braziliensis. Proliferação in vitro. Leishmania. Diagnóstico parasitológico.

 

ABSTRACT

 

The definitive diagnosis of cutaneous leishmaniasis depends on meeting of etiological agents. The traditional culture technique (TCT) is developed in tubes demand prolonged incubation, large volume of the cultivation medium and sample. The microculture technique (MCT) developed in 96-well culture plates use low volume of the cultivation medium and the sample, possible to introduce different inocula per sample examined. The growing of L. (V.) braziliensis (MHOM/84/LTB300) was achieved in the two techniques to determine the minimum number of the parasites necessary for proliferation. From serial dilutions with L. (V.) braziliensis, inoculations were obtained at concentrations of 1x100 to 1x103 for cultivation. In concentration of 1x103 was observed parasite proliferation since 48 hour of cultivation. A single parasite (1x100) was sufficient to allow the proliferation in both techniques. In the inoculum concentration 1x101 a TTC reached 1x108 parasites, but the proliferation was first observed in the MCT. In concentration of 1x103 the MCT reached 2x108 parasites. It was concluded that MCT is a strategy what allowed the cultivation since a single flagellate form and further studies are being conducted to assess feasibility of MCT use as a diagnostic method.

 

KEY WORDS: Microcultivation. L. (V.) braziliensis. Proliferation in vitro. Leishmania. Parasitological diagnosis.

 

INTRODUÇÃO

Sob a denominação de leishmanioses inclui-se um grupo de doenças clinicamente heterogêneas causadas por diferentes espécies de protozoários do gênero Leishmania.1 Caracterizam-se por diferentes apresentações de formas clínicas: cutânea, mucocutânea e visceral, dependendo da espécie envolvida e da resposta imune do hospedeiro.2

A leishmaniose cutânea é o maior problema em vários países tropicais e subtropicais, atingindo de 1 milhão a 1,5 milhão de pessoas anualmente.3,4 Leishmania (Viannia) braziliensis é o principal agente etiológico da leishmaniose cutânea no Brasil.

O protozoário apresenta duas formas morfológicas principais: uma flagelada extracelular ou promastigota, encontrada no tubo digestivo da fêmea do flebotomíneo, que é o inseto vetor, e outra não flagelada intracelular ou amastigota, observada nos macrófagos dos hospedeiros vertebrados.5,6 Tanto as formas amastigotas quanto as promastigotas podem ser cultivadas in vitro, mas as formas promastigotas são as mais comumente utilizadas.7

O diagnóstico de certeza da leishmaniose cutânea depende do encontro do parasita.8,9 A demonstração do parasita ocorre pela observação de aspirado de tecidos, esfregaços, biopsias de espécimes ou cultivo desses espécimes.10,11,12 A sensibilidade obtida na microscopia de esfregaço ou biópsia de tecidos e cultivo de espécime é de 33-60% e 50%, respectivamente.13,3

Para o crescimento primário dessas formas promastigotas de Leishmania em cultura são conhecidas diferentes formulações. Utiliza-se normalmente um meio bifásico contendo uma base de ágar e sangue desfibrinado como componentes essenciais do meio sólido, que pode ser o NNN (Nicolle´s Novy e McNeal´s) ou BAB (blood agar base) e como fase líquida pode-se utilizar MEM (minimum essential medium), EBLB, HO-MEM, Schneider, meio 199, RPMI 1640 ou BHI (brain heart infusion), sendo possível ainda a adição de soro fetal bovino inativado ou urina humana estéril como complemento nutricional.14

A técnica tradicional de cultura (TTC) caracteriza-se por demandar prolongada incubação, grande quantidade de meio de cultivo e maior volume de amostra para que possa ser realizada repetidamente.15 A técnica de microcultura (TMC) realizada em placas utiliza uma pequena quantidade de meio de cultivo e de amostra, possibilitando a realização de vários inóculos de cada amostra examinada. Além disso, em estudo anterior, esse sistema demonstrou-se viável na proliferação de Leishmania spp e Trypanosoma cruzi.16

Neste estudo, a TMC foi avaliada para crescimento primário de Leishmania (Viannia) braziliensis em microplacas de 96 poços e estimado o número mínimo de parasitas necessários para a sua proliferação nessa microtécnica.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

 

Leishmania Foram utilizadas amostras de Leishmania (Viannia) braziliensis (MHOM/84/LTB300), mantidas em culturas por subpassagens, no sétimo dia de crescimento.

Inóculo – A quantificação das formas promastigotas de L. (V.) braziliensis foi realizada em câmera de Neubauer e ajustada com solução fisiológica 0,9%, obtendo-se uma suspensão na concentração final de 1x106 parasitas/ml. A partir de diluições seriadas dessa suspensão foram preparados inóculos com 1x100, 1x101, 1x102, 1x103 parasitas (Quadro 1). Essas amostras com diferentes quantidades de parasitas foram inoculadas na TMC e na TTC.

Quadro 1. Descrição do preparo das amostras em diluição seriada para o ajuste das diferentes concentrações de Leishmania (V.) braziliensis.

Flaconete

Conteúdo

Suspensão

obtida

Quantidade
de parasitas
para o inóculo

Suspensão mãe

13 μl da cultura = 1x106

987 μl de solução salina 0,9%

1 ml contendo 1x106

-

1

100 μl da suspensão mãe = 1x105

1900 μl de solução salina 0,9%

2 ml contendo 1x105

20 μl = 1x103

2

100 μl do flaconete 1 = 1x104

1900 μl de solução salina 0,9%

2 ml contendo 1x104

20 μl = 1x102

3

100 μl do flaconete 2 = 1x103

1900 μl de solução salina 0,9%

2 ml contendo 1x103

20 μl = 1x101

4

100 μl do flaconete 3 = 1x102

1900 μl de solução salina 0,9%

2 ml contendo 1x102

20 μl = 1x100

 

TTC – Em tubos de vidro de 16x160mm foram distribuídos 7ml de BAB com 15% de sangue de coelho desfibrinado como fase sólida e como fase líquida, 2ml de RPMI suplementado com 200μl de soro fetal bovino inativado (SFB) + 1% de gentamicina. Os experimentos na TTC foram realizados em triplicata, sendo inoculados 300μl de cada uma das amostras nas concentrações de 1x100, 1x101, 1x102, 1x103 parasitas. Os tubos foram mantidos a 25ºC durante o experimento.

TMC – Em placas estéreis com tampa, fundo em U com 96 poços, foi distribuído 100μL de BAB com 15% de sangue de coelho desfibrinado e 50μL de RPMI suplementado com 5μL de SFB inativado + 1% gentamicina. Para cultivo foram utilizados 24 poços de cada microplaca (Figura 1). Os experimentos da TMC foram realizados em quadruplicatas de 3 poços com inóculo de 50μl por poço de cada amostra nas concentrações de 1x100, 1x101, 1x102, 1x103 parasitas. Os poços não utilizados foram preenchidos com 200μl de solução fisiológica a 0,9% para evitar a evaporação durante o período de incubação. As microplacas foram mantidas a 25ºC durante o experimento.

Figura 1. Representação esquemática da microplaca de 96 poços. Nos poços vermelhos foram distribuídos 100μl de BAB com 15% de sangue de coelho desfibrilado e 50μl de RPMI suplementado com 5μl de SFB + 1% gentamicina + 50μl da amostra. Cada amostra na respectiva concentração (1x100; 1x101; 1x102; 1x103) foi inoculada em 12 poços correspondendo a duas colunas da microplaca, sendo utilizado para o experimento duas microplacas. No detalhe observa-se a disposição das quatro sequências de poços utilizadas para cada amostra e tempo para observação.

As duas técnicas de cultivo foram examinadas em quatro ocasiões: 48h, 120h, 168h e 216h após a inoculação. Cada uma das sequências de 3 poços descritos acima correspondeu a um determinado período de observação da cultura na microplaca. Em cada observação foram examinados dois poços e dois tubos, sendo preservado o terceiro poço e o terceiro tubo de cada concentração para eventual contaminação dos dois primeiros. Uma alíquota da cultura foi colocada na câmara de Neubauer para a contagem com a utilização de microscópio óptico (Nikon Eclipse E200) em objetiva de 40x, sendo quantificados todos os resultados.

 

RESULTADOS

Ao término do experimento, foi observado que L. (V.) braziliensis proliferou em ambos os métodos de cultivo e com todas as quantidades de parasitas inoculados (Tabela 1). Com o inóculo de 1x103 foi observada proliferação parasitária a partir de 48 horas do cultivo.

Tabela 1. Crescimento de Leishmania (Viannia) braziliensis na técnica tradicional de cultura (TTC) e na técnica de microcultura (TMC) proveniente de diferentes números de parasitas inoculados. TMC0, TTC0; TMC1, TTC1; TMC2, TTC2; TMC3, TTC3 – inóculos à 1x100, 1x101, 1x102 e 1x103 parasitas, respectivamente.

Cultivo (horas)

Número de parasitas/ml

TMC0

TTC0

TMC1

TTC1

TMC2

TTC2

TMC3

TTC3

48

0

0

0

0

0

0

3x107

4x105

120

0

4x106

2x106

0

2x106

5x106

6x106

2x106

168

0

6x106

5x106

1x108

1x108

1x108

2x108

1x108

216

5x106

1x107

6x107

5x107

2x107

1x107

3x107

0

0 = ausência de Leishmania na alíquota examinada

Mesmo na quantidade mínima, um único parasita (1x100) foi suficiente para permitir a proliferação tanto na TTC quanto na TMC, a partir de 120 e 216 horas de cultivo, respectivamente. Com esse inóculo, o maior crescimento foi observado na TTC (1x107parasitas/ml), com 216 horas do inóculo.

No inóculo de 1x101 houve maior crescimento na TTC (1x108 parasitas/ml), porém o crescimento foi observado primeiramente na TMC a partir de 120 horas do cultivo, enquanto que o crescimento na TTC foi observado a partir de 168 horas.  

Na quantidade inicial de 1x102 parasitas, os dois métodos atingiram como maior crescimento 1x108 parasitas/ml, ambos com 168 horas de cultivo. Com o inóculo de 1x103 parasitas o maior crescimento foi observado na TMC (2x108 parasitas/ml) com 168 horas do início do experimento.

                                       

DISCUSSÃO

Para o cultivo de protozoários do gênero Leishmania são necessários alguns pré-requisitos: um laboratório com estrutura mínima de materiais e equipamentos para impedir ou reduzir ao máximo as oportunidades de contaminações; técnicos treinados e dedicados à realização de intensivos procedimentos de preparação e inoculação da amostra a ser cultivada e, também, para as continuadas observações para verificação do crescimento parasitário. As técnicas tradicionais de cultivo desses protozoários são realizadas em tubos de ensaio e, além de muito laboriosos, geralmente apresentam baixa sensibilidade.15

Hide et al.17 propuseram como alternativa um de sistema de cultivo em microplacas. Esses autores afirmam que a proliferação de Leishmania em microplacas é decorrência da necessidade de utilização de um menor volume de amostra a ser semeada e da proporção de ar disponível neste aparato. Boggild et al.,18 que realizaram o microcultivo em sistema de tubos capilares, apontam as condições de microaerofilia e os elevados níveis de CO2 como responsáveis pela maior sensibilidade dessa técnica. Entendem ainda que esse sistema é mais propício para a transformação de amastigota em promastigota.

Lemesre et al.19 defendem que o tamanho do inóculo influencia no crescimento de Leishmania sp e que não há crescimento de L. (L.) infantum chagasi ou L.(V.) braziliensis com inóculos diluídos em quantidade inferior a 1x104 parasitas/ml em meio de cultivo. Maia et al.20 também defendem que o sucesso da cultura depende da carga parasitária. Entretanto, Lightner et al.21 defendem que, em teoria, bastaria um único parasita viável para obter-se multiplicação e detecção em cultura. No presente estudo, observou-se a proliferação de Leishmania (V.) braziliensis tanto na TTC quanto na TMC, com inóculo em todas as concentrações (1x100,1x101,1x102,1x103).

Deve-se destacar que mesmo a partir do inóculo de um único parasita observou-se a proliferação desde 216 horas na TMC e 120 horas na TTC. Com esse inóculo mínimo de 1x100, observou-se densidade de 5x106 e 1x107 parasitas na TMC e TTC, respectivamente.

A detecção mais precoce de proliferação parasitária nas duas técnicas foi observada com 48 horas de cultivo no inóculo, com concentração de 1x103 parasitas/ml. Na técnica de microcultivo em tubos capilares, Allahverdiyev et al.22,23 descreveram essa mesma precocidade para a demonstração da presença de promastigotas de Leishmania a partir de diferentes tecidos em situações de quadros clínicos de leishmaniose tegumentar e visceral. Esses resultados remeteram a expectativas favoráveis em relação à utilização da TMC para fins diagnósticos.

A quantidade de parasitas alcançados no ensaio de quantificação excederam 1x108 parasitas/ml, o que torna viável a realização de outros experimentos suplementares, como, por exemplo, produção de antígenos para a realização de testes diagnósticos; estudos sobre biologia celular do próprio parasita; ultraestrutura etc.  

Ao pensarmos nas potencialidades das técnicas de cultura como instrumento diagnóstico das leishmanioses para a TTC, embora os parasitas possam ser observados desde a primeira semana de cultivo, na maioria das vezes são necessárias novas observações após 2 ou 3 semanas.20 Essa condição praticamente inviabiliza a metodologia como uma ferramenta diagnóstica.

Em experimento que incluiu o cultivo de aspirado de baço de 103 cães com leishmaniose visceral, 84,5% (87/103) dos resultados positivos na TMC foram obtidos em 48 horas (Gutierres et al., dados em fase de publicação). A precocidade na observação promove expectativa favorável na utilização da TMC para fins diagnósticos.

Ainda segundo Maia et al.,24 a TTC também apresenta desvantagens em relação à susceptibilidade para a contaminação microbiológica. A estratégia adotada no presente estudo incluiu a inoculação das amostras em 12 poços diferentes na TMC, diminuindo assim a possibilidade de contaminação. Além disso, ao semear pequena quantidade de amostra (50µl por poço), semeia-se também menor quantidade de interferentes que podem promover contaminação ou inibição do crescimento do parasita. Essa contaminação ou inibição normalmente ocorre devido à proliferação de fungos ou bactérias no meio de cultivo.25 Dessa maneira, a TMC tem como vantagem o potencial uso para crescimento primário, sendo uma ferramenta para tornar oportuno e rápido o diagnóstico das leishmanioses.

No presente estudo, concluímos que a TMC é uma estratégia que permitiu o cultivo a partir de uma única forma flagelada. Novos estudos estão sendo realizados para avaliar a viabilidade da TMC para utilização como método diagnóstico.

.................................................
Nota: Este trabalho teve apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).  Edital MCT-CNPq/MS – SCTIE – DCIT – Doenças Negligenciadas. Proc. 25/2006

*Parte da dissertação de mestrado: Desenvolvimento, padronização e avaliação da técnica de microcultura para o crescimento primário e proliferação de Leishmania spp, no diagnóstico etiológico das leishmanioses, 2010; apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

 

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