O tracoma é uma doença ocular infecciosa crônica de notificação compulsória no Estado de São Paulo. Tem relevância
para a saúde pública pelo seu potencial de produzir, após repetidas
re-infecções, seqüelas palpebrais, que com o tempo podem provocar
lesões corneanas, seguidas de opacificação de córnea e perda da
visão.
É a doença de maior disseminação no
mundo, sendo a segunda maior causa de cegueira em países em
desenvolvimento. A suscetibilidade ao tracoma é geral, ocorrendo com
maior freqüência onde há falta de água e condições habitacionais
e sanitárias inadequadas, sendo esta doença um indicador de áreas
de pobreza e subdesenvolvimento.
No Estado de São Paulo, a primeira
medida oficial para controlar o tracoma foi adotada em 1904, quando
Emilio Ribas contratou um especialista em moléstias dos olhos para
estudar e propor soluções para o problema do tracoma. Várias
medidas de controle foram adotadas deste então e, devido às baixas
prevalências encontradas na década de 1970, a doença foi
considerada erradicada no Estado. Entretanto, se aplicarmos as definições
epidemiológicas de erradicação, eliminação e controle, o termo
mais adequado para o comportamento desta doença na época seria
“controle”.
No início da década de 1980, houve o
um aumento significativo de casos no interior do Estado, o que levou
à implantação do um sistema de vigilância epidemiológica da doença.
No estudo realizado em Bebedouro, em
1986, observou-se uma prevalência total de tracoma de 7,2%. Nas crianças
de 1 ano a 10 anos foi de 6,7% de tracoma inflamatório e 1,1%, de
tracoma cicatricial. Demonstrou-se que em todas as faixas etárias
existiam casos de tracoma cicatricial, o que significou que o tracoma
nunca chegou a ser erradicado naquele município.
Nos últimos anos, vários inquéritos
epidemiológicos foram realizados com prevalências de tracoma
inflamatório, que variaram de 1,5% em Francisco Morato e Franco da
Rocha, na Grande São Paulo, até 11% em Botucatu, no interior do
Estado. No município de São Paulo, dados de pesquisas mostram prevalências
que variaram de 2,4% no bairro da Freguesia do Ó a 7,4% na Brasilândia,
ambos na Zona Norte.
Em 1999 foi realizado um inquérito epidemiológico por amostragem em pré-escolares
e escolares da rede pública na Capital. Foram examinadas 27.091 crianças,
obtendo-se uma taxa de prevalência de tracoma inflamatório (TF/TI)
de 2,2%, que variou de 0,4% na região Oeste da cidade a 4,2% na
Leste.
Fazendo parte das atividades do
programa de vigilância epidemiológica e controle do tracoma do
Ministério da Saúde, em 2002 foi realizado um inquérito epidemiológico
por amostragem de escolares de 1ª à 4ª série das escolas públicas
de municípios com índice de desenvolvimento humano (IDH-M) menor que
a média nacional. O objetivo do inquérito era conhecer a prevalência
da doença no Estado de São Paulo, para o redirecionamento e priorização
das atividades de detecção e controle.
Foram
examinados 8.047 escolares, sendo diagnosticados 331 casos de tracoma,
com uma taxa de prevalência de 4,1%. As maiores taxas de prevalência
encontradas foram de 10,0%, nos municípios de Piedade e Turiúba.
Prevalência de tracoma em amostra de escolares, Estado de São Paulo, 2002
Fonte: Ministério da Saúde e Centro de Vigilância
Epidemiológica
- CVE-SES/SP
O tracoma ocorre em conglomerados de
população em precárias condições de vida e acesso restrito aos
serviços de saúde. Além disso, a maioria dos profissionais de saúde
não sabe diagnosticá-lo. Some-se, ainda, o fato de que a maioria dos
casos não refere sintomas ou tem sintomas brandos. Esses fatores
corroboram para que a quase totalidade dos casos de tracoma
notificados seja detectada por meio de inquéritos epidemiológicos,
busca ativa em instituições educacionais e assistenciais e buscas secundárias na comunidade, após a detecção dos casos índice
em escolas e creches.
A Organização Mundial de Saúde está
propondo a Eliminação Mundial do Tracoma como causa de Cegueira até
2020. Para alcançar a meta de eliminação tem preconizado
uma estratégia denominada “SAFE” (S – Cirurgia de Triquíase, A
– antibióticos, F – limpeza da face e E – saneamento).
O tracoma continua sendo um problema de
saúde pública no Estado e medidas de vigilância e controle devem
ser implementadas visando à eliminação do tracoma como causa de
cegueira.
Em
vista desta proposta, os municípios devem contar com equipes
capacitadas para realizar as ações de vigilância epidemiológica,
intensificando a busca ativa de casos de tracoma inflamatório (TF/TI)
para o tratamento e controle, identificação de casos de Triquíase
Tracomatosa (TT) em adultos, para a resolução cirúrgica.
Deve-se
enfatizar as ações de educação em saúde e investir no saneamento
básico para a prevenção do tracoma.
Tabela
Casos de tracoma notificados e taxa de detecção por 100.000 habitantes no Estado de São Paulo, 1984 a 2003
Fonte: Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) -
SES/SP
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