Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272
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Julho, 2004   Ano 1   Número 7                                                                             retorna
Tracoma no Estado de São Paulo

Norma Medina
Serviço de Oftalmologia Sanitária/Tracoma

Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof Alexandre Vranjac” 
Coordenação dos Institutos de Pesquisa - SES/SP


O tracoma é uma doença ocular infecciosa crônica de notificação compulsória no Estado de São Paulo. Tem relevância para a saúde pública pelo seu potencial de produzir, após repetidas re-infecções, seqüelas palpebrais, que com o tempo podem provocar lesões corneanas, seguidas de opacificação de córnea e perda da visão.

É a doença de maior disseminação no mundo, sendo a segunda maior causa de cegueira em países em desenvolvimento. A suscetibilidade ao tracoma é geral, ocorrendo com maior freqüência onde há falta de água e condições habitacionais e sanitárias inadequadas, sendo esta doença um indicador de áreas de pobreza e subdesenvolvimento.

No Estado de São Paulo, a primeira medida oficial para controlar o tracoma foi adotada em 1904, quando Emilio Ribas contratou um especialista em moléstias dos olhos para estudar e propor soluções para o problema do tracoma. Várias medidas de controle foram adotadas deste então e, devido às baixas prevalências encontradas na década de 1970, a doença foi considerada erradicada no Estado. Entretanto, se aplicarmos as definições epidemiológicas de erradicação, eliminação e controle, o termo mais adequado para o comportamento desta doença na época seria “controle”.

No início da década de 1980, houve o um aumento significativo de casos no interior do Estado, o que levou à implantação do um sistema de vigilância epidemiológica da doença. No estudo realizado em Bebedouro, em 1986, observou-se uma prevalência total de tracoma de 7,2%. Nas crianças de 1 ano a 10 anos foi de 6,7% de tracoma inflamatório e 1,1%, de tracoma cicatricial. Demonstrou-se que em todas as faixas etárias existiam casos de tracoma cicatricial, o que significou que o tracoma nunca chegou a ser erradicado naquele município.

Nos últimos anos, vários inquéritos epidemiológicos foram realizados com prevalências de tracoma inflamatório, que variaram de 1,5% em Francisco Morato e Franco da Rocha, na Grande São Paulo, até 11% em Botucatu, no interior do Estado. No município de São Paulo, dados de pesquisas mostram prevalências que variaram de 2,4% no bairro da Freguesia do Ó a 7,4% na Brasilândia, ambos na Zona Norte.

Em 1999 foi realizado um inquérito epidemiológico por amostragem em pré-escolares e escolares da rede pública na Capital. Foram examinadas 27.091 crianças, obtendo-se uma taxa de prevalência de tracoma inflamatório (TF/TI) de 2,2%, que variou de 0,4% na região Oeste da cidade a 4,2% na Leste.

Fazendo parte das atividades do programa de vigilância epidemiológica e controle do tracoma do Ministério da Saúde, em 2002 foi realizado um inquérito epidemiológico por amostragem de escolares de 1ª à 4ª série das escolas públicas de municípios com índice de desenvolvimento humano (IDH-M) menor que a média nacional. O objetivo do inquérito era conhecer a prevalência da doença no Estado de São Paulo, para o redirecionamento e priorização das atividades de detecção e controle.

Foram examinados 8.047 escolares, sendo diagnosticados 331 casos de tracoma, com uma taxa de prevalência de 4,1%. As maiores taxas de prevalência encontradas foram de 10,0%, nos municípios de Piedade e Turiúba.  

Prevalência de tracoma em amostra de escolares, Estado de São Paulo, 2002

Fonte: Ministério da Saúde e Centro de Vigilância
          Epidemiológica - CVE-SES/SP

O tracoma ocorre em conglomerados de população em precárias condições de vida e acesso restrito aos serviços de saúde. Além disso, a maioria dos profissionais de saúde não sabe diagnosticá-lo. Some-se, ainda, o fato de que a maioria dos casos não refere sintomas ou tem sintomas brandos. Esses fatores corroboram para que a quase totalidade dos casos de tracoma notificados seja detectada por meio de inquéritos epidemiológicos, busca ativa em instituições educacionais e assistenciais e buscas secundárias na comunidade, após a detecção dos casos índice em escolas e creches.

A Organização Mundial de Saúde está propondo a Eliminação Mundial do Tracoma como causa de Cegueira até 2020. Para alcançar a meta de eliminação tem preconizado uma estratégia denominada “SAFE” (S – Cirurgia de Triquíase, A – antibióticos, F – limpeza da face e E – saneamento).

O tracoma continua sendo um problema de saúde pública no Estado e medidas de vigilância e controle devem ser implementadas visando à eliminação do tracoma como causa de cegueira.

Em vista desta proposta, os municípios devem contar com equipes capacitadas para realizar as ações de vigilância epidemiológica, intensificando a busca ativa de casos de tracoma inflamatório (TF/TI) para o tratamento e controle, identificação de casos de Triquíase Tracomatosa (TT) em adultos, para a resolução cirúrgica.

Deve-se enfatizar as ações de educação em saúde e investir no saneamento básico para a prevenção do tracoma.

Tabela
Casos de tracoma notificados e taxa de detecção por 100.000 habitantes no Estado de São Paulo, 1984 a 2003

Fonte: Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) - SES/SP

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