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Paixão pelo SUS
A passion for the Unified Health System
Luiz Roberto Barradas Barata
O mundo acompanhou recentemente a
batalha travada pelo governo norte-americano para promover uma profunda reforma
de seu sistema de saúde, que irá atender mais de 46 milhões de americanos,
atualmente sem cobertura médica garantida. A ideia é estender o direito de
assistência médica a esses cidadãos, como aquele garantido pelo Sistema Único
de Saúde (SUS) a todos os brasileiros.
No Brasil, a assistência médica é um
direito universal há mais de duas décadas. De um sistema centralizado na atenção
hospitalar e restrito aos que contribuíam com a Previdência Social, o País
passou, a partir da Constituição Federal de 1988, a ter um modelo de saúde
descentralizado, com forte participação social, foco na atenção primária,
promoção da saúde e acesso universal e gratuito a todos os brasileiros. Uma
revolução social apaixonante.
Por ocasião da implantação do SUS,
houve quem classificasse como utópica a proposta dos sanitaristas brasileiros.
Vinte anos depois, em São Paulo, a utopia tornou-se realidade, garantindo a
todos do mais simples remédio para dor de cabeça até técnicas avançadas de
neurocirurgia, da consulta médica até os caríssimos medicamentos para câncer
e Aids.
Os resultados alcançados pelo trabalho
solidário realizado por União, Estados e municípios em prol da universalidade
e da integralidade no atendimento em saúde são de domínio público: acentuada
redução da mortalidade infantil (em São Paulo, o índice caiu pela metade
entre 1994 e 2008); eliminação de doenças como a paralisia infantil, o
sarampo, a difteria e, mais recentemente, a rubéola; e queda expressiva nos índices
de morbimortalidade por Aids, além de aumento de quatro vezes no número de
transplantes de órgãos e eliminação da fila de espera para o transplante de
córnea em São Paulo.
Passadas duas décadas, está mais do
que na hora de promover novo salto, quantitativo e qualitativo, na assistência
em saúde oferecida pelo SUS aos brasileiros. E, para isso, algumas medidas são
imperativas e urgentes.
Faz dez anos que a emenda constitucional
nº 29, que determina o quanto cada governo deve destinar de seu orçamento para
a saúde, vigora sem ser regulamentada, o que seria essencial para estabelecer o
que pode ser ou não considerado gasto com saúde, assegurando que os recursos
sejam, de fato, aplicados na área.
Do mesmo modo, faz-se necessário o
reajuste substancial dos valores pagos pelo SUS aos hospitais públicos e
privados que prestam serviços ao sistema. Hoje, boa parte dos procedimentos está
subfinanciada, como é o caso do valor pago para a realização de um parto (R$
602), que é, em média, metade do gasto dos hospitais com o procedimento.
Nos últimos anos, o Ministério da Saúde,
diante das limitações orçamentárias impostas pela equipe econômica do
governo, vem promovendo alguns aumentos pontuais nos valores, porém ainda tímidos,
o que castiga sobremaneira os hospitais do sistema e faz com que muitos
prestadores deixem de atender a população usuária da rede pública.
É urgente promover uma integração
entre as duas redes de atendimento da população brasileira: o SUS e a rede de
convênios e planos de saúde. Essa integração entre os dois sistemas
permitiria regularizar encaminhamentos, disciplinar competências e usar de
forma mais racional e justa todos os equipamentos de saúde existentes, em prol
do melhor atendimento da população.
Isso é possível. E foi o que aconteceu
na mais recente epidemia de gripe suína, quando um laboratório (Instituto
Adolfo Lutz) e um hospital públicos (Emílio Ribas) uniram-se às unidades
privadas de saúde para atender de forma articulada a população paulista.
Há de considerar, também, a
necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de remuneração dos médicos e demais
profissionais do setor público, com bonificações por mérito e desempenho,
bem como expandir modelos de gestão que já demonstraram sua eficiência, como
o das organizações sociais de saúde, que aliam modernas ferramentas da
administração privada ao absoluto controle por parte do poder público.
O desenvolvimento do SUS foi fruto de um
trabalho intenso e apaixonado. Esse esforço deve, agora, ser acompanhado da
ampliação das fontes de financiamento e de uma boa dose de choque de gestão,
de maneira que o sistema possa continuar avançando na busca de melhor qualidade
de saúde e de vida para todos os brasileiros.
Artigo originalmente publicado no jornal
Folha de S. Paulo, edição de
02/02/2010
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