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RESUMO
Os
hormônios tireoideanos levotiroxina (T4) e liotironina (T3) são fármacos de
grande importância para o tratamento do hipotireoidismo, deficiência causada
pelos baixos níveis de T3 e/ou T4 no organismo. O Instituto Adolfo Lutz de São
Paulo, SP, recebeu denúncias reincidentes de consumidores de fórmulas
manipuladas destes hormônios. O objetivo deste trabalho foi relatar desvios de
qualidade em medicamentos contendo T3 e/ou T4, relacionados a queixas de eventos
adversos provenientes de farmácias magistrais de cidades paulistas. Uma das
amostras evidenciou erros graves em sua manipulação, à medida que apresentou
no frasco as doses transcritas de T3 e T4 em miligramas, sendo as doses terapêuticas
usuais na ordem de microgramas. Foi constatada uma grande variabilidade de teor
entre cápsulas do mesmo frasco e falta de uniformidade nas amostras analisadas,
o que caracteriza graves desvios de qualidade no processo de manipulação do
produto. Os resultados demonstraram flutuações entre doses terapêuticas
ineficazes e sobredoses, indicando não só a falta de implantação das boas práticas
de manipulação (BPM), segundo a Resolução RDC nº 67, como a exposição a
riscos dos pacientes consumidores deste tipo de produto.
PALAVRAS-CHAVE: Hormônios tireoidianos. Cápsulas manipuladas. Farmácias magistrais. Desvios de qualidade.
ABSTRACT
Thyroid
hormones as thyroxine (T4) and liothyronine (T3) are important drugs for the
treatment of hypothyroidism, deficiency caused by low levels of T3 and/or T4 in
the body. The Antibiotics Laboratory of of Adolfo Lutz Institute from São Paulo
received many complaints of compounded drug formulas containing these hormones.
The objective of this research was to report
drug samples containing T3 and/or T4 suspected of quality deviations
related to adverse events, originated from compounded pharmacies of the cities
in the State of São Paulo State. One of the samples revealed serious errors in
the compounded process of the product presenting a milligram dose , when the
usual therapeutic doses of T4 and T3 are prescribed in microgram. Large
variability has been found between capsules of the same flask and the lack of
uniformity in the samples analyzed, featuring serious quality deviations in the
compounded process of the product. The results showed fluctuations between
ineffective therapeutic doses and overdoses, indicating not only the lack of
implementation of the Good Compounding Practices (GCP) according to Resolution
RDC No. 67 as well as the risks that consumers of this type of product are
exposed.
KEY WORDS: Thyroid
hormones. Compounded capsules. Compounded pharmacies. Quality deviations.
INTRODUÇÃO
Os
hormônios tireoideanos liotironina (T3) e levotiroxina (T4) pertencem à classe
de fármacos de baixo índice terapêutico, por apresentarem a dose eficaz próxima
à dose tóxica.¹ Esses hormônios são produzidos pela glândula tireóide,
que os libera de forma gradativa na corrente sanguínea, atingindo todos os
tecidos e promovendo importante estímulo ao metabolismo celular. No entanto, a
liberação desses hormônios pode diminuir, causando o hipotireoidismo.
Nos
adultos, a causa mais comum de hipotireoidismo é um distúrbio chamado tireoidite de Hashimoto, no qual o sistema imunológico
ataca a glândula tireóide, comprometendo a sua capacidade de produzir hormônio
tireoideano. A presença de algum distúrbio da hipófise
também pode ocasionar a redução da produção do TSH (thyroid-stimulating
hormone). Há casos em que há uma deficiência de hormônios
tireoidianos desde o nascimento, o chamado hipotireoidismo
congênito, diagnosticado por meio do teste do pezinho. O hipotireoidismo também pode ser
causado por tratamentos médicos que reduzem a capacidade da tireóide, como,
por exemplo, o uso de iodo radioativo (para
tratamento de hipertireoidismo), amiodarona, xaropes para tosse contendo iodo,
carbonato de lítio ou a cirurgia, com
retirada parcial ou total da tireóide.2
Quando
necessária, a reposição dos níveis sanguíneos de T3 e T43,4 é
realizada com formulações industrializadas e/ou manipuladas em farmácias
magistrais, possibilitando o ajuste das doses durante o tratamento.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), considerando a
ocorrência de relatos de manipulação inadequada em farmácias magistrais,
publicou a Resolução RDCnº 354,5 de 18 de dezembro de 2003, como
medida corretiva, na qual estipulou requisitos mínimos para o controle de
qualidade de medicamentos manipulados de baixo índice terapêutico, como a
realização de testes de dissolução, uniformidade de conteúdo e peso médio,
entre outros.
Em 2007, a publicação da Resolução RDC n° 676
dispôs sobre as boas práticas de manipulação de preparações magistrais e
oficinais em um regulamento técnico abrangente, que fixou os requisitos mínimos
exigidos para o exercício das atividades de manipulação em farmácias,
incluindo a atenção farmacêutica.
A
equipe técnica da Seção de Antibióticos do Instituto Adolfo Lutz Central (IAL)
– órgão da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da
Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP) – publicou, em 2008, um artigo apresentando
uma metodologia para identificação e quantificação de hormônios
tireoidianos em formulações magistrais, mostrando graves irregularidades na
manipulação de fármacos de baixo índice terapêutico, com relatos de óbitos.7
Os resultados também foram divulgados em eventos científicos promovidos por órgãos
reguladores.
A
instituição continuou recebendo
de usuários dessas formulações, mediante os serviços de vigilância sanitária,
denúncias reincidentes de desvios de qualidade,
com relatos de intoxicações e até de um óbito.
OBJETIVO
Relatar
desvios de qualidade em amostras de cápsulas contendo T3 e/ou T4 manipuladas em
farmácias magistrais, encaminhadas
pelos serviços de vigilância sanitária, no período de 2008 a 2009, e relacionadas a relatos de eventos adversos como intoxicações e
ineficiência terapêutica.
MATERIAIS
Foram recebidas cinco amostras encaminhadas pelos serviços de vigilância
sanitária (VISA) do Estado de São Paulo, identificadas
como A, B, C, D e E, constituídas de cápsulas manipuladas de T4, com exceção
da amostra A, que continha também T3.
Os reagentes e materiais utilizados foram acetonitrila grau CLAE
(cromatografia líquida de alta eficiência); ácido fosfórico p.a.; filtro
0,45 µm de celulose regenerada não estéril com 13 mm de diâmetro; coluna empacotada com sílica quimicamente ligada a grupos nitrila –
L10 modelo Lichrospher (250x4,6 mm e partículas de 5 µm); e
padrões de liotironina e levotiroxina da USP (United States Pharmacopeia).
Equipamento: HPLC Shimadzu
Liquid Chromatography série LC–10A/VP, compreende uma bomba LC-10AD-VP, um
detector UV-Vis SPD-10 AV-VP.
MÉTODOS
O método utilizado para identificação, determinação de teor e
uniformidade de conteúdo de T4 e T3 foi a técnica de cromatografia líquida de
alta eficiência, conforme descrito na Farmacopéia
Americana (31ª edição).8
RESULTADOS
E DISCUSSÃO
Os resultados de
identificação dos hormônios para todas as amostras foram satisfatórios e em
conformidade com o declarado no rótulo. As amostras A, C e D apresentaram a
rotulagem em desacordo com a Resolução RDC n° 67/2007 por não identificarem
no rótulo do frasco o nome do prescritor. Os resultados de teor e de
uniformidade de conteúdo das cápsulas de T3 e/ou T4 estão apresentados na
Tabela 1.
Tabela
1. Procedência, teor declarado e encontrado, uniformidade de conteúdo,
determinados pela técnica de cromatografia líquida de alta eficiência segundo
a Farmacopéia Americana-28.
|
Amostra/Visa/
teor declarado
|
Teor encontrado T4/T3
μg/cap. |
Uniformidade
de conteúdo
|
| T4 |
T3 |
DPR %
|
| %
em cada cápsula |
% em cada cápsula |
A
Mococa |
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| T4:
50 mg/cap. |
T4: entre 12.231 e 15.546 |
45,26%; 40,28%; 41,82; 43,42%; 44,45%; |
31,37%; 29,33%; 29,61%;
34,09%; 34,09%; |
T4:
7,12% |
| T3:
50 mg/cap. |
T3: entre 8505 e 10.225 |
44,41% 40,77%; 42,32%;
41,61% 51,82%. |
28,88%; 31,19%; 29,61%;
31,04%; 28,76%; 28,35%. |
T3:
5,70% |
B
Piracicaba |
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| T4:
150 μg/cap |
T4: entre 123 e 211,24 |
83,50%;127,64%;123,86%
131,9%;107,88%;132,63%111,85%; 82,36%; 96,65%;
140,83%. |
- |
18,38% |
C
Piracicaba |
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| T4:
150 μg/cap |
T4:
entre 167,22 e 330,21 |
107,48%;118,52%;
220,14%; 122,65%; |
- |
31,19% |
| 113,23%;
130,4%. |
D
Piracicaba |
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| T4:
50 μg/cap |
T4: entre 23,12 e 54,96 |
71,48%;
73,26%;70,01%; 67,46%; 81,88%; 46,45%; 68,51%; 56,80%; 53,73%; 109,93%. |
- |
24,99% |
E
Piracicaba |
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| T4:
150 μg/cap |
T4: entre 116,74 e 137,46 |
88,98%;
86,57%; 88,58%; 84,96%; 86,06%; 84,04%; 90,94%; 91,64%; 77,83% 82,34%. |
- |
4,84% |
Valores
de referência - *Teor para T3 e ou T4: entre 90 a 110% do teor declarado;
**Uniformidade de conteúdo: cada unidade testada deve conter entre 85 a 115% do
valor declarado e o DPR% menor ou igual a 6%.
Na amostra A, foram
constatados erros graves em todo o processo de manipulação, pois, de acordo
com a legislação vigente, deve-se avaliar a prescrição antes de proceder à
manipulação. Em caso de dúvidas, deve-se solicitar a confirmação do
prescritor.
Devido à impossibilidade
de acesso à prescrição médica, não foi possível afirmar se o erro ocorreu
na prescrição ou na transcrição da receita, o que caracterizaria falhas na
implantação e cumprimento das boas práticas de manipulação (BPM) nessas
farmácias.
As amostras B, C, D e E
também apresentaram valores de teor e uniformidade de conteúdo em desacordo
com os valores de referência. O teor pode variar entre 90% e 110% do valor
declarado, e, no teste de uniformidade de conteúdo, cada unidade testada deve
conter entre 85% e 115% do valor declarado, com o desvio padrão relativo (DPR)
menor ou igual a 6%.
Ainda na amostra A, foram
constatados teores entre 36% e 44% do valor declarado de T4 e entre 24% e 29%,
de T3. A uniformidade de conteúdo dos dois hormônios apresentou valores não
conformes com os valores de referência. As altas doses e a falta de
uniformidade de conteúdo desses fármacos caracterizam desvios de qualidade
graves, indicando a impossibilidade de manipular fármacos de baixa dosagem e
alta potência.
Do
ponto de vista da saúde pública, a preocupação crescente com a manipulação
de medicamentos em farmácias magistrais é fundamentada em relatos de equipes
de inspeção da Anvisa em casos investigados pela farmacovigilância da agência,
incluídos vários óbitos. Essa incidência de óbitos levou o órgão a
publicar uma Resolução (RE nº 1.621, de 03/10/2003) proibindo a manipulação
de medicamentos de baixo índice
terapêutico. Não obstante, no final de 2003, a Anvisa revogou a RE 1.621, voltando a permitir a manipulação desses
medicamentos. A
Resolução RDC n° 67, de outubro de 2007, no Anexo III, permite a
manipulação de hormônios, entre outros fármacos, condicionando a implantação
das BPMF. O alto custo financeiro para a implantação dos requisitos das BPMF
inviabilizam a sua implantação na maioria das farmácias.
CONCLUSÃO
Quando se está diante da manipulação de
medicamentos de alta potência e baixa dosagem, por exemplo os hormônios T3 e
T4, devem estar bem estabelecidos os requisitos mínimos de boas práticas de manipulação (BPM) a serem observados na
manipulação, conservação e dispensação de preparações magistrais, bem
como para a aquisição de matérias-primas, pois pequenas
variações no processo de produção, incluindo a possibilidade de erros aleatórios
imprevisíveis, podem levar a resultados catastróficos.
Assim, os resultados encontrados nas amostras evidenciaram medicamentos
com flutuações entre doses terapêuticas ineficazes e sobredoses,
caracterizando desvios de qualidade que ocasionaram duas internações por
intoxicação, resultando em um óbito, o que indica a falta da implantação
das BPM e a exposição a riscos dos consumidores. Nesse sentido, os
profissionais médicos, a assistência farmacêutica e os serviços de vigilância
sanitária devem atentar para a verificação do cumprimento da legislação
sanitária vigente.
REFERÊNCIAS
- Farvwell PA, Braverman LE. Thyroid and anthhyroid drugs. In: The
Goodman e Gilman's. Pharmacological basis of therapeutics, 9 ed. New York: Pergamon
Press; 1996, p. 1391-7.
- Hipotireoidismo.
The Hormone Foundation [periódico na internet]. 2010 [acesso em 1 junho
2010]. Disponível em: http://www.hormone.org/Spanish/upload/hypothyroidism-spanish-042810.pdf.
- The Merck Manual of Medical Information-Home Edition: Merck Research
Laboratories. Division of Merck &
Co., Inc. Whitehouse Station, N.J. 1997; 704-11.
- Martindale. The complete drug reference. 34.ed. London: The Royal
Pharmaceutical Society of Great Britain. 2005,
1594-6; p. 1600-4.
- Brasil.
Resolução RDC nº 1.621,
de de 23 de maio de 2008. Resolução da Diretoria Colegiada da Agencia
Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. Concede o
Registro, o Cadastro, a Revalidação, a Alteração, a Retificação e o
Desarquivamento de Processo, dos Produtos para a Saúde, na conformidade da
relação anexa [Resolução na internet]. [acesso em 29 nov 2008]. Disponível
em:http://www.anvisa.gov.br/Legis/resl/2003/rdc/t354-rdc.htm.
- Brasil,
Resolução RDC nº 354 de 18 de dezembro 2003. Resolução da
Diretoria Colegiada da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério
da Saúde. Estabelece a manipulação de produtos farmacêuticos de uso
interno, que contenham substâncias de baixo índice terapêutico definidas
no Anexo I [Resolução na internet]. [acesso em 29 nov 2008]. Disponível
em: http://www.anvisa.gov.br/Legis/resl/2003/rdc/t354-rdc.htm.
- Brasil.
Resolução RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007. Resolução da
Diretoria Colegiada da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária. Dispõe
sobre Boas Praticas de Manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais
para Uso Humano em farmácias [Resolução na internet]. [acesso em 28 julho
2008]. Disponível em:http://www.anvisa.gov.br/Legis/resl/2003/rdc/t354-rdc.htm.
- Markman BEO, Koschtschak MRW, Auricchio MT. Otimização e validação de método farmacopeico para verificar
possíveis desvios de qualidade de matérias primas e cápsulas manipuladas
contendo hormônios tireoidianos. Rev Inst
Adolfo Lutz. 2007;66 (3):268-74.
- United
States Pharmacopeia 31 ed. Rockville: United States Pharmacopeia Conventions,
p. 2788-9, 2008.
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