Bepa Abril 2010; 7(76) ISSN 1806-4272
ARTIGO


Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar. Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac”. Coordenadoria de Controle de Doenças. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo, SP, Brasil

 

 

 

A esquistossomose mansônica, também conhecida como “barriga d’água”, “xistose”, “xistosomose” ou “doença dos caramujos”, é uma doença causada por parasita denominado Schistosoma mansoni. De evolução clínica que varia desde formas assintomáticas até quadros graves, como as formas hepato-intestinal, hepato-esplênica e neurológica (mielorradiculapatia), pode causar óbito se não tratada ou diagnosticada precocemente.

É uma doença de importância em saúde pública em todo o mundo, relacionada principalmente a precárias condições de vida e à falta ou deficiências no saneamento básico. Sua transmissão depende da existência de hospedeiros intermediários – caramujos de espécies como Biomphalaria glabrata, B. straminea e B. tenagophila –, ocorrendo em locais com despejo de esgoto sem tratamento. Ovos de S. mansoni eliminados nas fezes do hospedeiro contaminado eclodem na água de rios, lagoas ou outras coleções hídricas, liberando larvas ciliadas (miracídios) que infectam o hospedeiro intermediário (caramujo), as quais, após 4 a 6 semanas, abandonam o caramujo, na forma de cercárias, e permanecem livres nas águas naturais.

O contato humano por meio da pele com águas que contêm cercárias, em atividades de lazer ou de trabalho, é a maneira pela qual o indivíduo adquire a doença, em média de 2 a 6 semanas após a infecção. Cinco semanas após a infecção o homem pode excretar ovos viáveis de S. mansoni nas fezes, permanecendo assim por muitos anos se não for devidamente tratado, constituindo-se em importante fonte de transmissão em locais com saneamento básico deficiente e despejo de dejetos sem tratamento nas coleções hídricas.

Mais de 200 milhões de pessoas estão infectadas em todo o mundo. No Brasil, ocorrem em média mais de 100 mil casos por ano, principalmente nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Dados do Ministério da Saúde mostram que a esquistossomose causa, no País, mais óbitos que a dengue, a leishmaniose visceral e a malária.

 

No Estado de São Paulo, o número de casos vem diminuindo ao longo dos anos devido às ações intensas da vigilância epidemiológica e ações programáticas, como captação precoce e tratamento de casos (doentes e assintomáticos) nos postos de saúde, e a outras intervenções em nível ambiental. Em 2003, 582 casos eram autóctones e os outros 2.849, importados. Em 2009 foram registrados em território paulista 1.245 casos, dos quais 181 eram autóctones (transmissão local) e os outros 1.064 adquiridos em outros Estados, como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe. Algumas regiões de São Paulo, principalmente áreas de invasão, com intensa migração e córregos, rios ou mangues poluídos, apresentam focos da doença, como a Baixada Santista, o Vale do Ribeira, o Vale do Paraíba, a Região Metropolitana de Campinas e alguns municípios da  Grande São Paulo.

Considerando-se o importante declínio da doença, em curso, foi implantada no Estado de São Paulo, em maio de 2009, a Semana da Esquistossomose. A finalidade do evento é divulgar mais amplamente a doença, suas formas de transmissão, prevenção e tratamento, bem como aumentar a captação precoce de casos (sintomáticos e assintomáticos) a partir das ações municipais, garantindo, ainda, o tratamento e verificação de cura de todos os casos detectados. Na ocasião conseguiu-se ampla divulgação na mídia, incentivando-se as pessoas que tiveram contato com coleções hídricas poluídas a procurar os serviços de saúde para consulta médica e realização de exame para diagnóstico da doença e tratamento.

Em 2010, a 2ª Semana da Esquistossomose será realizada de 24 a 28 de maio, quando os esforços deverão se concentrar nas ações de caráter educativo em relação à informação e sensibilização da população para adoção de comportamento baseado em critérios ecológicos, quando em contato recreativo ou laboral com coleções hídricas. E, ainda, em esforços para planejar ou dar continuidade às ações de saúde ambiental em atuações definitivas para a interrupção da transmissão da doença, isto é, visando-se a eliminação da autoctonia da esquistossomose.

No período do evento, os municípios paulistas desenvolverão atividades educativas divulgando mensagens com informações sobre a esquistossomose, principais sintomas, formas de contágio e dicas de prevenção. Além disso, cerca de 5 mil unidades básicas de saúde reforçarão o atendimento à população que procurar os serviços com suspeita de ter adquirido a doença. Havendo necessidade, será agendada consulta médica e solicitado exame parasitológico de fezes aos pacientes, para identificação do agente causador da esquistossomose. Os pacientes diagnosticados serão tratados gratuitamente com prescrição de um antiparasitário.

O trabalho não se esgota ao final da Semana da Esquistossomose. Os serviços de saúde atenderão os casos durante o ano todo. Os resultados de todas as ações desenvolvidas ajudam a aumentar a captação precoce de casos, a tratar as pessoas, a identificar possíveis focos de transmissão e a desencadear alternativas definitivas para a interrupção da transmissão da doença. Os municípios que eliminarem a autoctonia da esquistossomose receberão certificação, e toda a população pode se engajar nessa campanha.


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Maria Bernadete de Paula Eduardo
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