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RESUMO
Neste artigo, é feita uma revisão de como evoluiu a abordagem da tuberculose multirresistente (MDR)
no Brasil, desde a introdução da rifampicina associada à isoniazida e à pirazinamida (RHZ). Mostra que o
País foi um dos primeiros no mundo a aplicar o esquema RHZ dentro de um sistema de tratamento com
um esquema de primeira linha, outro específico para as formas meningoencefálicas, para retratamento de
recidivas ou retorno com tuberculose ativa, após abandono, e um esquema de reserva. O sistema era de
aplicação nacional, com garantia de fornecimento gratuito das drogas e autoadministrado. Avalia a evolução da
resistência aos medicamentos, a emergência da resistência múltipla e como foi organizado o controle desta forma
da doença.
PALAVRAS-CHAVE: Tuberculose multirresistente a múltiplos
medicamentos. Tuberculose super-resistente.
ABSTRACT
This
article presents a review of how the approach on multi drug resistance (MDR) in
tuberculosis has evolved in Brazil, since the introduction of rifampicine
associated to isoniazide and pirazinamide (RHZ). It shows that this country has
been among the first in the world to apply the RHZ scheme within a treatment
system with a first line scheme, another one specifically designed for the
meningoencephalic forms, for retreating recidives or returns of active
tuberculosis, after abandonment of the treatment, and a continence sheme. The
system was applied nationwide, with a guaranty that the drugs would be supplied
free of costs and self administered. It evaluates drug resistance evolution, the
emergency of multiple resistence and how the control of this form of the disease
was organized.
KEY
WORDS: Multi drug resistant tuberculosis. Super resistant
tuberculosis.
INTRODUÇÃO
Embora seja um fenômeno mundial, a tuberculose (TB) apresenta características variáveis, de acordo com
a região do mundo, dependente de fatores raciais, ecológicos,
socioeconômicos, inter-relações com
outras endemias, como a do HIV/Aids, perfil de resistência às drogas em uso e desenvolvimento do controle
da doença.
Assim como a TB, também a tuberculose multidroga-resistente (MDR-TB), que espantou o mundo,
apresenta um desenvolvimento próprio no
Brasil.1,2,3 O País foi o primeiro não desenvolvido a usar esquema de curta duração com participação da
rifampicina (R) associada à hidrazida (H), além da pirazinamida (Z), ao reorganizar, em todo o território brasileiro,
em 1979, o Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde (PNCT-MS). Essa
mudança, estabelecida após um ensaio dirigido comparando o esquema RHZ com esquema de longa duração
(12 meses) com a H associada à estreptomicina (S) e ao etambutol
(E),4 estabelece não somente alterações
de medicamentos, mas normatiza um sistema de tratamento.
Esse sistema (Figura 1) conta com um esquema de primeira linha, de curta duração, o E-1
(2RHZ/4RH), indicado para todas as formas de TB sem tratamento anterior, menos para a forma meningoencefálica,
com uso de corticosteróides na fase de ataque e prolongando a medicação para nove meses, o E-2
(2RHZCort/7RH).
Para os recidivantes, após cura (RC) ou reingresso após abandono com doença ativa (RA), a indicação é
do mesmo E-1, reforçado com o etambutol (E) na fase de ataque, o E-1R. Para os que apresentassem
falência com o E-1, foi previsto um esquema de segunda linha, com duração de 12 meses, no qual, além da S, Z e
E, se associava a ethionamida (Et), o E-3
(3SZEEt/9EEt).5
No Brasil, a dose média da H é de 10 mg/kg/dia, bem maior do que a usada internacionalmente.
As características operacionais básicas do sistema eram a aplicação nacional, a garantia de drogas,
gratuitas, com R+H em um único comprimido e de uso autoadministrado.
Para os fracassos com o E-3, a orientação era encaminhar o paciente
aos serviços de referência para
avaliar drogas alternativas, se acessíveis, ou condutas cirúrgicas, se
possíveis.5
Figura 1. Sistema de tratamento da tuberculose no Brasil, 19779.
Evolução da resistência e do rendimento do sistema
Um estudo de coortes, em uma referência, avaliou evolutivamente a resistência em coortes
trienais nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mostrando que o Programa Nacional de Controle da Tuberculose, organizado nos anos 1960, e a introdução da R na sua reorganização, na década seguinte,
possibilitaram uma excepcional proteção das drogas clássicas com significativa redução da resistência à H e à S.
A redução, entre 1960 e 1970
(p=0,002), foi mais significativa que entre 1970 e 1980
(p=0,032), sugerindo que um bom programa protege melhor a resistência que a introdução de uma droga potente como a R (Figura
2).6
Figura 2. Evolução da resistência primária de três coortes nas décadas de 1960, 1970 e 1980.
A avaliação na rotina do rendimento do E-1, na década de 1980, excluindo as transferências
e considerando as mudanças de drogas por toxicidade nos estudos de coortes, apresentou uma taxa
de eficácia/efetividade de 94,6%-77,8%; a taxa de abandono foi de 13,7%; de falência 1,5%; troca por
efeitos adversos 3,1%; e de mortalidade de
3,9%.7 Na década de 1990 e no início do novo milênio (1990-2002),
essas taxas foram de 93,9%, 77,1%, 13,1%, 1,7%, 3,3% e 4,8%,
respectivamente.8 Quanto ao E-3 de reserva,
o rendimento foi baixo, com a taxa de eficácia/efetividade variando entre
57,5-85,2% e 66,7-84,7%, respectivamente.9
A piora da efetividade do sistema foi relacionada ao abandono, certamente resultante do
regime autoadministrado e da emergência da coinfecção TB-HIV/Aids, apresentando uma tendência de melhoria
pela introdução e expansão do tratamento supervisionado e boa qualidade do programa de controle do HIV
no País.
A evolução e a abordagem da resistência múltipla no Brasil
Com base nesses números, acrescentando-se as taxas de RC e RA, em 1993 estimou-se que cerca
de 4% a 5% dos notificados acabariam por apresentar resistência associada
à R+H ou impossibilidade de
uso destas duas drogas por toxicidade, com indicação do E-3. Seriam portadores de
multidroga-resistência (MDR-TB), chamados de resistentes ao E-1. Como o rendimento do E-3 é baixo, uma parcela dos
pacientes acaba por sair do sistema sem perspectivas de tratamento com as drogas programáticas (R, H, Z, E, S e
Et), estimada entre 0,3% e 0,4% dos notificados anuais, denominados de portadores de tuberculose
multirresistente (TBMR).10
Para esses pacientes, teoricamente sem perspectivas terapêuticas com as drogas programáticas,
a orientação das normas ministeriais, no passado, era de que fossem encaminhados para unidades de
referências sem oferecer a estas unidades recursos e condições para sua atenção e abordagem.
As primeiras tentativas de tratamento acabaram sendo realizadas por programas estaduais,
com maiores e melhores condições. Na segunda metade dos anos de 1980 e início da década de 1990,
surgiram diversas experiências de esquemas alternativos. Associava-se de uma só vez todas as drogas
programáticas, cirurgias de ressecção pulmonares e uso de antigos fármacos não normatizados pelo PNCT, como
a canamicina (KM), ácido-para-aminosalicílico (PAS), tio-semicarbazona (TSCZ) e outros. Foram testadas
a clofazenina (CFZ), usada no tratamento da hanseníase, a amicacina (AM) e, mais recentemente, as
novas quinolonas. A efetividade dos esquemas tomava como base a cura ou mesmo a sobrevida maior
que a encontrada entre os que evoluíam sem tratamento
alternativo.11,12,13
Em 1995, o Centro de Referência "Professor Hélio Fraga" do Ministério da Saúde
(CRPHF/MS), Rio de Janeiro (RJ), organizou um protocolo nacional com esquema associando AM, levofloxacino (LFX),
terizidona (TRZ), CFZ e E, se ainda sensível. O esquema foi testado em três centros de referências, entre 1995 e
1997, com taxas de eficácia/efetividade razoáveis (n=187 56/48), quando confrontados com estudos
internacionais.14
Em 2000, no CRPHF, teve início o Programa de Vigilância Epidemiológica de TBMR; em
2004, um convênio com a associação civil brasileira sem fins lucrativos "Projeto MSH" (Management Sciences
for Health), com recursos financiados pela United States Agency for International Development (Usaid),
garantiu o financiamento das drogas alternativas. Um guia de vigilância epidemiológica de TBMR foi
elaborado condensando o conhecimento acumulado no País, estabelecendo normas para o diagnóstico,
tratamento, prevenção e biosegurança, orientações para a vigilância epidemiológica, formação de recursos humanos
e provisão de recursos materiais para execução do programa. Foi instituído um sistema de notificação
específico para a TBMR, aplicado
nacionalmente.15
Estudos posteriores e revisão de notificados na rotina acabaram por apresentar números bem
menores dos estimados, com variações regionais diferenciadas pela situação socioeconômicas e qualidade do
programa local, e por uma provável subnotificação pela baixa oferta da cultura e testes de
sensibilidade15 (Figura 3).
Figura 3. Casos de TBMR no Brasil 1994-2006 (n = 2.632 casos; incidência anual média = 75.000).
O esquema alternativo atual para os portadores de TBMR usado no País, dentro desse programa,
é AM (ou S, se sensível) por 12 meses; OFX, TRZ e E (se sensível) por 18 meses; e Z (se sensível) por
6 meses. Alguns serviços usam, ao invés da Z, o metronidazol (MTZ), por 18 meses. As taxas de cura
variam entre 62% a 85%, com o abandono entre 5% e 7%; a falência entre 10% e
15%; enquanto o óbito
decresceu de 33% para 11%, dependendo do maior ou menor grau de organização e qualidade do
atendimento.15,16
Os casos de TBMR são majoritariamente pós-primários
(de 74% a 80%), sendo os primários
em torno de 6% a 8%, especialmente entre contatos e grupos de risco (conscritos, moradores de rua,
profissionais de saúde e outros com alta exposição) e de 11% a 20% indeterminados (ausência de informações
capazes de estabelecer a grupo). No País, a ocorrência de TBMR entre coinfectados pelo
HIV é baixa, entre 1,6%
e 3%. Não se pode afirmar se há uma tendência a manter esse número ou se deve aumentar a ocorrência
ou mesmo que não exista uma
subnotificação.15,16,17
A grande maioria dos casos apresenta lesões pulmonares
bilaterais (cerca de 80%), o que
inviabiliza condutas cirúrgicas de rotina, sejam associadas ao tratamento ou higiênicas para prevenir recidiva, como
propõem alguns cirurgiões brasileiros.18
Casos de TB super-resistentes (TB-XDR), com resistência a duas drogas usuais e três
alternativas, observados a partir de 2000, vêm sendo encontrados no Brasil. As baixas ofertas de testes de
sensibilidade (TS), em especial para drogas alternativas, dificultam a seleção dessas formas da doença.
No Instituto Clemente Ferreira -órgão da Coordenadoria de
Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de são Paulo (CCD/SES-SP)-, que conta com TS automatizados e tem convênios com serviços
que avaliam a resistência pela concentração mínima inibitória (CIM) em meio líquido e leitura pela técnica
de Alamar-Blue, um levantamento recente documentou 34 casos resistentes a quinolonas, sendo 16
resistentes a AM e 18 a S. Tratados com o esquema alternativo indicado para TBMR, apresentaram 9 curas e
25 falências, entre as quais 17 óbitos. Um dado alarmante foi o encontro de três casos de TB-XDR primários,
um indício de que bacilos super-resistentes podem estar circulando em nosso meio e não apenas
sendo produzidos por erros terapêuticos.19,20
As alterações do sistema de tratamento no Brasil em 2010
O Brasil, com base em revisão da evolução da resistência primária e pós-primária, decidiu
modificar o seu sistema de tratamento no início de 2010.
Foram considerados, além dos aumentos da taxa de resistência à H e indicativos de
progressiva elevação da resistência associada à R+H, a multirresistência em coinfectados
TB-HIV/Aids; o aumento
da longevidade populacional com estoque de TB-latente selecionado nas décadas de 1930 e 1940 com
muitas populações bacilares que venceram a principal dupla usada no tratamento
(S+H); os 30 anos de uso da R
e o seu natural desgaste; e a necessidade de revisão do esquema de reserva que não apresentou a
efetividade esperada.21,22
As principais alterações foram:
a) Introdução de uma quarta droga, o E, para defender melhor a R, droga de maior poder
esterilizante conhecida até o momento, que permitiu reduzir o tempo de tratamento e garantir uma cura duradoura
da doença.
b) o uso de comprimido único com doses fixas combinadas (CDF), facilitando as tomadas (4
unidades ao invés de 9, se usadas as apresentações disponíveis) e o controle de regime supervisionado.
c) Diminuição das doses, não mais usando doses médias das concentrações mínimas
inibitórias (CMI), porém com dosagem próxima ao mínimo de sua atividade farmacodinâmica. Com isso, poderiam
ser minimizados efeitos adversos das drogas e de suas interações.
d) Modificar os conceitos em uso no País de multirresistência, adotando um entendimento
e nomenclaturas compatíveis com os internacionais. O esquema inicial seria o básico, indicado para os
não tratados e o mesmo esquema aplicado em recidivas, desde que não resistentes
à R e/ou H, que
seriam considerados os multirresistentes (MDR).
e) Alterar o esquema de reserva (antigo E-2) tomando como base e referência a larga experiência do
Brasil no tratamento da então chamada TBMR. Assim, o novo esquema de falência ou para
multirresistência associa a S, Z e E com a levofloxacina (L) e terizidona (T), com tratamento prolongado de 12 para 18 meses.
f) Os casos residuais deste novo sistema, os antigos TBMR, agora denominados de TB
super-resistentes (XMDR-TB), teriam tratamento individualizado e acompanhado em centros de atenção
terciária. Seriam disponibilizadas algumas drogas para montagem desses esquemas, como a amicacina
(AM), a canamicina (KN) e a moxifloxacina
(MOXI)21,22 (Figura 4).
Figura 4. Novo sistema de tratamento da tuberculose no Brasil.
As pressões para alterações eram tais que justificavam, inclusive, mudanças substanciais
dos esquemas e regimes normativos sem estudos prévios, como tradicionalmente ocorreram em todas as
grandes mudanças anteriores.
Para minimizar a ausência de ensaios controlados anteriores, a Nota Técnica do Ministério da
Saúde estabelece três oportunas
recomendações:22
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O processo de implementação do novo sistema de tratamento, bem como a disponibilização das
novas apresentações seguirá um cronograma e uma metodologia de trabalho estabelecida entre o PNCT e
os Estados.
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Serão realizados estudos clínicos para avaliar o impacto desse novo esquema de tratamento no
País.
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Recomenda-se uma organização dos níveis assistenciais nos âmbitos estadual e municipal,
formalizando uma rede integrada de referência e contra-referência
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