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A conquista do anonimato
proporcionada pela terapia antirretroviral vem sendo ameaçada nos últimos
anos, pela ocorrência da lipodistrofia. Numa sociedade onde cada vez mais o
conceito de saúde e de beleza estão associados a um corpo malhado e perfeito,
ser portador de sinais de lipodistrofia é tornar-se objeto de estigma e
preconceito.
A lipodistrofia é uma síndrome
que envolve alterações metabólicas e redistribuição da gordura corporal. Os
distúrbios do metabolismo podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares,
pancreatite aguda, diabetes mellitus, osteoporose e necrose asséptica da cabeça
do fêmur, entre outras manifestações. Embora estas complicações confiram
maior morbidade às pessoas vivendo com HIV/Aids Pessoas Vivendo com HiV (PVHA)
são as alterações corporais que causam maior impacto na qualidade de vida.
A redistribuição da
gordura corporal é caracterizada pela lipoatrofia da face, braços, pernas e nádegas,
e podem estar associadas ou não ao aumento do abdome, da “giba” ou acúmulos
isolados de gordura. Percebida como
um marcador visível que pode revelar o diagnóstico da infecção pelo HIV, a
lipoatrofia facial ocasiona forte impacto psicossocial. Além de interferir na
socialização, abala a auto-estima e pode causar depressão, ameaçar a adesão
e facilitar o abandono do tratamento. A degradação da imagem corporal
acrescenta dificuldades nas relações afetivas e sexuais. Com freqüência as
PVHA são vítimas de discriminação no seu meio social, familiar e
profissional, culminando no isolamento. É comum ocorrer transtornos no trabalho
em decorrência da nova aparência. Adicionalmente a lipoatrofia das nádegas é
motivo de desconforto e dor para permanecer sentado por longo período, além de
sujeitar a área a traumas e ulcerações.
A lipodistrofia não deve, portanto, ser encarada como uma mera questão estética,
e sua abordagem requer uma equipe multiprofissional.
Idealmente, toda a equipe
de assistência deve estar envolvida em sua abordagem, incluindo médicos
infectologistas e dermatologistas e/ou cirurgiões plásticos,enfermeiros, psicólogos,
assistentes sociais, farmacêuticos e nutricionistas. O educador físico,fisioterapeuta
e fonoaudiólogo têm importante papel na prevenção e principalmente na
reabilitação. A intervenção de médicos cardiologistas e endocrinologistas
pode também trazer benefícios significativos ao manejo da síndrome.
As abordagens mais
eficazes para a lipodistrofia têm sido as correções estéticas por meio de
preenchimento facial ou cirurgias plásticas reparadoras, as quais incluem
mamoplastia, implante de próteses de silicone em nádegas e lipoaspiração de
giba e da gordura abdominal. Atividades como exercício físico iniciado
precocemente, visando hipertrofia muscular nos casos de lipoatrofia de membros,
atividade aeróbica para redução de peso e controle das alterações metabólicas
e mudanças do esquema antirretroviral mostram resultados, mas ainda são
limitados para reverter quadros já instalados.
O CRT DST/Aids-SP, sede da
Coordenação Estadual de DST/Aids, iniciou
a realização de preenchimento facial no início de 2005 e desde então temos
observado melhora significativa da qualidade de vida das PVHA, da adesão a Tratamento
Antiretroviral (TARV), elevação da auto-estima e conseqüente resgate da vida
social, afetiva e sexual. Os critérios para acesso incluem a presença de
lipoatrofia facial, avaliada em conjunto pelo médico dermatologista e o
paciente, a situação clínica (inexistência de co-infecções, especialmente
hepatite C crônica, distúrbios hematológicos ou de coagulação) e os
antecedentes de preenchimentos prévios.
Inicialmente o CRT
DST/Aids-SP recebeu pacientes para realização de preenchimento facial,
oriundos de vários serviços do Estado, incluindo a capital. Paralelamente, foi
discutido com os gestores, estratégias para estruturação da rede estadual de
preenchimento facial e de cirurgia plástica reparadora. Dentre elas capacitações
de profissionais, aquisição de equipamentos, disponibilização da substância
de preenchimento e realização de mutirões garantindo o acesso ao procedimento
em regiões onde não estava disponível. Atualmente o estado de São Paulo conta
com 43 serviços de referência para preenchimento facial e 5 hospitais
realizando as cirurgias plásticas reparadoras, Heliópolis, Servidor Público
Estadual, Hospital de Clínicas de Botucatu, Instituto de Infectologia Emílio
Ribas e o HC de Ribeirão Preto.
O CRT DST/Aids-SP ainda é
referência para preenchimento facial de algumas Unidades da cidade de São
Paulo e para outros municípios e, desde fevereiro de 2009, vem realizando
avaliação por infectologista de PVHA para indicação de cirurgia plástica
reparadora e o agendamento para
avaliação dessa cirurgia no Instituto de Infectologia
Emílio Ribas e Servidor Público Estadual. A infraestrutura para a
realização do preenchimento facial é acessível (aquisição de mobiliário,
como cadeira reclinável ou odontológica, outros insumos como anestésico tópico
e cânulas para aplicação). A capacitação de profissionais dermatologistas
e/ou cirurgiões plásticos da rede pública, bem como o polimetilmetacrilato -
substância utilizada para o preenchimento, também são ofertados pelo CRT
DST/Aids-SP.
A abordagem precoce da
lipodistrofia, o desenvolvimento de hábitos de vida que minimizem os riscos,
tais como realização de atividade física e hábitos alimentares equilibrados,
além das terapias de preenchimento e as cirurgias plásticas reparadoras
certamente constituem meios para restaurar a auto-estima, resgatar o anonimato e
a qualidade de vida.
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