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As
primeiras detecções de parasitas em amostras de pacientes foram feitas por
William Leishman, seguido por Charles Donovan, que se valeram da microscopia ótica
para evidenciar formas amastigotas dentro de macrófagos de pacientes acometidos
de febre Dum-dum, na Índia, em 1900. O exame microscópico de esfregaços de
pele, aspirados de tecido linfoide ou de punção de medula ou fígado é
utilizado até hoje como método seguro de busca do patógeno. No entanto, a
sensibilidade desse método é muito baixa e ocasiona um grande número de
falsos negativos.
A
cultura in vitro pode ser obtida pelo
uso de meios de cultura adequados e condições especiais de laboratório; no
entanto, a chance de contaminação é muito alta e nem sempre a multiplicação
do número de parasitas é conseguida. De qualquer forma a observação microscópica
leva apenas à identificação da presença do parasito, mas devido a poucas
diferenças morfológicas é quase impossível a distinção entre as espécies.
Claro, que este procedimento depende de técnico experiente e leva muito tempo.
Além disso, os resultados negativos não são conclusivos. A cultura
bem-sucedida pode, no entanto, produzir material suficiente para testes bioquímicos,
imunológicos e moleculares.
Os
métodos clássicos de identificação de espécies do gênero Leishmania são os perfis de isoenzimas e as reações por anticorpo
monoclonal.1,2 Ambos dependem de organismos em cultura e se baseiam
na expressão fenotípica de características das espécies. O desenvolvimento
das técnicas de anticorpos monoclonais revolucionou a identificação de
organismos do gênero Leishmania.2
Com essa técnica é possível identificar formas em cultura sem que um grande número
de parasitas seja necessário. É possível, por exemplo, identificar parasitas
presentes no intestino de flebótomos infectados sem a necessidade de isolá-los.3
Entretanto, existem limitações no
preparo de anticorpos, e a identificação necessita de um painel de reações
com diferentes anticorpos para resultar confiável. Além disso, existe a
necessidade de se estabelecer a cultura, uma vez que a maioria dos anticorpos
reconhece apenas antígenos presentes em formas promastigotas que não são
expressos em amastigotas.
Na
maioria dos organismos a informação genética está codificada em uma molécula
de DNA. Todos os organismos estão relacionados entre si. Desse modo,
existe uma parte da informação que é comum, enquanto outra parte é única,
exclusiva de cada indivíduo. Assim, uma parte do DNA de cada organismo é sua
marca registrada e não necessariamente está expressa fenotipicamente. Essas
particularidades do DNA vêm sendo exploradas nos últimos anos na identificação
de indivíduos, os já famosos testes de DNA. Ainda por serem relacionadas,
algumas regiões do genoma podem ser utilizadas no estabelecimento de relações
filogenéticas entre os organismos.
Além
da aplicação óbvia em medicina forense, a utilização das novas ferramentas
moleculares pode ser considerada nas doenças infecciosas. O enfoque molecular
levou à identificação de patógenos e consequentemente levou ao
desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico. Esses, por sua vez, levam as
novas formas de tratamento e abrem perspectivas nos estudos de epidemiologia e
ecologia. No contexto das leishmanioses, a introdução de ferramentas de
identificação e diagnóstico de Leishmania
vem sendo utilizadas com sucesso já há algum tempo.
A
leitura dos parágrafos anteriores deixa claro que a busca de novos alvos para
identificação de organismo deve se basear em descrever sequências de DNA que
sejam exclusivas do parasito, uma vez que o DNA do hospedeiro vai estar presente
na amostra. Essa exclusividade será responsável pela especificidade do alvo.
Por outro lado, estas sequências não devem ser raras ou pouco abundantes, uma
vez que isso pode prejudicar a sensibilidade de detecção.
A
identificação de sequências de DNA está baseada primeiramente na estrutura
da molécula. O DNA é constituído por desoxiribonucleotídeos monofosfatos
ligados entre si por ligação fosfodiester entre o carbono
3’
da desoxiribose e o fosfato ligado ao carbono
5’
do nucleotídeo adjacente. Essa cadeia covalentemente ligada constituiu uma
fita do DNA. A molécula é formada por duas fitas que interagem entre si pela
formação de pontes de hidrogênio entre bases nitrogenadas dos nucleotídeos
que, por serem hidrofóbicas, se voltam para dentro da molécula. Na manutenção
dessa estrutura é que reside o “segredo da vida”. Ao descreverem esse
modelo de DNA, Watson e Crick4 mostraram que a complementariedade dos
pares de bases, uma de cada fita, ao fazer o pareamento da molécula explicava
como se dá a replicação e a transcrição. Posteriormente, ao se analisar os
mecanismos biológicos do fluxo de informação, verificou-se que a
complementariedade é responsável pela tradução, pela estrutura do ribossomo
conduzida pelo rRNA, pelo processamento do RNA mensageiro entre outros.
Ao
se estudar a estrutura do DNA logo se percebeu que suas características
poderiam ser utilizadas não só para entender como a informação estava
armazenada e o que queria dizer, mas também para comparar organismos e
encontrar peculiaridades que distinguissem os organismos ao mesmo tempo em que
os relacionassem.
Ao
se desnaturar uma molécula de DNA é possível fazer com que as fitas se
renaturem novamente, refazendo as pontes de hidrogênio entre as bases
complementares. Se, de alguma forma, uma das fitas puder ser marcada, ao
reassociar esta servirá de sonda para indicar a fita correspondente.
Como
já mencionado, a escolha do alvo depende de alguns parâmetros, tanto biológicos,
como físico-químicos. Para que uma sequência de DNA possa ser considerada um
marcador molecular, ela deve estar sujeita a tal pressão de seleção na evolução
de organismos de modo que as diferenças apresentadas sejam encontradas em famílias,
gêneros, espécies ou indivíduos, de acordo com o tempo evolutivo da divergência
e com o papel fisiológico do produto da informação da sequência em questão.
Os
primeiros testes que se utilizaram de DNA na identificação de Leishmania
se baseavam na descrição de sondas para hibridação em dot-blot, com DNA
total da amostra. A associação com a aplicação de digestão do DNA com
enzimas de restrição levou à utilização em Southern blot.5-8 No
entanto, pela característica dessas técnicas, essas sondas limitavam os alvos
a sequências de DNA presentes em cópias múltiplas no genoma do parasito. O
aparecimento da técnica de reação em cadeia de amplificação do DNA (PCR)
resolveu o problema e essa passou a ser a técnica de escolha em identificação
utilizando alvos moleculares.9
Em
nosso ataque experimental escolhemos inicialmente sequências que codificam o
RNA ribossômico (rRNA) que são muito conservadas. Essas sequências
demonstraram que podem ser ferramentas poderosas na determinação de relações
filogenéticas entre organismos de diferentes taxa.10,11 No entanto,
as diferenças de nucleotídeos encontradas na sequência que codifica o RNA da
subunidade menor do ribossomo (SSU rRNA) permitiu a distinção limitada entre
espécies de Leishmania,
10,11
apesar de permitir o estabelecimento de grupos distintos.12
Até
então, essa escolha era contraponto à utilização de sequências que
apresentam evolução muito rápida, como aquelas que constituem o DNA de
cinetoplasto (kDNA) ou sequências com espaçadores de mini-exon. Essas sequências
são capazes de distinguirem isolados, mas não produzem grupos de espécies.
Assim, o grau de discriminação entre famílias, gêneros, grupos, espécies,
populações e isolados depende da pressão de seleção a que a sequência alvo
está submetida, que por sua vez depende do papel fisiológico desempenhado pelo
produto codificado, na sobrevivência do organismo.5,6,13-22 A alta
heterogeneidade das sequências de minicírculo de kDNA entre as diferentes espécies
restringe a utilização de determinados pares de “primers” entre isolados
próximos ou apenas permite a identificação de grupos ou isolados de mesma área
ou, por outro lado, apenas de um grande grupo mesmo só de Leishmania
em determinadas situações.
As
sequências que codificam o RNA presente na subunidade menor do ribossomo (SSU-rRNA),
por outro lado, também apresentam em sua organização regiões conservadas e
regiões variáveis, combinação bastante atrativa para PCR. Além disso, esses
genes são multicópias e apresentam alta conservação entre as cópias. Dessa
forma é possível amplificar uma região variável, que é flanqueada por regiões
conservadas, partindo-se dessas para o desenho dos “primers”. A informação
discriminatória contida no segmento variável pode ser acessada por
sequenciamento ou por hibridação, sem que haja o problema de heterogeneidade.23,24,12
Como a função de cada uma das regiões está muito bem estabelecida na formação
do ribossomo, as diferenças de sequência são muito informativas tanto para a
identificação como para o estabelecimento
de relações filogenéticas. De fato, a história evolutiva desse segmento gênico
é tal que permite traçar paralelos desde bactérias até metazoas mais
complexos.10
Como
as sequências conservadas estão presentes em todas as espécies do gênero,
esse tipo de enfoque leva vantagens sobre os alvos anteriores, uma vez que o
resultado de uma PCR é positivo na presença de organismo, independente da
linhagem, grupo ou mesmo espécie, diminuindo a possibilidade de falsos
negativos, fato mais comum quando há heterogeneidade de sequência, como o que
ocorre em alvos de kDNA ou mini-exon. Em nossa experiência, o método atingiu
100% de correspondência em um estudo pareado com perfil de anticorpos
monoclonais.25 Por outro lado, como as sequências do SSU são muito
conservadas, relações filogenéticas não puderam ser resolvidas com esse
alvo.26
Como
as espécies pertencentes ao subgênero L.
(Viannia) não puderam ser discriminadas pelo alvo SSU, iniciamos um estudo
abordando o gene que codifica a enzima
glicose-6-fosfato desidrogenase, uma das enzimas utilizadas no painel de
isoenzimas.27 Embora sendo um gene de cópia única, os avanços na
produção de enzimas para PCR permitiam aumentar a sensibilidade do método. A
grande vantagem em se utilizar um gene cópia única é a produção de um único
produto de PCR, que facilita a visualização e interpretação da eletroforese.
A utilização de conjunto de “primers” por amostra evita o problema de
falso-negativo. Dessa forma conseguimos ter em uma primeira PCR a resposta de
positividade a amostra, seguida por uma segunda reação que indica se o
organismo é do subgênero L.(Leishmania)
ou L. (Viannia). Nesse caso, uma reação
subsequente indica se o organismo é da espécie L. (V.) braziliensis ou não.
É importante ressaltar que a ocorrência de
diferentes espécies de Leishmania na
mesma área endêmica pode ser distinguida ou mesmo um caso de coinfecção de
um cão com L. (L.) chagasi e T.
evansi.28 Em estudos com diferentes fármacos torna-se interessante saber a qual
espécie pertence o agente infeccioso em relação à resposta apresentada ao fármaco.29
Como
afirmado acima, o aparecimento de novas metodologias de detecção de moléculas
de DNA auxiliam no avanço das técnicas de identificação. Uma dessas novas
metodologias consiste no PCR em tempo real. Essa técnica permite a quantificação
do número de moléculas formadas ao longo da reação de amplificação, o que,
ao se ter uma reação calibrada, permite estimar o número de moléculas
iniciais do alvo. Assim, ao lado da identificação, pela formação do produto
específico, obtida pelo par de “primers” utilizado, consegue-se também a
quantificação do número de parasitos presentes em uma determinada amostra.30
A composição de bases do amplicon pode ser verificada por uma ferramenta do
aparelho que determina a temperatura de fusão do fragmento e assim calcula seu
conteúdo de G+C. Desse modo amplicons diferentes (por exemplo, o mesmo produto
de PCR em espécies que apresentam diferenças de sequência interna e que,
portanto, altera a T’m, podem ser identificados por esse parâmetro). É
interessante ressaltar que todo o processo é automatizado, eliminando a
necessidade de técnico treinado na leitura de padrões de eletroforese de DNA
em géis de agarose. Pela eliminação desse tipo de análise temos também uma
vantagem muito interessante em laboratórios que trabalham com DNA e PCR, que
consiste na redução de manipulação de produtos de PCR e, portanto, diminuem
drasticamente a chance de contaminação de amostras.
Evidentemente,
todos os avanços metodológicos que levam à identificação mais específica e
sensível promovem progresso em áreas correlatas no estudo daleishmaniose, como
a epidemiologia e a ecologia. Assim, pela aplicação das técnicas de maneira
isolada, ou em conjunto, foi possível implicar como hospedeiros silvestres de Leishmania
(V.) braziliensis roedores como
Bolomys e Rattus.31
Um
último comentário se faz necessário neste momento. A identificação por técnicas
que envolvem moléculas de DNA ou RNA apresenta uma limitação quanto à
qualidade da amostra inicial. Claro que a riqueza de parasitos auxilia na
sensibilidade de qualquer método, uma vez que os testes devem ser considerados
como diretos, já que detectam a presença do parasito na amostra.
Ambos,
DNA e RNA, este último em maior intensidade, sofrem lise quando a amostra não
é bem conservada. Desse modo, é fundamental que a amostra seja preservada
desde da
sua coleta até a chegada ao laboratório onde será processada. Para
obtenção de DNA, o recomendado é EDTA (quelante de metal que inibe DNase) e
para RNA recomenda-se coletar a amostra já em tampão de extração
(normalmente kit de Trizol, que contém alta concentração de inibidores de
RNses). Em reações de amplificação, quanto maior for o tamanho do amplicon
mais sensível será a reação à um DNA de baixa qualidade. A presença de
inibidores teciduais, tal como hemina, também deve ser levada em consideração,
assim como sais que ficam como resíduos nos processos de extração e aumentam
a força iônica da solução na qual ocorre a reação, alterando
indiretamente, o ótimo de temperaturas de associação, além de inibir a Taq
polimerase.
AGRADECIMENTOS
Deixo expressa a minha
gratidão a todos os colaboradores que, em algum momento, participaram
ativamente da busca por alvos para identificação de Leishmania
e aos órgãos financiadores Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (FAPESP) e Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelas bolsas e auxílios.
Nota: Artigo referente à palestra apresentada no II Fórum de Discussão da Sociedade Paulista de Parasitologia: leishmaniose visceral americana, situação atual e perspectivas futuras. Organizado por Regina M. B. Franco, da Sociedade Paulista de Parasitologia, Vera L. F. de Camargo-Neves e Cecília Abdalla, da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o evento foi realizado em 3 de julho de 2007, no auditório Luiz Mussolino
(SES-SP).
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