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RESUMO
No
período entre maio de 2008 e abril de 2009, foi realizada pesquisa que visava
conhecer os voluntários dos hospitais públicos estaduais de São Paulo, suas
atividades, suas motivações e seu perfil. Este trabalho apresenta o perfil dos
1.243 voluntários que atuam em 25 hospitais públicos (administração direta)
da Grande São Paulo. No que se refere ao sexo, a maioria dos voluntários (89%)
é constituída por mulheres. Quanto à idade, 71% deles têm mais de 46 anos,
dos quais 48% estão acima dos 56 anos. Há uma grande variabilidade no que diz
respeito à renda familiar. No que tange ao tempo de atuação (em número de
anos) em atividades voluntárias, 58% estão exercendo-as há mais de dois anos,
sendo 32% há mais de cinco anos. Quanto ao número de horas dedicado
ao trabalho voluntário, 58% dedicam de 1 a 5 horas semanais e 22%, de 6 a 10 horas. Em síntese, como características gerais,
entre os 1.243 voluntários pesquisados observa-se: a) predominância de mulheres da terceira idade; b)
grande variabilidade no que diz respeito à renda familiar dos voluntários,
indicando a existência de um amplo leque de motivações para a atividade
voluntária: c) tendência a que o voluntário se mantenha constante em sua
atividade; d) exercício de número de horas adequado de atividade voluntária
pela maior parte dos voluntários. PALAVRAS-CHAVE: Voluntários. Voluntariado. Atividade voluntária. Perfil do voluntário.
Hospitais públicos. Hospitais estaduais.
ABSTRACT
During the period comprised
between May, 2008 and April, 2009, a research was performed regarding a better
knowledge of the volunteers working in public hospitals of the State, their
activities, what motivated them and their profile. This paper presents the profile
of the 1243 volunteers working in 25 public hospitals managed by the State (direct
administration) at the Region of Greater São Paulo. Regarding sex, the majority of
the volunteers (89%) is female. Regarding age, 71% of them are over 46 years of
age, and 48% are over 56 years old. Family income is widely varied. Regarding time of work (in years),
in volunteer activities, 58% are working for more than two years, and 32% are
working for more than five years. Regarding the amount of hours
dedicated to volunteer work, 38% dedicate 1 to 5 hours a week and 22% from 6 to
10 hours. In short, as a general
characteristic of the 1243 volunteers researched, it is possible to observe: a)
a predominance of elderly women; b) great variation regarding family income of
the volunteers, indicating the existence of a wide range of motivation that
leads to voluntary activity; c) a tendency that the volunteer is constant in
the job; d) adequate number of hours dedicated to voluntary activity by most of
the volunteers.
KEY WORDS: Volunteers; voluntary; voluntary activity; profile of the volunteer;
public hospitals; state hospitals.
Em 2005, pesquisadores do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São
Paulo (IS/SES-SP), integrantes da linha de pesquisa "Humanização em saúde", propuseram-se
a estudar o material apresentado no I Encontro Estadual de Ações de Humanização,
realizado pela SES-SP em dezembro de 2004, para o qual os serviços de saúde foram convidados
a encaminhar resumos sobre suas experiências. O objetivo da pesquisa foi o de descrever
ações de humanização que vinham sendo implementadas no âmbito da Secretaria e verificar, a
partir de experiências relatadas, como os serviços vinham "traduzindo", no seu cotidiano, as
diretrizes da política de humanização desenvolvida órgão.
Foram analisadas informações contidas nos resumos enviados por 197
serviços que
descreviam ações de humanização
desenvolvidas.1 Dentre os vários dados obtidos, um deles chamou
a atenção: 11% das ações de humanização estavam sob a responsabilidade de voluntários.
Em função desse dado, indicativo de que os voluntários respondem por importante parcela
das ações de humanização, as autoras da presente comunicação se propuseram a estudar o
tema do voluntariado no âmbito dos hospitais públicos da Grande São Paulo, elaborando o projeto
de pesquisa "Humanização e voluntariado: um estudo nos hospitais públicos da Grande São
Paulo", sob coordenação da primeira autora.
Os objetivos da pesquisa foram:
-
caracterizar o perfil sóciodemográfico dos voluntários;
-
conhecer a vinculação entre o voluntariado e os Grupos de Trabalho em
Humanização (GTH) existentes em cada hospital;
-
identificar as atividades desenvolvidas no cotidiano do voluntariado; e
-
compreender as motivações e os valores dos voluntários a respeito de suas atividades.
Quanto ao método, foram utilizados dois instrumentos: um roteiro de entrevista
semiestruturada (para obtenção de informações e percepções dos voluntários a respeito de seu
papel, suas motivações e atividades) e um questionário (para obtenção dos dados sociodemográficos).
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde, em
17/09/2007. O estudo foi desenvolvido de acordo com as diretrizes e normas regulamentadas
para pesquisas com seres humanos, contidas na Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996,
do Conselho Nacional de Saúde. Foi elaborado um Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido para apresentação aos entrevistados.
O projeto foi apresentado, em 2008, para duas instâncias da Secretaria de Estado da
Saúde de São Paulo: Coordenadoria de Recursos Humanos (CRH) e Coordenadoria de Serviços
de Saúde (CSS), para consolidar a parceria com as duas Coordenadorias, que deram
sugestões de encaminhamento e viabilizaram o contato com os hospitais.
Em maio de 2008, foi realizada
reunião de apresentação do projeto, à qual compareceram a coordenadora da pesquisa,
as pesquisadoras participantes, a interlocutora de humanização da
CSS, a coordenadora
do Comitê de Humanização da CRH e mais 44 participantes, entre diretores
e representantes da direção dos hospitais, coordenadores de voluntários e voluntários. Antes
da apresentação do projeto, todos os participantes se apresentaram e mostraram vivo
interesse por conhecer os detalhes da pesquisa, realçando, em seus comentários, a necessidade de
que o voluntariado dos hospitais públicos tivesse maior visibilidade dentro da própria
SES. A
partir desse encontro, foram realizados os agendamentos para a coleta de dados, realizada
entre maio de 2008 e abril de 2009.
Nesta comunicação, apresentamos os dados sobre algumas características
sociodemográficas dos 1.243 voluntários que exercem atividades nas 25 instituições estudadas
(hospitais, maternidades e centros de referência na Grande São Paulo, todos da administração
direta). Esses dados referem-se a: sexo, idade, renda familiar, tempo de trabalho como voluntário
e número de horas semanais de atividade voluntária.
No que diz respeito ao sexo, os resultados mostraram que 89% são mulheres e 11%
são homens. Esses dados estão em consonância com a literatura internacional sobre o
voluntariado,2 que aponta um nítido predomínio do sexo feminino. A história do voluntariado mostra
que, antigamente, antes de as mulheres se inserirem mais intensamente no mercado de trabalho,
a atividade voluntária era uma forma de elas (especialmente as esposas de médicos) terem
uma atividade significativa e um status fora do lar. Suas atividades principais eram angariar
fundos, organizar jantares e eventos
beneficentes.3,4 As características do voluntariado têm
mudado, mas a tendência de que, nos hospitais, as mulheres estejam ainda em maior número
pode estar relacionada com o que HANDY e
cols.5 denominam de soft
services, que seriam serviços típicos de um perfil
feminino, com foco no cuidado, no conforto, no bem-estar emocional e na redução
da ansiedade de pacientes e familiares, o que é buscado e valorizado pelos hospitais. No que tange à idade dos voluntários, a Figura 1 mostra sua distribuição, revelando o
predomínio de pessoas mais velhas. Conforme HENDRICKS e
CUTLER6 e WINDSOR e cols.,7 as pessoas
mais velhas tendem a fazer, na terceira idade, uma repriorização de suas metas, colocando
grande importância em experiências emocionalmente significativas mais do que em
experiências relacionadas a perseguir conquistas materiais e financeiras. Assim, engajar-se em
atividades voluntárias pode ser uma forma de atingir esses objetivos. Além disso, pessoas mais
velhas habitualmente já viveram situações de perdas e luto, que são um dos motivos para a busca
da atividade voluntária, como forma de elaboração e superação de situações penosas.

Figura 1. Distribuição
por idade dos voluntários dos hospitais públicos da Grande São Paulo.
WILSON2 ressalta o fato de que o voluntariado pode ser oportunidade de integração
social, substituindo as relações pessoais nas situações em que não existe mais, na vida da pessoa,
o trabalho ou o casamento. Por outro lado, a maturidade tende a ser um elemento de
caráter positivo para o papel de voluntário, que faz com que os hospitais prefiram pessoas mais
velhas em seu quadro de voluntários. SOUZA e
LAUTERT8 referem que o trabalho voluntário pode
ser uma boa alternativa para a saúde da terceira idade e consideram positiva a atitude de
estimular pessoas mais velhas a serem voluntárias, pois essa atividade pode contribuir para a
promoção da saúde das mesmas. Como contraponto à predominância de pessoas de faixa etária mais elevada, chamou a
atenção o fato de que 14% dos voluntários têm menos de 35 anos. Quanto à inserção dos jovens
nas atividades voluntárias, possivelmente isto se deve à ênfase, em nossa cultura atual,
nos valores de cidadania e solidariedade
crítica,9 que abarcam motivações provenientes da
percepção da realidade social e da capacidade de discernir as dimensões social e política presentes
na relação solidária. Por outro lado, coordenadores de voluntariado relataram que alguns
jovens procuram a atividade voluntária como forma de aprimorar seu currículo, já que muitas
empresas privadas, instituições públicas e organizações do terceiro setor têm valorizado, na
seleção para preenchimento de vagas de emprego, o fato de o candidato se dedicar ou ter se
dedicado a alguma atividade voluntária.
Sobre a renda familiar, na Figura 2 observa-se expressiva diversidade de faixas de renda,
o que remete a CASTER3 e HANDY e
SRINIVASAN4, que pontuam que a atividade voluntária
não é mais, como antes, prerrogativa de pessoas com nível socioeconômico alto. Essa
diversidade pode ser atribuída a um amplo leque de motivações que
têm levado as
pessoas para a atividade voluntária, como por exemplo: ajudar os outros; ser recompensadas
com gratidão; obter aprovação social; exercer uma obrigação civil; construir um sentido para
a própria vida; participar de um grupo social; exercitar habilidades não utilizadas
habitualmente; e buscar a concretização de valores
religiosos.10
*sm = salário mínimo
Figura 2. Distribuição
por renda familiar dos voluntários dos hospitais públicos da Grande São Paulo.
Na Figura 3, que mostra a distribuição por tempo de trabalho como voluntário, observa-se
que 58% dos voluntários estão exercendo a atividade há mais de dois anos. Autores
que estudam questões referentes à gestão do voluntariado, tais como HANDY e
cols.,5 referem que a rotatividade de voluntários é um fenômeno comum nas instituições; ressaltam também
que uma alta rotatividade tende a ser contraproducente, aumentando os custos (relacionados
a recrutar, selecionar e treinar voluntários) e causando impacto negativo no programa
de voluntariado da instituição. Embora os coordenadores de voluntários tenham se referido
à rotatividade nos hospitais, os dados desta pesquisa mostraram uma importante tendência
à adesão dos voluntários à sua atividade.

Figura 3. Distribuição
por tempo de trabalho como voluntário em hospitais públicos
da Grande São Paulo.
A Figura 4 mostra o número de horas semanais dedicadas à atividade voluntária,
revelando que expressiva fatia da população pesquisada (80%) utiliza, no máximo, dez horas
semanais para a atividade voluntária. Quanto a esse tema, é importante ressaltar que, embora a
atividade voluntária seja propiciadora de uma melhora no que diz respeito ao bem estar, saúde mental
e qualidade de vida do
voluntário,11,12 por se tratar de situação em que o foco é dirigido
para outros, desviando de possíveis ansiedades e preocupações próprias, os benefícios da
atividade podem ser anulados por um excesso de tempo nessa
atividade.7 O estudo de WINDSOR e
cols.,7 que correlacionou número de horas de atividade voluntária e bem-estar físico e
mental, concluiu que o número razoável de horas de atividade por semana está entre 4 e 16
horas. Assim, observa-se que a maioria dos voluntários dos hospitais pesquisados preenche o
requisito recomendado pela literatura especializada.

Figura 4. Distribuição por número
de horas/semana de atividade voluntária em hospitais públicos
da Grande São Paulo.
Em síntese, como características gerais dos 1.243 voluntários dos 25 hospitais
pesquisados, observa-se: a) predominância de mulheres da terceira idade;
b) grande variabilidade no que diz respeito à renda familiar dos voluntários, indicando a existência de um amplo leque
de motivações para a atividade voluntária; c) tendência a que o voluntário se mantenha
constante em sua atividade; d) exercício de número de horas adequado de atividade voluntária
pela maior parte dos voluntários.
Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp).
Brasil.
Proc-07/51663-9.
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