Bepa Outubro 2009; 6(70) ISSN 1806-4272
COMUNICAÇÕES RÁPIDAS


Maria Cezira Fantini Nogueira-Martins; Ana Aparecida Sanches Bersusa; Siomara Roberta Siqueira

Instituto de Saúde. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil



RESUMO

No período entre maio de 2008 e abril de 2009, foi realizada pesquisa que visava conhecer os voluntários dos hospitais públicos estaduais de São Paulo, suas atividades, suas motivações e seu perfil. Este trabalho apresenta o perfil dos 1.243 voluntários que atuam em 25 hospitais públicos (administração direta) da Grande São Paulo. No que se refere ao sexo, a maioria dos voluntários (89%) é constituída por mulheres. Quanto à idade, 71% deles têm mais de 46 anos, dos quais 48% estão acima dos 56 anos. Há uma grande variabilidade no que diz respeito à renda familiar. No que tange ao tempo de atuação (em número de anos) em atividades voluntárias, 58% estão exercendo-as há mais de dois anos, sendo 32% há mais de cinco anos. Quanto ao número de horas dedicado ao trabalho voluntário, 58% dedicam de 1 a 5 horas semanais e 22%, de 6 a 10 horas. Em síntese, como características gerais, entre os 1.243 voluntários pesquisados observa-se: a) predominância de mulheres da terceira idade; b) grande variabilidade no que diz respeito à renda familiar dos voluntários, indicando a existência de um amplo leque de motivações para a atividade voluntária: c) tendência a que o voluntário se mantenha constante em sua atividade; d) exercício de número de horas adequado de atividade voluntária pela maior parte dos voluntários.

PALAVRAS-CHAVE: Voluntários. Voluntariado. Atividade voluntária. Perfil do voluntário. Hospitais públicos. Hospitais estaduais.


ABSTRACT

During the period comprised between May, 2008 and April, 2009, a research was performed regarding a better knowledge of the volunteers working in public hospitals of the State, their activities, what motivated them and their profile. This paper presents the profile of the 1243 volunteers working in 25 public hospitals managed by the State (direct administration) at the Region of Greater São Paulo. Regarding sex, the majority of the volunteers (89%) is female. Regarding age, 71% of them are over 46 years of age, and 48% are over 56 years old. Family income is widely varied. Regarding time of work (in years), in volunteer activities, 58% are working for more than two years, and 32% are working for more than five years. Regarding the amount of hours dedicated to volunteer work, 38% dedicate 1 to 5 hours a week and 22% from 6 to 10 hours. In short, as a general characteristic of the 1243 volunteers researched, it is possible to observe: a) a predominance of elderly women; b) great variation regarding family income of the volunteers, indicating the existence of a wide range of motivation that leads to voluntary activity; c) a tendency that the volunteer is constant in the job; d) adequate number of hours dedicated to voluntary activity by most of the volunteers.

KEY WORDS: Volunteers; voluntary; voluntary activity; profile of the volunteer; public hospitals; state hospitals.

Em 2005, pesquisadores do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (IS/SES-SP), integrantes da linha de pesquisa "Humanização em saúde", propuseram-se a estudar o material apresentado no I Encontro Estadual de Ações de Humanização, realizado pela SES-SP em dezembro de 2004, para o qual os serviços de saúde foram convidados a encaminhar resumos sobre suas experiências. O objetivo da pesquisa foi o de descrever ações de humanização que vinham sendo implementadas no âmbito da Secretaria e verificar, a partir de experiências relatadas, como os serviços vinham "traduzindo", no seu cotidiano, as diretrizes da política de humanização desenvolvida órgão.

Foram analisadas informações contidas nos resumos enviados por 197 serviços que descreviam ações de humanização desenvolvidas.1 Dentre os vários dados obtidos, um deles chamou a atenção: 11% das ações de humanização estavam sob a responsabilidade de voluntários.

Em função desse dado, indicativo de que os voluntários respondem por importante parcela das ações de humanização, as autoras da presente comunicação se propuseram a estudar o tema do voluntariado no âmbito dos hospitais públicos da Grande São Paulo, elaborando o projeto de pesquisa "Humanização e voluntariado: um estudo nos hospitais públicos da Grande São Paulo", sob coordenação da primeira autora.

Os objetivos da pesquisa foram:

  • caracterizar o perfil sóciodemográfico dos voluntários;

  • conhecer a vinculação entre o voluntariado e os Grupos de Trabalho em Humanização (GTH) existentes em cada hospital;

  • identificar as atividades desenvolvidas no cotidiano do voluntariado; e

  • compreender as motivações e os valores dos voluntários a respeito de suas atividades.

Quanto ao método, foram utilizados dois instrumentos: um roteiro de entrevista semiestruturada (para obtenção de informações e percepções dos voluntários a respeito de seu papel, suas motivações e atividades) e um questionário (para obtenção dos dados sociodemográficos).

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde, em 17/09/2007. O estudo foi desenvolvido de acordo com as diretrizes e normas regulamentadas para pesquisas com seres humanos, contidas na Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde. Foi elaborado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para apresentação aos entrevistados.

O projeto foi apresentado, em 2008, para duas instâncias da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo: Coordenadoria de Recursos Humanos (CRH) e Coordenadoria de Serviços de Saúde (CSS), para consolidar a parceria com as duas Coordenadorias, que deram sugestões de encaminhamento e viabilizaram o contato com os hospitais.

Em maio de 2008, foi realizada reunião de apresentação do projeto, à qual compareceram a coordenadora da pesquisa, as pesquisadoras participantes, a interlocutora de humanização da CSS, a coordenadora do Comitê de Humanização da CRH e mais 44 participantes, entre diretores e representantes da direção dos hospitais, coordenadores de voluntários e voluntários. Antes da apresentação do projeto, todos os participantes se apresentaram e mostraram vivo interesse por conhecer os detalhes da pesquisa, realçando, em seus comentários, a necessidade de que o voluntariado dos hospitais públicos tivesse maior visibilidade dentro da própria SES. A partir desse encontro, foram realizados os agendamentos para a coleta de dados, realizada entre maio de 2008 e abril de 2009.

Nesta comunicação, apresentamos os dados sobre algumas características sociodemográficas dos 1.243 voluntários que exercem atividades nas 25 instituições estudadas (hospitais, maternidades e centros de referência na Grande São Paulo, todos da administração direta). Esses dados referem-se a: sexo, idade, renda familiar, tempo de trabalho como voluntário e número de horas semanais de atividade voluntária.

No que diz respeito ao sexo, os resultados mostraram que 89% são mulheres e 11% são homens. Esses dados estão em consonância com a literatura internacional sobre o voluntariado,2 que aponta um nítido predomínio do sexo feminino. A história do voluntariado mostra que, antigamente, antes de as mulheres se inserirem mais intensamente no mercado de trabalho, a atividade voluntária era uma forma de elas (especialmente as esposas de médicos) terem uma atividade significativa e um status fora do lar. Suas atividades principais eram angariar fundos, organizar jantares e eventos beneficentes.3,4 As características do voluntariado têm mudado, mas a tendência de que, nos hospitais, as mulheres estejam ainda em maior número pode estar relacionada com o que HANDY e cols.5 denominam de soft services, que seriam serviços típicos de um perfil feminino, com foco no cuidado, no conforto, no bem-estar emocional e na redução da ansiedade de pacientes e familiares, o que é buscado e valorizado pelos hospitais.

No que tange à idade dos voluntários, a Figura 1 mostra sua distribuição, revelando o predomínio de pessoas mais velhas. Conforme HENDRICKS e CUTLER6 e WINDSOR e cols.,7 as pessoas mais velhas tendem a fazer, na terceira idade, uma repriorização de suas metas, colocando grande importância em experiências emocionalmente significativas mais do que em experiências relacionadas a perseguir conquistas materiais e financeiras. Assim, engajar-se em atividades voluntárias pode ser uma forma de atingir esses objetivos. Além disso, pessoas mais velhas habitualmente já viveram situações de perdas e luto, que são um dos motivos para a busca da atividade voluntária, como forma de elaboração e superação de situações penosas.


Figura 1
. Distribuição por idade dos voluntários dos hospitais públicos da Grande São Paulo.

WILSON2 ressalta o fato de que o voluntariado pode ser oportunidade de integração social, substituindo as relações pessoais nas situações em que não existe mais, na vida da pessoa, o trabalho ou o casamento. Por outro lado, a maturidade tende a ser um elemento de caráter positivo para o papel de voluntário, que faz com que os hospitais prefiram pessoas mais velhas em seu quadro de voluntários. SOUZA e LAUTERT8 referem que o trabalho voluntário pode ser uma boa alternativa para a saúde da terceira idade e consideram positiva a atitude de estimular pessoas mais velhas a serem voluntárias, pois essa atividade pode contribuir para a promoção da saúde das mesmas.

Como contraponto à predominância de pessoas de faixa etária mais elevada, chamou a atenção o fato de que 14% dos voluntários têm menos de 35 anos. Quanto à inserção dos jovens nas atividades voluntárias, possivelmente isto se deve à ênfase, em nossa cultura atual, nos valores de cidadania e solidariedade crítica,9 que abarcam motivações provenientes da percepção da realidade social e da capacidade de discernir as dimensões social e política presentes na relação solidária. Por outro lado, coordenadores de voluntariado relataram que alguns jovens procuram a atividade voluntária como forma de aprimorar seu currículo, já que muitas empresas privadas, instituições públicas e organizações do terceiro setor têm valorizado, na seleção para preenchimento de vagas de emprego, o fato de o candidato se dedicar ou ter se dedicado a alguma atividade voluntária.

Sobre a renda familiar, na Figura 2 observa-se expressiva diversidade de faixas de renda, o que remete a CASTER3 e HANDY e SRINIVASAN4, que pontuam que a atividade voluntária não é mais, como antes, prerrogativa de pessoas com nível socioeconômico alto. Essa diversidade pode ser atribuída a um amplo leque de motivações que têm levado as pessoas para a atividade voluntária, como por exemplo: ajudar os outros; ser recompensadas com gratidão; obter aprovação social; exercer uma obrigação civil; construir um sentido para a própria vida; participar de um grupo social; exercitar habilidades não utilizadas habitualmente; e buscar a concretização de valores religiosos.10


*sm = salário mínimo
Figura 2
. Distribuição por renda familiar dos voluntários dos hospitais públicos da Grande São Paulo.

Na Figura 3, que mostra a distribuição por tempo de trabalho como voluntário, observa-se que 58% dos voluntários estão exercendo a atividade há mais de dois anos. Autores que estudam questões referentes à gestão do voluntariado, tais como HANDY e cols.,5 referem que a rotatividade de voluntários é um fenômeno comum nas instituições; ressaltam também que uma alta rotatividade tende a ser contraproducente, aumentando os custos (relacionados a recrutar, selecionar e treinar voluntários) e causando impacto negativo no programa de voluntariado da instituição. Embora os coordenadores de voluntários tenham se referido à rotatividade nos hospitais, os dados desta pesquisa mostraram uma importante tendência à adesão dos voluntários à sua atividade.


Figura 3
. Distribuição por tempo de trabalho como voluntário em hospitais públicos da Grande São Paulo.

A Figura 4 mostra o número de horas semanais dedicadas à atividade voluntária, revelando que expressiva fatia da população pesquisada (80%) utiliza, no máximo, dez horas semanais para a atividade voluntária. Quanto a esse tema, é importante ressaltar que, embora a atividade voluntária seja propiciadora de uma melhora no que diz respeito ao bem estar, saúde mental e qualidade de vida do voluntário,11,12 por se tratar de situação em que o foco é dirigido para outros, desviando de possíveis ansiedades e preocupações próprias, os benefícios da atividade podem ser anulados por um excesso de tempo nessa atividade.7 O estudo de WINDSOR e cols.,7 que correlacionou número de horas de atividade voluntária e bem-estar físico e mental, concluiu que o número razoável de horas de atividade por semana está entre 4 e 16 horas. Assim, observa-se que a maioria dos voluntários dos hospitais pesquisados preenche o requisito recomendado pela literatura especializada.


Figura 4
. Distribuição por número de horas/semana de atividade voluntária em hospitais públicos da Grande São Paulo.

Em síntese, como características gerais dos 1.243 voluntários dos 25 hospitais pesquisados, observa-se: a) predominância de mulheres da terceira idade; b) grande variabilidade no que diz respeito à renda familiar dos voluntários, indicando a existência de um amplo leque de motivações para a atividade voluntária; c) tendência a que o voluntário se mantenha constante em sua atividade; d) exercício de número de horas adequado de atividade voluntária pela maior parte dos voluntários.

 


Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Brasil.
Proc-07/51663-9.

REFERÊNCIAS

  1. Nogueira-Martins MCF, Bersusa AAS, Silva AL, Conversani DTN, Souza SR, Venâncio SI. Traduzindo a política de humanização nos serviços. BIS. 2005;36:27-30.
  2. Wilson J. Volunteering. Annual Review of Sociology 2000; 26:215-240.
  3. Caster JJ. A new direction in women's philanthropy. NVSQ. 2008;37(2):353-61.
  4. Handy F, Srinivasan N. The demand for volunteer labor: a study of hospital volunteers. NVSQ. 2005;34(4):491-509.
  5. Handy F, Mound R, Vaccaro LM, Prochaska K. Promising practices for volunteer administration in hospitals. Toronto, Canadian Centre for Philanthropy, 2004.
  6. Hendricks J, Cutler SJ. Volunteerism and socioemotional selectivity in later life. J Gerontol B Psychol Sci Soc Sci. 2004;59:S251-S7.
  7. Windsor TD, Anstey KJ, Rodgers B. Volunteering and psychological well-being among young-old adults: how much is too much? Gerontologist. 2008;48:59-70.
  8. Souza LM, Lautert L. Trabalho voluntário: uma alternativa para a promoção da saúde de idosos. Rev Esc Enferm USP. 2008;42(2):363-370.
  9. Selli L, Garrafa V. Bioética, solidariedade crítica e voluntariado orgânico. Rev Saúde Pública. 2005;39(3):473-8.
  10. Blanchard JA. Hospital volunteers: a qualitative study of motivation. IJOVA.2006;24(2):31-40.
  11. Musick MA, Wilson J. Volunteering and depression: the role of psychological and social resources in different age groups.Soc Sci Med.2003;50(2):259-69.
  12. Schwartz C, Meisenhelder JB, Reed G. Altruistic social interest behaviors are associated with better mental health. Psychosom Med. 2003;65:778-85.

Correspondência/Correspondence to
Maria Cezira Fantini Nogueira-Martins
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