Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272
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Junho, 2004   Ano 1   Número 6                                                                             retorna
Investigação de Surto de Tuberculose em Instituição Fechada, no
Município de São Paulo — Dados Preliminares

Autoras: Maria Josefa Penon Rujula,
Núcleo de VE da Santa Casa de São Paulo e Divisão de Tuberculose do CVE;
Vera Maria Galesi, Divisão de Tuberculose do CVE


No dia 22 de abril de 2004, o Centro de Saúde Escola (CSE) da Barra Funda notificou ao Núcleo de Vigilância Epidemiológica da Santa Casa de São Paulo seis casos de tuberculose na Instituição Filantrópica Fraternidade Irmã Clara (FIC). No dia 28 de abril, o plantão da Central do Centro de Vigilância Epidemiológica/SES-SP recebeu da Escola Quero-Quero, localizada na Capital, notificação de dois casos de tuberculose em crianças internas na FIC.

A investigação epidemiológica realizada pelo CSE da Barra Funda, Núcleo de Vigilância da Santa Casa, e Divisão de Tuberculose constatou os fatos que se seguem:  
  • Esta instituição filantrópica abriga 36 portadores de paralisia cerebral, com idades que variam de 5 anos a 41 anos, dos quais 30 do sexo feminino e 6 do sexo masculino;  
  • A área física que abriga estas crianças é inadequada, estando situada sob o viaduto do Pacaembu e contando com “enfermaria” única, que mede cerca de 150 m2. Neste espaço com ventilação e insolação precárias, os pacientes dormem e permanecem maior tempo.

Em setembro de 2003, na Santa Casa de São Paulo, foi diagnosticada tuberculose em P.N.S., de 13 anos, abrigada naquela Instituição. Como a criança não compareceu ao retorno de consulta no CSE, o serviço foi até à FIC, recebendo da médica da instituição a informação de que havia um voluntário, B.C.S., em tratamento de tuberculose desde 23/9/2003, porém com sintomas respiratórios desde junho de 2003. Naquela ocasião, por orientação do Núcleo da Santa Casa e do CVE, foi realizada busca ativa de sintomáticos respiratórios entre os funcionários, bem como investigados sintomas, situação vacinal e solicitado RX de tórax dos pacientes internados, o que, contudo, não foi realizado em todos.

Por sugestão da Vigilância Epidemiológica do Município de São Paulo (Suvis Sé), que visitou a instituição em 5/11/2003, e realizou teste tuberculínico em todos os internos. Não foi possível obter informações detalhadas, porém relatou-se que não foi constatado, naquela ocasião, nenhum outro caso de tuberculose na instituição.

O voluntário fez tratamento auto-administrado, tendo recebido alta cura sem baciloscopia de controle. Não há informações precisas sobre o tratamento de P.N.S., exceto que no sexto mês de tratamento a baciloscopia de controle foi positiva (+++). A Suvis Sé, o Núcleo de Vigilância da Santa Casa de São Paulo e o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) solicitaram, então, uma nova busca ativa de sintomáticos respiratórios nos internos e funcionários. O relato dos exames realizados está consolidado no quadro 1.
  

Quadro 1Distribuição dos exames realizados nos pacientes da FIC, segundo iniciais, sexo, idade, data de coleta do exame, resultados de baciloscopia e cultura, de março à abril de 2004.  

Os exames foram realizados no Laboratório da Santa Casa, tendo sido colhidos em manobra de aspiração de secreção. Da mesma forma, foi colhido e encaminhado, para o laboratório municipal da Lapa, material de todos os pacientes positivos, para o qual foi solicitada também a cultura. Os resultados das baciloscopias foram todos negativos e são aguardados os resultados das culturas.

Assim, conforme descrito no quadro 2, recomendou-se iniciar tratamento de tuberculose para nove pacientes, com base nos resultados das primeiras baciloscopias e laudos de exame radiológico. Estes casos estão sendo discutidos por uma equipe, que inclui as seguintes Instituições: CVE, Divisão de Tuberculose, Núcleo de Vigilância da Santa Casa, Suvis Sé e o CCD - Coordenação de Tuberculose do município de São Paulo, CSE da Barra Funda e o Departamento de Pneumologia do Hospital das Clínicas.

Não foi confirmado nenhum caso entre os funcionários até o momento.

Quadro 2Distribuição dos casos de tuberculose, segundo idade, sexo, resultados de exames e condutas.

 

Podemos descrever a incidência de casos como: 2 casos em 6 pacientes do sexo masculino (33,3%) e 7 em 30 pacientes do sexo feminino (23,3 %). Ainda que se trate de dados preliminares, os fatos indicam uma situação gravíssima.

Recomendou-se a realização de cultura de secreção e exame radiológico para todos os internos. Nas culturas que forem positivas será realizado RFLP para verificar semelhanças de cepas e possibilitar melhor conhecimento sobre a transmissão.

As recomendações sobre o ambiente físico são complexas, uma vez que a entidade é filantrópica e não tem recursos financeiros para intervir.

É importante ressaltar, também, que o resultado das culturas, ainda em análise, permitirá ampliar a compreensão do presente surto.


Agência Paulista de Controle de Doenças