|
A
Leishmaniose Visceral Americana (LVA), no Estado de São Paulo, até
1998 era conhecida pela detecção de casos importados, oriundos de
outras regiões endêmicas do país. A partir daquele ano,
registrou-se a enzootia canina no município de Araçatuba, região
Oeste do Estado, no qual foi identificado, por meio de técnicas
moleculares, a ocorrência da Leishmania chagasi. Posteriormente, em 1999, foi registrado o primeiro caso
humano de LVA em São Paulo e, desde então, a doença vem ocorrendo
em municípios situados na região do Planalto Ocidental Paulista, nos
quais a transmissão tem feição exclusivamente urbana. A espécie
envolvida com a transmissão é a Lutzomyia
longipalpis tendo sido registrada
pela primeira vez em área urbana em 1997, no município de Araçatuba
(Camargo-Neves e Katz 1999, Costa et al. 1997, Tolezano et
al. 1999).
A L. Longipalpis, até aquele ano, havia sido detectada apenas em zonas rurais de
municípios situados no Planalto Atlântico Paulista. Esta
espécie foi registrada em zona urbana de 44 municípios da região
Oeste do Estado (figura 1). Até o momento, foi a única espécie
relacionada com os focos de transmissão da doença, embora na Região
Metropolitana de São Paulo a ocorrência da enzootia canina (Tolezano
et al. 2003) leva a supor que outra espécie de flebotomíneo
possa estar envolvida com a transmissão. Entre os flebotomíneos
coletados nos municípios desta região (Cotia, Embu e Itapecerica da
Serra), destacam-se Pintomyia fischeri, Migonemyia migonei e Evandromyia
edwardsi, nesta
última, embora coletada em pequeno número, foram encontradas formas
flageladas no intestino de cinco exemplares coletados em Cotia (Ruiz
& Galati comunicação pessoal). Porém, ainda não foi elucidado o
mecanismo de transmissão nessa região.
Figura 1: Distribuição de Lutzomyia
longipalpis no Estado de São Paulo, 1970 a 2004

Verificou-se que a expansão e a adaptação do
vetor aos ecótopos urbanos vêm ocorrendo lentamente, tendo sido
registrado, inicialmente, em municípios contíguos à Araçatuba e,
depois, naqueles que estabeleceram fluxo migratório de pessoas e
mercadorias com os municípios da região de Araçatuba.
Posteriormente, foi detectada em outras regiões administrativas, como
Bauru, Marília e Presidente Prudente, seguindo pelos grandes eixos
rodoviários e ferroviários.
O ambiente peridomiciliar destaca-se como o
local onde o vetor é encontrado em maior densidade (Rodas et al.
2001). Está relacionado à presença de animais domésticos, sendo
este considerado o local mais importante de criação e de abrigo de
L. longipalpis em área urbanizada (Sherlock 1994). As fêmeas desta
espécie têm demonstrado alta cinofilia, como também antropofilia (Camargo-Neves
et al. 2002), confirmando assim seu papel de vetor da LVA.
Desde a sua primeira detecção em 1999
até maio de 2004, foi registrada em 23 municípios abrangendo as regiões
de Araçatuba, Bauru e, mais recentemente, Marília. Destaca-se a
transmissão em Bauru (a aproximadamente 200 Km do município de Araçatuba),
a partir de 2003, com 18 casos acumulados no período e dois óbitos. Em
2002, a transmissão humana foi verificada em 14 municípios: 13
situados na região de Araçatuba e 1 na de Bauru. Em quatro deles (Avanhadava,
Bilac, Coroados e Promissão) a transmissão foi detectada pela
primeira vez em 2002, e em dois (Birigüi e Guararapes), a doença na
população humana já havia sido detectada em 1999 e em 2000,
respectivamente. Nestes dois municípios a descontinuidade das ações
de limpeza urbana e do programa de eliminação de cães infectados,
detectados através de inquéritos sorológicos, foram os fatores que
propiciaram a reincidência da doença humana.
Em 2003, foram registrados
casos em novos municípios da região de Araçatuba (Pereira Barreto e
Santo Antônio do Aracanguá), além do primeiro caso humano na região
de Marília, no município de Guarantã. Cabe ressaltar que nos municípios
de Pereira Barreto e Santo Antônio do Aracanguá, monitorados quanto
à presença do vetor, até 2003 a positividade de imóveis para a L.
longipalpis era menor do que 10% e pequeno número de
exemplares/domicílio era capturado. A partir deste mesmo ano,
verificou-se aumento da positividade de imóveis, assim como do número
de flebotomíneos capturados/imóvel, indicando uma melhor adaptação
do vetor ao ambiente urbano. O fato sugere que na medida em que a
adaptação do vetor ocorre, aumenta o risco do estabelecimento de
transmissão da LVC e, conseqüentemente, da transmissão para seres
humanos.
Até maio de 2004, foram
registrados 382 casos e 46 óbitos, em 13 (56,5%) municípios. No período,
verificou-se não só a expansão da doença pelos municípios
paulistas como também o aumento do número de casos (figura 2). Os
coeficientes de incidência e letalidade para o Estado foram 34,3
casos/100.000 habitantes (variando entre 2,7, em 2000, e 34,7
casos/100mil/hab., em 2003) e 12,0% (29,4 óbitos/ 100 casos, em 1999,
e 5,3%, em 2001), respectivamente (figura 2).
Figura 2: Distribuição do número de municípios com transmissão
de Leishmaniose Visceral Americana, de casos e coeficientes de incidência
por 100.000 habitantes (A) e do número de municípios com registro de
óbito por LVA, de óbitos e coeficiente de letalidade por 100 casos
(B), segundo ano com transmissão. Estado de São Paulo, 1999 a maio
de 2004


A Leishmaniose Visceral
Canina (LVC), até 2002, havia sido registrada em 29 municípios. Quando comparados o número
de casos humanos acumulados de 1999 a 2002 e municípios que
registraram LVC em 2002 (figura 3), verifica-se que o maior número de
casos ocorreu naqueles municípios com as maiores prevalências
caninas. Verifica-se, também, uma relação espaço-temporal, na qual
a LVC, na grande maioria das vezes, precedeu a detecção de casos
humanos, principalmente em municípios onde o vetor já havia sido
registrado anteriormente. Embora não se possa estabelecer uma relação
causa-efeito, a ocorrência da LVA em
seres humanos tem também como fator de risco a ocorrência da LVC com
prevalências superiores a 2% e esta
a alta
densidade da população canina. Esta associação já foi demonstrada
por Camargo-Neves et al. (2001), estudando a distribuição espacial
da doença canina e humana no município de Araçatuba, e Oliveira et
al. (2001), em Belo Horizonte (MG).
Figura 3:
Distribuição do número acumulado de casos humanos
de Leishmaniose Visceral Americana, no período de 1999 a 2002, e
prevalência canina, em 2002. Estado de São Paulo

Para estudar a distribuição
da doença segundo idade, critério diagnóstico e evolução do caso,
considerou-se para análise os casos notificados em 2001 e 2002.
Nesta análise, o maior número de casos ocorreu na faixa etária de
menores de 5 anos, porém os maiores coeficientes de letalidade foram
observados na faixa de 50 anos e mais (tabela 1). Estes indivíduos,
na maioria das vezes, eram imunosuprimidos, devido a outras morbidades
pré-existentes (figura 4), sendo a co-infecção LVA-HIV a mais
importante delas. Em relação a estes casos, impõem-se, entre outras
medidas de vigilância, o diagnóstico precoce dos casos de co-infecção.
Tabela 1
Distribuição
de casos, óbitos e coeficiente de letalidade de Leishmaniose Visceral
Americana, por faixa etária. Estado de São Paulo, 2001 – 2002

Figura 4:
Distribuição do número de óbitos por Leishmaniose
Visceral Americana e outras causas associadas, por faixa etária.
Estado de São Paulo, 2001-2002

Para tanto, o Programa
Estadual de Controle de DST/Aids recomenda a realização de teste
sorológico anti-HIV em todos os pacientes com LVA maiores de 13 anos,
que residam nas áreas endêmicas. Com relação ao critério diagnóstico,
verificou-se um incremento de 15% de casos com confirmação
laboratorial em relação ao ano anterior (figura 5), refletindo a
melhora no diagnóstico e no atendimento adequado ao paciente.
Figura 5:
Distribuição do número e
percentual de casos de Leishmaniose Visceral Americana confirmados,
segundo Critério Diagnóstico. Estado de São Paulo, 2001-2002

O programa de controle da
LVA aplicado no Estado consiste nas ações de vigilância epidemiológica,
na detecção e tratamento oportuno dos casos humanos; na vigilância
entomológica e controle da população canina infectada e da
densidade vetorial. No que se refere à vigilância entomológica,
esta visa detectar a presença e dispersão de L. longipalpis,
além de permitir conhecer sua distribuição nos centros urbanos e
aglomerados rurais, monitorando, ainda, a variação sazonal dos níveis
de infestação e adaptação do vetor. O controle da população
canina consiste, principalmente, na eliminação dos animais errantes;
na busca ativa e eliminação de cães infectados, detectados através
de exame parasotológico ou sorologia positiva.
As ações de controle
vetorial vêm sendo realizadas por meio de atividades de saneamento
ambiental, em todos os setores do município em que vetor já foi
detectado. A fim de reduzir os locais prováveis de criação do vetor
ou de repouso, está embasada no controle mecânico, a partir da
retirada de matéria orgânica do peridomicílio e na poda de galhos e
arbustos que possam fornecer condições de estabelecimento de locais
para repouso e criação do vetor. O controle químico vem sendo
realizado nos meses favoráveis ao aumento da densidade do vetor,
restrito às áreas de ocorrência de casos humanos e que reúnam as
condições que indiquem maior risco de manutenção do ciclo de
transmissão da doença. Entre elas, alta densidade populacional de cães
e prevalências caninas superiores a 2%, ocorrência de casos humanos
há mais de dois anos e população com baixo nível sócio econômico.
Apesar dos esforços para atingir os objetivos, a
transmissão da LVA transcorre nas formas subclínicas com o registro
de casos novos todos os anos. O município de Araçatuba é o que
registra o maior número de casos. Entre os municípios investigados
anualmente, observa-se que a expansão da doença vem se dando na medida em que
vem ocorrendo a adaptação da Lutzomyia
longipalpis em
novos municípios, verificando-se que a epizootia canina, na maioria
dos municípios, precedeu o aparecimento dos casos humanos. O risco de
expansão aumenta a partir do momento em que grandes pólos de atração
migratória passam a registrar a doença, como o município de Bauru
e, mais recentemente, embora de pequeno porte, os municípios da região
de Marília.
A descontinuidade das ações de controle,
tanto aquelas relacionadas ao reservatório doméstico como as
relacionadas ao vetor, é um fator que favorece a manutenção da
transmissão. A LVA é uma doença de difícil controle, dado o longo
período de incubação tanto no reservatório doméstico como no
hospedeiro humano, não se sabendo ao certo onde poderá vir a
ocorrer. Portanto, suas ações devem ser contínuas e avaliadas a
cada ano, para que os objetivos propostos possam ser atingidos,
principalmente o de redução da mortalidade humana.
Atualmente, estão sendo revisadas as normas
adotadas pelo Estado, a fim de racionalizar os recursos e otimizar as
ações para as áreas de maior risco de transmissão. Com esta avaliação,
verificou-se, ainda, a necessidade da implantação de serviço de
verificação de óbitos e da realização de treinamentos e de fóruns
de discussão com a classe médica, para se atingir o principal
objetivo do programa.
Neste sentido, a Secretaria de Saúde, através
de seus órgãos de vigilância, vem, ao longo deste último ano,
elaborando o Manual de Controle da Leishmaniose Visceral Americana no
Estado (que estará disponível em breve), no qual incorporou todo o
conhecimento obtido com as ações desenvolvidas desde 1999. Com este
manual, espera-se contribuir para uma melhor orientação dos técnicos
da SES e dos municípios para o desenvolvimento das atividades de
vigilância e controle da doença.
Bibliografia
Camargo-Neves V L F de, Katz G. Leishmaniose visceral
americana no Estado de São Paulo. Revista da Sociedade Brasileira de
Medicina Tropical; 32(Supl.II): 63-4, 1999.
Camargo-Neves V L F de, Katz G, Rodas L A C, Poletto D
W, Lages L C, Spinola R M F, Cruz O G. Use of spacial analysis tools
in the epidemiological surveillance of American visceral leishmaniasis,
Araçatuba, São Paulo, Brazil, 1998 – 1999. Cadernos de Saúde Pública,
Rio de Janeiro; 17 (5): 1263-7, 2001.
Camargo-Neves V L F de, Rodas L A C, Poletto D W,
Gomes A de C. Feeding habit of Lutzomyia longipalpis in Araçatuba
county, State São Paulo, Brasil. Entomología y Vectores; 9,
(Supl. 1): 63, 2002.
Costa A I P da, Casanova C, Rodas L A C, Galati E A B.
Atualização da distribuição geográfica e o primeiro encontro de Lutzomyia
longipalpis em área urbana no Estado de São Paulo, Brasil; notas
e informações. Revista de Saúde Pública; 31:632-3, 1997.
Oliveira C L, Assunção R M, Reis I A, Proietti F A
Spatial distribution of human and canine visceral leishmaniasis in
Belo Horizonte, Minas Gerais State, Brasil, 1994 – 1997. Cad. Saúde
Pública, Rio de Janeiro 17 (5): 1231-9, 2001.
Rodas L A C, Poletto D W, Camargo-Neves V L F. Utilização
de aramdilhas elétricas para a pesquisa de Lutzomyia longipalpis
em áreas urbanas. Região de Araçatuba, SP, 1999 a 2001. Jornal
Brasileiro de Patologia 37 (4): 195 – 196, 2001.
SES –SP Secretaria de Estado de Saúde de São
Paulo. II Informe técnico: Leishmaniose Visceral Americana, 2003.
Disponível em URL http:\\www.sucen.sp.gov.br.
Sherlock IA. Interação Ecológica da Lutzomyia
longipalpis com a Leishmania (L.) chagasi na epidemiologia da
leishmaniose visceral americana. Revista da Sociedade Brasileira de
Medicina Tropical (Supl IV): 579 – 82, 1994.
Tolezano JE, Luvizotto MCR, Uliana SRB, Araújo MFL,
Taniguchi HH, Barbosa JAR, Barbosa JER, Pinto PLS, Floeter-Winter L,
Shaw JJ. Leishmaniose visceral americana (LVA) em Araçatuba, região
Oeste do Estado de São Paulo. Investigações laboratoriais e diagnóstico
de uma doença emergente em terras paulistas. Revista da Sociedade
Brasileira de Medicina Tropical 32 (Supl): 218, 1999.
Tolezano JE, Rodrigues E, Barbosa JER, Cunha E,
Taniguchi HH, Barbosa JAR, et al..
Expansão da Leishmaniose visceral por terras paulistas. Focos de
transmssão de LV canina em municípios da região metropolitana de de
São Paulo. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 36 (Supl
I): 360, 2003.
Agradecimentos
Roberta M. Spínola e Lisete da Cruz Lage do Centro de
Vigilância Epidemiológica, pelo fornecimento dos dados humanos e a
Adriana Lopes Cavalcante da Diretoria Regional de Saúde de Araçatuba,
pelo fornecimento dos dados humanos e população canina daquela região.
|