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RESUMO
Nesta revisão são apresentadas as técnicas disponíveis para o diagnóstico da leishmaniose visceral
americana, em especial para o diagnóstico do reservatório doméstico canino, sendo discutidas as vantagens
e desvantagens de cada método, em termos de diagnóstico individual, em programas de controle e para
avaliação epidemiológica.
PALAVRAS-CHAVES: métodos de diagnóstico laboratorial. leishmaniose visceral americana canina.
ABSTRACT
This review presents available techniques for American Visceral Leishmaniasis diagnosis, especially for
the diagnosis of the canine domestic reservoir, discussing advantages and disadvantages of each method,
in terms of individual diagnosis, in control and epidemiologic evaluation programs.
KEY WORDS: Laboratory diagnosis methods. Canine american visceral leishmaniasis.
O diagnóstico de uma enfermidade como a leishmaniose visceral americana (LVA) requer o uso de
métodos que possam, de maneira segura e confiável, identificar os indivíduos infectados. As técnicas
empregadas para este fim devem ser providas de algumas propriedades, tais como: capacidade de detecção da
infecção em sua fase inicial, resultados precisos, fácil execução, baixo custo e repetibilidade. A escolha do
método ou teste de diagnóstico deve ser orientada após cuidadosa avaliação da situação na qual será
empregado. Variáveis como características epidemiológicas da doença, dados de prevalência e incidência,
hospedeiros envolvidos, modo de
transmissão e período de incubação, dentre outras, precisam ser conhecidas.
O diagnóstico da leishmaniose visceral americana canina (LVA canina) pode ser realizado por diversos
métodos, e a confiabilidade desse diagnóstico será proporcionada pela combinação de técnicas, uma vez que não
há uma única técnica que possa de modo inequívoco indicar a infecção.
A LVA canina é uma doença severa, caracterizada por evolução crônica com sintomas viscerocutâneos
que ocorrem em cerca de 50% dos cães infectados. Estes cães podem apresentar alterações renal,
hepática, ocular e cutânea; muitos, no entanto, podem permanecer por longos períodos com infecção assintomática.
Cães infectados e assintomáticos apresentam um perfil de resistência
ao parasita associado com uma resposta imune celular, manifestada por uma forte resposta proliferativa dos linfócitos do sangue
periférico contra antígenos de Leishmania
e produção de IL-2, TNF-a e IFN-γ e baixos
títulos de anticorpos
anti-Leishmania. Em contraste, animais doentes apresentam depressão das funções mediadas pelas células T
e altos níveis de anticorpos
específicos.1,2,3
O diagnóstico clínico da LVA canina é dificultado pela variabilidade dos sinais e pelo grande número
de animais sem manifestações clínicas. Dessa forma, o diagnóstico laboratorial é uma importante
ferramenta para identificação dos animais infectados.
O diagnóstico de certeza baseia-se na demonstração das formas amastigotas presentes na pele, no
sangue ou em órgãos linfóides. Pode-se considerar que a detecção do parasito constitui o padrão ouro no
diagnóstico da LVA canina.
Porém, é importante ressaltar que esses métodos apresentam limitações, tanto pela
sensibilidade, tendo em vista a variação na intensidade do parasitismo, como por dificuldades técnicas
ou operacionais que possam interferir na obtenção do material.
A demonstração do parasito pode ser conseguida em esfregaços sanguíneos confeccionados com
material obtido de biópsia de medula óssea, aspirado de baço ou linfonodo ou de fragmento de pele. Os corantes
de Giemsa, Wright, Leishman ou
Panóptico® podem ser usados com resultados muito similares na
evidenciação das formas amastigotas. De baixo custo, esse método requer profissional especializado para execução
da coleta do material e leitura das lâminas. A sensibilidade dessa técnica pode variar de 70% a 98%, a
depender da qualidade do material, do período de evolução da infecção, do estado imunitário do animal e até mesmo
do número e tempo de leitura das
lâminas.4-7
BARROUIN-MELO et
al.8 confirmaram a segurança da técnica de punção esplênica em cães como
uma alternativa ao diagnóstico direto em lâmina e também para obtenção de amostras para cultura e
métodos moleculares.
O material usado para a confecção de lâminas também pode ser destinado ao procedimento de
cultivo axênico em hamster (Mesocricetus
auratus) e cultivo em meios artificiais. A inoculação em hamster é
um procedimento de boa sensibilidade, mas a demora na reprodução da infecção inviabiliza
esse método
como rotina para o diagnóstico da LVA canina. Em estudo realizado por
CORTADA9 um período de até 108 dias
foi necessário para obter resultado positivo em animal inoculado. Os animais inoculados devem ser
observados por até um ano, sendo então esse método mais importante para investigações epidemiológicas a fim
de confirmar não só a presença do parasito, mas também sua espécie em conjunto com outros
métodos.10,4
O cultivo da Leishmania pode ser conseguido pelo uso de meios artificiais. O meio de cultura NNN
(Neal, Novy e Nicolle), com fase líquida constituída por Schneider (Sigma) ou caldo infuso de cérebro e
coração (BHI) acrescido de soro fetal bovino e antibióticos, pode ter boa eficiência no diagnóstico da LVA canina.
Os parasitos crescem em cultura no período de 4 dias a 6 semanas; em geral, a maioria das culturas
mostra-se positiva em 7 a 10 dias.
A LVA canina pode ser diagnosticada indiretamente por métodos sorológicos ou técnicas de
imunodiagnóstico. Os métodos sorológicos auxiliam o estabelecimento do diagnóstico, sendo mais empregados em
inquéritos epidemiológicos.
O teste de hipersensibilidade tardia ou teste de intradermoreação de Montenegro (IDRM) não tem
bom desempenho para o diagnóstico da LVA canina, pois a resposta celular contra
Leishmania não é bem evidenciada durante o curso da
infecção.7
Os antígenos purificados têm melhor desempenho no diagnóstico que os antígenos brutos, mas sua
preparação requer métodos de purificação sofisticados. Uma alternativa é a produção de antígenos
recombinantes, cujo desenvolvimento foi incrementado na última década. Muitos já foram disponibilizados para o diagnóstico
da LVA humana e/ou canina.
A maioria dos testes sorológicos utiliza antígenos de promastigotas obtidas em
culturas, o que pode comprometer a especificidade do teste devido à possibilidade de reações cruzadas com outras espécies
da família Trypanosomatidae.
A reação de imunofluorescência indireta (RIFI) utiliza como antígeno promastigotas de várias espécies
do gênero Leishmania fixadas em lâmina. Pode ser usada para pesquisa de IgM ou IgG, mas está suscetível
às reações cruzadas com diversos outros agentes que infectam os cães. Em regiões de ocorrência
da leishmaniose tegumentar americana (LTA) e doença de Chagas este teste pode não ser a melhor opção
para o diagnóstico da LVA canina, se usado isoladamente. Contudo, é bastante utilizado em
inquéritos soroepidemiológicos e em programas de controle da
doença.10
O ensaio de imunoadsorção enzimática (Elisa) é um teste rápido, de fácil execução e leitura. Tem
boa sensibilidade e especificidade, permitindo o processamento de grande número de amostras
simultaneamente. Também vem sendo utilizado em programas de
controle10 e em estudos epidemiológicos. As possíveis
reações cruzadas podem ser minimizadas pelo uso de antígenos purificados ou recombinantes. A leitura
automatizada elimina erros de interpretação e torna a execução do teste mais simples.
O teste de aglutinação direta (DAT) foi desenvolvido, inicialmente, para o diagnóstico da LVA humana,
mas tem sido usado em caráter experimental para o diagnóstico da LVA canina. Sua execução é simples e
o teste é quantitativo, porém requer longo período de incubação (18 horas), o que pode ser um fator limitante
do seu uso.
Outro teste, muito semelhante ao DAT, é o
fast agglutination-screening test, também chamado de teste
de aglutinação rápida (FAST), cujo período de incubação é curto (três horas). O FAST é apenas qualitativo e
seu desempenho, associado à facilidade de execução, o torna um bom candidato como teste de triagem da
LVA canina.11
Um teste de imunocromatografia foi desenvolvido para o diagnóstico da LVA
humana, e vem
sendo aplicado em estudos para a LVA canina. O teste rápido anticorpo
anti-Leishmania donovani (TraLd) utiliza o antígeno recombinante rK39, podendo ser aplicado para amostras de soro ou sangue. A proteína A
conjugada com ouro coloidal, como sistema de detecção deste antígeno, permite uma ligação com o anticorpo
específico em segundos e a totalidade do teste pode ser completada entre 1-10
minutos.12 Trabalho de GENARO et
al.13 comparou este teste com o Elisa e a RIFI empregando amostras de cães, verificando que seu
desempenho foi superior pela ausência de reações cruzadas
com Trypanosoma cruzi, Leishmania
braziliensis e Leishmania amazonensis.
A técnica de Western blot (WB) é descrita como a mais sensível e específica para detecção da
infecção canina, tendo desempenho superior a RIFI ou Elisa. Em
2006, um estudo com infecção experimental
em cães revelou que o WB foi capaz de discriminar animais na fase de infecção recente ou tardia.
Bandas imunodominantes foram detectadas
indicando, inclusive, o prognóstico negativo para animais cujo
parasitismo persistiu após o tratamento. Isso sugere que essa técnica pode ser usada como preditora da infecção e
do parasitismo no cão.14
Os exames hematológicos podem auxiliar no diagnóstico, especialmente em regiões de ocorrência de
outras enfermidades cuja sintomatologia possa ser confundida com a LVA canina. A dosagem de
proteínas plasmáticas e a inversão nas frações albumina gamaglobulina podem ter forte associação com a
infecção nos cães.
Podemos concluir que o diagnóstico da LVA canina deve ser realizado com critério, empregando mais
de uma técnica para triagem e confirmação. Devem-se considerar vários parâmetros como o
diagnóstico epidemiológico, clínico, parasitológico, sorológico e exames complementares.
Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo (Fapesp), Brasil. Proc-04/13192-6.
Artigo referente à palestra apresentada no II Fórum de Discussão da Sociedade Paulista de Parasitologia:
Leishmaniose visceral americana, situação atual e perspectivas futuras. Organizado por Regina M. B. Franco, da
Sociedade Paulista de Parasitologia, Vera L. F. de Camargo-Neves e Cecília Abdalla, da Coordenadoria de Controle
de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o evento
foi realizado em 3 de julho de 2007,
no auditório Luiz Mussolino (SES-SP).
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