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RESUMO
Este estudo avaliou a habilidade da reação da polimerase em
cadeia (PCR) em diagnosticar a
leishamaniose visceral americana (LVA) e distinguir
L. (L.) chagasi de outras espécies. Amostras de 114 cães foram
divididas em dois grupos: 44 sintomáticos e 70
assintomáticos, analisadas pelos métodos parasitológicos (cultura
e exame direto) e PCR para L. (L.) chagasi,
L. (V.) braziliensis e, em alguns casos,
Leishmania spp. Os testes parasitológicos e
PCR-L. chagasi foram concordantes em 105 amostras (92%). A infecção foi
diagnosticada em 49 cães. Das 114 amostras, 9 tiveram resultados discordantes e foram reanalisadas por
PCR-Leishmania spp com resultados positivos. A LVA também foi confirmada em
quatro cães com testes parasitológicos
negativos e PCR-L. chagasi positivos. Consequentemente, PCR foi positiva em 100% (53/49) dos cães com
parasitas detectados nos testes parasitológicos. PCR apresentou alta especificidade, detectando 61 cães
negativos. Desses, 5 tinham cultura e PCR-Leishmania
spp positivas e PCR-L. braziliensis positivos, definindo
o diagnóstico da leishmaniose tegumentar americana
(LTA). Este estudo mostra a importância de incluir
a PCR no diagnóstico das leishmanioses pelo diagnóstico diferencial, contribuindo para Programas
Estadual de Vigilância e Controle da LVA.
PALAVRAS-CHAVE: leishmaniose visceral americana; diagnóstico molecular.
ABSTRACT
This study evaluated the ability of PCR to diagnose VL and distinguish
L. (L.) chagasi from other
Leishmania species. Samples from 114 dogs were divided into two groups: 44 symptomatic and 70 asymptomatic.
They were assayed by parasitological methods (culture and microscopic examination) and PCR to
L. (L.) chagasi, L. (V.) braziliensis;
and in some cases, Leishmania spp. Parasitological tests and
PCR-L. chagasi were concordant in 105 samples (92%). VL was confirmed in 49 dogs, while 56 had negative results. Of the
114 samples, 9 had discordant results but were further tested by
PCR-Leishmania spp with positive results.
VL was also confirmed in four dogs having negative parasitological tests and positive
PCR-L. chagasi. Consequently, this PCR was positive for 100% (53/49) of dogs with parasites detected in parasitological tests. Also,
PCR demonstrated high specificity detecting 61 dogs negative.
Leishmania infection was negative in 56 dogs,
and 5 with positive culture and
PCR-Leishmania spp had CL since they were positive in
PCR-L. braziliensis. This study shows the importance of including PCR in diagnosis of leishmaniases by differential diagnosis
contributing to the surveillance and control of VL programs.
KEY WORDS: american visceral leishmaniasis; molecular diagnosis.
INTRODUÇÃO
O gênero Leishmania
causa um amplo espectro de doenças, desde lesões cutâneas simples a severas
como formas
viscerais.1,2 As leishmanioses são amplamente distribuídas em mais de 80 países,
atingindo principalmente as regiões tropicais e subtropicais, como Índia, Sudão, Bangladesh, Nepal e Brasil. Dados
da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 12 milhões de pessoas vivem nessas áreas de risco
e cerca de 500.000 são infectadas por
ano.3
As espécies causadoras das leishmanioses na América Latina são divididas em dois grupos
taxonômicos. Um é o subgênero
Viannia, que compreende principalmente as espécies
L. braziliensis, L. panamensis e
L. guyanesis, responsáveis pelas lesões cutâneas ou mucocutâneas. O outro é o subgênero
Leishmania, que compreende as espécies
L. mexicana e L. amazonensis, responsáveis por lesões cutâneas localizadas
ou difusas, e L. chagasi, causadora da leishmaniose visceral
americana (LVA).4,2
A LVA é endêmica em quatro das cinco
regiões brasileiras, sendo que a região Nordeste apresenta o
maior número de casos registrados por
ano.5,6 Nos últimos anos, a dispersão da infecção tem sido rápida;
novos casos são registrados em áreas consideradas livre da doença e com destaque para regiões
urbanas. Já foram registrados casos autóctones em grandes centros
urbanos como São Luís, Teresina, Fortaleza,
Natal, Belo Horizonte, Palmas, Campo Grande, Araçatuba (SP) e Corumbá
(MS).6,7
No Estado de São Paulo, desde os primeiros casos humanos autóctones notificados em 1999, na cidade de Araçatuba, verifica-se que a doença está em franca expansão. Até 2007, o parasita já havia sido
detectado em 55 municípios paulistas e os índices de mortalidade estão em torno de 10%
(1999-2005).8,9,7
Os programas de vigilância e
controle da LVA (PVCLVA) baseiam-se em ações que atuam: (i) no inseto
vetor , (ii) no reservatório doméstico (o cão) e (iii) no diagnóstico e tratamento de casos
humanos.8 Nesse contexto, o diagnóstico laboratorial constitui uma ferramenta importante para que seja realizada a identificação
do parasito em cães sintomáticos ou assintomaticamente infectados,
para a sua subsequente eliminação.
Para o diagnóstico, são utilizados
exames parasitológicos (microscópico direto após a coloração por Giemsa
e cultura in vitro), sorológico (ELISA e imunofluorescência) e técnicas
histopatológicas.1,6,8 No entanto,
o diagnóstico laboratorial apresenta sérias dificuldades no que tange à sensibilidade e
especificidade.8 Dentre elas, destaca-se a detecção de cães infectados sem sinais clínicos ou com sinais clínicos que possam
ser confundidos com outras doenças caninas. Normalmente, a análise sorológica de cães assintomáticos
revela a dificuldade em detectar resposta imune
específica.10-12
Outro fator que corrobora para interferir na especificidade dos métodos laboratoriais
tradicionalmente empregados é a diversidade endêmica encontrada nas regiões brasileiras. Algumas
regiões podem ser endêmicas também para
L. braziliensis, o agente causador da leishmaniose tegumentar americana (LTA)
ou para Trypanossoma cruzi, o agente etiológico da doença de Chagas.
Nesse caso, o diagnóstico laboratorial deve contemplar também a determinação da espécie de
Leishmania.13 Para essa proposta já foram empregadas diferentes metodologias. Dentre elas destacam-se os
perfis sorológicos (sorodema), o emprego de anticorpos monoclonais; a análise de zimodema e/ou
esquizodema, a hibridização, o sequenciamento, a reação em cadeia
da polimerase (PCR) e a PCR-RFLP
(restriction fragment length polymorphism
analysis).14-18 Apesar da significante contribuição desses métodos em
conhecer e identificar espécies de
Leishmania, alguns deles são caros ou exigem metodologia sofisticada e demorada.
Para compor o elenco de metodologias que pudessem ser utilizadas no PVCLVA do Estado de São
Paulo, elegemos a PCR por ser relativamente simples e rápida e, quando bem padronizada ,
apresenta alta
sensibilidade e especificidade. Assim, nos propusemos a realizar um estudo prospectivo para avaliar a metodologia.
A proposta foi a de determinar espécies de
Leishmania em amostras biológicas caninas, analisar a eficácia
da metodologia em diagnosticar a LVA e, ao mesmo tempo, distinguir
L. chagasi de outras espécies de
Leishmania.
METODOLOGIA
A escolha da região alvo do DNA para o desenho de iniciadores utilizados na PCR é de
crucial importância, pois é um dos principais fatores para se estabelecer a alta sensibilidade e especificidade
da reação. Neste estudo, três condições foram cuidadosamente avaliadas durante a escolha da região
alvo: (i) elevado número de cópias; (ii) sequências conservadas nas diferentes espécies de
Leishmania; e (iii) sequências variáveis nas quais pudessem diferir, no mínimo, complexos.
Quando o objeto de estudo envolve protozoários da ordem Kinetoplastida, como os gêneros
Leishmania, Trypanosoma,
Crithidia e outros membros, além do DNA nuclear , conta-se com mais uma
organela ricamente composta de DNA. O
kinetoplasto, situado na base do flagelo, é composto de uma rede
de moléculas DNA circulares (kDNA), as quais podem ser divididas em dois grupos (Figuras 1A e 1B).

Fonte: www.ebi.ac.uk/parasites/kDNA/Source.html
Figura 1. A seta sinaliza o kinetoplasto em
promastigotas (A e B). A estrutura e a rede de maxicírculos e minicírculos
de DNA são vistas em maiores detalhes por microscopia eletrônica em
B e C. Diagrama esquemático da organização de cada minicírculo de Leishmania
e a localização dos iniciadores para gênero26 e L.
donovani (D).23
O primeiro grupo é composto de moléculas grandes, com cerca de 20-35kb, denominadas
de maxicírculos. São extremamente homogêneas entre os diferentes grupos que compõe a
ordem Kinetoplastida, e estão presentes em cerca de 20-50 cópias/kinetoplasto.
O outro grupo é composto
de moléculas menores (de 0,5-1,5kb), denominadas de minicírculos. Apresentam-se em grande
quantidade (10.000 unidades/kinetoplasto) e com sequências heterogênias entre os grupos. Dessa maneira,
são amplamente utilizados para separar classes, gêneros ou
espécies19-21 (Figura 1C e 1D).

Figura 1. C e D
Cada minicírculo de Leishmania é composto de uma molécula de DNA circular de 0,75 a 1kb
de comprimento. Apresenta uma região conservada de aproximadamente 200pb contendo três blocos
de sequências conservadas em todas as espécies de
Leishmania.22 O restante da
molécula, aproximadamente 550-700pb, apresenta sequências altamente variáveis, contendo um grande número
de nucleotídeos A e T. Portanto, nessa região, pode-se encontrar sequências específicas para os
diferentes grupos de Leishmania20,21
(Figura 1D).
Para determinar L. chagasi escolhemos um par de iniciadores,
previamente23 descrito, que amplifica
uma sequência de 145pb da região variável dos minicírculos do
complexo
L. donovani. A escolha foi baseada na taxonomia do complexo
L. donovani, a qual engloba as espécies
L. donovani, L. infantum, L. chagasi e L.
archibaldi.24 Estudos anteriores mostraram que a aplicabilidade desses iniciadores na PCR
promoveu uma boa sensibilidade e especificidade em diagnosticar a presença de
L. infantum em amostras biológicas de cães com suspeita de LVA, na região do
Mediterrâneo.25
Nas amostras discordantes, a presença de
Leishmania spp foi determinada por um par de
iniciadores previamente descrito26 e amplamente utilizado. Esses iniciadores amplificam um fragmento de 120pb
e derivam da região conservada dos minicírculos de
Leishmania (Figura 1D). Outra região gênica vastamente utilizada como alvo para genotipar espécies de
Leishmania é o gene RNA mini-exon (ou
spliced leader SL), localizado no núcleo de todos os grupos da ordem
Kinetoplastida16 (Figura 2). Cada genoma apresenta cerca 100 a 200 cópias e cada uma delas, denominada
SL,
é composta de uma região de transcrição conservada (exon) contendo uma sequência de 39pb, e
outra região (intron), também conservada, mas de tamanho variável (55 a 101pb, dependendo da espécie).
Entre cada SL existem regiões variáveis que não são transcritas e diferem na sequência de nucleotídeos e
no tamanho (140 a 350pb), dependendo do complexo de
Leishmania.27,16
Para caracterizar as amostras infectadas por
L. braziliensis escolhemos um par de
iniciadores, previamente27 descrito, que amplifica uma sequência de 146 a 149pb. A sequência alvo de um
dos iniciadores é da região conservada SL, comum em todas as espécies de
Leishmania. O outro iniciador provém da região não transcrita, variável e específica para o complexo
L. braziliensis (Figura 2).

Figura 2. Diagrama esquemático gene RNA mini-exon (ou spliced leader -SL) de
Leishmania e localização dos iniciadores que identificam L.(V.)
braziliensis.27
A especificidade dos iniciadores utilizados na PCR para detectar
L. chagasi (PCR-L. chagasi) e L.
braziliensis (PCR-L. braziliensis) foi testada realizando-se a PCR com DNA extraído de: (i)
outras espécies de Leishmania escolhemos as cepas referências das espécies de
Leishmania mais prevalentes no Brasil, L. (L.)
chagasi (MHOM/BR/1972/LD), L. (L.)
amazonensis (MHOM/BR/67/PH8) e L. (V.) braziliensis
(MHOM/BR/75/2903); (ii) de Trypanosoma
cruzi (cepa Y), o agente causador da
doença de Chagas a escolha baseou-se na proximidade filogenética de
Leishmania e grande ocorrência
da infecção nas mesmas regiões em que a LVA é prevalente; e (iii) bactérias causadoras de doenças
caninas escolhemos Rickettsia rickettsia,
Rickettsia canis e Ehrlichia canis)*.
Todas as amostras foram utilizadas na PCR na concentração de 85-90ng. A alta especificidade de
ambas as reações pode ser vistas na Figura 3. Somente o DNA de
L. chagasi apresentou o produto de 145pb amplificado na
PCR-L. chagasi (Figura 3A) e somente o DNA de
L. braziliensis apresentou o produto de 145-149pb amplificado na
PCR-L. braziliensis (Figura 3B).
Figura
3. Espécie-especificidade das PCR para L. (L.)
chagasi (A) e L. (V.) braziliensis (B). L. (L.) chagasi foi
identificada com dois iniciadores (sense e anti
sense) que amplificam um produto de 145pb de uma
região específica (fragmento LT1) dos minicírculos de kDNA de
L. donovani. L. (V.) braziliensis foi identificada com
dois iniciadores que amplificam um produto de 145-149 bp do gene
SL-RNA. Um iniciador provém da região conservada e o outro, da região
variável do gene e específica para o grupo Viannia.
As amostras de DNA indicadas na figura foram utilizadas na PCR na
concentração de 85-90 ng. Os produtos amplificados foram analisados
por eletroforese em géis de 2% agarose. Linha 1, marcador de massa
molecular (100pb); linha
2, L
. (L.) chagasi (MHOM/BR/1972/LD); linha
3, L
. (L.) amazonensis (MHOM/BR/67/PH8); linha
4, L
. (V.) braziliensis (MHOM/BR/75/2903); linha 5, Trypanosoma
cruzi (cepaY); linha 6, Rickettsia
rickettsia (FMVUSP); linha 7, Rickettsia canis (FMVUSP);
linha 8, Ehrlichia canis (FMVUSP).
Figura
3. Espécie-especificidade das PCR para L. (L.)
chagasi (A) e L. (V.) braziliensis (B). L. (L.) chagasi foi
identificada com dois iniciadores (sense e anti
sense) que amplificam um produto de 145pb de uma
região específica (fragmento LT1) dos minicírculos de kDNA de
L. donovani. L. (V.) braziliensis foi identificada com
dois iniciadores que amplificam um produto de 145-149 bp do gene
SL-RNA. Um iniciador provém da região conservada e o outro, da região
variável do gene e específica para o grupo Viannia.
As amostras de DNA indicadas na figura foram utilizadas na PCR na
concentração de 85-90 ng. Os produtos amplificados foram analisados
por eletroforese em géis de 2% agarose. Linha 1, marcador de massa
molecular (100pb); linha
2, L
. (L.) chagasi (MHOM/BR/1972/LD); linha
3, L
. (L.) amazonensis (MHOM/BR/67/PH8); linha
4, L
. (V.) braziliensis (MHOM/BR/75/2903); linha 5, Trypanosoma
cruzi (cepaY); linha 6, Rickettsia
rickettsia (FMVUSP); linha 7, Rickettsia canis (FMVUSP);
linha 8, Ehrlichia canis (FMVUSP).
A especificidade da PCR-L. chagasi foi também confirmada pelo sequênciamento de produto
amplificado de cinco amostras de DNA provenientes de cães de Mogi das Cruzes (3) na Grande São Paulo, Adamantina (1) e Araçatuba (1). Os fragmentos de 145pb foram previamente purificados com um
kit Wizard SV gel and PCR Clean-up System kit PRO MEGA. Os sequenciamentos foram
realizados usando-se o kit ABI Prism BigDyeTerminator Cycle Sequencing
Reaction,
utilizando-se ambos iniciadores, de modo a obter-se ambos lados (sense e
anti sense). A eletroforese foi realizada num ABI Prism
377 DNA Sequencer (pela Genomic Engenharia Molecular LTDA, São Paulo, BR). As sequências
de nucleotídeos geradas foram analisadas e alinhadas com outras previamente descritas no programa
BioEdit Sequence Alignment Editor e no site NCBI/ nucleotide-nucleotide BLAST
(http://www.ncbi.nlm.nih.gov/BLAST). A sensibilidade da PCR L.
chagasi foi determinada testando-se DNA extraídos de amostras
biológicas de 114 cães provenientes de 30 municípios do Estado de São Paulo. Essas regiões são endêmicas ou
em pesquisa de focos iniciais para LVA; algumas também são endêmicas para LTA.
Para efeito de análise dos dados, os cães foram divididos em dois grupos considerando-se a
sintomatologia. O Grupo I, sintomáticos, composto de 44 cães que foram sacrificados por apresentarem sérios
sintomas clínicos de LVA. Apresentaram pelo menos quatro sinais clínicos, que incluíam dermatite esfoliativa,
úlceras e/ou nódulos cutâneos, linfodenopatia, esplenomegalia, hepatomegalia, anorexia, febre, crescimento
anormal das unhas e cansaço muscular, dentre outros. Fragmentos de necropsias de fígado, baço, linfonodo
foram encaminhados à Seção de Parasitoses Sistêmicas do Instituto Adolfo Lutz (IAL) órgão da
Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP) para confirmar
o diagnóstico clínico.
O Grupo II, assintomáticos, constituído de 70 cães assintomáticos ou com leves
sinais clínicos. Amostras de aspirado de linfonodo e/ou biopsia cutânea foram encaminhadas ao IAL para
realização do diagnóstico laboratorial.
RESULTADOS
Avaliação da especificidade
Todas as cinco amostras apresentaram 98-100% de identidade com DNA de minicírculos do
kinetoplasto de: (1) Leishmania
donovani (GenBank accession number AJ010077); (2) Leishmania infantum
(GenBank accession number AF184044); (3) Leishmania chagasi (GenBank accession number AF169132); e
(4) nenhuma identidade foi observada com outros grupos de protozoários, bactérias, fungos, vírus
ou mamíferos.
Avaliação da sensibilidade
Todas as 114 amostras foram analisadas pelos métodos parasitológicos (microscopia direta após
a coloração por Giemsa e cultura
in vitro), que foram considerados "padrão ouro". Um resultado
foi considerado positivo quando parasitas foram detectados em pelo menos um dos
testes.28
Os resultados obtidos estão resumidos na Tabela 1. No grupo dos 44 cães sintomáticos, 29
apresentaram resultados positivos em ambas as metodologias e 2 tiveram resultados discordantes (parasitas
foram detectados nos métodos parasitológicos, mas a PCR foi negativa).
No grupo dos 70 cães
assintomáticos, 20 tiveram resultados positivos em ambas as metodologias, mas 7 apresentaram resultados discordantes
(4 com testes parasitológicos negativos e
PCR-L. chagasi positiva e 3, PCR negativa e cultura
positiva). A porcentagem de concordância para ambas as metodologias foi de 92% para todas as amostras, sendo
que no primeiro grupo foi de 95% e no segundo, 90%.
Em seguida, os resultados discordantes descritos na Tabela 1 foram investigados. As amostras
foram ensaiadas pela PCR-Leishmania spp, e todas foram positivas. Esses resultados confirmaram o
diagnóstico da LVA em quatro cães do Grupo II que tiveram resultados negativos nos métodos parasitológicos e
PCR-L. chagasi positivo. Esses animais tiveram ambas metodologias positivas após sacrifício e fragmentos
de órgãos analisados. Outros 5 cães (2 do Grupo I e 3 do Grupo II) com resultados discordantes
apresentaram cultura e PCR para Leishmania
spp positivos.
Como esses animais viviam em regiões que também são endêmicas para
L. braziliensis, as amostras foram ensaiadas e positivas na
PCR-L. braziliensis. A Tabela 2 mostra a caracterização genotípica das
amostras estudadas.
Tabela 1 .
Avaliação da sensibilidade da PCR
em diagnosticar LVA. Comparação
dos métodos parasitológicos e da PCR - L.
chagasi em cães sintomáticos
(Grupo I) e assintomáticos (Grupo II).
| Cães |
Tipo
de
amostra |
Total |
Métodos
Parasitológicos (Par.) e PCR-L.
chagasi |
| Resultados |
| Concordantes |
Discordantes |
| ambos |
Par.
negativo |
Par.
positivo |
| Positivo |
Negativo |
Concordância*
(%) |
PCR
positivo |
PCR
negativo |
Grupo I Sintomáticos
(sacrificados)
|
Fígado,
baço, linfonodos
(fragmentos/necropsia)
|
44 |
29 |
13 |
42
(95%) |
0 |
2 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Grupo II
Assintomáticos |
Aspirados
de linfonodos,
biopsia cutânea
|
70 |
20 |
43 |
63
(90%) |
4 |
3 |
| Total |
|
114 |
49 |
56 |
105
(92%) |
4 |
5 |
*Porcentagem de concordância foi calculada pela relação:
(número de resultados concordantes)/(número total de amostras) x 100.
|
Tabela
2.
Genotipagem das amostras positivas nos métodos parasitológicos e
diagnóstico da LVA e LTA nos cães sintomáticos (Grupo I) e assintomáticos
(Grupo II).
| Cães |
Métodos
Parasitológicos
PCR-Leishmania spp.
positivos |
Identificação da espécie de Leishmania
|
|
PCR
|
|
L. chagasi |
L. braziliensis |
Grupo I Sintomáticos
(sacrificados)
|
31 |
29 |
2
|
|
|
|
|
|
Grupo II
Assintomáticos |
27 |
24
|
3
|
| Total |
58 |
53 |
5
|
|
|
BREVE DISCUSSÃO
Este estudo prospectivo mostrou que a
PCR-L. chagasi apresentou uma alta especificidade,
quando comparada aos métodos parasitológicos, tanto em cepas mantidas em laboratório quanto em
amostras biológicas. Amostras de 61 cães foram negativas, ao passo que os métodos parasitológicos
revelaram resultados negativos em 56 cães.
Os resultados também mostraram uma
sensibilidade de 100% quando comparados aos dos
métodos parasitológicos. Amostras de 53 cães foram positivas, ao passo que somente 49 deles tiveram
parasitas revelados pelos métodos parasitológicos.
A PCR foi efetiva tanto para realizar o diagnóstico diferencial quanto para genotipar amostras clínicas.
Portanto, este trabalho reforça a idéia, já preconizada por outros grupos e centros de referência, da inclusão da PCR
no diagnóstico da LVA, visando determinar a espécie de
Leishmania. Esses dados enfatizam, ainda, o
potencial uso deste procedimento em programas de vigilância e controle da
LVA, contribuindo para que as
condutas sejam mais rápidas, principalmente na detecção de novos focos da infecção autóctone.
*As amostras de DNA foram gentilmente cedidas pela
Profa. Dra. Solange Maria Gennari,
da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo
(FMVZ/USP).
Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp), Brasil. Proc-04/13192-6.
Artigo referente à palestra proferida no II Fórum de Discussão da Sociedade Paulista de
Parasitologia: Leishmaniose visceral americana, situação atual e perspectivas
futuras. Organizado por Regina M. B.
Franco, da Sociedade Paulista de Parasitologia, por Vera L. F. de Camargo-Neves e Cecília Abdalla, da
Coordenadoria de Controle de Doenças, o evento foi realizado em 3 de julho de 2007, no auditório Luiz Mussolino
(SES-SP).
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