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INTRODUÇÃO
Decorrente de uma maior expectativa de vida e o consequente envelhecimento populacional, as
neoplasias malignas assumem a cada dia maior importância no perfil da morbimortalidade dos países,
tornando-se importante problema de saúde pública.
O câncer colorretal (CCR), tumor que acomete o cólon e o reto, é uma das neoplasias mais frequentes
na população adulta mundial, apresentando incidência e mortalidade crescentes em várias partes do
mundo. Em alguns países desenvolvidos é o segundo tipo mais comum em termos de incidência. O fato de
sua história natural ser bem conhecida, com uma lesão precursora que, após um tempo, normalmente
superior a dez anos, cresce e se transforma em uma neoplasia maligna, torna esta doença passível de
identificação, ressecção e, portanto, de prevenção através de provas de rastreamento populacional.
Apresentar os principais aspectos epidemiológicos da neoplasia, discutir as formas de rastreamento
da doença e mostrar o impacto do câncer colorretal no Estado de São Paulo são os principais objetivos
deste documento.
ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS DO CCR
O CCR apresenta-se como um problema de saúde pública de escala mundial. A incidência varia bastante
nos diferentes países, sendo os maiores valores encontrados nos continentes mais ricos ou
industrializados, como Oceania (Austrália), América do Norte e parte da Europa, enquanto África, Ásia (Índia) e América
do Sul apresentam valores menores.1,2
A maioria das estatísticas sobre epidemiologia adota o termo câncer colorretal como aquele que acomete
o cólon, a junção retossigmóide, o reto, o ânus e o canal anal (códigos C18 a C21 da Classificação
Internacional de Doenças CID 10), apesar das diferenças nas características epidemiológicas dos tumores,
particularmente nos de ânus e canal anal. Como também o Instituto Nacional de Câncer
(INCA) adota esta metodologia nas estatísticas envolvendo incidência e mortalidade por câncer, este será o critério adotado no presente documento.
No Reino Unido, por exemplo, o colorretal é o terceiro câncer mais comum, com mais de 34.000 casos
novos registrados em 2002 e uma estimativa de mais de 16.000 óbitos ao ano.
Nos Estados Unidos, em 2008, foram estimados 148.810 casos novos de CCR, com 49.960 óbitos.
É considerado o terceiro câncer mais diagnosticado naquele país e também a terceira causa de óbito por
câncer.3,4,5
Na Espanha, o CCR representa 12,81% dos casos novos de câncer para o sexo masculino e 13,76% para
o feminino. É responsável por 11,63% dos óbitos por câncer nos homens e 15,09% nas mulheres,
valores bastante próximos ao percentual referente ao câncer de mama feminino
(16,49%).6
A incidência do CCR nos Estados Unidos, padronizada para a população mundial, apresenta valores
que variam de 59,2/100.000 habitantes para homens e de 43,8/100.000 para mulheres (2001-2005), com
diferenças importantes entre regiões geográficas e também entre
raças.5,7
As taxas brutas de incidência para o Brasil, segundo estimativas feitas para 2008 pelo Instituto Nacional
de Câncer, foram de 13,23/100.000 habitantes para o sexo masculino e de 14,88/100.000 para o feminino,
com variações regionais importantes. Para o Estado de São Paulo os valores estimados foram bastante
superiores, respectivamente 22,68 e 24,05 por 100.000
habitantes.8
Enquanto alguns países assistem a um aumento temporal da incidência e também da mortalidade por
CCR (Espanha, por exemplo, com um incremento anual de cerca de 3% na incidência), em outros tem
ocorrido uma queda nas taxas tanto de incidência como de mortalidade. Este comportamento está vinculado,
dentre outros aspectos, a programas organizados de rastreamento populacional e também a melhorias no
tratamento dos casos diagnosticados.7
Nos Estados Unidos, por exemplo, a incidência do CCR tem diminuído 2,8% ao ano em homens e 2,2%
nas mulheres, no período de 1998 a 2005. De forma semelhante, a mortalidade específica por CCR também
tem sofrido queda naquele país, tendo sido registrada uma diminuição de 4,3% ao ano, entre 2002 e 2005.
A redução da taxa de incidência tem sido associada ao aumento do rastreamento e consequente remoção
dos pólipos adenomatosos que antecedem o
câncer.6,7
No Brasil, segundo dados do INCA, a incidência tem sido crescente, com estimativa de 26.050 casos
novos para 2005, contra 28.790 em 2008. No que tange à mortalidade, as taxas referentes ao CCR tem
aumentado no País, tendo ocorrido um incremento médio anual da ordem de 3,5% por cento, entre 1979 e 2000.
A história natural do CCR baseia-se, principalmente, na sequência adenoma-câncer, pois mais de 80%
dos casos da neoplasia maligna surgem em pólipos adenomatosos, cuja prevalência aumenta
consideravelmente nas faixas etárias mais avançadas. Destes pólipos adenomatosos, aqueles maiores de 1 cm acabam
por sofrer transformação maligna em cerca de 10% dos casos, num período de dez anos. Dessa forma,
quando um pólipo é ressecado, estamos, em tese, prevenindo a ocorrência de um potencial câncer.
Devido ao desenvolvimento geralmente silencioso da lesão, com bastante frequência o CCR produz
poucos sintomas iniciais, o que faz com que o diagnóstico da malignidade do tumor seja realizado
habitualmente nas fases mais avançadas da doença, fato que piora inegavelmente o prognóstico dos pacientes.
Como consequência desta reduzida sintomatologia inicial, normalmente o diagnóstico do CCR é feito nos
estádios mais avançados do tumor, sendo que em torno de 41% dos casos são diagnosticados em estádio
localizado, sem que tenha ocorrido o comprometimento linfático.
A sobrevida dos pacientes vincula-se fortemente ao momento do diagnóstico: um índice de sobrevida
de cinco anos atinge 90% dos casos quando o tumor é diagnosticado em fase assintomática, 70% quando
a neoplasia encontra-se restrita à parede intestinal e 40% nos casos de doença não
localizada.6
Estudos apontam que em mais de 75% dos casos o CCR pode ser definido como esporádico, de caráter
não familiar e decorrente de uma exposição crônica da mucosa intestinal a agentes cancerígenos. À
semelhança de outras neoplasias malignas, diferentes fatores parecem estar relacionados com a ocorrência da
doença, sendo que os principais estudos epidemiológicos apontam para alguns fatores de risco envolvidos com
o CCR.1,3,5 São eles:
-
Idade: a incidência aumenta com a idade, sendo raros os casos em pessoas mais jovens,
exceção feita às com predisposição hereditária.
-
Sexo: o câncer de cólon atinge de forma semelhante homens e mulheres, enquanto o de reto é
mais comum no sexo masculino.
-
História familiar: pessoas com histórico familiar de CCR apresentam um risco maior para
o desenvolvimento deste câncer, sendo este aumento estimado entre 16% e 25% para homens e
10% e 15% para mulheres (uma ocorrência de CCR em parentes de 1º grau com menos de 45 anos
ou dois ou mais casos de CCR em parentes de 2º grau).
-
Histórico de adenomas: as pessoas com história de extirpação de pólipos adenomatosos são
mais propensas a que estes reapareçam e se transformem em câncer.
-
Histórico familiar de CCR hereditário: polipose adenomatosa familiar (PAF) ou câncer colorretal
hereditário sem polipose (HNPCC).
-
Doença inflamatória intestinal: é associada a um maior risco para o desenvolvimento de CCR.
Além das variáveis apontadas, outros fatores relacionados ao estilo de vida têm sido associados ao
CCR, tanto no sentido de diminuição do risco como do seu aumento. Documento recente, relacionando
alimentos, nutrição, atividade física e prevenção do câncer, traduzido e disponibilizado pelo
INCA9, aponta como pontos principais para o CCR:
-
diminuição de risco (convincente ou provável) com o consumo de alimentos contendo fibra
dietética, alho, leite, cálcio e atividade física; e
-
aumento do risco (convincente ou provável) consumo de carnes vermelhas, carnes processadas,
bebidas alcoólicas, gordura corporal e gordura abdominal.
Evidências para o rastreamento
A prevenção primária do CCR depende de aspectos relacionados ao estilo de vida, sendo apontados
como principais fatores protetores: manter uma dieta equilibrada e rica em frutas, verduras e fibras; evitar o
excesso de peso; limitar o consumo de carnes vermelhas, gorduras de origem animal e carnes processadas; limitar
o consumo de álcool; não fumar e realizar atividade física regularmente.
A prevenção secundária, por outro lado, baseia-se no largo intervalo que transcorre entre o início da lesão
até o desenvolvimento do câncer invasivo, e compreende estratégias de prevenção como rastreamento
populacional (screening) exame de indivíduos assintomáticos para a identificação presuntiva de doença ainda
não conhecida.
O objetivo do rastreamento é identificar e tratar tanto as lesões precursoras como os
tumores malignos em suas fases iniciais. O CCR, por suas
características e história natural, preenche os requisitos para
um programa de rastreamento populacional: representa importante problema de saúde pública; existem
terapias efetivas contra a doença; a detecção precoce e o tratamento das lesões precursoras ou do câncer em
fase inicial levam à redução da prevalência e mortalidade da doença; e existe um método não invasivo,
aceitável e de baixo custo para sua implementação a pesquisa de sangue oculto nas
fezes.10,11
De maneira geral, o rastreamento pode ser definido como oportunístico ou organizado. No primeiro caso,
as opções são oferecidas aos pacientes que de alguma forma chegam aos serviços de saúde. Já o
modelo organizado compreende uma série de intervenções, desde a identificação da população alvo e sua
convocação até medidas necessárias para diagnóstico e tratamento ágeis, além do seguimento adequado dos
casos tratados. Diferentes estudos internacionais apontam que o rastreamento organizado apresenta
melhores resultados e menores custos.
O exame de pesquisa de sangue oculto nas fezes é o método normalmente utilizado por inúmeros
países como aquele de escolha para o screening populacional. Mas existem outras abordagens que podem
ser utilizadas, todas com vantagens e desvantagens. Para a escolha, devem ser avaliados os recursos
disponíveis para o rastreamento e seguimento dos pacientes, preferência e aderência da população ao método,
além das contraindicações médicas. Na sequência são listados os principais métodos, com benefícios e
limitações de cada um deles:12,13
-
Pesquisa de sangue oculto nas fezes: é o recurso mais utilizado e estudado, principalmente
aquele que utiliza o método de guáiaco. Estudos utilizando este método, que apresenta baixa complexidade,
apontam para uma redução de óbitos por CCR entre 14% e 18% com exames bianuais e de 33% com o
rastreamento anual. Recentemente, foi introduzido um novo método para a pesquisa de sangue oculto nas fezes
método imunoquímico, que apresenta grande vantagem sobre o método tradicional (guáiaco). Como este novo
método é específico para a hemoglobina humana, não existe interferência da dieta, o que o torna mais aceito
pela população. Além disso, o método é capaz de detectar até 0,006 mg de hemoglobina humana por grama
de fezes (contra 0,3 mg do método guáiaco), não é sensível a hemorragias do trato gastrointestinal superior
e apresenta menor percentual de resultados falso-positivos, pois é específico para a hemoglobina
humana.14 Seu custo mais elevado em relação ao método tradicional é compensado pelo menor número de
resultados falso-positivos, que necessitarão de outros exames complementares invasivos e de alto custo.
-
Retossigmoidoscopia: este método pode localizar lesões envolvendo o reto e o cólon
descendente, sendo considerado um exame de complexidade intermediária. A combinação deste recurso com
a pesquisa de sangue oculto nas fezes como método de rastreamento populacional pode minimizar
as limitações que cada um apresenta isoladamente.
-
Enema baritado: foi considerado por anos o padrão ouro para a investigação do intestino grosso.
Por ser considerado um exame complexo e também pelo fato de não remover as lesões suspeitas,
seu uso tem ficado restrito a indicações especificas.
-
Colonoscopia: permite o exame visual de todo o cólon e reto e apresenta sensibilidade superior a
90% para pólipos maiores e CCR. É um método considerado de alta complexidade, invasivo, com
custo mais elevado; requer sedação e preparo adequado do intestino, sendo atualmente indicado
quando da presença de sintomas e para o seguimento dos casos positivos dos exames de rastreamento.
-
CT colonografia: também chamada de colonoscopia virtual, necessita de preparo intestinal, mas
não de sedação para a sua realização. Apresenta custo elevado, não remove pólipos e, caso
sejam detectadas lesões, a colonoscopia tradicional é necessária.
As indicações para o rastreamento levam em consideração os riscos estimados para o desenvolvimento
do CCR. Nos Estados Unidos, por exemplo, a American Câncer Society recomenda para homens e
mulheres com 50 anos ou mais as seguintes opções de exames:
-
Testes para diagnosticar pólipos e câncer: retossigmoidoscopia flexível (a cada 5 anos),
colonoscopia (a cada 10 anos), enema baritado com duplo contraste (a cada 5 anos) ou colonoscopia virtual
(a cada 5 anos).
-
Testes para diagnosticar principalmente câncer: pesquisa de sangue oculto nas fezes tradicional
ou imunoquímico (anualmente) ou teste fecal de DNA (Stool DNA), novo método que se baseia
em alterações do DNA das células do intestino (intervalo não definido).
Na Comunidade Européia recomenda-se o screening para o CCR desde 2003, indicando-se a realização
de pesquisa de sangue oculto nas fezes para homens e mulheres dos 50 aos 74
anos.15
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer, em documento de
200412, apontava a necessidade de
esforços para a implantação de rastreamento para a população considerada de risco, tendo sido definidos:
-
Baixo risco: indivíduos com idade superior a 50 anos e sem outros fatores de risco.
-
Risco moderado: indivíduos com história familiar de câncer de intestino em um ou mais parentes de
1º grau, antecedente pessoal de pólipo maior que 1 cm ou múltiplos pólipos de tamanhos variados, e
os indivíduos com antecedente pessoal de câncer de intestino tratado com intenção curativa.
-
Alto risco: indivíduos com história familiar de polipose adenomatosa familiar (PAF) ou câncer
colorretal hereditário sem polipose (HNPCC) ou com doença inflamatória crônica intestinal (pancolite ou
colite esquerda).
Com base nessas premissas, o protocolo de rastreamento sugerido pelo INCA indica para a população
de risco baixo e moderado a realização anual de pesquisa de sangue oculto nas fezes, seguindo-se
a retossigmoidoscopia ou colonoscopia nos casos positivos.
Vários países do mundo já apresentam programas de rastreamento populacional para o CCR, estando
alguns programas nacionais já integralmente organizados e implementados, enquanto outros países ainda
desenvolvem projetos pilotos que avaliam custo-efetividade ou optam pelo chamado rastreamento oportunista. Às
vezes, diferentes modalidades de investigação são utilizadas em um mesmo país; vários utilizam e reembolsam
a pesquisa de sangue oculto nas fezes; e alguns organizam projetos pilotos baseados na investigação
por retossigmoidoscopia ou colonoscopia.
As taxas de cobertura referente ao rastreamento do CCR apresentam-se baixas na maioria dos
estudos realizados, normalmente bastante inferiores àquelas referentes a outros programas de prevenção do
câncer. Esta baixa participação tem sido avaliada em diversos países e envolvem, dentre outras, diferenças
entre gêneros, raça/etnia e aspectos
culturais.16
Na Comunidade Européia, vários países membros seguiram a recomendação para implantação de
programas de rastreamento, mas a cobertura e qualidade do screening têm mostrado diferenças importantes entre
os países, tendo obtido melhores resultados aqueles programas dito organizados e com coordenação
nacional.17
Na Itália, existe uma recomendação nacional para que se alcance ao menos 50% de cobertura para
o programa de rastreamento, sendo que em 2006 o screening era realizado como programa em 11 das
21 regiões italianas. Na França, o rastreamento se faz pela pesquisa de sangue oculto nas fezes pelo
método guáiaco, bianualmente, na faixa de 50 a 74 anos, sendo encaminhada carta aos pacientes
convocando-os para a colonoscopia. O programa, que previa para fins de 2008 uma cobertura nacional, procurou
utilizar recursos e expertise oriundos do rastreamento mamográfico já implantado
naquele país.
O rastreamento para o câncer colorretal, juntamente com o de colo de útero e mama, pode ser encontrado
no Plano Nacional de Prevenção das Doenças Oncológicas de Portugal, referente ao período
2007-2010.18 O método utilizado é a pesquisa de sangue oculto nas fezes na população de 50 a 74 anos. A Alemanha,
por meio de um programa oportunista, utiliza a pesquisa de sangue oculto, tendo em 2002 introduzido
a possibilidade da colonoscopia como outro método de rastreamento.
No Reino Unido, após projeto piloto inicial, um programa nacional foi introduzido em 2006 na Inglaterra e
em 2007 na Escócia, tendo sido feita a opção pela pesquisa de sangue oculto nas fezes (método
guáiaco), bianual. Foi definida como população alvo a faixa de 60 a 69 anos na Inglaterra e de 50 a 74 anos na
Escócia. Os programas pilotos apontaram uma redução do risco de morrer por CCR de
16%.19
A recomendação de realizar rastreamento pela pesquisa de sangue oculto nas fezes foi incluída no
plano nacional de oncologia da Espanha. Na Catalunha existe um projeto piloto desde 2000, sendo que a
baixa participação no programa foi atribuída à falta de informação sobre a doença e os benefícios decorrentes
do screening.16
Na Austrália, após um projeto piloto ocorrido entre 2002 e 2004, um programa de rastreamento nacional
está sendo introduzido. O país optou pela pesquisa de sangue oculto nas fezes (método imunoquímico)
e colonoscopia como complemento, inicialmente definida a faixa etária de 55 a 65 anos como alvo.
No Japão o programa de investigação nacional existe desde 1992, conduzido pelos governos locais e
utilizando a pesquisa de sangue oculto em indivíduos de 40 anos ou mais. Aumentar a taxa de participação no
programa, atualmente em torno de 18%, é uma das metas do projeto.
O Canadá incluiu a recomendação para o rastreamento populacional em 2002. Desde então, suas
diversas províncias têm desenvolvido programas para
avaliação de custo-benefício. Na província de Alberta, por
exemplo, o rastreamento inclui habitantes entre 50 e 74 anos, sendo oferecidas diferentes opções de exames para
a investigação.20
Nos Estados Unidos, diferentes exames são disponibilizados para o rastreamento do CCR, conforme
apontado anteriormente. Apesar da não existência de um programa de rastreamento nacional organizado, em
diversas regiões do país é bastante elevada a cobertura do screening para esta neoplasia, atingindo taxas
próximas a 70%. Alguns programas organizados de rastreamento funcionam com planos de saúde ou em
departamentos regionais de saúde. O sucesso dos programas norte-americanos de rastreamento tem sido apontado
como fator preponderante para a queda das taxas de incidência e de mortalidade referentes ao câncer colorretal.
O Uruguai organiza um programa nacional desde 2005, com investigação anual para faixa etária de 50 a
70 anos. Os casos com resultado positivo para pesquisa de sangue oculto nas fezes são comunicados
por carta, para a realização da colonoscopia.
No Brasil, apesar das recomendações do INCA para a realização de pesquisa de sangue oculto nas
fezes em indivíduos com risco baixo e moderado, pode-se afirmar que não existe um programa de
rastreamento organizado, mas alguns poucos projetos pilotos em andamento. Como norma, optou-se pelo
rastreamento oportunista. No último Plano Nacional de Saúde Um Pacto pela Saúde no Brasil não existem referências
a um programa de rastreamento populacional para o CCR.
O câncer colorretal no Estado de São Paulo
Em 2008, o Instituto Nacional de Câncer estimou para o Estado de São Paulo a ocorrência de 9.890
casos novos de CCR, o que representa 7,4% do total anual das neoplasias malignas do Estado. A
estimativa segundo sexo mostra 5.190 casos para o feminino, o que equivaleria a uma taxa bruta de incidência
de 32,40/100.000 habitantes, e 4.700 novos casos para o masculino (taxa de incidência de
30,53/100.000 habitantes).8
Como as estimativas de incidência elaboradas pelo INCA baseiam-se, principalmente, nas fontes
oriundas dos Registros de Câncer de Base Populacional e alguns destes apresentam problemas operacionais e
de estrutura, pode-se afirmar que não existem dados consistentes que permitam analisar a tendência de
incidência do CCR em território paulista.
Ao contrário, quando analisada a mortalidade por CCR no Estado de São Paulo, é possível afirmar que
as taxas específicas de mortalidade por este câncer apresentam tendência de crescimento, conforme
estudo desenvolvido pela Fundação Oncocentro de São Paulo (Fosp). Entre 1987 e 2003, a instituição avaliou
a tendência da mortalidade por câncer nos paulistas, adotando como critério o agrupamento dos dados
em biênios, de modo a diminuir possíveis flutuações ocorridas aleatoriamente num determinado
ano.21
Os dados apresentados neste estudo, cujas taxas de mortalidade foram ajustadas por idade e
padronizadas para a população mundial, indicam para os tumores de cólon/reto/ânus um aumento importante e
crescente das taxas de mortalidade, tanto para o sexo feminino como para o masculino. O dado
evidencia a
importância deste câncer no perfil de mortalidade por câncer no Estado de São Paulo (Gráfico 1).
Fonte: Fundação
Seade/Fosp
*Taxas ajustadas por idade, padronizadas pela população mundial
Gráfico 1. Evolução das taxas* de mortalidade por câncer de cólon/reto/ânus
segundo sexo. Estado
de São Paulo, 1987 a 2003.
No estudo em questão, também foi analisada a tendência temporal da mortalidade por câncer nas
Direções Regionais de Saúde (DIR), divisão administrativa definida pela Secretaria de Estado da Saúde de São
Paulo à época. Como regra, pode-se afirmar que, no período estudado, as taxas padronizadas de mortalidade
por câncer de cólon/reto/ânus aumentaram em todas as DIR, sendo que em algumas regiões de saúde o
aumento das taxas entre os biênios 1987/88 e 2002/03 superou 100%.
Dados mais recentes de mortalidade, referentes a 2007, apontam que as neoplasias malignas
foram responsáveis por 17,20% dos óbitos dos residentes no Estado de São Paulo, tendo o CCR
representado 9,34% do total de óbitos. As taxas de mortalidade por CCR, padronizadas pela população,
corresponderam a 10,10 e 8,12 por 100.000 habitantes, respectivamente para homens e mulheres residentes no Estado
em 2007.
A distribuição dos óbitos por CCR segundo faixa etária e sexo, referentes a 2007, pode ser vista no
Gráfico 2, no qual é possível observar que os óbitos causados pelo câncer colorretal começam a se tornar
importantes a partir dos 40 anos, com maior concentração dos eventos nos grupos etários de idade mais avançada,
para ambos os sexos. A curva referente às mulheres apresenta um padrão de crescimento ascendente constante.
Fonte: Fundação Seade/SES-SP
Gráfico 2. Distribuição dos óbitos por câncer de cólon/reto/ânus
segundo faixa etária e sexo. Estado de
São Paulo, 2007.
Na sequência, são apresentadas as variações regionais das taxas padronizadas de mortalidade por
CCR, referentes a 2007, tendo sido adotada a atual divisão administrativa assumida pela Secretaria de Estado
da Saúde de São Paulo, que divide o Estado em 17 Departamentos Regionais de Saúde (DRS). Apesar
das taxas apresentadas estarem ajustadas por idade e padronizadas pela população mundial, a
comparação entre as regiões de saúde deve ser feita com ressalvas. Os números apresentados têm como
referência somente um ano, o que em algumas regionais de saúde poderia significar pequeno número de eventos,
fato que pode distorcer a compreensão correta dos resultados.
A análise da Tabela 1 mostra, para o sexo masculino, que as maiores taxas de mortalidade por CCR em
2007 foram encontradas nas regiões da Grande São Paulo (DRS I), Baixada Santista (DRS IV), Araraquara
(DRS III) e Campinas (DRS VII), sendo a menor taxa em Franca (DRS VIII).
Para o sexo feminino as taxas mais elevadas foram àquelas referentes aos DRS IV (Baixada Santista),
I (Grande São Paulo), VII (Campinas) e VI (Bauru). O menor valor observado foi de 4,87 por 100.000
habitantes, encontrado na regional de Presidente Prudente (DRS XI).
Os mapas apresentados na sequência, referentes a homens e mulheres, ilustram as variações regionais
das taxas de mortalidade por CCR no Estado de São Paulo.
Tabela 1. Distribuição das taxas de mortalidade* por câncer de cólon/reto/ânus segundo
Departamento Regional de Saúde e sexo. Estado de São Paulo, 2007.
|
DRS
|
Sexo
masculino
|
Sexo
feminino
|
|
I
– Grande São Paulo
|
12,02
|
9,03
|
|
II
– Araçatuba
|
6,72
|
6,52
|
|
III
– Araraquara
|
11,16
|
8,09
|
|
IV
– Baixada Santista
|
11,70
|
10,34
|
|
V
– Barretos
|
9,19
|
7,26
|
|
VI
– Bauru
|
9,04
|
8,47
|
|
VII
– Campinas
|
10,16
|
8,58
|
|
VIII
– Franca
|
5,60
|
6,20
|
|
IX
– Marília
|
9,29
|
5,56
|
|
X
– Piracicaba
|
9,63
|
7,28
|
|
XI
– Presidente Prudente
|
5,75
|
4,87
|
|
XII
– Registro
|
5,97
|
7,74
|
|
XIII
– Ribeirão Preto
|
7,76
|
7,25
|
|
XIV
– São João da Boa Vista
|
9,28
|
5,23
|
|
XV
– São José do Rio Preto
|
7,21
|
6,13
|
|
XVI
– Sorocaba
|
7,75
|
5,61
|
|
XVII
– Taubaté
|
7,99
|
7,82
|
Fonte:
Fundação Seade/SES-SP
*Taxas ajustadas por idade, padronizadas pela população
mundial
Figura 1. Distribuição das taxas de mortalidade por câncer colorretal no sexo masculino,
segundo Departamento Regional de Saúde. Estado de São Paulo, 2007.
Figura 2. Distribuição das taxas de mortalidade por câncer colorretal no sexo feminino, segundo
Departamento Regional de Saúde. Estado de São Paulo, 2007.
Em São Paulo, o screening para o
câncer colorretal não é realizado como um rastreamento
organizado, sendo a opção atual pelo rastreamento oportunista. No
último Plano Estadual de
Saúde22 não existem referências quanto a metas específicas para o rastreamento do
CCR, uma vez que a
citação no documento diz respeito à detecção precoce dos tumores: "Aumentar em 50% o diagnóstico em estádios precoces
para tumores de colo do útero, mama, cólon e reto, pele, cavidade oral e próstata". Também não existem
dados disponibilizados que quantifiquem a cobertura do rastreamento para o CCR no Estado.
Outros dados importantes referentes ao CCR podem ser obtidos junto ao Registro Hospitalar de
Câncer (RHC), coordenado pela Fundação Oncocentro de São Paulo. O RHC armazena, desde 2000,
informações dos casos novos de câncer diagnosticados e tratados em hospitais
paulistas.23 A análise da sua base
de dados, referente ao ano de 2007, mostra que o total de casos novos de câncer registrados foi de
38.303, correspondendo o CCR a 6,9% do total, com 2.636 casos e distribuição semelhante entre homens e mulheres.
O tumor foi confirmado microscopicamente em 98,1% dos casos, sendo o adenocarcinoma responsável
pela imensa maioria dos achados morfológicos. A distribuição dos casos segundo faixa etária mostra,
conforme o esperado, concentração nos grupos etários mais avançados, sendo a faixa de 50 anos ou mais
responsável por 81,3% dos casos. A principal modalidade de tratamento inicial utilizada foi a cirurgia
isoladamente, seguida da associação cirurgia mais quimioterapia.
A distribuição dos casos segundo estadiamento clínico pode ser vista no Gráfico 3, que mostra que
os estádios III e IV, os mais avançados, responderam por 55% dos casos, achado que com certeza
compromete os índices de sobrevida destes pacientes.
Fonte: RHC/Fosp
Gráfico 3. Distribuição dos casos novos de câncer colorretal segundo estadiamento clínico*. Estado de
São Paulo, 2007.
*Casos efetivamente estadiados pela Classificação TNM
Ainda não existem dados referentes à sobrevida disponibilizados pelo Registro Hospitalar de Câncer
do Estado de São Paulo. Estudos antigos do Hospital do Câncer AC Camargo, referentes ao período de 1980
a 1987, mostram uma sobrevida média de cinco anos em 43,9% dos
casos, sendo que quanto mais avançado o estádio, menor
é a sobrevida observada.12
Apresentam-se, na sequência, alguns dados referentes à produção de serviços relacionados ao CCR
pelas diferentes instituições que prestam assistência ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado de São
Paulo. De forma semelhante às outras informações apresentadas, os dados têm como referência o ano de 2007.
Inicialmente, são apresentados alguns dados relativos a procedimentos potencialmente relacionados com
o rastreamento para o CCR. Em 2007, foram
registrados no Estado 63.648 exames de pesquisa de
sangue oculto nas fezes, 34.462 colonoscopias e 18.774 procedimentos de retossigmoidoscopia. São
números bastante pequenos frente à necessidade, pois caso fosse implantado um rastreamento organizado,
bianual e tendo como população alvo os habitantes com 50 anos ou mais, seriam necessários mais de 4 milhões
de exames apenas no que se refere ao teste de pesquisa de sangue oculto nas fezes.
Outro dado importante referente a procedimentos ambulatoriais do SUS é o que mostra as Autorizações
de Procedimentos de Alta Complexidade (APAC) de quimioterapia e radioterapia. Em 2007, o total de APAC
de quimioterapia e radioterapia referentes ao CCR foi de 30.195, com um gasto total de R$
26.555.638,42. Estes procedimentos de quimioterapia e/ou radioterapia foram realizados pelo SUS em 6.295 pacientes
com câncer colorretal, sendo a idade média dos pacientes 60 anos.
Por fim, os dados referentes à internação hospitalar (AIH) por CCR como diagnóstico principal mostram
que, em 2007, ocorreram no Estado de São Paulo 9.485 internações com diagnóstico principal de câncer
colorretal, gerando um volume financeiro total de R$ 14.522.231,89 (gasto médio de R$ 1.531,07 por internação).
Do total destas internações, 60,3% tiveram como procedimento principal registrado o tratamento cirúrgico,
mais de 70% dos eventos em instituições credenciadas pelo SUS para o tratamento oncológico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados apresentados reafirmam a relevância do câncer colorretal como uma das neoplasias mais
importantes na população adulta mundial, com incidência e mortalidade crescentes na maioria dos países.
Pelo fato de desenvolver-se lentamente a partir de uma lesão precursora e apresentar poucos sintomas
nas fases iniciais da doença, estratégias foram desenvolvidas com o objetivo de realizar o diagnóstico dos
tumores precocemente o rastreamento populacional. Como regra, este screening emprega a pesquisa de
sangue oculto nas fezes enquanto método de escolha e elege como população alvo os adultos acima de 50
anos. Diferentes estudos comprovam que o rastreamento organizado possibilita melhores resultados e
menores custos do que aquele realizado de maneira oportunista.
Implantar um programa de rastreamento populacional organizado para o CCR tem sido
a estratégia planejada por diferentes países
para alterar o padrão epidemiológico da doença. E este também deve ser o objetivo
do Brasil e suas diferentes regiões, incluindo o Estado de São Paulo.
As diversas experiências internacionais apresentadas mostram que o passo inicial consiste em
organizar programas pilotos de rastreamento organizado, desde a identificação da população alvo e sua
convocação até medidas necessárias para diagnóstico e tratamento ágeis, além do seguimento adequado dos
casos tratados, sendo o controle de qualidade elemento fundamental da estratégia.
Dada a relevância do tumor e as evidências científicas disponíveis que recomendam o
rastreamento populacional, sugere-se que São Paulo inicie estudos para a implementação de programa piloto
de rastreamento para o CCR, analisando a estratégia a ser empregada, população alvo, recursos
humanos, econômicos e sanitários necessários. O rastreamento organizado e com participação relevante da
atenção básica parece ser a melhor opção. As regiões de saúde ou os municípios que apresentam as maiores
taxas de mortalidade por CCR poderiam ser o balizador inicial para a definição do programa piloto.
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