Rhodnius
neglectus
é a espécie do gênero Rhodnius mais amplamente distribuída
no Brasil, ocorrendo em 11 Estados (Maranhão, Piauí, Pernambuco,
Tocantins, Goiás, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do
Sul, São Paulo e Paraná) e no Distrito Federal, entre 3º e 25º
de latitude sul, desde o nível do mar até cerca de
1.000 metros
de altitude1,2,3. Populações dessa espécie ocorrem
frequentemente em palmeiras dos gêneros Attalea, Acrocomia
e Mauritia,
mas podem também ser encontradas em ninhos de pássaros e de mamíferos,
como Didelphis4,5. Vários estudos têm salientado
a importância de palmeiras como ecótopos naturais de triatomíneos,
principalmente do gênero Rhodnius, podendo as mesmas
funcionar como indicadoras ecológicas de áreas de risco da doença
de Chagas, pela presença desses vetores e hospedeiros do ciclo de
transmissão do Trypanosoma cruzi,
agente etiológico da doença.
A
invasão de R. neglectus no peridomicílio e no intradomicílio
tem sido observada em Tocantins, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e
Paraná6-9, geralmente com baixos índices de infecção
por T. cruzi. Em território paulista, no período de
1990 a
1999, foram coletados 3.149 exemplares de R. neglectus, sendo
2.542 no intradomicílio e 607 no peridomicílo,
com índices de infecção por T. cruzi de 0,34% e 0,24%,
respectivamente. Embora seja um triatomíneo silvestre, que se cria
de preferência em palmeiras, pode invadir as habitações humanas e
os anexos e, aí, formar colônias.
Fatores
climáticos podem afetar a duração do ciclo biológico, a
distribuição, a dispersão pelo voo, o número de repastos e até
a probabilidade de transmissão de T. cruzi pelos triatomíneos10.
O ciclo biológico de R. neglectus em condições de laboratório
é muito rápido comparado a
outras espécies de triatomíneos, variando de
81 a
225 dias, dependendo das condições de temperatura e umidade
relativa4. R. neglectus mostra nítida correlação
entre temperaturas mais altas e diminuição do período embrionário
e período médio de desenvolvimento ninfal em condições de
laboratório11. Entretanto, temperaturas muito elevadas
podem inviabilizar a sobrevivência das colônias, devido à alta
mortalidade associada. Porém, em condições naturais a influência
das variações de temperatura e umidade do ambiente pode ser
minimizada para as espécies de triatomíneos que vivem
em palmeiras. A
variação de temperatura e umidade na base das folhas das palmeiras
é menor quando comparada ao ambiente externo, favorecendo o
desenvolvimento das colônias silvestres em condições climáticas
mais estáveis12.
A
estratégia de vigilância entomológica vigente em São Paulo prevê
a participação da população na notificação de insetos suspeitos de
serem triatomíneos à Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) – órgão da
Secretaria de Estado da Saúde (SES-SP). O atendimento a toda
notificação, com pesquisa entomológica direcionada, ocorre na
casa notificante e naquelas situadas em um raio de
200 metros
.
Nos
municípios de Araçatuba e Birigui, principalmente em sua área
urbana, tem sido referida a presença frequente de exemplares de R.
neglectus em prédios de apartamentos, principalmente aqueles
localizados em andares nivelados com a copa das palmeiras.
As 59 notificações procedentes da cidade de Araçatuba, no
período de novembro de
2004 a
novembro de 2007, somaram 65 exemplares de R. neglectus,
sendo 64 adultos (45 fêmeas e 19 machos) e 1 ninfa de quinto
estágio. O teste de precipitina utilizado para determinar a fonte
animal da ingesta do triatomíneo, realizado nesses exemplares,
demonstrou que uma das fêmeas havia sugado sangue humano e de cão.
Os
atendimentos a essas notificações resultaram no encontro de uma
colônia em apartamento localizado no 10º andar,
cujo morador havia encaminhado a notificação. Nesse imóvel
foram encontradas 20 ninfas (17 de primeiro
estágio e 3 de segundo)
em um dos quartos. Ao exame microscópico esses triatomíneos
revelaram-se negativos para formas flageladas do protozoário
causador da doença de Chagas e demonstraram que as três
ninfas de segundo estágio alimentaram-se de sangue humano.
Em 2007, foi estudada a dispersão da espécie no município de Araçatuba,
podendo-se constatar, após a pesquisa, que de 34 palmeiras (33
palmeira real e uma macaubeira) 25 estavam infestadas por R.
neglectus, coletando-se
357 exemplares da espécie. A pesquisa das palmeiras
necessitou de caminhão tipo Hot Stick, cedido pela Companhia
Paulista de Força e Luz (CPFL).
O
resultado do estudo demonstrou que:
·
as
palmeiras podem ser indicadoras da presença de colônias de Rhodnius
neglectus na zona
urbana em que esteja ocorrendo notificações;
·
existe
a possibilidade de instalação de colônias de triatomíneos nesses
ecótopos, associadas principalmente à alimentação de aves; e
·
esses
triatomíneos podem carrear o T. cruzi do ambiente silvestre
para a zona urbana através de transporte passivo; portanto, deve-se
considerar o risco de transmissão.
A constatação da invasão
de insetos triatomíneos da espécie Rhodnius neglectus, que
vivem em palmeiras, a apartamentos e casas térreas próximas
desses ecótopos, nos municípios de Araçatuba e Birigui, levou à
elaboração de uma nota de esclarecimento para a população. Nela
é destacado o baixo risco de transmissão da doença de Chagas ao
homem, uma vez que a sua presença nas palmeiras está associada à
existência de animais que servem como fonte de alimento — nesse
caso, as aves.
Foi orientado, ainda,
sobre os cuidados a serem tomados pelos moradores em suas residências,
tais como: telar portas e janelas (com telas comuns utilizadas para
impedir acesso de pernilongo); manter camas afastadas das paredes;
vistoriar semanalmente estrados e colchões e atrás de quadros e móveis;
não permitir presença de ninhos de pássaros no interior dos imóveis;
e verificar periodicamente a presença de insetos em abrigos de
animais domésticos. Quando do encontro de insetos, enviar os mesmos
à Sucen ou à unidade de saúde mais próxima, para a avaliação e
tomada de providências.
Registre-se que os triatomíneos
capturados no estudo foram examinados e não se encontravam
infectados por Trypanosoma
cruzi. Foi realizado o teste para verificar que animal havia
sido utilizado como fonte alimentar, resultando, até o momento, na
presença de sangue de ave, refratária à infecção pelo Trypanosoma
cruzi, e sangue de marsupial.
Uma nota técnica com os
esclarecimentos acima foi elaborada e distribuída aos moradores do
conjunto residencial afetado. Por tratar-se de fato incomum a presença
desses insetos em áreas urbanas – embora as ações de vigilância
triatomínica no Estado de São Paulo sejam constantes e
abrangentes, uma vez que as áreas de distribuição das espécies
ainda apresentam características rurais e periurbanas –, o evento
foi exaustivamente explorado pela imprensa local.
Foi elaborado um folheto
com orientações sobre a espécie em foco, o qual está sendo
utilizado pelo Serviço Regional da Sucen de Araçatuba. Além
disso, outra nota técnica foi divulgada, informando a população
sobre o baixo risco de transmissão da doença de Chagas pela picada
desse triatomíneo, uma vez que os mesmos não se encontravam
infectados. Não havia, portanto, motivo para pânico, pois os órgãos
públicos estão atentos ao problema.
Saliente-se que a missão
da Sucen é promover o efetivo controle das doenças transmitidas
por vetores e seus hospedeiros intermediários
no Estado de São Paulo, realizando pesquisas e
atividades necessárias ao avanço científico e tecnológico e
cooperando técnica e financeiramente com os governos municipais
(como executores das ações locais de controle). Ao órgão cabe,
ainda, subsidiar o controle de artrópodes peçonhentos e incômodos
e outros animais envolvidos na cadeia epidemiológica das doenças
transmitidas por vetores.
No ano de 2008 foram
coletados em área urbana 115 exemplares de triatomíneos da espécie
em questão, com composição de estádios de 82 adultos e 33
ninfas. Todos os insetos coletados estavam negativos para Trypanosoma
cruzi.
Neste caso específico, o
estudo realizado na área não identificou risco da presença desses
insetos para o homem. No entanto, deve ser estimulada a divulgação
desse episódio à população local, orientando-a para a efetiva
participação na vigilância do seu domicílio. À Sucen cabe
atender cada notificação nos domicílio e desencadear as ações
necessárias.
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