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O
vírus da rubéola é extremamente teratogênico. O risco de ocorrência
da síndrome da rubéola congênita (SRC) em recém-nascidos (RN) das
gestantes infectadas pelo vírus selvagem da rubéola no primeiro
trimestre de gestação é cerca de 80%; porém, se o período se
estender até 20 semanas, o risco cai para 20%. As principais manifestações
clínicas da SRC são: deficiência auditiva, cardiopatia congênita
(persistência do ducto arterial, hipoplasia da artéria pulmonar),
meningoencefalite, microcefalia, catarata, retinopatia, baixo peso ao
nascer (<2.500g), hepatoesplenomegalia, púrpura, atraso no
desenvolvimento1.
Diversos
estudos demonstram que sem uma estratégia de eliminação da rubéola
seriam esperados cerca de 20.000 casos de SRC ao ano nas Américas. No
período de 1998 a 2006, 40 países e territórios americanos
utilizaram estratégias de vacinação em massa para crianças,
adolescentes e adultos com o objetivo de interromper a transmissão do vírus
e prevenir a SRC2.
Até
o momento, entre
os vários estudos publicados que acompanharam as
gestantes vacinadas com a dupla viral (contra a rubéola e o
sarampo), verificou-se que os seus filhos não apresentaram malformações compatíveis
com a SRC3,4,5,6,7,8,9,10,11.
No
Brasil, durante
a campanha de vacinação contra rubéola realizada em 2001 e 2002 foram vacinadas cerca de 29 milhões de mulheres entre 15 e 29
anos de idade; 20.395 gestantes receberam a vacina dupla
viral, das quais 2.330 (2.330/20.395= 11,4%) apresentaram IgM reagente
para rubéola. Ou seja, essas gestantes, no momento da vacinação,
eram
suscetíveis à rubéola e quando vacinadas apresentaram viremia que
poderia resultar em infecção dos conceptos. Foram coletadas 1.797
(77,1%) amostras de sangue dos recém-nascidos (RN) dessas gestantes, para realização de sorologia; 63 (3,5%) apresentaram IgM reagente
para rubéola. Essas crianças foram avaliadas durante o primeiro ano de
vida e não apresentaram manifestações clínicas compatíveis com SRC,
reforçando a segurança da vacina2.
No
Estado de São Paulo, na campanha de vacinação realizada em 2001 foram
vacinadas 4.408.844 mulheres entre 15 e 29 anos de idade,
atingindo-se uma cobertura vacinal (CV) de 91,16%. A Divisão de
Imunização do Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre
Vranjac”, vinculado à Coordenadoria de Controle de Doenças da
Secretaria de Estado da Saúde, ao planejar e organizar a campanha,
implementou o Sistema Estadual de Notificação de Gestantes Vacinadas (SENGV),
em conjunto com as regionais de saúde e os municípios, para
notificação e acompanhamento das gestantes vacinadas.
Foram
notificadas 6.473 gestantes, e, considerando-se o total de mulheres
atingidas pela campanha, 1,47 gestantes foram vacinadas para cada 1.000
doses aplicadas. Do total das gestantes notificadas, 5.580 (86,2% de 6.473) realizaram sorologia para rubéola; 811 (14,5% de
5.580) eram suscetíveis no momento da vacinação; 2.135
(38,3%) eram imunes; 2.607 (46,7%) estavam com situação imunológica
indeterminada; e 27 (0,5%) permaneceram soronegativas após a vacinação.
Foram encaminhadas para realização do teste de avidez (que indica a
susceptibilidade para a rubéola) 1.686 amostras. Desse total, 118 (7,0%) apresentaram baixa avidez. Das 811 gestantes suscetíveis,
foram coletadas amostras de sangue de 580 RN (71,5% de 811), 27 dos
quais apresentaram sorologia reagente para rubéola (IgM). A taxa de infecção
pelo vírus vacinal em gestantes suscetíveis foi de 4,7% (27/580).
Do
total de 27 RN infectados, 18 realizaram todos os exames do protocolo
para investigação de SRC e nenhum apresentou qualquer tipo de alteração.
Os outros nove RN também não apresentaram evidências de manifestações
clínicas compatíveis com a SRC, reafirmando os dados já publicados na
literatura quanto à segurança da vacina contra a rubéola. No
acompanhamento das gestantes vacinadas no Estado de São Paulo,
comparando-se os RN das gestantes suscetíveis e imunes também não foi
observado aumento na taxa de aborto, baixo peso ou prematuridade11.
Na
campanha de vacinação de 2001, no Estado de São Paulo,
apesar da recomendação de não vacinar as gestantes, a maioria (98%)
dos casos notificados deveu-se ao fato das mulheres desconhecerem a
gravidez. Foi perguntado às
gestantes se haviam sido informadas sobre a
contraindicação da vacina dupla viral em grávidas; e 80%
responderam afirmativamente. Provavelmente, essas gestantes foram vacinadas não pelo
desconhecimento da informação, mas por estarem muito no
início da gravidez (em média 3 a
4 semanas) e não o saberem11.
Apesar
dos estudos realizados e publicados no Brasil reafirmando a segurança
da vacina quando aplicada em mulheres grávidas, como precaução
recomenda-se que as gestantes não sejam vacinadas com imunobiológicos
de vírus vivos atenuados. Cabe salientar que, mesmo nos países onde não
há limitações legais para o aborto, a vacinação contra a rubéola não
é considerada indicação para interromper a gestação. Os dados
desses estudos reiteram o acerto da conduta.
Na
Campanha Nacional de Vacinação Contra Rubéola, em 2008,
foram vacinadas em todo o País 67.197.649 pessoas, atingindo-se uma
cobertura vacinal de 95,79%.
A CV das mulheres foi de 98,42% (34.818.370) e a dos
homens, 93,12% (32.379.279). Em todo o Estado de São
Paulo foram vacinadas 13.264.224 de pessoas entre 20 e 39 anos de idade,
com uma CV de 93,22%. Foram vacinadas 6.775.929 mulheres ( 93,71%) e
6.488.295 homens ( 92,71%).
Durante
o evento foi orientado, como precaução, que as
gestantes não fossem vacinadas e que as mulheres evitassem a gravidez
por um mês após a vacinação12. No entanto, se a vacinação ocorreu em gestantes
primovacinadas e no primeiro trimestre de gestação, foi orientada a
notificação em ficha específica (disponível no site www.cve.saude.sp.gov.br)
e a coleta de sorologia para rubéola.
As gestantes IgM+ e os seus RN
serão acompanhados. Na eventualidade de ocorrência de alguma malformação
congênita, a investigação é fundamental para afastar outras possíveis
causas de tal evento, como toxoplasmose, infecção pelo
citomegalovírus e herpes vírus, além de doenças genéticas. Em
qualquer gestação, independentemente da exposição a qualquer fator
de risco para o feto, cerca de 2% a 3% dos RN poderão apresentar
malformações sem causa definida. A investigação é fundamental para
afastar uma possível associação da vacina contra a rubéola e o
evento observado.
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