Bepa Fevereiro 2009; 6(62) ISSN 1806-4272
INFORME TÉCNICO


Márcia Jorge Castejón1, Rosemeire Yamashiro1, Kátia Maria de Souza Assumpção Carraro2,
Gabriela Bastos Cabral1, Luana Portes Osório Coelho1, Mirthes Ueda1
1
Instituto Adolfo Lutz Central. Coordenadoria de Controle de Doenças. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, SP, Brasil, 2
Instituto Adolfo Lutz – Laboratório Regional de Sorocaba, SP, Brasil


Introdução

O sucesso na implantação de ações que levam à melhoria e garantia da qualidade do diagnóstico laboratorial está relacionado com o envolvimento de todos os profissionais da área, por meio do desenvolvimento de cultura global de qualidade e pela conscientização dos procedimentos que a garantam. Para melhor confiabilidade nos resultados obtidos de ensaios laboratoriais, o emprego do controle de qualidade interno (CQI) é um dos requisitos para implementar a qualidade, pela inclusão de parâmetros adicionais para a validação dos ensaios durante os procedimentos da fase analítica dos testes sorológicos, contribuindo também no monitoramento de erros aleatórios e sistemáticos1-8.

No informe técnico publicado no Boletim Epidemiológico Paulista (junho/2008) foram propostas as medidas a serem implementadas em relação aos laboratórios inscritos no Programa de Controle da Qualidade Analítica do Diagnóstico Laboratorial da Infecção pelo HIV no Estado de São Paulo (PCQA–HIV/SP) do Instituto Adolfo Lutz (IAL), vinculado à Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP), e que não responderam ao ofício enviado para participação no primeiro treinamento, realizado em abril daquele ano9.

Em novembro de 2008 o IAL realizou o segundo treinamento para capacitar os profissionais das unidades da sub-rede de laboratórios públicos e conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS), que não puderam participar do primeiro evento sobre o emprego do CQI no monitoramento do desempenho de ensaios sorológicos para o diagnóstico de infecção pelo HIV10.

Objetivos

§  Capacitar os profissionais da sub-rede de laboratórios públicos e conveniados ao SUS, no Estado de São Paulo, sobre o emprego do controle de qualidade interno em ensaios sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV.

§  Divulgar o Manual Técnico para Implementação do Controle de Qualidade Interno nos Procedimentos Laboratoriais para Diagnóstico Sorológico da Infecção pelo HIV no Estado de São Paulo.

§  Efetuar o esclarecimento de papéis e responsabilidades de todas as unidades envolvidas no processo – IAL Central, hemocentros/hemonúcleos e laboratórios.

§  Efetuar a conscientização da relevância e necessidade da implementação do CQI-HIV para melhoria da qualidade do diagnóstico sorológico da infecção pelo HIV no Estado de São Paulo.

§  Orientar os profissionais que tiveram dificuldades no aprendizado dos exercícios sobre CQI no primeiro treinamento.

Metodologia

1.   Público-alvo

Aos 65 laboratórios inscritos no PCQA–HIV/SP que não participaram do primeiro treinamento foi enviado o oficio acompanhado de um formulário, o qual foi utilizado para subsidiar a programação do treinamento no âmbito de atividades concernentes ao programa. Para os três laboratórios que tiveram profissionais com dificuldades na realização dos exercícios referentes ao CQI HIV foram enviados os convites para participarem desse evento.

Os critérios estabelecidos para a participação no segundo treinamento foram os mesmos do primeiro e de acordo com o preconizado no Manual Técnico para Implementação do Controle de Qualidade Interno nos Procedimentos Laboratoriais para o Estado de São Paulo9, 10.

2. Programação

A programação do evento foi compreendida pelos seguintes itens:

§  apresentação do manual técnico;

§  apresentação da Portaria n° 59 MS/GM, de 28 de janeiro de 2003;

§  palestra sobre controle de qualidade interno;

§  aplicação de exercícios com monitoria, correção e discussão; e

§  avaliação, encerramento e entrega de certificados.

Os temas foram escolhidos visando à introdução de ações referentes à capacitação de profissionais de laboratórios para implementar o CQI-HIV, para atender à Portaria n° 59 MS/GM, de 28 de janeiro de 2003, e aos dispostos no manual acima mencionado.

3. Participantes

§  Profissionais dos laboratórios inscritos no PCQA-HIV/SP.

§  Palestrantes para cada módulo da programação.

§  Monitores para orientação dos exercícios.

4. Avaliação do treinamento

Para a avaliação do treinamento foram utilizados dois instrumentos, sendo o primeiro constituído por exercícios para o preparo do CQI, com a finalidade de avaliar o grau de compreensão dos participantes após a palestra, e o segundo, por um questionário semiestruturado com questões fechadas e abertas sobre o conteúdo técnico-didático e infraestrutura do evento. Nas variáveis qualitativas, os participantes puderam opinar nas categorias ótimo, bom, regular, irregular e não respondido. As respostas para as questões abertas foram agrupadas por similaridade e descritas as de maior relevância no trabalho.

O questionário foi digitado no programa Excel e os resultados estão apresentados na Tabela 1 e no Gráfico 1.

Resultados

Do total de 149* laboratórios inscritos no PCQA HIV/SP, 65 não participaram do primeiro treinamento. Para o segundo, 29,2% (19/65) dos laboratórios fizeram inscrição para participar do evento, 13 compareceram. Nele, houve a participação de 17 profissionais (incluindo-se os representantes de três laboratórios que já tinham participado do primeiro treinamento).

De acordo com os dados fornecidos no formulário, das 65 unidades laboratoriais, 23 (35,4%) não realizam mais a sorologia para HIV.

Os participantes demonstraram interesse pelo conteúdo dos módulos oferecidos, verificado pelas discussões geradas durante o treinamento e confirmado pelo resultado computado das fichas de avaliação.

Dos 17 participantes, 100% (17/17) entregaram os respectivos exercícios para análise do conhecimento adquirido em CQI. Após a correção e avaliação dos mesmos, ficou demonstrado que 100% (17/17) estão aptos para executar adequadamente a atividade.  

* Número passível de modificação (inclusão/exclusão). No período entre o primeiro e o segundo treinamento, mais três laboratórios fizeram inscrição no programa, excepcionalmente, um laboratório participou do  primeiro treinamento enquanto transcorria o processo de inscrição.

Com relação à ficha de avaliação, 94,1% (16/17) dos participantes responderam às questões (Tabela 1).

Tabela 1 – Resultados obtidos do questionário de avaliação do treinamento.

Avaliação do conteúdo

Ótimo

Bom

Regular

Fraco

Péssimo

NR

Avaliação geral do treinamento

50,0%

50,0%

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Atendimento aos objetivos estabelecidos

68,8%

31,3%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Conteúdo programático

75,0%

25,0%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Relevância com o desenvolvimento profissional

75,0%

25,0%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Compatibilidade com os objetivos

62,5%

37,5%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Objetividade e clareza do treinamento

75,0%

25,0%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Avaliação do instrutor

Ótimo

Bom

Regular

Fraco

Péssimo

NR

Avaliação geral do instrutor

81,3%

18,8%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Clareza na apresentação

75,0%

25,0%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Conhecimento do assunto

93,8%

6,3%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Avaliação do evento

Ótimo

Bom

Regular

Fraco

Péssimo

NR

Salas (tamanho, temperatura, iluminação, limpeza)

25,0%

68,8%

6,3%

 

0%

 

0%

 

0%

Localização

43,8%

56,3%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Recursos audiovisuais

25,0%

68,8%

6,3%

 

0%

 

0%

 

0%

Evento como um todo

50,0%

50,0%

 

0%

 

0%

 

0%

 

0%

Tempo

Adequado

Longo

Muito Longo

Curto

Muito curto

NR

Duração do evento

 

62,5%

6,3%

 

0%

 

6,3%

 

0%

 

25%

NR = não respondido

Itens descritivos

1- Caso tenha considerado algum dos itens regular, fraco ou irregular, por favor, indique aqui o motivo.

A satisfação foi amplamente elevada.

2- Quais os temas que você julgou mais relevantes para o desempenho de suas atividades? Por quê?

Ao responder essa questão, os temas mais mencionado foram todos os abordados (sete vezes), seguido do CQI (quatro vezes).

3- Que outros temas você gostaria que fossem abordados?

Evidenciou o reconhecimento da importância da implantação do CQI-HIV, sugerindo aplicação para outras patologias (CQI-HIV – Western blot, reações interferentes e interpretação de leituras de Western blot e imunofluorescência indireta para HIV).

4- Outros comentários/sugestões

Sugestões de atividade prática laboratorial complementar.


Gráfico 1 – Resultados do questionário de avaliação

Conclusão

A divulgação do primeiro treinamento pelos seus participantes incentivou mais laboratórios a realizarem suas inscrições no PCQA–HIV/SP. Com isso, o treinamento de abril de 2008 não só capacitou os profissionais como também estimulou outros laboratórios a participarem do segundo.

A presença e o interesse demonstrados durante as discussões indicam que o objetivo de divulgação do manual técnico foi plenamente alcançado entre os profissionais dos laboratórios presentes no treinamento.

O objetivo de conscientização sobre a importância e necessidade da implementação do CQI-HIV foi atendido, e este fato foi evidenciado pela resposta manifestada em 100% nas categorias ótimo/bom, que qualificaram como relevantes os temas abordados.

A presente avaliação evidenciou que o treinamento realizado com um número menor de participantes foi mais produtivo, pois os mesmos puderam discutir mais intensamente os assuntos em pauta e a monitoria prestada pôde ser mais eficiente. Todavia, a realização de vários treinamentos de menor porte é mais trabalhosa para quem organiza e mais dispendiosa para a instituição.

O aprendizado por meio da aplicação de exercícios de CQI durante o treinamento foi confirmado pela análise de seus resultados. Os profissionais das unidades que participaram do primeiro treinamento e demonstraram dificuldades no aprendizado, no segundo alcançaram ótimo desempenho.

As discussões geradas quanto ao fluxograma da Portaria no 59 demonstraram que o tema foi de extrema importância nesse evento. Foi esclarecido e ratificado que os laboratórios de diagnóstico não devem utilizar os ensaios de metodologia rápida (teste rápido) na realização da sorologia convencional, como também a liberação de resultados deve ser feita como preconizado no fluxograma da referida portaria.

Os papéis e as responsabilidades das unidades componentes da sub-rede de laboratórios do Estado de São Paulo na implementação do CQI–HIV ficaram bem compreendidos pelos participantes, fato evidenciado principalmente pela atuação nas discussões realizadas durante o evento.

Constatou-se que pelo menos um laboratório de cada Departamento Regional de Saúde (DRS) do Estado, com exceção do DRS de Barretos, participou do treinamento, evidenciando o cumprimento das diretrizes propostas na já citada portaria. Até o momento, foram capacitados 106 profissionais nas diferentes regiões. (Figura 1).

Fonte: www.saude.sp.gov.br (adaptado).
Figura 1.
Mapa do Estado de São Paulo – Número de profissionais capacitados por DRS
.

O Instituto Adolfo Lutz, representado pelos profissionais da área, espera que todos os laboratórios públicos e conveniados ao SUS em território paulista, que realizam a sorologia pelo HIV possam se inscrever no PCQA-HIV/SP e implementar o CQI–HIV para melhorar e implementar a garantia da qualidade dos respectivos resultados.

Referências bibliográficas  

  1. Oliveira CAF et al. Padronização de soros-controle para determinação de anticorpos anti-HIV. Elaboração de painel secundário de soros para controle interno de qualidade de testes sorológicos para o diagnóstico de infecção por HIV. Relatório técnico apresentado ao Conselho Técnico Científico do Instituto Adolfo Lutz, 2001.
  2. Kudlac J, Hanan S, McKee G.L. Development of quality control procedures for human immunodeficiency virus type 1 antibody enzyme-linked immunosorbent assay. J  Clin Microbiol., 1989; 27(6); 1303-6.
  3. Constantine NT, Callahan JD, Watts DM. HIV testing and quality control: a guide for laboratory personnel. Durham: Family Health International; 1991. p.170.
  4. Cura E, Wendel S. Manual de procedimientos de control de calidad para los laboratorios de serologia de los bancos de sangre. Washington: PAHO/HPC/HCT 94.21; 1994.
  5. World Health Organization - WHO. Guidelines for organizing national external quality assessment schemes for HIV serological testing. UNAIDS 96.5; 1996.
  6. The Joint United Nations Programme on HIV/Aids (UNAIDS). HIV testing methods: UNAIDS Technical Update; 1997.
  7. Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Controle de qualidade interno de testes sorológicos. Brasília: Ministério da Saúde, CN DST e Aids (Série TELELAB);1998.
  8. Ministério da Saúde - MS. Portaria n. 59/2003. Especifica a sub-rede de laboratórios do Programa Nacional de DST e Aids. Diário Oficial da União.  Brasília, DF, 30 jan. 2003; Seção 1:p.87.
  9. Castejón MJ,Yamashiro R, Carraro KMSA, Coelho LPO, Oliveira CAF, Ueda M, Avaliação da oficina de trabalho para capacitação de profissionais da sub-rede de laboratórios do Estado de São Paulo para implementação do controle de qualidade interno (CQI) no diagnóstico sorológico da infecção pelo HIV.  BEPA.2008; 5 (54):13-16.
  10. Instituto Adolfo Lutz - IAL. Coordenadoria de Controle de Doenças, Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – CCD/SES-SP. Manual técnico para implementação do controle de qualidade interno nos procedimentos laboratoriais para diagnóstico sorológico da infecção pelo HIV no Estado de São Paulo. São Paulo: IAL/CCD/SES-SP; 2007.


Correspondência/Correspondence to:
Márcia Jorge Castejón
Instituto Adolfo Lutz Central – Divisão de Biologia Médica – Seção de Sorologia
Av. Dr. Arnaldo, 351, 10º andar – Cerqueira César
CEP: 01246-000 – São Paulo/SP – Brasil
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