|
Resumo
O objetivo deste estudo foi descrever o perfil dos usuários que realizaram
testagem para o HIV nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) do
Estado de São Paulo entre 2000 e 2007 e analisar as associações entre as
características sociodemográficas e comportamentais frente à
positividade para o vírus. As estimativas dos riscos (odds ratio) para
HIV+ foram estudadas para as variáveis: sexo, idade, escolaridade,
estado civil, categoria de exposição/vulnerabilidade, sífilis,
hepatites. Realizou-se análise bivariada com nível de significância
estatística de 5%. Os resultados mostram que foram realizadas 107.569
testagens para o HIV, com uma proporção de soropositivos de 7,5%.
Dentre os sujeitos testados, 53% eram homens, 42% tinham entre
20 a 29 anos, 46% tinham 8 a 11 anos de estudo, 52% eram solteiros, 65%
declararam ser heterossexuais, 3,2% realizaram testagem para sífilis,
4,4% para hepatite B e 16,5% para hepatite C. Foram identificadas
associações entre a positividade para HIV e o sexo masculino (OR
bruto=2,62; 2,49-2,76), 30 a 39 anos (OR 2,75; 2,00-3,81), viúvo (OR
1,90; 1,66-2,18). A escolaridade de 8 a 11 anos de estudo revelou fator
protetor (OR 0,62; 0,52-0,74). Para a categoria de exposição homens
que fazem sexo com homens (HSH) observou-se OR= 8,08 (7,63-8,57). Para a
sífilis registrou-se OR= 6,01 (5,54-6,52), hepatite B (OR 5,75;
5,14-6,43) e hepatite C (OR 7,10;5,17-9,73). Os resultados chamam a atenção
para o risco acrescido de HIV entre HSH e portadores de sífilis e
hepatites. Essas informações são importantes para direcionar ações
de prevenção e de assistência, sobretudo em populações mais vulneráveis.
Palavras-chave: testagem para o HIV;
aconselhamento; populações vulneráveis.
Abstract
The aim of this study was to describe the profile of
the population tested for HIV at the São Paulo State testing &
counseling sites (2000-2007), and to analyze the associations between
socio-demographic and behavioral characteristics in relation to
positivity for HIV infection. We used bivariate analysis and odds ratios
were calculated for the following variables: gender, age, schooling,
marital status, exposure/vulnerability, syphilis, hepatitis (95% CI).
There were 107,569 HIV tests performed, with 7.5% of HIV positive tests.
Among subjects tested for HIV, 53% were male, 42% were between 20-29
years of age, 46% had 8-11 years of schooling, 52% were single, 65% were
heterosexuals, 3.2% were tested for VDRL, and 4.4% and 16.5% were tested
for hepatitis B and hepatitis C, respectively. Associations with
statistical significance in the bivariate analysis (p<0.05) were
found for males (crude OR =2.62; 2.49-2.76), 30-39 years of age (OR
2.75; 2.00-3.81), being a widower (OR 1.90; 1.66-2.18). There was
protecting factor in 8-11 years of schooling (OR 0.62; 0.52-0.74). Among
men who have sex with men (MSM)we observed OR= 8.08 (7.63-8.57). For
syphilis we found an OR=6.01 (5.54-6.52), for hepatitis B (OR 5.75;
5.14-6.43) and for Hepatitis C (OR 7.10;5.17-9.73). The results show
that the risk for syphilis and hepatitis is high in MSM. The information
is important for decision makers in prevention and care, mainly in
regard to more vulnerable populations.
Key words: HIV testing; counseling; vulnerable populations.
Introdução
A síndrome da
imunodeficiência adquirida (Aids) foi inicialmente descrita em 1981 e,
logo a seguir, reconhecida como uma epidemia de grande importância para
a saúde pública1. A epidemia da infecção pelo HIV é um
fenômeno dinâmico que envolve progressivamente mais segmentos da
população, e sua forma de ocorrência está relacionada às questões
de vulnerabilidades e à capacidade de enfrentamento das mesmas2.
No Brasil,
devido às desigualdades sociais e regionais, a propagação da infecção
pelo HIV apresenta dimensões que ocasionam transformações
significativas em seu perfil epidemiológico3. As maiores
taxas de incidência de Aids aparecem nos indivíduos de 30 a 39 anos,
sendo que tanto o número de casos como o de óbitos mostra um ligeiro
aumento nas idades mais avançadas, indicando um leve “envelhecimento
da epidemia”. O crescimento do número de casos entre homens
heterossexuais, junto ao marcante predomínio desta forma de transmissão
na população feminina, fortalece a hipótese de heterossexualização
da epidemia3,4.
Frente ao cenário
de medo, de riscos e de vulnerabilidade da população, que emergiu
associado ao impacto da Aids, o Ministério da Saúde, por meio da sua
Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids,
deu início, no final dos anos 1980, à implantação, em nível
nacional, dos Centros de Orientação e Apoio Sorológico, que ficaram
conhecidos como Coas. Hoje, os Centros de Testagem e Aconselhamento
(CTA) constituem uma experiência ímpar na implantação de ações de
prevenção entre a população geral e segmentos populacionais específicos5.
O volume de
atividades de aconselhamento e testagem voluntária para o HIV, assim
como as características demográficas e comportamentais da clientela,
foram descritos inicialmente em países desenvolvidos, onde essas estratégias
de prevenção começaram a ser implantadas desde que os testes anti-HIV
tornaram-se disponíveis, em 1985. Esses programas estavam incluídos em
centros específicos de testagem e aconselhamento, serviços de doenças
sexualmente transmissíveis, centros de tratamento de drogas, hospitais
e prisões6,7.
No Brasil, os
Centros de Testagem e Aconselhamento encontram-se inseridos, em sua
grande maioria, na rede de atenção do Sistema Único de Saúde – SUS
(81,9%), especialmente em serviços de assistência especializada em
HIV/Aids (40,9%), unidades básicas de saúde (21,6%) e serviços de
atenção secundária, como centros diagnósticos, hospitais e policlínicas
(19,4%)8.
Existe uma
vasta literatura internacional sobre testagem e aconselhamento do HIV.
Os estudos mais recentes têm abordado segmentos populacionais específicos,
além do próprio debate sobre a eficiência e efetividade das estratégias
utilizadas em relação ao impacto na prevenção e controle da infecção9,10.
No Brasil existem poucos estudos sobre as características da demanda
em CTA, a prevalência de HIV e os fatores associados à infecção
entre os usuários desses serviços.
Barcellos et al11
analisaram a prevalência e os fatores de risco para o HIV em três
centros desse tipo na cidade de Porto Alegre, em 1996. Bassichetto et
al12 estudaram o perfil da clientela e a soropositividade
para o HIV durante os anos de 2001 e 2002 no CTA mais antigo da cidade
de São Paulo e um dos maiores do País. Em um centro de testagem do
Estado do Rio de Janeiro13, os autores avaliaram a prevalência
de HIV positivo no biênio 2001/2002 entre homens e nas mulheres
gestantes e não-gestantes. Estudos mais recentes foram realizados por
Germano et al14 sobre populações que não retornam ao CTA
para a busca de resultados de exames, de 2001 a 2004, no CTA de Rio
Grande (RS); Wolffenbüttel, em 200615, avaliou a organização
tecnológica de centros de testagem e aconselhamento no Estado de São
Paulo, a partir de um estudo de caso. Além desses, o Ministério da Saúde,
a partir do Programa Nacional de DST/Aids, realizou o diagnóstico
situacional dos CTA do Brasil, estudo descritivo de abrangência
nacional8.
Os Centros de
Testagem e Aconselhamento constituem sítios estratégicos para a oferta
de testes anti-HIV, sífilis e hepatites B e C, assim como para oferta
de aconselhamento individual e coletivo e acesso a outras atividades e
insumos de prevenção. O conhecimento das características dos usuários
que demandam esses serviços e da evolução das soroprevalências
constitui informações importantes para a elaboração de políticas públicas,
estratégias de prevenção e de controle desses agravos.
O objetivo do
presente estudo foi descrever o perfil sociodemográfico e
comportamental, bem como analisar as associações entre essas características
e a soropositividade para o HIV em usuários de CTA que realizaram
testagem específica e tiveram o resultado entregue. O estudo foi
desenvolvido para os serviços cujas informações foram encaminhadas ao
nível estadual do Programa DST/Aids, no período de 2000 a 2007.
Métodos
Estudo
utilizando dados secundários do Sistema de Informação dos Centros de
Testagem e Aconselhamento para o Estado de São Paulo (SECTA) – módulo
estadual para o acompanhamento centralizado dos exames dos CTA –, entre
2000 e setembro de 2007.
O SI-CTA (sistema de informação utilizado nos serviços locais) foi proposto
pela Coordenação Nacional de DST/Aids (CN DST/Aids) a partir de 2000 e implantado
progressivamente com a
finalidade de otimizar o atendimento dos usuários, instrumentalizar a
gestão dos serviços, funcionar como ferramenta de acompanhamento da
evolução das prevalências da infecção pelo HIV em populações de
alto risco usuárias dos CTA e contribuir para a vigilância epidemiológica
do HIV16,17.
As unidades de
análise foram 38 CTA que informaram ao SECTA as atividades
correspondentes a 262.918 atendimentos. A procura por esses serviços
caracteriza-se como espontânea e o atendimento aos usuários é
registrado numa ficha padronizada pelo Ministério da Saúde. Essa ficha
é preenchida pelo aconselhador nas consultas de pré e pós-teste, e
contêm as características sociodemográficas, comportamentais e os
resultados de sorologias para o HIV, hepatites B e C e teste de VDRL.
Ao final de
2007 havia 82 CTA no Estado de São Paulo. Portanto, é importante
destacar a baixa proporção de serviços que implantaram o sistema e
realizaram o encaminhamento dos registros de atendimento ao nível
estadual nesse período (46%).
As variáveis
incluídas no estudo foram: sexo, idade, escolaridade, estado civil,
categoria de exposição/vulnerabilidades, resultados de testagem para
HIV, sífilis e hepatites B e C.
Nos CTA a
testagem e diagnóstico para esses agravos seguem as normas técnicas
preconizadas pelo Ministério da Saúde. A soropositividade para o HIV
é medida através da pesquisa de anticorpos com dois testes ELISA (enzyme-linked
immunosorbent assays) positivos e confirmação por um teste de
imunofluorescência indireta ou pelo teste de Western-Blott. A partir de
2006, iniciou-se a implantação da testagem rápida diagnóstica
anti-HIV e essa modalidade de testagem foi implantada em 40 serviços no
Estado até setembro de 2008.
Para o diagnóstico
de infecção pelo vírus HBV são considerados os marcadores HBs-Ag ou
anti-HBC total reagentes; para a hepatite C o parâmetro é o marcador
anti-HCV. O diagnóstico de sífilis é realizado pelo teste VDRL (veneral
disease
research
laboratories).
Na análise
estatística foram descritas as proporções de sujeitos soropositivos e
soronegativos para o HIV, segundo as variáveis selecionadas para o
estudo. Para a estimativa dos riscos (odds ratio) frente à
soropositividade para o HIV foram realizadas análises bivariadas,
considerando um intervalo de confiança de 95% ou valor de P < 0,05.
A análise de dados foi feita utilizando o software SPSS, versão 15.0.
Resultados
Dentre o total
de 262.918 atendimentos realizados no período, foram realizadas 107.569
testagens para o HIV com resultados entregues, correspondendo a 56.564
homens (53%) e 51.005 mulheres (47%). A proporção global de
soropositividade no período de 2000 a setembro de 2007 foi de 7,5% (n=
8.019), sendo de 10,4% (5.863/56.564) no sexo masculino e de 4,2% (2.156/51.005) no sexo feminino. A proporção de soropositividade tem
diminuído ao longo dos anos, atingindo 10,4% em 2002, 10,7% em 2003, 8%
em 2004, 7% em 2005, 4,6% em 2006 e 4,0% em 2007.
A Tabela 1
mostra as características sociocomportamentais e as proporções de
soropositivos entre os indivíduos que realizaram testagem anti-HIV.
Tabela 1 - Distribuição das características sociodemográficas e comportamentais dos usuários de CTA, segundo o resultado da sorologia anti-HIV. Estado de São Paulo, 2000 a 2007.

Entre os
sujeitos testados existe uma predominância da faixa etária de 20 a 29
anos (42%), solteiros (52%), com 8 a 11 anos de estudo (46%),
heterossexuais (65%). A proporção de hepatite C foi de 16%, hepatite B
4% e tiveram um resultado reagente para o VDRL 3%.
Na população
soropositiva para o HIV (n=8019) essa proporção foi cerca três vezes
maior entre homens que entre as mulheres: 73% contra 27%. Em relação
à faixa etária, os indivíduos de 30 a 39 anos apresentaram o maior
percentual de HIV positivos (39%) entre as faixas, enquanto os de 60
anos e mais tiveram a menor proporção (1%).
Entre aqueles
que possuíam até 11 anos de estudo, nota-se uma elevação
concomitante da proporção de soropositivos à medida que a
escolaridade aumenta, sendo menor entre os não-escolarizados (2%) e
maior entre aqueles com 8 a 11 anos de estudo (38%). No entanto, nos
indivíduos com o maior nível de escolaridade (12 anos e mais de
estudo) essa tendência se modifica, com a proporção de HIV positivos
sendo cerca de duas vezes menor que na categoria anterior.
No que
concerne ao estado civil, a proporção de sorologias positivas foi mais
elevada entre os solteiros (53%) do que entre os casados/amigados (24%),
separados (9%) e viúvos (3%). Em relação ao comportamento sexual e às
vulnerabilidades, os sujeitos pertencentes à categoria de exposição
heterossexual apresentaram a maior proporção de sorologias positivas
para HIV (35%), seguidos dos homens que fazem sexo com homens (HSH)
(33%); a proporção de soropositivos entre os usuários de drogas foi
de 28%. As mulheres bissexuais apresentaram a menor proporção de HIV
positivo: 3,2%. A co-infecção HIV/HBV foi mais elevada (19%) do que as
co-infecções HIV/HCV (13%) e HIV/sífilis (12%).
Análise dos fatores associados à sorologia positiva para o HIV
A Tabela 2
apresenta a associação entre a infecção pelo HIV e as variáveis
sociodemográficas, comportamentais e os resultados de sorologias para sífilis
e hepatites B e C. Os indivíduos do sexo masculino apresentaram 2,6
vezes mais chance de infecção pelo HIV que o sexo feminino
(p<0,001). A faixa etária de adolescentes (13 a 19 anos) e de 60
anos e mais mostraram efeito protetor: a chance de ser HIV positivo é
cerca de 60% menor entre os primeiros (p<0,001) e de 30% (p<0,05)
entre os segundos, comparados às crianças de 12 anos e menos tomadas
como categoria de referência. O maior risco foi detectado entre os
sujeitos de 30 a 39 anos, praticamente triplicando em relação à faixa
de 12 anos e menos (p<0,001).
Tabela 2 - Distribuição das características sociodemográficas e comportamentais dos usuários de CTA, segundo a soropositividade para o HIV. Estado de São Paulo, 2000 a 2007.

Para o estado
civil, os dados de usuários de CTA mostraram que ser viúvo, solteiro
ou separado aumenta em 90%, 16% e 21%, respectivamente (p<0,001), a
chance de ser HIV positivo em relação aos casados/amigados (categoria
de referência).
Na análise do
comportamento sexual, os HSH apresentaram oito vezes mais chance de
infecção pelo HIV do que a população heterossexual (categoria de
referência) (p<0,001). O uso de drogas praticamente quadruplica a
chance de ser HIV positivo (p<0,001). As mulheres bissexuais
apresentam um efeito protetor frente à soropositividade para o HIV, com
uma chance cerca de 25% menor de infecção pelo HIV que os
heterossexuais (p<0,001).
As outras doenças
(sífilis, hepatite B e C) mostraram forte associação com a
soropositividade para o HIV. A sorologia reagente para o VDRL aumentou
em seis vezes a probabilidade de infecção pelo HIV (p<0,001). Os
usuários com sorologias reagentes para as hepatites B e C apresentaram,
respectivamente, cerca de 6 e 7 vezes mais chance de positividade para
o HIV (p<0,001).
Discussão
Os achados do
presente trabalho mostraram o perfil dos usuários que realizaram
testagem para o HIV nos Centos e Testagem e Aconselhamento do Estado de São Paulo entre 2000 e 2007.
Esse estudo, realizado a partir dos 38 CTA que informaram suas
atividades ao Programa Estadual de DST/Aids no período considerado, não
pode ser considerado representativo para o conjunto dos CTA paulistas.
Cabe ressaltar que cerca de 50% dos atendimentos informados
entre 2000 e 2007 foram provenientes de CTA da Capital. Essa seleção
deve ser considerada ao se interpretar os resultados dos serviços de
aconselhamento e testagem. O número e a proporção de atendimentos
realizados em cada ano pelos 28 municípios notificantes – além da
cidade de São Paulo – e os respectivos CTA são citados em publicação
anterior18.
Vale salientar
que o SI-CTA foi criado para monitorar o perfil dos usuários e
resultados de sorologias, e sua efetividade reflete, portanto, as
diferentes condições técnico-operacionais desde a implantação,
suporte técnico e processamento de dados na rotina dos serviços. Essas
limitações, que podem estar presentes quando se analisam bases de
dados secundários, introduzem vieses nos resultados da informação,
fato que deve ser considerado na interpretação e generalização dos
mesmos. No entanto, é importante enfatizar, os dados de CTA constituem
um fundamental instrumento para o monitoramento de vigilância
comportamental e do HIV nos sistemas locais de saúde, justificando-se
investimentos nesses serviços e na melhoria da qualidade da informação.
No presente
estudo não foi possível diferenciar entre os indivíduos que
realizaram teste para o HIV pela primeira vez dos que passaram por
testagens repetidas. Assim, não se pode conhecer a soroprevalência na
população que freqüentou os CTA no período, mas a proporção de
testagens que tiveram resultados positivos ou não em relação ao total
de testagens realizadas. No que diz respeito às variáveis sociodemográficas
e comportamentais, observou-se um percentual importante de dados
ignorados, fazendo com que os mesmos sejam também interpretados com
cautela.
A proporção
de positividade para o HIV em usuários de CTA vem diminuindo ao longo
do tempo, o que pode ser explicado pelo aumento da população que busca
esses serviços e que representa, provavelmente, uma clientela menos
exposta ao risco de infecção.
A
soropositividade observada em cada ano da série histórica foi maior
que àquela encontrada em população albergada no município de São
Paulo em 2002 e 2003 (1,8%)19, menor que em centro de
testagem na cidade de Fortaleza em 2005 (6,3%)20, no CTA Rio
Grande do Sul nos anos de 2001 a 2004 (1,1%, 2,4%, 2,3%, 1,7%,
respectivamente)14, nos serviços de testagem anônima e
gratuita da França (5,0%) em 2001 e 200221 e maior que nos
serviços de testagem voluntária dos Estados Unidos (1,5%) em 200222.
O diagnóstico situacional dos CTA do Brasil realizado pelo Ministério
da Saúde em 2006 identificou que 36,9% dos CTA brasileiros possuem taxa
de positividade de HIV de até 0,99%, 50,4% das taxas entre 1% e 5% e
apenas 12,7% com taxas de positividade acima de 5%8.
A busca pela
prevenção e investigação para o HIV nos CTA do Estado de São
Paulo verificou-se tanto para a população masculina como a feminina,
sendo ligeiramente superior entre a primeira. A soropositividade para o
HIV mais elevada no sexo masculino corrobora os achados de outros
estudos de CTA em populações específicas; entre os indivíduos não-abusadores de drogas em CTA de Porto Alegre23, os homens
tiveram duas vezes mais chances de serem HIV positivo do que as mulheres
(Pechansky, 2005); nos indivíduos do mesmo serviço que faziam uso de
substâncias os autores encontraram odds ratio de 1,8 no sexo masculino,
tomando como categoria de referência o sexo feminino24.
Os sujeitos
testados se caracterizaram por serem majoritariamente jovens (20 a 29
anos) e solteiros. Esses achados são concordantes com a evolução das
atividades de Centros de Testagem e Aconselhamento no Brasil e em outros
países20,25. Porém, a maior proporção e o maior risco
para o HIV encontram-se na faixa etária de 30 a 39 anos, o que foi
observado também na análise dos centros de testagem da França em 2001
e 200221 e na cidade de Porto Alegre no final dos anos 199011.
Os dados populacionais da epidemia de Aids no Estado de São Paulo
mostram que a incidência de casos vem se apresentando mais elevada
nessa faixa etária – entre os homens, desde meados dos anos 1990, e
entre as mulheres, a partir de 200226.
No presente
estudo, todas as categorias de estado civil apresentaram,
significativamente, maior chance para ser HIV positivo que os indivíduos
casados/amigados, o que é similar a outros estudos realizados no Brasil
em CTA e ambulatórios especializados20,27.
Os indivíduos
mais escolarizados foram predominantes nos CTA, assim como apresentam as
proporções mais elevadas de resultados positivos para o HIV. Os usuários
com nenhuma escolaridade representaram menos de 2% dos que
realizaram testes, sugerindo que os CTA no Estado de São Paulo estão
atingindo predominantemente uma população mais favorecida do ponto de
vista socioeconômico. Esses dados diferem daqueles encontrados nos
estudos de clientela de CTA no Estado do Rio de Janeiro13 e
na cidade de Fortaleza20, onde a maior proporção de usuários
tem menos de oito anos de estudo.
Por outro
lado, os achados são concordantes com a análise de usuários de CTA no
Rio Grande do Sul, onde mais de 50% dos usuários se caracterizaram por
ter oito ou mais anos de estudo11. Como se tratam de análises
realizadas em populações de serviços de saúde, não se pode fazer
inferências tendo em vista a população geral nem o uso de indicadores
populacionais, como os índices de desenvolvimento humano, para explicar
diferenças socioeconômicas na demanda.
A grande
maioria dos usuários que buscaram os CTA referiu ser heterossexual; porém,
a proporção de positividade para o HIV nas categorias heterossexual e
HSH difere pouco, sendo ligeiramente superior entre os primeiros. Apesar
da proporção de usuários HSH ser consideravelmente menor que aquela
de heterossexuais, essa primeira população revelou-se mais exposta ao
risco de HIV. A dinâmica da epidemia de Aids no Estado, assim como no
País, caracterizou-se inicialmente pela maior proporção de casos
entre os homossexuais e bissexuais masculinos, apresentando uma diminuição
dessa tendência em relação à população heterossexual desde 1996,
padrão semelhante ao observado no nível nacional26,28.
A partir de
2004, no Estado de São Paulo registrou-se um ligeiro aumento da proporção
de casos notificados de Aids em homens homo/bissexuais com 13 anos ou
mais de idade, porém bem menor que entre os heterossexuais. Em 2005, o
percentual de casos masculinos homo/bissexuais foi de 28,1% dentre os
3.873 casos notificados, contra 42,5% na categoria de exposição
heterossexual26.
No entanto,
estudos recentes têm mostrado que a população HSH apresenta um risco
elevado de infecção pelo HIV. Beloqui29 analisou o risco
relativo dessa população em relação à população heterossexual
masculina de 15 a 49 anos no Brasil, de 1996 a 2003. O autor constatou
que os riscos de desenvolver Aids entre os HSH declinaram ao longo do
tempo em relação aos heterossexuais, porém permaneceu mais elevado,
representando um risco relativo de 26 no início do período estudado e
de 19, no final. Essas informações mostram a vulnerabilidade elevada
dos HSH em relação à Aids, chamando a atenção para o incremento de
estratégias específicas de prevenção da infecção pelo HIV nessa
população.
No presente
estudo, ressalta-se também a importância dos usuários de qualquer
tipo de droga, incluindo as drogas lícitas e ilícitas, assim como as
diversas formas de uso, como a segunda situação de risco na população
que buscou a realização de testagem anti-HIV, assim como a alta proporção
de soropositivos nessa população (28%), depois das categorias de
exposição sexual. Os indivíduos que fizeram uso de drogas
apresentaram forte associação com a soropositividade para o HIV,
mostrando vulnerabilidade para a infecção, o que sugere a necessidade
de manter estratégias específicas de prevenção por parte dos CTA.
No que
concerne às doenças sexualmente transmissíveis (DST), elas têm sido
referidas na literatura como fatores de risco para a infecção pelo HIV30.
Em relação à sífilis, a proporção de VDRL reagente foi inferior àquela
detectada em moradores de rua da cidade de São Paulo (5,7%)19.
A co-infecção HIV/sífilis relatada no estudo de CTA na região Sul do
País11 foi mais de três vezes superior (37%) do que nos CTA
do presente estudo, o que pode ser explicado pelas diferenças de perfil
das populações estudadas.
A análise
bivariada mostrou forte associação entre a sífilis e a
soropositividade para o HIV. Um estudo realizado em Atlanta (EUA) em
pacientes atendidos em clínica de DST mostrou que pessoas com sífilis
tinham mais freqüentemente infecção pelo HIV: 24% contra 2% em
pessoas HIV negativas31.
A proporção
global de infecção pelo vírus da hepatite B foi menor que em CTA da
cidade de Fortaleza (11%), e a proporção de co-infecção HIV/HBV foi
semelhante àquela nesse mesmo CTA da capital cearense (18%)20.
No entanto, vale salientar que os dados do presente estudo são
indicativos de um período mais longo e representa a média de
resultados de vários CTA para o Estado do Ceará. A hepatite B também
apresentou forte associação com a soropositividade para o HIV,
confirmando achados de outros autores32.
Em relação
à hepatite C, a proporção de usuários infectados por esse vírus foi
cerca de quatro vezes maior que para a hepatite B; apesar da importante
associação entre a hepatite C e a soropositividade para o HIV, a
proporção de co-infecção HCV/HIV foi menor que a co-infecção HBV/HCV,
dados concordantes com aqueles encontrados no CTA de Fortaleza20.
Os fatores de risco clássico de infecção pelo HCV relatados na
literatura são o uso de drogas injetáveis e de piercing,
embora sejam documentados atualmente casos de transmissão por via
sexual33. Assim, faz-se necessário o rastreamento para HIV
entre pessoas portadoras de HCV, como também o monitoramento de
anticorpos para HCV em pessoas HIV infectadas e HCV negativas. Nas
atividades de CTA a prática de testagem para hepatites deve ser
estimulada, assim como recomendações específicas de prevenção,
sobretudo em populações mais vulneráveis ao risco desses agravos.
Considerações
finais
A expansão e
as atividades dos CTA devem ser acompanhadas através de avaliações e
monitoramento, no sentido de refinar o conhecimento sobre o perfil dos
usuários e otimizar os benefícios de prevenção que podem estar
relacionados com o aconselhamento e a testagem para o HIV e também
outras DST. Além dos dados de recorte da população geral, devem ser
avaliadas as informações sobre populações específicas, como
adolescentes, usuários de drogas e homens que fazem sexo com homens.
Da mesma
forma, fazem-se necessárias análises diferenciais por áreas geográficas,
como a Capital e Interior, áreas rurais e peri-urbanas, a fim de
detectar as diversidades de tipologias dos centros e dos usuários,
visando à adaptação da oferta de serviços de acordo com os contextos
observados. No sentido de aumentar a abrangência de análise da
clientela desses serviços, é importante promover a ampliação da
implantação do SI-CTA em todos os CTA do Estado de São Paulo.
Os CTA
constituem um dispositivo prioritário no que diz respeito à vigilância
de segunda geração do HIV, no sentido de captar mais precocemente os
indivíduos soropostivos. Uma proporção substancial desses indivíduos
realiza apenas testes HIV numa fase tardia da infecção: são freqüentemente
doentes, apresentam uma alta taxa de mortalidade e são menos propensos
a responder ao tratamento34. Ao mesmo tempo, o diagnóstico
tardio contribui para diminuir a prevenção da transmissão. Assim, além
de apresentar condições para a captação de usuários e oferta de
testes na rotina, o aconselhamento e a testagem nos CTA podem contribuir
para a redução de comportamentos de alto risco e redução da
infectividade. Nesse sentido, as estratégias para encorajar a realização
de testes anti-HIV através do aconselhamento na população constituem
importantes componentes para a prevenção e o controle da epidemia de Aids.
Referências bibliográficas
- Centers for Diseases Control and Prevention - CDC.
Pneumocystis pneumonia –
Los Angeles. MMWR.1981;30:250-2.
- Wood E, Montaner JSG, Chan K, Tyndall MW, Schechter MT, Bangsberg D
et al. Socioeconomic status, access to triple therapy, and survival
from HIV-disease since 1996. Aids. 2002;16:2065-72.
- Brito AM, Castilho EA, Szwarcwald CL. Aids e infecção pelo HIV no
Brasil: uma epidemia multifacetada. Rev Soc Bras Med Trop.
2001;34(2):207-17.
- Santos NJS, Tayra A, Silva SR, Buchalla CM, Laurenti R. A Aids no
Estado de São Paulo. As mudanças no perfil da epidemia e perspectivas
da vigilância epidemiológica. Rev Bras Epidemiol. 2002;5:286-308.
- Brasil.
Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação
Nacional de DST e Aids. Diretrizes dos Centros de Testagem e
Aconselhamento (CTA). Manual. Brasília, 1999.
- Erickson B, Wasserheit JN, Rompalo AM, Brathwaite
W, Glasser D, Hook EW. Routine voluntary HIV screening
in STD clinic clients: characterization of infected clients. Sex
Transm Dis. 1990;17(4):194-9.
- Centers for Diseases Control and Prevention - CDC.
Anonymous or confidencial HIV counseling and voluntary testing in
federally funded testing sites – United States, 1995-1997. MMWR.
1999;48(24):509-13.
- Brasil.
Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa
Nacional de DST e Aids. Contribuição dos Centros de Testagem e Aconselhamento para universalizar o diagnóstico e garantir a
equidade no acesso aos serviços/ Ministério da Saúde, Secretaria
de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e Aids. Brasília:
Ministério da Saúde, 2008; p. 108.
- Centers for Diseases Control and Prevention - CDC.
Revised recommendations for HIV testing of adults, adolescents and
pregnant women in health-care settings. MMWR. 2006;55(RR 14);1-17.
- Obermeyer CM, Osborn M. The utilization of testing
and counseling for HIV: a rewiew of the social and behavioral
evidence. Am J Public Health. 2007;97(10):1762-74.
- Barcellos NT, Fuchs SC, Fuchs FD. Prevalence of
and risk factors for HIV infection in individuals testing for HIV at
counseling centers in Brazil. Sexualy
Transmited Diseases. 2003;30(2):166-73.
- Basscichetto
KC, Mesquita F, Zacaro C, Santos, EA, Oliveira SM, Veras MASM et al. Perfil epidemiológico dos usuários de um Centro de
Testagem e Aconselhamento para DST/HIV da rede municipal de São
Paulo, com sorologia para o HIV. Rev Bras Epidemiol.
2004;7(3):302-10.
- Araújo
LC, Fernandes RCSC, Coelho MCP, Medina-Acosta E. Prevalência da
infecção pelo HIV na demanda atendida no Centro de Testagem e
Aconselhamento da cidade de Campos dos Goytacazes, Estado do Rio de
Janeiro, Brasil, 2001-2002. Epidemiologia e Serviços de Saúde.
2005;14(2):85-90.
- Germano
FN, Silva TMG, Mendoza-Sassi R, Martinez AMB. Alta prevalência de
usuários que não retornam ao Centro de Testagem e Aconselhamento
(CTA) para o conhecimento do seu status sorológico – Rio Grande,
RS, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva. 2008;13(3):1033-40
- Wolffenbüttel
K. A organização tecnológica do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) no enfrentamento da epidemia de DST/Aids no
Estado de São Paulo. [Dissertação de Mestrado].São Paulo: Faculdade de Ciências
Médicas da Santa Casa; 2006.
- Brasil.
Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de DST/Aids. Vigilância do HIV no Brasil. Novas diretrizes. Brasília:
Ministério da Saúde. Série Referência, n. 2. 2002.
- Brasil.
Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de DST/Aids. Sistema de informação dos centros de testagem e aconselhamento em Aids. SI-CTA versão 2.0. Manual de utilização. Brasília;
2005.
- Secretaria
de Estado da Saúde de São Paulo. Programa Estadual de DST/Aids.
Divisão de Vigilância Epidemiológica. Centros de Testagem e
Aconselhamento – Análise dos atendimentos dos usuários de CTA no
Estado de São Paulo, de 2000 a 2007. Boletim Epidemiológico –
DST/Aids. Dezembro 2007; 1:26-37.
- Brito
VOC, Parra D, Facchini R, Buchalla CM. Infecção pelo HIV,
hepatites B e C e sífilis em moradores de rua, São Paulo. Rev Saúde
Pública. 2007;41(Supl. 2):47-56.
- Araújo ML, Sales AAR, Diogenes MAR. Hepatites
B e C em usuários do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de
Fortaleza – Ceará. J Bras Doenças Sex Transm. 2006;18(3):161-7.
- Le
Vu S, Herida M, Pillonel J, Allemand M, Couturier S, Semaille C.
Consultations de dépistage anonyme et gratuit (CDAG),
bilan 2001 et 2002 d’activité du dépistage du VIH en France. BEH.
2004;17:65-8.
- Centers for Diseases Control and Prevention - CDC.
Voluntary HIV testing as part of routine medical care –
Massachusetts, 2002. MMWR. 2004;53:523-6.
- Pechansky
F, Diemen LV, Kessier F, De Boni R, Surrat H, Inciardi J. Preditores
de soropositividade para HIV em indivíduos não abusadores de
drogas que buscam Centros de Testagem e Aconselhamento de Porto
Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cad Saúde Pública.
2005;21(1):266-74.
- Pechansky
F, Kessier F, Diemen LV, Inciardi J, Surrat H. Uso de substâncias,
situações de risco e soroprevalência em indivíduos que buscam
testagem gratuita para HIV em Porto Alegre, Brasil. Rev Panam Salud
Publica. 2005;18(4/5):249-55.
- Di
Meo M, Grange F, Mulberg C, Guillaume JC. Caractéristiques et l´évolution
des consultants, des facteurs de risque et des comportments dans um
Centre d´Information et de Dépistage Anonyme et Gratuit du VIH.
Ann Dermatol Venereol. 2004;131:165-70.
- Secretaria
de Estado da Saúde de São Paulo. Programa Estadual de DST/Aids.
Divisão de Vigilância Epidemiológica. Boletim Epidemiológico –
DST/Aids. CVE; ano XXVI, n0 1; dezembro de 2007.
- Silva
ACM, Baroni AA. Fatores de
risco para infecção pelo HIV em pacientes com o vírus da hepatite
C. Rev Saúde Pública 2006;40(3):482-8.
- Brasil.
Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa
Nacional de DST/Aids. Boletim Epidemiológico DST/Aids. Dezembro de
2007; 1.
- Beloqui
JA. Risco relativo para Aids de homens homo/bissexuais em relação
aos heterossexuais. Rev Saúde Pública. 2008;42(3):437-42.
- Piot P, Islam MQ. Sexually transmited diseases in
the 1990s. Global epidemiology and challenges for control. Sex
Transm Dis. 1994;21(2 Suppl):S7-13.
- Fleming DT, Levine WC, Trees DL, Tambe P, Toomey
K, St Louis ME. Syphilis in Atlanta during an era of declining
incidence. Sex Transm Dis. 2000;27(2):68-73.
- Alter MJ. Epidemiology of viral hepatitis and HIV
co-infection.Journal of Hepatology. 2006;44:S6-9.
- Ghosn J, Deveau C, Goujard C, Garrique I, Saïchi
N, Galimand J et al. Increase in hepatitis C vírus in HIV-1-infected
patients followed up since primary infection. Sex Transm Inf.
2006;82:458-60.
- Girardi E, Sabin CA, Monforte AA. Late diagnosis
of HIV infection: Epidemiological features, consequences and
strategies to encourage earlier testing. J Acquir Immune Defic Syndr.
2007;46(Suppl 1):S3-8.
|