Na última década, os
avanços tecnológicos de desenvolvimento de vacinas permitiram a
introdução de novas estratégias para a obtenção e produção de
antígenos, assim como foram otimizadas novas maneiras de se
administrar e apresentar esses antígenos para as células do sistema
imune. Estas estratégias abriram caminhos para inovações,
particularmente no contexto de vacinas mais seguras, eficazes e
polivalentes. Entre estas estão as de subunidades, consideradas de
segunda geração, constituídas de antígenos purificados e
provenientes de fontes naturais, sintéticas, nas quais os genes ou
fragmentos de genes, que codificam antígenos altamente imunogênicos,
são carreados por plasmídeos de DNA.
Atualmente, o isolamento de genes é uma técnica dominada pela ciência
devido ao desenvolvimento da biologia molecular. Os benefícios práticos
e estratégicos resultantes do desenvolvimento de vacinas gênicas são
inúmeros, e absolutamente desejáveis no âmbito da realidade
brasileira. O impacto sobre o controle das doenças infecciosas que
podem ser prevenidas por imunização gênica será, provavelmente,
uma das aquisições mais importantes advindas do domínio desta nova
tecnologia.
Dentre os desenvolvimentos promissores para o futuro, incluem-se o
melhoramento e a criação de novas vacinas, novas terapias específicas
e novas estratégias para controlar as doenças infecciosas. Dada à
habilidade dos agentes infecciosos no envolvimento das doenças,
faz-se necessário o desenvolvimento de técnicas de identificação e
controle das doenças re-emergentes.
Sistema imune de mucosa
O sistema imune de mucosas
consite de moléculas, células e estruturas linfóides organizadas,
que conferem a imunidade contra patógenos que agridem as superfícies
de mucosas. A infecção de mucosa por patógenos intracelulares
resultam da indução da imunidade mediada por células CD4+T-helper
1, bem como linfócitos CD8+T-citotóxico. Estas respostas são,
normalmente, acompanhadas pela síntese de imunoglobulinas A secretória
(S-IgA) anticorpos, que representa a primeira linha de defesa contra a
invasão de patógenos nos tecidos de mucosas.
As superfícies de mucosa são predominantes nos tratos
gastrointestinal, urogenital e trato respiratório, que atuam como uma
porta de entrada para os patógenos.
Anticorpos monoclonais
Já se passaram 29 anos
desde que Milstein e Kohler, em 1975, pela primeira vez descreveram a
obtenção de anticorpos monoclonais, fato que revolucionou muito a
pesquisa em imunologia. Desde então, a utilização de tais moléculas
tem se difundido nos mais variados campos, seja na pesquisa básica ou
em estudos clínicos (figura 1). A produção de anticorpos
monoclonais permitiu caracterizar antígenos importantes, responsáveis
pela produção de anticorpos capazes de destruir a bactéria N.
meningitidis B. Foi possível por meio da utilização destes
anticorpos, recentemente caracterizar novos antígenos vacinais
(11,12,14) tão bem como utilizar em estudos epidemiológicos (15,17). Nas figuras 2 e 3 podemos observar a prevalência dos imunotipos (LPS)
em cepas de diferentes sorogrupos de N. meningitidis, durante epidemias
ocorridas no Brasil.
Figura 1 — Esquema ilustrativo para a obtenção
de Anticorpos monoclonais em camundongos. Antígeno: Membrana
externa de Neisseria meningitidis B utilizado para imunização
de camundongos; Esplenócito: linfócitos retirados do baço
dos camundongos (capacidade de produzir anticorpos). Mieloma células
com grande capacidade de multiplicação. Os linfócitos e as células
de mieloma são combinadas no laboratório. Vão originar uma célula
com capacidade de produzir anticorpos em grande quantidade (hibridoma).
A célula híbrida após diferentes procedimentos produzirá o
anticorpo monoclonal.

Figura 2 — Estudo comparativo da reatividade por meio de Dot-Elisa
de Anticorpos monoclonais (AcMs) para os imunotipos (LPS). L1(1) e
L1(2), e L8(1) e L8(2) com cepas de N. meningitidis, isoladas
durante epidemias no Brasil. (A): cepas N. meningitidis
do sorogrupo A, (B): cepas N. meningitidis do sorogrupo
B, (C): cepas N. meningitidis do sorogrupoC. (1) AcMs obtido,
(2) AcMs de referência.(Thomaz Belo, 2002).

Figura 3 — Estudo
comparativo da reatividade por meio de Dot-Elisa dos Anticorpos
monoclonais L3,7,9 e L10 com cepas de N.
meningitidis, isoladas durante epidemias no Brasil. (A) cepas N.
meningitidis do sorogrupo A, (B) cepas N. meningitidis
sorogrupo B, (C) cepas N.meningitidis do sorogrupo C. (1) AcM
4BE12-C10 (L379) e (2) AcM 5B4: F10 (L10).(
Thomaz Belo,2002).

Neisseria meningitidis
Apesar do avanço tecnológico, a doença meningocócica continua
sendo um grande problema de saúde pública em todos os continentes. A
dificuldade para se chegar a uma vacina definitiva pode ser atribuída
à grande capacidade que a bactéria tem de escapar dos mecanismos de
defesa do sistema imune, além da falta de um modelo experimental que
permita estudar a infecção meningocócica.
O conhecimento de componentes antigênicos do microrganismo é de suma
importância para estudo da resposta imune, contribuindo para a
idealização de novas vacinas.
Vacinas estudadas
Os mais recentes estudos de campo com o objetivo de avaliar a eficácia
das vacinas contra a meningite causada por N. meningitidis B foram
realizados no Chile, Cuba, Noruega e Brasil.
As pesquisas de uma vacina nasal para Neisseria meningitidis B –
1999 a 2004 – Instituto Adolfo Lutz (Seção de Imunologia )l
O meningococo pode ser encontrado na nasofaringe desde a infância,
especialmente em crianças menores de 4 anos de idade. Isto
provavelmente está relacionado com a alta incidência da doença,
principalmente atribuída a uma insuficiente imunidade natural. O
intermitente estado de carreador com diferentes cepas de meningococos
resulta no desenvolvimento de uma imunidade natural contra a infecção
meningocócica, que aumenta com a idade (1).
O novo esquema de imunização utilizando a via nasal está sendo
estudado por diferentes grupos de pesquisadores no mundo (2-7). Nossa
pesquisa utilizando a via de imunização nasal e novas preparações
vacinais pretende contribuir com um novo esquema de imunização para
o preparo de uma vacina efetiva e segura contra a bactéria N.
meningitidis
B (8-25) no Brasil. Nosso laboratório foi o pioneiro nos estudos
utilizando a via nasal para imunização contra N. meningitidis B.
Sabemos que as vacinas existentes administradas pela via parenteral são
sorotipos específicos, isto é, a proteção produzida é para cepas
prevalentes durante uma epidemia. O que podemos observar em nossos
estudos em modelo experimental (16,18,19) é que a imunização nasal
produz anticorpos que conseguem destruir mais de uma cepa de
meningococo. Ou seja, a proteção induzida não é sorotipo específico.
No momento, também utilizamos camundongos neonatos, pois sabemos que
mesmo as vacinas existentes não são efetivas para crianças menores
de 2 anos de idade. A imunidade natural contra N. meningitidis é
adquirida durante a infância por colonizações sucessivas através
de cepas de carreadores de N. meningitidis ou outro gênero de bactérias
que compartilham antígenos comuns.
Estudos estão sendo realizados com a bactéria Neisseria lactamica
(20,21) ou utilizando combinações vacinais, como a Bordetella
pertussis, administrada pela via nasal (22), na tentativa de aumentar
a imunogenicidade de nossas preparações vacinais. Nas figuras 4, 5 e
6 podemos observar camundongos, coelhos que são
utilizados como modelos experimentais de novas preparações vacinais
para N. meningitidis B. A estratégia de nossos estudos para o
desenvolvimento de uma vacina eficaz contra meningococos do sorogrupo
B utiliza anticorpos monoclonais para a identificação e
caracterização de antígenos relevantes, principalmente os de
reatividade cruzada (12,18).
Figura
4 — Imunização nasal em camundongos utilizando antígenos de
membrana externa de
Neisseria meningitidis B
Figura
5 — Imunização nasal em coelhos com antígenos de membrana externa de
Neisseria meningitidis B

Figura
6
—
Caracterização
imunoquímica (-SDS-PAGE 13%)
com antígeno de membrana externa
de N. meningitidis da
cepa B:4:P1.9 L3,7,9,L8,L1. (a)
coloração por meio de Coomassie Blue; (b) coloração por meio de
prata; (c) em 2 e 3 reatividade com os dois novos AcMs obtidos 1C31B8BR4
(L8) e 1B81C31B8BR5
(L1) e (1) Reatividade com o AcM de referência L3,7,9.
Peso molecular dos imunotipos - L379 (5,9 kDa), L1 (4,8
kDa) e L8 (3,6 kDa). Antígeno
utilizado na imunização nasal de camundongos e coelhos.

Há mais de 20 anos as vacinas contra N. meningitidis dos
sorogrupos A e C foram desenvolvidas. Entretanto, mais estudos ainda são
necessários. As formulações vacinais utilizadas no caso do
sorogrupo B ainda não apresentaram a proteção esperada. Estudos
recentes vêm utilizando preparações vacinais de N. meningitidis B
administradas pela via nasal.
Temos a acrescentar que, tanto nos estudos realizados no mundo como em
nossos estudos, uma proteção é desenvolvida. Porém, não podemos
prever o tempo de conclusão dos mesmos. Testes em voluntários serão
importantes para se avaliar se a vacina nasal terá sucesso para
utilização em seres humanos. Nossos estudos utilizam novas preparações
vacinais, e via nasal - Seção de Imunologia do Instituto Adolfo
Lutz, projetos de pesquisa com o intuito de contribuir na área
do conhecimento. Se conseguirmos uma preparação vacinal efetiva para
este patógeno, a passagem de tecnologia será feita para os grandes
centros produtores de vacinas do País ou realizaremos projetos em
parceria.
Conclusão
A descoberta de novas formulações vacinais para as principais
doenças infecciosas que acometem a população mundial é de extrema
relevância para a saúde pública. As novas técnicas de engenharia
genética e biologia molecular desempenham um papel importante nas
novas descobertas, abrindo possibilidades para a criação de vacinas
cada vez mais eficazes. A vacina para N. meningitidis B administrada pela
via nasal vem sendo estudada há mais de cinco anos em nosso laboratório,
com resultados promissores.
Os investimentos no controle de doenças meningocócica por meio da
utilização de vacinas são compensadores, quando comparados com os
gastos com o tratamento hospitalar, as conseqüências das seqüelas
hospitalares permanentes, os gastos com quimioprofilaxia e outras
medidas de custo eficiência. O desenvolvimento recente de uma nova
geração de vacinas anti-meningocócica, composta por polissacarídeos
(A,C,YW135 e Y), conjugada com proteínas, contribui com novas
perspectivas para o controle de doença meningocócica. Entretanto, as
vacinas conjugadas requerem 2 ou 3 doses, aplicadas com intervalos de
pelo menos 1 mês, mas não induzem proteção em crianças menores
de 2 anos.
Nossos estudos demonstram que não somente a atividade bactericida,
mas também a atividade opsônica dos anticorpos induzidos pela vacinação
deve ser considerada na análise da resposta imune contra N.
meningitidis
B. Para se estudar o efeito funcional de vacinas é necessário a
utilização de modelos in vivo e in vitro, para que se possa
correlacionar com a proteção.
Autora: De
Gaspari, E.N, Pesquisador Científico VI, Seção de Imunologia,
Instituto Adolfo Lutz
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