Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272
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Maio, 2004   Ano 1   Número 5                                                                             retorna
Meningites na Regional de Saúde de Piracicaba – 1992 a 2001: Impacto da Introdução da Vacina contra o Haemophilus influenzae Tipo b
As infecções bacterianas invasivas figuram entre as principais causas de mortalidade e morbidade na infância e as meningites bacterianas (MB), particularmente aquelas causadas pelo Haemophilus influenzae tipo b (Hib), representam um percentual importante nesse contexto. O Hib é responsável cerca de 90% e 95% das infecções invasivas e as crianças menores de 2 anos são as mais atingidas.

Desde 1990, o Comitê Consultivo em Práticas de Imunização do Serviço de Saúde Pública dos EUA e o Comitê de Doenças Infecciosas da Academia Americana de Pediatria recomendam a imunização de rotina para crianças, com a vacina conjugada contra o Hib e, a partir de 1997, a Organização Panamericana da Saúde (OPAS) recomendou a implantação da vacina contra o Hib em toda a América Latina, sendo o Uruguai (1994) e Chile (1996) os pioneiros com redução importante na incidência da meningite.

No Brasil adotou-se a vacina conjugada PRP + CRM197 (HBOC), que foi incluída no calendário de rotina da rede pública de serviços de saúde, no segundo semestre de 1999, para crianças nascidas a partir de julho de 1997, sendo ampliada em dezembro de 2000 para todos os nascidos a partir de janeiro de 1997. Em 2002, a vacina combinada contra a difteria, tétano, coqueluche e Haemophilus influenzae tipo b (DTP + Hib), produzida pelo Laboratório Biomanguinhos/Fiocruz, passou a fazer parte dos imunobiológicos disponíveis na rede pública do Estado de São Paulo. Este produto está indicado para os menores de 1 ano, para início ou complementação do esquema básico de vacinação (três doses, a partir de 2 meses de idade).

O Ministério da Saúde, site da Funasa, divulga o número de casos de meningites por Haemophilus influenzae desde 1983, quando foram registrados 697 casos. Nos anos seguintes, esse valor apresentou progressão até que, em 1988, ultrapassou mil casos/ano. O pico de casos da doença ocorreu em 1995, com 1.834 casos e Coeficiente de Incidência (CI) de 1,17/100.000 habitantes. Em 1998, ano que antecedeu a introdução da vacina, foram registrados 1.731 casos e o CI era de 1,03/100.000 habitantes. Em 2000, registraram-se 560 casos, ocorrendo uma redução de aproximadamente 67% em relação a 1998. Em São Paulo, o sistema de vigilância apresenta a série histórica das meningites por Haemophilus influenzae b, na qual foram confirmados 6.809 casos em menores de 5 anos, entre 1980 a 2000.

A presente pesquisa avaliou a incidência das meningites por Hib antes e após a introdução da vacinação de rotina contra esse agente na Direção Regional de Saúde de Piracicaba – DIR XV. Estudo descritivo, os casos de meningite por Hib que compõem a série histórica 1992 a 2001, na região, foram quantificados e classificados segundo o ano de ocorrência. Os CI foram calculados por 100.000 habitantes. Avaliou-se, também, a cobertura vacinal na região e buscou-se interpretar o impacto da introdução da vacina contra o Hib como importante recurso tecnológico.

Cenário do Estudo

Regional de Saúde de Piracicaba - DIR XV, composta por 25 municípios: Águas de São Pedro, Analândia, Araras, Capivari, Charqueada, Conchal, Cordeirópolis, Corumbataí, Elias Fausto, Ipeúna, Iracemápolis, Itirapina, Leme, Limeira, Mombuca, Piracicaba, Pirassununga, Rafard, Rio Claro, Rio das Pedras, Saltinho, Santa Cruz da Conceição, Santa Gertrudes, Santa Maria da Serra e São Pedro. A população estimada, segundo a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE- 2001), era de 1.197.137 habitantes, dos quais 98.715 (8,24%) menores de 5 anos e 18.621 (1,5%) menores de 1 ano.

Resultados e discussão

Meningites por Hib na Regional de Saúde de Piracicaba - DIR XV – 1992 a 2001

No período estudado, foram notificados na DIR XV 125 casos de meningite por Hib e a incidência variou de 0,90 a 1,57/100.000 na população geral, antes da introdução da vacina. Nos dois anos que se seguiram à sua implantação, 2000 e 2001, os CI foram reduzidos para 0,32 e 0,31/100.000 habitantes, respectivamente. Esses valores são semelhantes aos encontrados no Estado de São Paulo.

Entre os menores de 1 ano, antecedendo a introdução da vacina, a incidência na região variou de 19,4 a 48,2/100.000 e, nos dois anos seguintes, a incidência se apresentou de 5,2 e 15,3/100.000. Em 2001, 75% dos casos ocorreram em menores de 6 meses. Já para as crianças menores de 5 anos, anteriormente à vacinação, a incidência apresentou valores de 8,4 a 15,9, os quais foram reduzidos para 2,9 em 2000 e 3,9, em 2001. Todos os casos notificados após a implantação da vacina ocorreram em crianças com esquema incompleto de vacinação.

Em 1998 foram notificados 17 casos de meningite por Hib (12,5/100.000 menores de 5 anos). Em 1999 foi implantada a vacinação e em 2001 registraram-se quatro casos (3,9/100.000 menores de 5 anos). Em relação ao percentual que a meningite por Hib representou no total das meningites notificadas na região, observou-se variação de 4% a 8% no período anterior à vacinação. Nos anos que se seguiram à sua implantação esse percentual apresentou queda para 1,3%.

Gráfico 1 – Distribuição dos Coeficientes de Incidência de meningite por Haemophilus influenzae tipo b, por 100.000 habitantes, segundo faixa etária – DIR XV, 1992 a 2001

 

O impacto da introdução da vacina contra o Hib no Programa de Imunização na Regional de Saúde de Piracicaba – DIR XV, 1999 a 2001

O gráfico 2 mostra o CI da meningite por Hib, no período de 1992 a 2001, e a cobertura vacinal em relação às crianças menores de 1 ano, a partir da implantação da vacinação no segundo semestre de 1999. A cobertura vacinal apresentou-se acima de 95% para a região nos dois anos seguintes à sua implantação, enquanto a incidência da doença apresentou um decréscimo expressivo.


Ainda que seja muito precoce qualquer tipo de avaliação, observou-se que a introdução da vacina foi acompanhada pela importante redução dos casos de meningite por Hib. Considerando-se a média de 14,3 casos observada no período que antecedeu à vacinação, o impacto se deu através da redução de cerca de 70% nos dois anos que se seguiram à implantação da vacina na Regional de Saúde de Piracicaba, o que está possivelmente relacionado à incorporação do novo produto. Os dados reforçam a necessidade de manter altas coberturas vacinais, com início do esquema rigorosamente aos 2 meses de idade, e investigação detalhada dos novos casos, por um período mais longo, conformando assim um monitoramento apropriado da doença na Regional de Piracicaba.

Autores: Perecin, G.EC, GTVE, DIR XV-Piracicaba; Bertolozzi, M.R, Departamento de Saúde Coletiva – USP


Bibliografia

1. Bouskela M.AL, Revisão sobre os aspectos epidemiológicos do Haemophilus influenzae tipo

b. [dissertação] São Paulo (SP): Faculdade de Medicina da USP; 1995.

2. American Academy of Pediatrics. Infecção por Haemophilus influenzae. In: Pickering LK, editors. Red book 2000: Relato do Comitê de Doenças infecciosas. 25 ed. Elk grove village; 2000. p. 262-72.

3. Takemura N S, Andrade S M. Meningite por Haemophilus influenzae tipo b em cidades do estado do Paraná, Brasil. J Pediatr 2001; 77(5): 387-91.

4. Araújo JMR, Maluf EMCP. Comportamento da meningite por “Haemophilus influenzae” b antes e depois da introdução da vacina combinada PRP-T/DPT na rotina em Curitiba. Pediatr Atual 1999; 12(5): 32-40.

5. Secretaria de Estado da Saúde. Vacina combinada contra DTP e Hib. São Paulo; 2002.


Agência Paulista de Controle de Doenças