As infecções bacterianas invasivas
figuram entre as principais causas de mortalidade e morbidade na infância
e as meningites bacterianas (MB), particularmente aquelas causadas
pelo Haemophilus influenzae tipo b (Hib), representam um
percentual importante nesse contexto. O Hib é responsável cerca de
90% e 95% das infecções invasivas e as crianças menores de 2 anos são
as mais atingidas.
Desde 1990, o Comitê Consultivo em Práticas de Imunização do Serviço
de Saúde Pública dos EUA e o Comitê de Doenças Infecciosas da
Academia Americana de Pediatria recomendam a imunização de rotina
para crianças, com a vacina conjugada contra o Hib e, a partir de
1997, a Organização Panamericana da Saúde (OPAS) recomendou a
implantação da vacina contra o Hib em toda a América Latina, sendo
o Uruguai (1994) e Chile (1996) os pioneiros com redução importante
na incidência da meningite.
No Brasil adotou-se a vacina conjugada PRP + CRM197 (HBOC), que foi
incluída no calendário de rotina da rede pública de serviços de saúde,
no segundo semestre de 1999, para crianças nascidas a partir de julho
de 1997, sendo ampliada em dezembro de 2000 para todos os nascidos a
partir de janeiro de 1997. Em 2002, a vacina combinada contra a
difteria, tétano, coqueluche e Haemophilus influenzae tipo b (DTP
+ Hib), produzida pelo Laboratório Biomanguinhos/Fiocruz, passou a
fazer parte dos imunobiológicos disponíveis na rede pública do
Estado de São Paulo. Este produto está indicado para os menores de 1
ano, para início ou complementação do esquema básico de vacinação
(três doses, a partir de 2 meses de idade).
O Ministério da Saúde, site da Funasa, divulga o número de casos de
meningites por Haemophilus influenzae desde 1983, quando foram
registrados 697 casos. Nos anos seguintes, esse valor apresentou
progressão até que, em 1988, ultrapassou mil casos/ano. O pico de
casos da doença ocorreu em 1995, com 1.834 casos e Coeficiente de
Incidência (CI) de 1,17/100.000 habitantes. Em 1998, ano que
antecedeu a introdução da vacina, foram registrados 1.731 casos e o
CI era de 1,03/100.000 habitantes. Em 2000, registraram-se 560 casos,
ocorrendo uma redução de aproximadamente 67% em relação a 1998. Em
São Paulo, o sistema de vigilância apresenta a série histórica
das meningites por Haemophilus influenzae b, na qual foram
confirmados 6.809 casos em menores de 5 anos, entre 1980 a 2000.
A presente pesquisa avaliou a incidência
das meningites por Hib antes e após a introdução da vacinação de
rotina contra esse agente na Direção Regional de Saúde de
Piracicaba – DIR XV. Estudo descritivo, os casos de meningite
por Hib que compõem a série histórica 1992 a 2001, na região,
foram quantificados e classificados segundo o ano de ocorrência. Os
CI foram calculados por 100.000 habitantes. Avaliou-se, também, a
cobertura vacinal na região e buscou-se interpretar o impacto da
introdução da vacina contra o Hib como importante recurso tecnológico.
Cenário do Estudo
Regional de Saúde de
Piracicaba - DIR XV, composta por 25 municípios: Águas de São
Pedro, Analândia, Araras, Capivari, Charqueada, Conchal, Cordeirópolis,
Corumbataí, Elias Fausto, Ipeúna, Iracemápolis, Itirapina, Leme,
Limeira, Mombuca, Piracicaba, Pirassununga, Rafard, Rio Claro, Rio das
Pedras, Saltinho, Santa Cruz da Conceição, Santa Gertrudes, Santa
Maria da Serra e São Pedro. A população estimada, segundo a Fundação
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE- 2001), era de
1.197.137 habitantes, dos quais 98.715 (8,24%) menores de 5 anos e
18.621 (1,5%) menores de 1 ano.
Resultados e discussão
Meningites por Hib na Regional
de Saúde de Piracicaba - DIR XV – 1992 a 2001
No período estudado, foram notificados na DIR XV 125 casos de
meningite por Hib e a incidência variou de 0,90 a 1,57/100.000 na
população geral, antes da introdução da vacina. Nos dois anos que
se seguiram à sua implantação, 2000 e 2001, os CI foram reduzidos
para 0,32 e 0,31/100.000 habitantes, respectivamente. Esses valores são
semelhantes aos encontrados no Estado de São Paulo.
Entre os menores de 1 ano, antecedendo a introdução da vacina, a
incidência na região variou de 19,4 a 48,2/100.000 e, nos dois anos
seguintes, a incidência se apresentou de 5,2 e 15,3/100.000. Em 2001,
75% dos casos ocorreram em menores de 6 meses. Já para as crianças
menores de 5 anos, anteriormente à vacinação, a incidência
apresentou valores de 8,4 a 15,9, os quais foram reduzidos para 2,9 em
2000 e 3,9, em 2001. Todos os casos notificados após a implantação
da vacina ocorreram em crianças com esquema incompleto de vacinação.
Em 1998 foram notificados 17 casos de meningite por Hib (12,5/100.000
menores de 5 anos). Em 1999 foi implantada a vacinação e em 2001
registraram-se quatro casos (3,9/100.000 menores de 5 anos). Em relação
ao percentual que a meningite por Hib representou no total das
meningites notificadas na região, observou-se variação de 4% a 8%
no período anterior à vacinação. Nos anos que se seguiram à sua
implantação esse percentual apresentou queda para 1,3%.
Gráfico 1 – Distribuição
dos Coeficientes de Incidência de meningite por Haemophilus
influenzae tipo b, por 100.000 habitantes, segundo faixa etária
– DIR XV, 1992 a 2001

O impacto da introdução da vacina
contra o Hib no Programa de Imunização na Regional de Saúde de
Piracicaba – DIR XV, 1999 a 2001
O gráfico 2 mostra o CI da
meningite por Hib, no período de 1992 a 2001, e a cobertura vacinal
em relação às crianças menores de 1 ano, a partir da implantação
da vacinação no segundo semestre de 1999. A cobertura vacinal
apresentou-se acima de 95% para a região nos dois anos seguintes à
sua implantação, enquanto a incidência da doença apresentou um
decréscimo expressivo.

Ainda que seja muito precoce qualquer tipo de avaliação, observou-se
que a introdução da vacina foi acompanhada pela importante redução
dos casos de meningite por Hib. Considerando-se a média de 14,3 casos
observada no período que antecedeu à vacinação, o impacto se deu
através da redução de cerca de 70% nos dois anos que se seguiram à
implantação da vacina na Regional de Saúde de Piracicaba, o que está
possivelmente relacionado à incorporação do novo produto. Os dados
reforçam a necessidade de manter altas coberturas vacinais, com início
do esquema rigorosamente aos 2 meses de idade, e investigação
detalhada dos novos casos, por um período mais longo, conformando
assim um monitoramento apropriado da doença na Regional de
Piracicaba.
Autores:
Perecin, G.EC, GTVE, DIR XV-Piracicaba; Bertolozzi, M.R, Departamento de Saúde Coletiva – USP
Bibliografia
1. Bouskela M.AL, Revisão
sobre os aspectos epidemiológicos do Haemophilus influenzae tipo
b. [dissertação] São
Paulo (SP): Faculdade de Medicina da USP; 1995.
2. American Academy of
Pediatrics. Infecção por Haemophilus influenzae. In: Pickering LK,
editors. Red book 2000: Relato do Comitê de Doenças infecciosas. 25
ed. Elk grove village; 2000. p. 262-72.
3. Takemura N S, Andrade S
M. Meningite por Haemophilus influenzae tipo b em cidades do estado do
Paraná, Brasil. J Pediatr 2001; 77(5): 387-91.
4. Araújo JMR, Maluf EMCP.
Comportamento da meningite por “Haemophilus influenzae” b antes e
depois da introdução da vacina combinada PRP-T/DPT na rotina em
Curitiba. Pediatr Atual 1999; 12(5): 32-40.
5. Secretaria de Estado da
Saúde. Vacina combinada contra DTP e Hib. São Paulo; 2002.
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