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Introdução
Meningite é uma inflamação das meninges, cujas membranas envolvem o
encéfalo (cérebro, bulbo e cerebelo) e a medula espinhal. Em geral,
caracteriza-se por febre alta, cefaléia e rigidez de nuca, sintomas
comuns principalmente em crianças maiores e adultos. Podem
desenvolver-se em dois dias ou apresentar-se em poucas horas.
Destacam-se entre outros sinais e sintomas, tais como vômitos, recusa
alimentar, sonolência, irritabilidade e convulsões, principalmente
em recém-nascidos e lactentes.
Todas as meningites são de notificação compulsória, à simples
suspeita. Significa dizer que todos os casos suspeitos de meningite,
independente do agente etiológico, devem ser notificados e
investigados de forma oportuna e adequada. Há que se destacar a
necessidade do estabelecimento de fluxos ativos pelo sistema de
vigilância epidemiológica, a fim de assegurar a efetivação das
medidas de prevenção e controle, dentre elas, o seguimento dos
contatos próximos e a identificação rápida de surtos.
Visando a comparabilidade dos dados epidemiológicos, considera-se
caso suspeito de meningite: todo paciente com quadro de febre alta, de
início súbito, e vômito, sem foco de infecção aparente,
acompanhado de cefaléia intensa, rigidez de nuca, sonolência,
torpor, irritação, diminuição da sucção em lactentes,
abaulamento de fontanela e convulsões.
Vale ressaltar que a meningite pode ser causada por diferentes agentes
como bactérias, vírus e fungos, porém o enfoque será dado às
meningites bacterianas, com abordagem focada na descrição dos
dados epidemiológicos referentes ao Estado de São Paulo.
Meningites bacterianas
As meningites bacterianas constituem grave problema de saúde pública
em função da sua alta morbimortalidade e seqüelas, atingindo
notadamente crianças e adolescentes. A transmissão ocorre pela tosse
e/ou espirro, através de gotículas aspergidas pelo trato respiratório.
Dentre as bactérias, as mais comuns são Neisseria meningitidis
(meningococo), Haemophilus influenzae tipo b (Hib) e Streptococcus
pneumoniae (pneumococo).
A Doença Meningocócica (DM) é causada pela Neisseria
meningitidis,
podendo manifestar-se de várias formas, de acordo com o quadro clínico,
e apresenta potencial epidêmico importante. Os meningococos, de
acordo com as diferenças antigênicas dos seus polissacárides
capsulares e das membranas protéicas externas, podem ser
classificados em vários sorogrupos, sorotipos, subtipos e imunotipos.
Os sorogrupos principais são A, B, C, Y e W135, sendo que o sorogrupo
A é o que tem registrado maior potencial epidêmico. Embora os
meningococos B e C ocorram predominantemente de forma endêmica, também
podem desencadear epidemias.
Poucas infecções provocam tanta consternação social como a que se
verifica em relação à infecção meningocócica comunitária, tendo
em vista a magnitude e a severidade deste agravo.
As epidemias são mais evidentes nos países em desenvolvimento e a
aplicação de métodos de feno e genotipagem tem contribuído para o
melhor conhecimento da epidemiologia da infecção meningocócica, o
que reforça a necessidade de uma parceria estreita entre laboratórios
referenciados e centros de vigilância epidemiológica.
Nos últimos anos, observou-se que um clone meningocócico pode mudar
o sorotipo ou o subtipo, como resultado das mudanças freqüentes do
material genético entre clones. A ocorrência destes efeitos
recombinantes conduziu ao conceito de clones-complexos, que
representam um grupo de clones distintos, mas geneticamente íntimos,
de forma a se lhes reconhecer uma origem comum.
A incidência da DM em países desenvolvidos apresenta variação de
menos de 1/100.000 habitantes (França, Estados Unidos) até
4-5/100.000 (Inglaterra e País de Gales, Escócia, Espanha), nos últimos
anos. A sensibilidade e o valor preditivo positivo diferem de modo
acentuado entre os vários países, assim como as características das
estirpes isoladas.
No Brasil, o coeficiente médio de incidência da DM é de
3,32/100.000 habitantes (1994 a 2003) e a letalidade, no período
corresponde, a 19,4%, segundo dados do Sinan/SVS/MS (Sistema Nacional
de Agravos Notificáveis da Secretaria de Vigilância em Saúde, do
Ministério da Saúde).
No Estado de São Paulo, a análise da situação epidemiológica das
meningites bacterianas sugeriu algumas tendências, notadamente a DM,
que apresentou uma taxa média de incidência dos casos em torno de
4,62/100.000 habitantes nos últimos 10 anos. Porém, há três anos
tem declinado a 2,9/100.000 hab. A letalidade oscilou entre 17% e 20%,
conforme demonstrado na figura 1.
Figura 1. Doença
Meningocócica: incidência e letalidade, Estado de São Paulo, 1990 a
2003
O maior risco de
adoecimento situou-se em crianças menores de 4 anos de idade, com as
seguintes variações nas taxas: 56,2-29/100.000 hab. (< 1 ano) e
23,26-11,42/100.000 hab. (1 a 4 anos), nos últimos dez anos.
Acrescente-se que 50% dos casos de DM no Estado ocorrem nos primeiros
quatro anos de vida. A partir daí, as taxas de ataque diminuem
progressivamente em relação às demais faixas etárias (figuras 2 e
3).

Figura 2. Doença Meningocócica: coef. de incidência (por 100.000 hb.) segundo faixa etária, Estado de São
Paulo, 1995 a 2003

Figura 3. Doença Meningocócica: distribuição percentual por faixa etária, Estado de São Paulo,
1995 a 2003
Atualmente, o percentual de sorogrupagem da DM em São Paulo é da
ordem de 39%. A partir de 2002, observou-se variação positiva em
relação ao percentual do sorogrupo C (49% a 56%), em comparação
com o sorogrupo B (46% a 39%), isto é, aumento da proporção do
sorogrupo C. Porém, não houve aumento da incidência dos casos de DM
no decorrer deste período (figura 4).

Figura 4. Doença
Meningocócica: distribuição percentual por sorogrupo, Estado de
São Paulo, 1990 a 2003
A incidência da DM
segundo sorogrupo e faixa etária demonstra predomínio do sorogrupo B
nas faixas de menores de 1 ano, 1 ano a 4 anos e de 5 anos a 9
anos, porém sem diferenças significativas nas demais faixas etárias.
A letalidade pelo sorogrupo B é nitidamente mais expressiva quando
comparada ao sorogrupo C.
O Streptococcus pneumoniae é um importante patógeno em infecções
respiratórias adquiridas na comunidade, tais como, sinusite, otite,
pneumonia, meningite e bacteremia. Os pneumococos habitam comumente o
trato respiratório e podem disseminar-se de pessoa a pessoa.
Desde 1967, quando foi levantada a questão do aumento da resistência
do pneumococo a uma variedade de antibióticos, o perfil de
morbimortalidade global vem sendo acompanhado, assim como a vigilância
laboratorial aos sorotipos mais prevalentes e a emergência de cepas
resistentes.
Estima-se que as meningites por pneumococo no Estado de São Paulo
estejam sub-notificadas, tendo em vista o desconhecimento da
oportunidade de notificação deste agravo, não identificação do
agente e/ou o uso de antibioticoterapia prévia. O coeficiente de
incidência das meningites por pneumococo apresentou pouca
variabilidade (1,0 a 1,5/100.000 habitantes), no período de dez anos.
Em tese, não se evidenciou variação significativa em relação à
letalidade, permanecendo em torno de 28% e 29%, no período observado
(figura 5). Quanto à faixa etária de maior risco de adoecer e à
letalidade, observa-se que se concentram na dos menores de 1 ano de
idade, seguida de faixas mais extremas (idosos).

Figura 5. Meningites por Streptococcus
pneumoniae: incidência e letalidade, Estado de São Paulo, 1990 a
2003
A meningite causada pelo Haemophilus influenzae b (Hib) é endêmica
em todo o País, apresentando significativas variações de incidência.
Apresenta seis sorotipos (a, b, c, d, e, f), de acordo com as diferenças
antigênicas de sua cápsula polissacarídica. A sua forma capsulada,
especialmente a do tipo b, está relacionada com enfermidades mais
graves, como meningite, epiglotite, pneumonia, celulite, artrite séptica,
osteomielite e pericardite. A transmissão ocorre através
de gotículas e secreções nasofaríngeas.
Do ponto de vista clínico, a meningite por Hib tem um curso
semelhante ao de outras meningites e pode ser de difícil distinção
de quadros de meningites por pneumococo ou meningococo. Os programas
de imunização constituem a estratégia mais efetiva para a prevenção
das doenças causadas pelo Hib.
Em 1997, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) recomendou a implantação
de vacinação contra o Hib em toda a América Latina. O Brasil
implantou-a em setembro de 1999, para menores de dois anos,
apresentando a seguir redução significativa dos casos de meningite
por Hib.
Em São Paulo, a incidência de meningite por Hib em menores de 5 anos de idade passou de 12,1/100.000 hab. para 1,0/100.000 hab., após
a introdução da vacina no calendário oficial do Estado em 1999.
Observando-se uma redução de mais de 90% dos casos. A letalidade
apresentou uma redução de aproximadamente 50% (figura 6).

Figura 6. Meningites por Haemophilus
influenzae b em menores de 5 anos de idade: Incidência e
Letalidade, Estado de São Paulo, 1990 a 2003.
Importante assinalar o percentual significativo de meningites
bacterianas não especificadas, ou seja, que não têm definido sua
etiologia, no universo das meningites notificadas no Sinan. Reveste-se
de suma importância a identificação dos casos e adequação da rede
de médicos (assistência e vigilância) e técnicos dos laboratórios
dos hospitais, objetivando a otimização do sistema.
Para tanto, há que se estabelecer efetivamente a integração da
vigilância, assistência e laboratório, a fim de garantir a
sustentabilidade das ações. Em suma, a vigilância epidemiológica
das meningites bacterianas, pautada dentro de um sistema de saúde
estruturado na municipalização, depende da qualidade ou do grau de
excelência dos serviços. Esta qualidade varia de acordo com diversos
fatores, destacando-se a estrutura do sistema e sua capacidade de
expansão, grau de conhecimento técnico profissional, apoio logístico,
divulgação das informações e do próprio acesso aos serviços de
saúde.
Autoria:
Carvalhanas, T., Divisão de Doenças de Transmissão Respiratória,
Centro de Vigilância Epidemiologia “Professor Alexandre Vranjac”,
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
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1990. J Infect Dis 1994; 169: 673-6.
World Health Organization. Control of epidemic meningococcal infection:
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