Bepa Outubro 2008;5(58) ISSN 1806-4272
Artigo Original

 

Resumo

Foi pesquisada a ocorrência de Staphylococcus spp como agente causal de otite em cães da cidade de Aracaju, Sergipe. Cinqüenta e cinco amostras foram coletadas em clínicas particulares da cidade e analisadas para pesquisa de Staphylococcus sp. Foi utilizado o método tradicional e Staphylococcus foi isolado em 18 (32,7%) das 55 amostras coletadas. As espécies isoladas foram S. intermedius, S. aureus e S. schleiferi. Também foi realizada a prova de sensibilidade antimicrobiana pelo método de difusão em ágar. Esses patógenos oportunistas foram mais sensíveis à cefalexina, ao imipenem, à teicoplanina, à vancomicina e à amoxicilina/ácido clavulânico, sendo os antimicrobianos menos eficazes à clindamicina, azitromicina, neomicina e sulfa/trimetoprim. Pelo menos 83% dos isolados foram resistentes a um dos antimicrobianos. O isolamento de Staphylococcus resistente à oxacilina (17% dos isolados) é preocupante devido a sua implicação em saúde pública, mostrando que pequenos animais podem ser fonte potencial para o homem de patógenos resistentes a antimicrobianos.

Palavras-chave: zoonose; resistência antimicrobiana; Staphylococcus.

Abstract

The occurrence of Staphylococcus as etiologic agent of canine otitis was studied in the city of Aracaju, Sergipe. Fifty-five swab samples where obtained from private veterinary clinics and analyzed for the presence of Staphylococcus sp. The traditional method was used and Staphylococcus was isolated from 18 (32,7%) of the 55 samples collected. The species isolated were S. intermedius, S. aureus and S. schleiferi. Antimicrobial susceptibility was also tested using the agar diffusion method. This opportunistic pathogen was more susceptible to cephalexin, imipenem, amoxycillin – clavulanic acid, teicoplanin and vancomycin, and more resistant to clindamycin, azithromycin, neomycin and trimethoprim-sulpha. At least, 83% of the isolates were resistant to one antimicrobial compound. The isolation of oxacillin – resistant Staphylococcus (17% of the isolates) is a fact that worries public health authorities, showing that pet animals can be a potential source for humans of antimicrobial-resistant pathogens.

Key words: zoonosis; antimicrobial resistance; Staphylococcus.

Introdução

Cães e gatos representam uma fonte potencial de disseminação de agentes resistentes a antimicrobianos, devido ao uso extensivo de antibióticos nessas espécies e ao seu contato íntimo com os seres humanos. O contato físico direto ocorre com alta freqüência devido à percepção humana de que os cães e gatos são membros da família1.

Numerosas pesquisas comprovaram a presença de bactérias de cães com potencial de transmissão zoonótica, como Staphylococcus aureus resistente à meticilina, Enterococcus resistente à vancomicina, Salmonella typhimurium resistente a diversas drogas e Escherichia coli resistente a sulfonamidas e tetraciclina, entre outros exemplos2,3,4.

Dentre as diversas etiologias da otite canina, as bactérias do gênero Staphylococcus têm um papel importante por serem parte da microbiota normal da pele e se comportarem como patógenos oportunistas5. Para o tratamento dessas infecções os antibióticos de primeira escolha são os β-lactâmicos6. A prevalência em cães de estafilococos multirresistentes a oxacilina e outros antimicrobianos já foi constatada6, assim como a sua transmissão ao homem7.

O propósito deste trabalho foi pesquisar a ocorrência de Staphylococcus spp como agente causal de otites em cães e verificar a sua resistência a antibióticos, com destaque para a oxacilina.

Material e método

Entre outubro de 2006 e fevereiro de 2007 foram coletadas, em diversas clínicas particulares da cidade de Aracaju (SE), 55 amostras de otites caninas por meio de swab estéril. As amostras foram analisadas no Laboratório de Microbiologia Veterinária da Faculdade Pio Décimo.

Para a análise, placas de ágar sangue, ágar Baird-Parker, ágar eosina azul de metileno (EMB) e ágar Sabouraud foram estriadas com o swab e incubadas a 37ºC por 24-48h, à exceção das placas de ágar Sabouraud, que foram incubadas à temperatura ambiente ( 25°C ) por no mínimo três dias. Após a incubação, colônias de cada um dos meios utilizados foram submetidas à caracterização morfo-tintorial e bioquímica para a sua identificação.

Para a realização do antibiograma foi utilizado o método de difusão em ágar. Os isolados confirmados como pertencentes ao gênero Staphylococcus foram cultivados em caldo infusão cérebro coração e, após incubação a 37ºC por 18-24h, placas de ágar Mueller-Hinton foram inoculadas com os isolados e adicionados os discos de antimicrobianos. Após incubação a 37ºC por 18-24h, os halos de inibição foram medidos e interpretados.

Resultado

Das 55 amostras, 18 (32,7%) foram positivas para Staphylococcus spp. Outros microrganismos isolados corresponderam a leveduras (Malassezia sp), Streptococcus spp, Pseudomonas sp e enterobactérias, como Proteus spp, Klebsiella sp e Escherichia coli.

Das 18 amostras positivas para Staphylococcus, 8 (44,4%) foram identificadas como S. intermedius, 7 (38,9%) como S. aureus e 3 (16,7%) como S. schleiferi (Figura 1).

Figura 1 - Espécies de Staphylococcus isoladas otites cães em Aracaju, SE.

Foi realizado o antibiograma utilizando-se 16 antimicrobianos, e os resultados sobre a sensibilidade estão expressos na Tabela 1.

Tabela 1 - Percentual de susceptibilidade a antimicrobianos de Staphylococcus isolados de secreção ótica de cães em Aracaju, SE.

Antimicrobiano

Sensibilidade

Antimicrobiano

Sensibilidade

Imipenem

100

Norfloxacina

83

Teicoplanina

100

Gentamicina

82

Vancomicina

  91

Ceftazidima

75

Amoxicilina/ácido clavulânico

  89

Rifampicina

66

Cefalexina

  89

Neomicina

61

Ciprofloxacina

  84

Sulfa-trimetroprim

44

Tetraciclina

  84

Eritromicina

30

Oxacilina

  83

Clindamicina

16

Discussão

O achado do Staphylococcus em 32,7% das amostras foi similar ao obtido por outros autores (35,3%)8 e inferior aos encontrados em outras pesquisas (82,6% e 66,7%)9,10. Staphylococcus coagulase-negativos são considerados patógenos emergentes11 e nesta pesquisa 3 dos 7 isolados de S. aureus eram coagulase-negativos.

Nesta pesquisa, 83% dos isolados mostraram resistência a pelo menos um dos antibióticos utilizados (Tabela 2), resultado similar ao encontrado por outro autor8.

Tabela 2 - Grau de resistência antimicrobiana de espécies de Staphylococcus isoladas de otites em cães de Aracaju, SE.

Isolado

Grau de resistência (quantidade de antimicrobianos)

0-1

2

3

+4

  1. S. intermedius

X

 

 

 

  2. S. intermedius

 

 

X

 

  3. S. intermedius

 

 

 

X

  4. S. intermedius

 

 

X

 

  5. S. intermedius

X

 

 

 

  6. S. intermedius

 

 

 

X

  7. S. intermedius

 

 

X

 

  8. S. intermedius

 

X

 

 

  9. S. aureus

 

 

 

X

10. S. aureus

 

 

 

X

11. S. aureus

X

 

 

 

12. S. aureus*

 

 

X

 

13. S. aureus*

 

 

X

 

14. S. aureus

 

X

 

 

15. S. aureus*

 

X

 

 

16. S. schleiferi

 

X

 

 

17. S. schleiferi

 

X

 

 

18. S. schleiferi

 

X

 

 

*Isolado coagulase-negativo.

No antibiograma, os melhores resultados correspondem ao uso de cefalexina, teicoplanina, imipenem, vancomicina, amoxicilina/ácido clavulânico. Os resultados de susceptibilidade foram semelhantes a outros citados na literatura para cefalexina9, amoxicilina/ácido clavulânico, imipenem e quinolonas10,12,13. Os antimicrobianos menos eficazes foram a clindamicina, eritromicina, neomicina e sulfa/trimetoprim.

Um dos isolados de S. intermedius (n° 3) apresentou resistência à neomicina, eritromicina e clindamicina. Tal fato foi positivamente correlacionado em outro estudo14 com a resistência a antibióticos β-lactâmicos e esse isolado foi resistente à oxacilina.

Foi observado neste estudo 17% de Staphylococcus resistentes à oxacilina. A transmissão zoonótica de cepas de Staphylococcus de animais de estimação para o homem já foi descrita na literatura1,15. Os estafilococos resistentes à oxacilina também o são a todos os antibióticos β-lactâmicos atualmente disponíveis6. A oxacilina é a droga de escolha no tratamento de infecções estafilocócicas graves no homem, pelo que se indica a necessidade de monitorar os perfis de isolamento e susceptibilidade aos antimicrobianos na prática veterinária.

A otite representa um percentual expressivo dos casos atendidos na prática clínica veterinária no Brasil. Os médicos veterinários devem tomar cuidado com as falhas terapêuticas pelo uso empírico de antimicrobianos, sendo de grande importância o conhecimento da etiologia e perfil de susceptibilidade antimicrobiana dessas infecções para, assim, estabelecer um tratamento específico eficaz e evitar a disseminação de bactérias multirresistentes.

O papel dos animais de companhia como reservatório de resistência antimicrobiana deve ser pesquisado em profundidade, pois a transmissão entre animais e humanos já foi comprovada. Essa transmissão é estimulada pelo contato físico íntimo e pelo fato de que os antimicrobianos utilizados na clínica de pequenos animais são praticamente os mesmos utilizados em medicina humana. A quantificação desse risco é altamente problemática, pois não há disponibilidade de dados sobre o consumo de antimicrobianos na clínica de pequenos animais e susceptibilidade antimicrobiana, assim como da prevalência de genes de resistência entre patógenos bacterianos de animais de estimação.

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Correspondência/Correspondence to:
Gabriel Isaias Lee Tunon

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