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Desde 2003 vêm sendo notificados, em vários
Estados brasileiros, surtos de infecção provocados por micobactérias não-tuberculosas (MNT), especialmente
as chamadas micobactérias de crescimento rápido (MCR) – Mycobacterium
abcessus/chelonae e fortuitum –, relacionados a diferentes
procedimentos invasivos.
O primeiro surto, registrado em 2005,
envolveu dezenas de pacientes submetidos a implante de prótese mamária
em Campinas, São Paulo. Posteriormente, outros casos de micobacteriose
foram notificados no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Alagoas, Goiás,
Minas Gerais, Pará, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Até abril de
2008 foram notificados 2.102 casos de infecção por MCR, distribuídos
predominantemente por hospitais privados.
Estas infecções são caracterizadas como “infecção
hospitalar”, pois manifestam-se após a realização de
procedimentos invasivos, especialmente vídeocirurgias, mas também
podem ocorrer após lipoaspiração, colocação de implantes ou próteses,
mesoterapia e outros. Falhas nos procedimentos de limpeza, desinfecção
e esterilização do instrumental ou dos equipamentos têm sido
apontadas como principais fatores desencadeantes do processo infeccioso.
As MCR são comumente encontradas no meio
ambiente em solo e fontes de água (rios, lagos e água tratada) e,
portanto, podem ser contaminantes de equipamentos médicos como broncoscópios
e videolaparoscópios, de soluções utilizadas para desinfecção/esterilização
e de materiais usados em cirurgias e soluções de injeção hipodérmica.
Não existem relatos de transmissão pessoa a pessoa, sendo as fontes
ambientais e via instrumentos contaminados as mais importantes.
A identificação das espécies é importante
para a conduta terapêutica adequada, pois elas podem apresentar diferenças
no padrão de susceptibilidade às drogas.
Infecções por MCR podem envolver
praticamente qualquer tecido, órgão ou sistema do corpo humano, sendo
mais freqüente o acometimento da pele e subcutâneo. Na pele,
normalmente, a infecção manifesta-se por lesões nodulares próximas
ao portal cirúrgico ou pelo aparecimento de secreção serosa na deiscência
ou na cicatriz cirúrgica. Geralmente não há febre, sendo a queixa
mais comum o aparecimento da secreção no local da incisão. A lesão
poderá estar restrita à epiderme e à derme, ou mais freqüentemente
estar presente em todo o trajeto cirúrgico, inclusive com implantação
em parede abdominal, articulações ou em outras cavidades.
A infecção evolui com aspecto inflamatório
crônico e granulomatoso, podendo formar abscessos, freqüentemente com
crescimento lento, com manifestação até um ano após o ato cirúrgico.
Não existem sinais patognomônicos. A suspeita normalmente é levantada
devido à falta de resposta aos antibióticos mais utilizados no
tratamento de patógenos habituais de pele.
As primeiras manifestações do processo
infeccioso podem surgir em 2 semanas e até 12 meses após o
procedimento, mas há relato de casos com período ainda menor ou maior.
Os principais exames a serem solicitados
pelos médicos assistentes são:
- Baciloscopia:
pesquisa
de BAAR. Habitualmente o agente é identificado como um BAAR
positivo. A baciloscopia poderá ser realizada a partir da secreção
coletada diretamente de modo asséptico em seringa estéril e/ou do
material de biópsia dos tecidos acometidos.
- Cultura:
é
de fundamental importância para a confirmação de que se trata de
uma micobactéria e, mais especificamente, de uma micobactéria de
crescimento rápido, o que a diferencia da Micobacterium
tuberculosis. A cultura poderá ser realizada a partir da secreção
ou da biópsia de tecidos.
- Anátomo-patológico:
no exame anátomo-patológico são observadas as alterações
histopatológicas típicas das infecções por micobactérias,
mostrando granulomas com áreas centrais de necrose. O material a
ser encaminhado para anátomo-patológico é obtido através de biópsia
ou de ressecção de peça cirúrgica, devendo ser acondicionado em
formol.
Outros exames a
serem realizados incluem o diagnóstico por imagem,
como ultra-sonografia, tomografia computadorizada e/ou ressonância
magnética, indicados para identificação e localização de coleções
líquidas e/ou abscessos intracavitários a serem ressecados.
Desde
2005 a
Divisão de Infecção Hospitalar do Centro de Vigilância Epidemiológica
“Prof. Alexandre Vranjac” (DIH/CVE) – órgão da Coordenadoria de
Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP)
– vem desenvolvendo ações específicas para prevenção e controle
de infecções por MCR no Estado de São Paulo.
Em 14/08/2008, a DIH publicou novo alerta
sobre infecções por MCR associadas a procedimentos cirúrgicos e estéticos
(disponível em:
ftp://ftp.cve.saude.sp.gov.br/doc_tec/IH/IF08_ALERTAMCR.pdf).
É de fundamental importância a intensificação
das medidas de prevenção e controle relacionadas à infecção de sítio
cirúrgico, bem como a vigilância epidemiológica das infecções
relacionadas aos procedimentos já descritos, com a notificação
imediata dos casos suspeitos de infecção por MCR.
Além
disso, diante de indícios de resistência da Micobacteria
massiliense ao glutaraldeído 2%, a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária do
Ministério da Saúde (Anvisa/MS) orienta
como medida cautelar a esterilização de artigos críticos com outros métodos
disponíveis, em substituição ao glutaraldeído.
Referências
bibliográficas
- Centers for Disease Control and Prevention -
CDC.
Rapidly growing mycobacterial infection following liposuction and
liposculpture – Caracas, Venezuela, 1996-1998. MMWR.
1998;47(49);1065-7.
- Brown BA, Wallace RJ Jr. Infections caused by
Nontuberculous Mycobacteria. In: Mandell GL, Bennett JE, Dolin R,
editores. Principles and practice of infectious diseases. 6ª
ed. Philadelphia: Churchill Livingstone; 2005:2909-16.
- Agência
Nacional de Vigilância Sanitária. [Nota técnica]: Micobactérias.
Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2008/080808_NotaTecnica_Micobacteria.pdf.
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