Junho 2008    Volume 5    Número 54 ISSN 1806-4272
 

Resumo  

Os alisantes capilares, segundo a legislação vigente, são de registro obrigatório, pois possuem substâncias irritantes em sua composição. Os alisantes são classificados como de uso comercial ou profissional, de acordo com a concentração máxima de ativo permitida pela legislação. Com a crescente ocorrência de produtos contendo ativos acima do limite máximo permitido e substâncias de uso inadequado, o presente trabalho teve como objetivo divulgar os principais problemas encontrados nas amostras avaliadas no Instituto Adolfo Lutz, no período de 2003 a 2007, quanto ao teor do princípio ativo confrontando com a legislação vigente e às reações adversas relatadas pelos consumidores. Foram avaliadas 38 amostras de produtos alisantes de diferentes marcas e ativos, encaminhadas pela vigilância sanitária estadual e municipal de São Paulo, Procon e Instituto de Criminalística, sendo que 20 (52,63%) estavam em desacordo por apresentarem teor de ativo acima do limite máximo permitido ou conterem formaldeído, somente permitido em cosmético como conservante ou para produtos destinados ao endurecimento das unhas.

Palavras-chave: alisante capilar; formaldeído; hidróxido de sódio; ácido tioglicólico.

Abstract

Hair-straightening products are subjected by the Brazilian enforced law to obligatory registration, as they contain irritating substances in their composition. Straightening is classified as either a commercial or a professional product according to the maximum rates allowed by Brazilian legislation. With the growing occurrence of products containing actives above legal limit, as well as the inadequate use of substances, the present work aimed to communicate the primary problems found in the samples analyzed in the Adolfo Lutz Institute between 2003 and 2007 concerning the active principle rate compared with the enforced law and the adverse effects reported by consumers. Thirty-eight hair-straightening samples of different trade marks with different actives, collected by Sanitary Inspection, PROCON and Criminology Institute, were tested, whereof 20 (52.63%) either surpassed actives maximum legal limit or contained excessive formaldehyde rates,  the formaldehyde in cosmetics is only permitted as a conserver or in nail-hardening products.

Key words: tioglicolic acid; aodium hydroxide; hair-straightening.

Introdução

Os alisantes são produtos cosméticos que alisam, relaxam, amaciam ou reduzem o volume dos cabelos de maneira mais ou menos duradoura, podendo se apresentar com denominações variadas: amaciantes, relaxantes e defrisantes1. São formados por três principais componentes: agente alcalino, fase oleosa e fase aquosa. Os agentes alcalinos mais utilizados são hidróxido de sódio, lítio, potássio ou hidróxido de guanidina, conhecido como produto “sem soda”2. Também existem os alisantes não-alcalinos, como os de tioglicolatos de amônia, que são formulados como cremes espessos ao invés de loções, para adicionar peso e ajudar a fixar o cabelo liso.

Atualmente, as escovas progressivas denominadas pela cartilha da Agência de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde (Anvisa/MS) como técnica de alisamento capilar que tem como objetivo quebrar temporariamente a estrutura dos cabelos e reconstruí-la na forma desejada – têm sido utilizadas de forma inadequada. Alguns profissionais adicionam formaldeído aos cremes alisantes comerciais, provocando, conseqüentemente, alteração de fábrica, o que resulta em outra infração sanitária (adulteração ou falsificação)3.

Todas as substâncias químicas para alisamento capilar são irritantes cutâneos; assim, é extremamente importante tomar cuidado ao aplicar o produto no couro cabeludo e pele circundante. A dermatite irritante e as reações adversas são freqüentemente vistas em pacientes, mesmo quando é tomado o cuidado em proteger a pele. A neutralização inadequada não permite a restauração das ligações de dissulfito danificadas4.

Os alisantes capilares, de acordo com a legislação vigente, são produtos de registro obrigatório na Anvisa por serem considerados de risco potencial. Suas formulações contêm substâncias irritantes para a pele e, se utilizadas inadequadamente, podem causar queimaduras graves na córnea e no couro cabeludo5,6,7. Os alisantes capilares são classificados como de uso comercial ou profissional o que difere um do outro é o limite máximo permitido da concentração de ativo.

A Resolução RDC nº 215, de 25 de julho de 20057, estabelece a lista de substâncias permitidas e o limite máximo para cada ativo em suas formulações. O ácido tioglicólico apresenta o máximo de ativo para produtos classificados como "uso geral" de 8% p/p; uso "profissional" máximo de 11% p/p e valor de pH entre 7,0 e 9,5. Os alisantes à base de hidróxido de sódio, para "uso geral" máximo de 2,0% p/p e "uso profissional" 4,5% p/p; e nos alisantes cujo ativo é o hidróxido de cálcio, o máximo permitido é de 7,0% p/p em hidróxido de cálcio.

O formaldeído vem sendo adicionado a produtos cosméticos destinados a escovas progressivas com a finalidade de alisar os cabelos; no entanto, seu uso é proibido. O formaldeído somente é permitido como conservante (máximo de 0,2% p/p)8 e como agente endurecedor de unhas. O uso desta solução em cremes cosméticos resulta em graves riscos à saúde, tais como irritação, queimaduras na pele, ferimentos nas vias respiratórias e danos irreversíveis nos olhos e cabelos.

A Associação de Saúde e Segurança Ocupacional (OSHA), dos Estados Unidos, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) e a Agência de Proteção Ambiental (EPA) classificam o formol como irritante e de potencial cancerígeno, estabelecendo o limite máximo de exposição contínua de 5 ppm e, nos casos de pico, de 10 ppm9, enquanto o Instituto Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional (NIOSH), também dos Estados Unidos, recomenda o limite máximo presente no ar de 0,1 ppm/15M10.

Com a crescente denúncia do uso de produtos para escova progressiva contendo formaldeído e os altos teores de hidróxido de sódio encontrados em formulações cosméticas, foi realizado este estudo. No período de 2003 a 2007 foram avaliadas 38 amostras de produtos alisantes de diferentes marcas e ativos, encaminhadas ao Instituto Adolfo Lutz (IAL) – órgão da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (/CCD/SES-SP)–, atendendo denuncias feitas por consumidores que relataram apresentar reações adversas ocasionadas pelo uso do produto.

O objetivo deste trabalho foi o de divulgar a importância da segurança no uso dos alisantes e as principais ocorrências das reações adversas registradas no IAL.

Materiais

Foram avaliadas 38 amostras de diferentes marcas e princípios ativos, encaminhadas ao laboratório pelos serviços de vigilância sanitária estadual e municipal de São Paulo, Instituto de Criminalística e Fundação Procon – vinculados às Secretarias de Estado da Segurança Pública e da Justiça e da Defesa da Cidadania, respectivamente –, no período de 2003 a 2007, coletadas por denúncia de ocorrência de reações adversas.

Métodos

O método do teor de hidróxido de sódio baseia-se na reação de neutralização que ocorre entre um ácido forte e uma base forte, utilizando fenolftaleína como indicador11. O método do teor de hidróxido de cálcio baseia-se em reações de complexação do EDTA e cálcio1,2.

O método do teor de ácido tioglicólico descreve a determinação do teor de ácido tioglicólico por iodometria pela reação de oxidação do ácido tioglicólico pelo iodo em meio ácido12. O método de formaldeído é determinado pela reação com o sulfito de sódio13.

Resultados

Das 38 amostras analisadas no período de 2003 a 2007, 20 (52,63%) estavam em desacordo com a legislação vigente em relação ao teor de princípio ativo, sendo que 26,3% eram formulações à base de hidróxido de sódio que estavam acima do limite máximo permitido; 2,63% das formulações à base de ácido tioglicólico e hidróxido de cálcio; e 21,0% das amostras continham altos teores de formaldeído.

Das amostras contendo hidróxido de cálcio e ácido tioglicólico apenas uma apresentou o teor de ativo acima do limite máximo permitido.

Discussão

O hidróxido de sódio em altas concentrações pode causar queimaduras e a quebra do fio capilar, apresentando queda de cabelo, que foi a queixa mais registrada pelo consumidor. Das amostras à base de hidróxido de sódio avaliadas, 72,7% eram de uso profissional; no entanto, são produtos de venda livre ao consumidor no comércio.

O formaldeído é considerado de uso proibido em formulações cosméticas, sendo somente permitido como conservante e em concentração máxima de 0,2%8. O formaldeído é uma matéria-prima irritante e de potencial cancerígeno, como indicado pelas instituições internacionais de pesquisa9,10. Os valores encontrados nos produtos alisantes que continham formaldeído em sua formulação, além de proibidos, estavam em concentrações elevadas, como demonstrado na Tabela 1 e quando comparados com  os limites máximos de exposição estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os profissionais que aplicaram o produto e os consumidores ficaram expostos a um alto risco de intoxicação, como queimaduras, ferimentos nas vias respiratórias e danos irreversíveis nos cabelos e olhos. Alguns estudos demonstram que ratos tratados com diferentes concentrações de formaldeído apresentaram crescimento de tumores malignos em todo o grupo e efeitos cancerígenos em vários órgãos e tecidos14; pessoas expostas acidentalmente em fábricas de produção de resinas de formaldeído desenvolveram asma persiste15.

Os problemas encontrados nos produtos alisantes capilares são freqüentes, demonstrando uma falta de controle, principalmente na sua fabricação. Os alisantes capilares à base de hidróxido de sódio apresentam um maior índice de reclamação, talvez por serem produtos de baixo custo, conseqüentemente mais utilizados pela população de baixa renda.

Tabela 1. Porcentagem encontrada nos diferentes ativos dos produtos alisantes de uso capilar que estavam em desacordo com a legislação vigente

 

Amostra

Princípio ativo

Teor 
encontrado

Teor máximo permitido pela legislação

1

Hidróxido de sódio

8,14% p/p

4,5% p/p

2

Hidróxido de sódio

4,91% p/p

4,5% p/p

3

Hidróxido de sódio

8,48% p/p

4,5% p/p

4

Hidróxido de sódio

8,48% p/p

4,5% p/p

5

Hidróxido de sódio

12,58% p/p

4,5% p/p

6

Hidróxido de sódio

7,68% p/p

4,5% p/p

7

Hidróxido de sódio

8,69% p/p

4,5% p/p

8

Hidróxido de sódio

7,34% p/p

4,5% p/p

9

Hidróxido de sódio

5,12% p/p

4,5% p/p

10

Hidróxido de sódio

9,84% p/p

4,5% p/p

11

Hidróxido de cálcio

7,60% p/p

7,00% p/p

12

Ácido tioglicólico

12,50% p/p

11,00% p/p

13

Formaldeído

2,01% p/p

0,2% p/p *

14

Formaldeído

4,98% p/p

0,2% p/p *

15

Formaldeído

8,69% p/p

0,2% p/p *

16

Formaldeído

8,57% p/p

0,2% p/p *

17

Formaldeído

10,98% p/p

0,2% p/p *

18

Formaldeído

4,53% p/p

0,2% p/p *

19

Formaldeído

4,68% p/p

0,2% p/p *

20

Formaldeído

3,50% p/p

0,2% p/p *

*Teor permitido como conservante.

Conclusão

Concluímos que os alisantes capilares, quando utilizados de forma inadequada, podem acarretar sérios danos à saúde do consumidor, principalmente produtos com concentrações acima do limite máximo permitido e o uso indevido de formaldeído. Também é importante que o fabricante gerencie os riscos percebidos pelo consumidor das reações adversas ocorridas.

Referências bibliográficas

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  6. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n. 211, 14 de julho de 2005. Define e classifica os produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes em seu grau de risco. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Poder Executivo, Brasília, DF, 18 jul. 2005. Seção 1, p.58-60.

  7. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Resolução RDC n. 215, de 26 de julho de 2005. Estabelece a lista de substâncias que os produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes não devem conter, exceto nas condições e com as restrições estabelecidas. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Poder Executivo, Brasília, DF, 26 jul 2005. Seção 1, p.22-7.

  8. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Resolução RDC n. 162, de 11 de setembro de 2001. Estabelece a lista de substâncias de ação conservante permitidas para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Poder Executivo, Brasília, DF, 2 out. 2001. Seção 1.

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  11. Farmacopéia Brasileira. Parte I. 4ª ed. São Paulo: Atheneu; 1988. p.v.5.1.6-1-v.5.1.7-6.

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  14. Soffritti M, Belpoggi F, Lambertini L, Lauriola  M, Padovani M, Maltoni C. Results of long-term experimentall studies on the carcinogenicity of formaldehyde and acetaldehyde in rats. Annals of the New York Academy of Sciences; 2002, 982:87-105.

  15. Vandenplas O, Fievez P, Delwiche JP, Boulanger J, Thimpont J. Persistent asthma following accidental exposure to formaldehyde. J Allergy Clin Immunol. 2004;59(1):115-6.


Correspondência/Correspondence to:
Maria C. Santa Bárbara
Seção de Cosméticos e Produtos de Higiene
Divisão de Bromatologia e Química — Instituto Adolfo Lutz
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