Maio 2008    Volume 5    Número 53 ISSN 1806-4272
 

Resumo  

A tendência de aumento da adesão ao Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo, já observada nos anos anteriores, manteve-se em 2007. Além disso, é evidente a consolidação do sistema, permitindo a comparação de taxas de infecção hospitalar (IH) de cada hospital com o condensado de taxas de IH do Estado. O desenvolvimento de um sistema para monitorizar infecções selecionadas é de responsabilidade das autoridades de saúde. O Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo vem cumprindo esta atribuição, caracterizando-se como um sistema de vigilância inédito de base governamental.

Palavras-chave: sistemas de vigilância; vigilância epidemiológica; infecção hospitalar.

Abstract

Adhesion to the Hospital Infection Surveillance System in the State of São Paulo shows a tendency to increase, already noticed in previous years, which has been maintained in 2007. Beyond that, the consolidation of this System is perceivable, allowing the comparison of hospital infection rates (IH) within each hospital, with a consolidation of IH rates for the State. The development of a system to monitor selected infections is a responsibility of Health authorities. The Hospital Infection Surveillance System of the State of São Paulo is fulfilling this obligation and has proved to be a totally new governing surveillance system.

Key words: surveillance systems; nosocomial infection; surveillance system.

Introdução

A divulgação anual e a discussão das taxas de infecção hospitalar (IH) são atividades importantes do Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo desde sua implantação, em 2004.

Em 2007, além da análise das infecções em cirurgia limpa e em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) Adulto, Coronariana, Pediátrica e Neonatal, por meio de dados agregados do período, foi realizada a análise dos dados de IH para instituições de longa permanência e hospitais psiquiátricos, utilizando a mesma metodologia.

Métodos

Não houve alteração no instrumento ou fluxo de notificação das taxas de IH pelos hospitais em relação aos anos anteriores. As planilhas 1, 2, 3 e 5 foram preenchidas pelos hospitais gerais e a planilha 4, pelos especializados (psiquiátrico e de longa permanência), encaminhadas mensalmente por via eletrônica para a Divisão de Infecção Hospitalar (DIH) do Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac” (CVE) – órgão da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP).

Os indicadores epidemiológicos selecionados para hospitais gerais foram mantidos: taxa de infecção em cirurgias limpas, densidade de incidência de pneumonia associada à ventilação mecânica (VM), infecção de corrente sanguínea associada a cateter central (CVC) e infecção urinária associada à sonda vesical de demora (SVD), e taxas de utilização destes dispositivos invasivos em UTI Adulto, Pediátrica e Coronariana; densidade de incidência de pneumonia associada à VM; infecção de corrente sanguínea associada a CVC; e taxas de utilização de DI em UTI Neonatal , em cada faixa de peso.

Para os hospitais de longa permanência e psiquiátricos também foram mantidos os indicadores epidemiológicos selecionados desde 2004, as densidades de incidência de pneumonia, escabiose e gastroenterites, e foi realizada análise dos dados de IH do período de 2005 a 2007.

Os indicadores foram analisados utilizando-se os dados agregados do período, isto é, a soma do número de IH dividida pela soma dos denominadores (número de cirurgias limpas, pacientes-dia, dispositivos invasivos-dia), para cada indicador, multiplicada por 1.000, no caso das infecções em UTI e hospitais especializados, ou por 100, no das infecções de sítio cirúrgico (ISC). As taxas de IH dos hospitais gerais e especializados notificantes foram distribuídas em percentis (10, 25, 50, 75 e 90).

Foram excluídos das análises os hospitais que notificaram menos de 250 cirurgias limpas, hospitais com menos de 500 pacientes-dia em UTI Adulto , Pediátrica e Coronariana e hospitais com menos de 50 pacientes-dia, para cada faixa de peso em UTI Neonatal. Para a planilha 5, que solicita a notificação dos microrganismos isolados em hemoculturas, não foi utilizado critério de exclusão por se tratar de uma análise qualitativa.

As taxas de IH foram distribuídas segundo Grupos de Vigilância Epidemiológica (GVE) – divisão administrativa vigente no Estado de São Paulo desde 2007.

A manutenção da metodologia de análise dos dados e dos critérios de exclusão permitiu a comparação das taxas de IH do Estado nos anos de 2004, 2005, 2006 e 2007. Além disso, foram comparadas as taxas de IH e perfil microbiológico dos hospitais notificantes do município de São Paulo e do interior do Estado.  

Resultados

Adesão ao Sistema

A tendência de aumento da adesão ao Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo manteve-se em 2007. A média e a mediana de hospitais notificantes por mês em 2007 foram 518 e 521 hospitais, respectivamente (variação: 494-533 hospitais) (Figura 1).

Figura1. Número de hospitais notificantes ao Sistema de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo por mês – 2004, 2005, 2006 e 2007.

Houve pouca variação no número de hospitais notificantes por mês e, ao contrário do observado nos anos anteriores, não houve queda no número de hospitais notificantes no mês de dezembro em 2007.

A Tabela 1 mostra a taxa de resposta segundo Direções Regionais de Saúde (DIR) – divisão administrativa vigente no Estado de São Paulo até o final do ano de 2006 –, baseada no número de hospitais cadastrados no Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES)1 em 2006. Já a Tabela 2 mostra a taxa de resposta segundo GVE, baseada no número de hospitais cadastrados no CNES2 em 2007.

Tabela 1. Distribuição do número de hospitais notificantes ao Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo e taxa de resposta segundo Direção Regional de Saúde (DIR) e cadastro no CNES – 2004, 2005 e 2006.

 

Tabela 2. Distribuição do número de hospitais notificantes ao Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo e taxa de resposta segundo GVE e cadastro no CNES – 2007.

Houve aumento da taxa de resposta ao Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo em 2007, acompanhando o aumento do número de hospitais cadastrados no CNES.

Infecções hospitalares em hospitais gerais

1. Infecções cirúrgicas

Como vem sendo observado desde 2004, a maioria dos hospitais notificantes, 82,5% (489/593), enviou dados de infecção cirúrgica por meio da planilha 1 (Tabela 3). O número de cirurgias limpas notificadas é crescente desde a implantação do Sistema de Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo, sendo que em 2007 foram notificadas 652.975 cirurgias limpas.

Tabela 3. Distribuição do número de hospitais notificantes ao Sistema de Vigilância das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo que enviaram planilha 1, segundo GVE – 2007.

Entretanto, mantém-se a ordem das especialidades cirúrgicas que realizam o maior número de cirurgias limpas por ano. Destaque para o grande número de cirurgias plásticas realizadas em 2007, conforme já observado nos anos anteriores. As Figuras 2 e 3 mostram o número de cirurgia limpas notificadas e de hospitais notificantes segundo especialidade cirúrgica.

Figura 2. Distribuição do número de cirurgias limpas notificadas ao Sistema de Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo por especialidade cirúrgica – 2007.  

Figura 3. Distribuição do número de hospitais notificantes ao Sistema de Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo por especialidade cirúrgica – 2007.

Seguindo os critérios de exclusão, foram incluídos na análise das taxas de infecção cirúrgica 355 hospitais que notificaram mais de 250 cirurgias limpas no período. As Tabelas 4 e 5 apresentam a distribuição das taxas de infecção cirúrgica global e por especialidade cirúrgica em percentis.

Para os GVE que possuíam menos de dez hospitais com o critério de inclusão adotado para análise não foi realizada a distribuição de taxas em percentis. Entretanto , os dados referentes a estas Regionais foram utilizados na análise de percentis do Estado.

Tabela 4. Distribuição das taxas de infecção cirúrgica, em percentis, dos hospitais que notificaram mais de 250 cirurgias limpas ao Sistema de Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo, segundo GVE – 2007.

 

Tabela 5. Distribuição das taxas de infecção cirúrgica por especialidade cirúrgica, em percentis, dos hospitais que notificaram mais de 250 cirurgias limpas ao Sistema de Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo – 2007.

2. Infecções em UTI

Houve aumento no número de hospitais que enviaram dados de infecção em UTI Adulto , Pediátrica e Coronariana em 2007, quando comparado a 2004, 2005 e 2006. Do total de hospitais notificantes, 53,3% (316/593) enviaram planilha 2. As Tabelas 6 e 7 mostram o número de hospitais que enviaram planilha 2 e dos que enviaram dados de infecção em UTI Adulto , Pediátrica e a Coronariana, por GVE.

Tabela 6. Distribuição do número de hospitais que enviaram planilha 2 ao Sistema de Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo segundo
GVE – 2007.

 

Tabela 7. Distribuição do número de hospitais que enviaram planilha 2 ao Sistema de Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares do Estado de São Paulo por tipo de UTI, segundo GVE – 2007.

Foram incluídos na análise das taxas de infecção em UTI Adulto , Pediátrica e Coronariana 276 (89,6%), 101 (84,1%) e 33 (94,3%) hospitais, respectivamente, segundo critério adotado para análise. O número e a porcentagem de hospitais incluídos na análise de dados em 2007 foram superiores aos dos anos anteriores.

Em UTI Adulto a média de pacientes-dia foi de 3.886 pacientes-dia e mediana de 2.786 pacientes-dia no período. Já em UTI Pediátrica a média foi de 1.862 pacientes-dia e a mediana foi de 1.607 pacientes-dia. Finalmente, em UTI Coronariana a média foi de 2.426 pacientes-dia e a mediana de 2.137 pacientes-dia.

As Tabelas 8, 9 e 10 apresentam a distribuição das taxas de infecção, em percentis, em UTI Adulto , Pediátrica e Coronariana, e as Tabelas 11, 12 e 13, as taxas de utilização de dispositivos invasivos, em percentis, para estas unidades.

Tabela 8. Distribuição das taxas de infecção associadas a dispositivos invasivos, em percentis, em UTI Adulto. Estado de São Paulo, 2007.

Infecção sob vigilância

Densidade de incidência 
(por 1.000 dispositivos invasivos-dia)

Percentil

10

25

50

75

90

Pneumonia associada à ventilação mecânica

4,59

9,91

15,52

23,61

30,80

 

Infecção de corrente sanguínea associada a cateter central

0,00

1,47

4,71

8,75

14,08

 

Infecção de trato urinário associada à sonda vesical

0,57

3,01

6,42

10,06

15,67

 

Tabela 9. Distribuição das taxas de infecção associadas a dispositivos invasivos, em percentis, em UTI Pediátrica. Estado de São Paulo, 2007.

Infecção sob vigilância

Densidade de incidência
(por 1.000 dispositivos invasivos-dia)

Percentil

10

25

50

75

90

Pneumonia associada à ventilação mecânica

0,00

2,80

5,95

11,09

16,63

 

Infecção de corrente sanguínea associada a cateter central

0,00

3,58

8,15

13,54

24,92

 

Infecção de trato urinário associada à sonda vesical

0,00

0,00

4,51

10,31

19,04

Tabela 10. Distribuição das taxas de infecção associadas a dispositivos invasivos, em percentis, em UTI Coronariana. Estado de São Paulo, 2007.

 Infecção sob vigilância

Densidade de incidência
(por 1.000 dispositivos invasivos-dia)

Percentil

10

25

50

75

90

 Pneumonia associada à ventilação mecânica

6,84

13,45

22,86

29,85

36,69

 

Infecção de corrente sanguínea associada a cateter central

0,00

0,00

3,92

5,94

9,57

 

Infecção de trato urinário associada à sonda vesical

0,00

1,83

3,89

9,12

19,24

Tabela 11. Distribuição das taxas de utilização de dispositivos invasivos, em percentis, em UTI Adulto. Estado de São Paulo, 2007.

Dispositivos invasivos

Taxa de utilização (%)

Percentil

10

25

50

75

90

Ventilação mecânica

26,82

35,92

47,43

57,82

68,01

Cateter central

29,59

52,84

56,86

69,44

80,43

Sonda vesical

43,46

55,88

69,31

80,74

87,59

 

Tabela 12. Distribuição das taxas de utilização de dispositivos invasivos, em percentis, em UTI Pediátrica. Estado de São Paulo, 2007.

Dispositivos invasivos

Taxa de utilização (%)

Percentil

10

25

50

75

90

Ventilação mecânica

20,53

34,12

47,07

58,55

70,68

Cateter central

18,03

30,11

39,83

56,84

67,84

Sonda vesical

5,01

9,02

16,60

27,69

45,46

Tabela 13. Distribuição das taxas de utilização de dispositivos invasivos, em percentis, em UTI Coronariana. Estado de São Paulo, 2007.

Dispositivos invasivos

Taxa de utilização (%)

Percentil

10

25

50

75

90

Ventilação mecânica

9,78

14,44

19,17

30,00

43,38

Cateter central

23,09

30,84

36,77

44,46

74,41

Sonda vesical

25,45

31,21

41,90

53,58

74,84