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Resumo
No
centésimo aniversário da publicação do primeiro caso de
paracoccidioidomicose, são apresentadas informações relacionadas ao
histórico, agente etiológico, epidemiologia, patogênese, formas clínicas,
diagnóstico laboratorial e antígenos. Apesar do expressivo avanço em
diversas áreas do conhecimento, a micose descrita por Adolpho Lutz em
1908 ainda demonstra altas taxas de mortalidade e letalidade e baixa
visibilidade, configurando-se como oitava causa de mortalidade por
doença predominantemente crônica ou repetitiva entre as infecciosas e
parasitárias, e a maior taxa de mortalidade entre as micoses sistêmicas.
Palavras-chave:
Paracoccidioides brasiliensis; epidemiologia; patogênese; formas
clínicas; diagnóstico; antígenos.
Abstract
In the 100th birthday of the first published case of
paracoccidioidomycosis this review summarizes some knowledge about
historical, etiologic agent, epidemiology, pathogenesis, clinical forms,
laboratory diagnosis and antigens. Despite the significant advances in
many areas of knowledge, the mycosis described by Adolpho Lutz in 1908, showed high mortalily and lethality rates and low visibility
representing the eighth most common cause of death from predominantly
chronic or recurrent types of infectious and parasitic diseases.
Key words: Paracoccidioides
brasiliensis; epidemiology; pathogenesis; paracoccidioidomycosis
diagnosis; P. brasiliensis antigens.
Histórico
Há
100 anos, Adolpho Lutz1,2, no Instituto Bacteriolígico de
São Paulo, descreveu pela primeira vez a paracoccidioidomicose (PCM),
ao verificar em lesões bucais de dois pacientes a existência de fungos
de natureza dimórfica distintas do Coccidioiddes
immitis3,4.
Em
1º de abril de 1908, o periódico Brazil-Médico1
publicava a primeira parte dos resultados, fruto de minuciosos estudos
iniciados em 19055 por Adolpho Lutz. No artigo “Uma mycose
pseudococcidica localisada na bocca e observada no Brazil. Contribuição ao conhecimento das hyphoblastomicoses americanas”,
Lutz descreveu a paracoccidioidomicose como uma doença que se
caracterizava por apresentar lesões muito graves, com presença de
úlceras que tomavam conta da boca e destruíam a mucosa da gengiva e o
véu palatino e dolorosa repercussão ganglionar, qualificando-a como
micose pseudococcídica após identificar seu agente causal, bem como
seu modo característico de reprodução. Ao verificar semelhanças
morfológicas com micoses anteriormente descritas na Argentina e nos
Estados Unidos, incluiu-a em
um grupo por ele denominado de hifoblastomicoses americanas3.
Após
a descrição da doença, fatal na ocasião pela inexistência de
terapia específica, seguiu-se longo período de análise e estudo das
lesões cutâneas e mucosas, freqüentemente relatadas pelos pacientes
acometidos pela enfermidade, na tentativa de isolamento do agente
causal. Em 1912, Alfonso Splendore classificou o agente etiológico da
paracoccidioidomicose dentro do gênero Zymonema, propondo a
denominação de Zymonema
brasiliensis3,4.
A
classificação definitiva e consensualmente aceita foi feita por
Floriano Paulo de Almeida, graças a estudo comparativo realizado entre
o granuloma coccidióico nos Estados Unidos e no Brasil, demonstrando
que eram indiscutíveis e notáveis as diferenças entre ambas as
patologias6,3,4. Nesse estudo, confirmou os achados
anteriormente descritos por Lutz1,2, estabelecendo, assim, as
diferenças entre o agente etiológico da paracoccidioidomicose e o C.
immitis, com o qual era freqüentemente confundido6. Em
1930, após diversos estudos, criou o gênero Paracoccidiodes
dentro do reino Fungi,
revalidando também a espécie brasiliensis,
criada por Splendore3,4,5,6.
Segundo
Lacaz4, com a observação e o relato de casos isolados da
doença em outros países da América do Sul, a mesma passou a ser
chamada de blastomicose sul-americana, doença de Lutz, doença de
Lutz-Splendore-Almeida, pois Splendore foi o primeiro a cultivar o
patógeno e Almeida, o autor do primeiro estudo abrangente sobre a
doença6. Porém, a oficialização do termo
paracoccidioidomicose foi estabelecida em 1971, em Medellín, Colômbia,
durante reunião de micologistas do continente americano, sendo
mundialmente aceita desde então4.
Agente
etiológico
Paracoccidioides
brasiliensis é o agente etiológico
da PCM, micose de alta endemicidade na América Latina7.
Taxonomicamente
encontra-se no Reino Fungi,
Filo Ascomycota, Classe Pleomycetes,
Ordem Onigenales, Família Onygenaceae,
Gênero Paracoccidioides e Espécie brasiliensis
8,9.
P.
brasiliensis apresenta
dimorfismo termo-dependente, crescendo à temperatura ambiente sob a
forma de colônias brancas, aderentes ao meio. Microscopicamente,
observa-se hifas delgadas, hialinas, septadas, multinucleadas e
ramificadas com produção de clamidósporos terminais ou intercalares,
conídios e ausência de corpo de frutificação, sendo denominada de
saprofítica7 ou micélio10. Quando cultivado a
35ºC-37ºC, em meios enriquecidos desenvolve colônias de coloração
creme, chamadas cerebriformes ou leveduriformes. Ao microscópico
verifica-se a presença de células arredondadas ou ovais,
multinucleadas, com paredes celulares espessas, birrefringentes,
rodeadas por multibrotamentos, constituindo a variante L (levedura).
Esta fase é conhecida também como parasitária, pois é encontrada
causando lesões nos tecidos do hospedeiro humano ou animal10.
Epidemiologia
A
PCM é micose sistêmica, de natureza granulomatosa crônica, que
acomete freqüentemente os pulmões, o sistema fagocítico macrofágico
e tecidos mucocutâneos, podendo disseminar-se por via
linfo-hematogênica para tecidos e órgãos adjacentes11.
Indivíduos
do sexo masculino com idade entre 30 a 50 anos, ou seja, em fase
produtiva, são os mais acometidos pela doença, principalmente aqueles
que exercem atividades relacionadas à agropecuária12.
Até
o momento, não foram totalmente esclarecidos o hábitat natural e as
condições de vida soprofítica de P.
brasiliensis13. Em função das características ecológicas
das regiões endêmicas acredita-se que o patógeno habite
preferencialmente ambiente úmido, com temperaturas médias
anuais entre 18ºC a 24oC e índices
pluviométricos elevados (900 mm a 1.800 mm) 7.
A
micose apresenta distribuição geográfica restrita a países da
América Latina, apresentando maior incidência no Brasil, Venezuela e
Colômbia14,9,13.
A
PCM não é doença de notificação compulsória, portanto, sua real
prevalência não pode ser calculada. No entanto, estima-se que a taxa
anual de incidência entre a população brasileira seja de 1-3 por
100.000 habitantes e a de mortalidade, de 0,14 por 100.000 habitantes15.
Coutinho
e cols15 estudaram 3.181 óbitos por PCM no Brasil, por um
período de 15 anos, demonstrando a grande magnitude e baixa
visibilidade da doença, destacando-a como oitava causa de mortalidade
por doença predominantemente crônica ou repetitiva, entre as
infecciosas e parasitárias, superior à leishmaniose, e a mais elevada
taxa de mortalidade entre as micoses sistêmicas.
Estima-se
que nas regiões endêmicas existam, aproximadamente, 10 milhões de
pessoas infectadas por P.
brasiliensis. No entanto, a maioria não apresenta sintomas
clínicos13.
No
Brasil é encontrada em quase todas as regiões do território nacional:
Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, sendo que casos esporádicos da
doença têm sido relatados no Nordeste. No Estado de São Paulo tem sido relatada principalmente na região central16.
A enfermidade é considerada um grave problema de saúde pública devido
à existência de extensas áreas endêmicas associadas às importantes
repercussões econômico-produtivas dos indivíduos acometidos12,16.
Apesar
de existirem áreas endêmicas bem definidas, o caráter casual e não
repetitivo das observações, aliado às dificuldades de isolamento do
agente etiológico, dificulta a exata localização do patógeno no
ambiente. Além disso, a falta de surtos epidêmicos, o prolongado
período de latência da doença e as freqüentes migrações das
populações de áreas endêmicas tornam praticamente impossível a
identificação do local onde a infecção foi adquirida7.
O
isolamento desta espécie fúngica tem sido descrito a partir de fezes
de pingüins da Antártida17, em amostras de solo18-23,
ração de cachorro contaminada com solo24, trato intestinal
de morcegos frugívoros25 e também de tatus26-32.
A
literatura tem relatado o sucesso obtido no isolamento de P.
brasiliensis a partir de vísceras (fígado, baço, linfonodos e
pulmões) do tatu de nove bandas (Dasypus
novemcinctus)26-32. Para tanto, tem-se utilizado, além
das técnicas micológicas tradicionais (cultivo e isolamento de
células leveduriformes), métodos moleculares, como a técnica de
reação de polimerase em cadeia (PCR), visando à amplificação do DNA
empregando-se primers específicos.
Segundo
Franco e cols.20, a combinação dos métodos micológicos e
moleculares na análise de 81 tatus investigados permitiu aos autores,
em seu conjunto, êxito na obtenção de 29 amostras com
características macro e micromorfológicas compatíveis com P.
brasiliensis. Segundo os autores, a demonstração da patogenicidade/virulência31
inoculando-se células fúngicas isoladas das vísceras de tatus em
animais susceptíveis; a produção de antígenos e avaliação de seu
potencial antigênico, pela reação de imunodifusão dupla frente a
soros de pacientes com PCM confirmada; a demonstração da
imunoreatividade de frações antigênicas, como a glicoproteína de
43.000 daltons ou gp43, pela técnica de immunoblotting;
a extração e amplificação de DNA fúngico e a detecção pela técnica
de PCR do gene que codifica a gp4332 conferiram grau de
certeza inquestionável aos resultados obtidos, demonstrando-se capazes
de atender aos requisitos de confiabilidade para o isolamento de P.
brasiliensis a partir de vísceras de tatus.
Esses
resultados comprovam a presença de P.
brasiliensis no solo em razão da constatação da ocorrência do
mesmo, em alta freqüência, em tatus da espécie D.
novemcinctus26-32, animais de hábito escavatório, cuja
distribuição geográfica coincide com a observada na PCM13.
O fato de tatus de nove bandas não apresentarem hábito migratório,
visto que não costumam distanciar-se de sua toca, abre perspectivas
para que se delimite com maior precisão a reservárea do
patógeno, possibilitando, conseqüentemente, determinar a
região ou área na qual o homem é
infectado. Pode-se dizer, portanto, que o contato com tatus está
intimamente relacionado com maior risco de infecção, principalmente
nos indivíduos que residem nas áreas endêmicas33.
Recentemente
foram relatados casos da doença em cães34-37, sendo obtida
cultura fúngica apenas para um caso. Ono e cols36 avaliaram
a presença de anticorpos anti-gp43 de P.
brasiliensis em amostras de soro de 305 cães das regiões urbana,
periurbana e rural de Londrina, Paraná, usando o ELISA, observando
índices de positividade de 14%, 48,8% e 89,5%, respectivamente. Quando
submetidos à avaliação da resposta imunológica do tipo tardio (HTT),
empregando gp43 como antígeno, verificarou-se que os cães da área
periurbana apresentaram 13,1% de positividade e os da rural, 38,1%. A
detecção de altos títulos de anticorpos anti-gp43, associada à forte
positividade na intradermoreação, levou ao sacrifício de seis
cães, na tentativa de isolamento do agente etiológico. Apesar da
utilização de metodologia semelhante àquela descrita para o
isolamento em tatus, nesses cães a investigação foi negativa.
Fagundes37
avaliou a presença de anticorpos anti-P.
brasiliensis, empregando as técnicas de ELISA e imunodifusão
dupla, frente a soros de 282 cães da zona rural de Botucatu (SP). A
reatividade por ELISA foi de 35% e as amostras com altos títulos de
anticorpos avaliadas por immunoblotting
revelaram a presença de frações antigênicas bem definidas e
específicas, embora com padrões de intensidade variável. Não se
observou reatividade ao P.
brasiliensis pela imunodifusão dupla. Os animais que apresentaram
reatividade de forte intensidade frente ao antígeno fúngico foram
avaliados clínica e radiologicamente, não evidenciando, contudo,
sinais de PCM-doença.
A
implantação, a implementação e o avanço das técnicas moleculares têm
auxiliado de forma expressiva no isolamento de P.
brasiliensis a partir de amostras de solo, principalmente daquelas
coletadas de áreas sabidamente endêmicas para a doença13,20,22
23.
Neste
sentido, Ono e cols.21 avaliaram a interferência de produtos
químicos utilizados na agricultura no desenvolvimento de P.
brasiliensis. Os autores avaliaram seis fungicidas, dois herbicidas
e dois inseticidas frente a cinco amostras de P.
brasiliensis isoladas do meio ambiente e cinco isoladas de
pacientes, demonstrando que o cultivo destes isolados a 35ºC em ágar
Sabouraud-dextrose, acrescido de concentrações distintas de cada um
dos compostos químicos, impediu o desenvolvimento in
vitro de P. brasiliensis.
Estes resultados podem explicar parcialmente a dificuldade muitas vezes
observada no isolamento de P.
brasiliensis a partir de amostras de solo20.
Patogênese
Durante
muito tempo acreditou-se que o mecanismo de infecção humana ocorria
pela via oral, visto que grande número de pacientes que relatavam
hábito de mascar capins apresentava lesões em mucosa da cavidade oral.
Gonzáles-Ochoa38
consolidou a hipótese de que o mecanismo de infecção da PCM ocorria
pela via área superior, por meio da inalação de formas fúngicas
diminutas denominadas de conídeos. Uma vez inalados, sob os efeitos da
temperatura corpórea do hospedeiro, alguns sistemas enzimáticos do
patógeno são ativados, permitindo a transformação da forma infectante
em parasitária39,11.. Segundo o autor, as manifestações em
mucosa oral e cutânea seriam secundárias e resultantes da
disseminação linfo-hematogênica do fungo, a partir do tecido
pulmonar.
Desde
então esta via de infecção é a mais aceita, sendo evidenciada por
vários aspectos, destacando-se: as tentativas infrutíferas de
isolamento de P. brasiliensis a
partir de gramíneas e outros vegetais40; o freqüente achado
de lesões pulmonares em exames de autopsias41; e o
isolamento de P. brasiliensis em amostras de escarro e lavado brônquico de
pacientes portadores de lesões pulmonares inaparentes41,42,11.
Uma
vez inalado, o fungo pode ser destruído no parênquima pulmonar por
células fagocíticas inespecíficas ou multiplicar-se e produzir foco
de infecção, o qual é drenado para o linfonodo regional localizado no
hilo pulmonar, caracterizando, assim, o complexo primário na PCM. No
entanto, essas lesões podem regredir espontaneamente em indivíduos
imunocompetentes, com destruição total ou parcial do fungo43,
caracterizando a forma subclínica da doença44.
Eventualmente,
os fungos contidos no complexo primário podem disseminar-se por via
hematogênica e/ou linfática, atingindo outros órgãos, causando a
forma juvenil ou aguda45. No entanto, muitos indivíduos
permanecem com o complexo primário cicatricial contendo fungos
viáveis, denominados de lesões quiescentes, que podem evoluir para PCM
crônica muitos anos após a infecção11.
Nos
tecidos a reatividade do hospedeiro induz reação inflamatória, que
culmina na formação de granuloma, o qual foi inicialmente descrito por
Motta46. O granuloma representa uma resposta do hospedeiro ao
agente agressor, ou seja, o P.
brasiliensis, na tentativa de bloquear e restringir seu
desenvolvimento, impedindo sua multiplicação e disseminação para
órgãos e tecidos adjacentes11. A evolução do granuloma
parece estar intimamente relacionada ao tipo de resposta imune
desencadeada pelo hospedeiro, bem como aos componentes de parede
liberados pelo patógeno47.
Fatores
relacionados ao P. brasiliensis,
como virulência, patogenicidade e composição antigênica, e ao
hospedeiro, como suscetibilidade genética, faixa etária, sexo,
tabagismo, etilismo, desnutrição e deficiência do sistema
imunológico, estão associados às manifestações clínicas da doença48.
San-Blas
e San-Blas49, verificaram que polissacarídeos como α-(1,3)
glucana e β-(1,3) glucana
estão relacionados ao dimorfismo fúngico e à virulência deste
patógeno. Os autores, ao
estudarem diferentes isolados de P.
brasiliensis, sugeriram que a α-(1,3) glucana protege o fungo
contra enzimas digestivas produzidas pelos leucócitos e macrófagos do
hospedeiro. Segundo San-Blas50, o parasitismo por P.
brasiliensis ocorre quando este se transforma em levedura no início
do processo infeccioso, evadindo-se, assim, da ação de enzimas
fagocíticas, uma vez que os fagócitos humanos são capazes de produzir
apenas β-glucanases, as quais digerem somente a β-(1,3) glucana.
Dentre
os fatores próprios do fungo capazes de aumentar sua patogenicidade, os
mais freqüentes são os lípides e os polissacarídeos50 e,
mais recentemente, a glicoproteína de 43 kDa, antígeno imunodominante
de P. brasiliensis 51-52 .
Formas clínicas
A
classificação adotada leva em consideração as manifestações
clínicas e os parâmetros imunológicos da patologia, apresentando
três diferentes formas: PCM-infecção, PCM-doença e PCM-residual53-56.
A
PCM-infecção é observada em indivíduos que apresentam positividade
em testes cutâneos frente à paracoccidioidina, sendo considerada a
forma assintomática da doença. Nestes indivíduos a imunidade celular
encontra-se preservada, observando-se intensas reações intradérmicas11.
A
PCM-doença pode manifestar-se sob duas formas: a aguda (tipo juvenil) e
a crônica (tipo adulta). A forma aguda representa menos de 10% da
casuística geral desta patologia, sendo a mais grave e a que afeta
jovens de ambos os sexos, os quais apresentam acentuada depressão da
resposta imunocelular e elevados títulos de anticorpos11.
Normalmente, é originada de uma infecção primária, disseminando-se
rapidamente por meio das vias linfáticas para o sistema
monocítico-macrofágico, causando hepato-esplenomegalia e possível
disfunção medular. As lesões em mucosas são pouco freqüentes,
ocorrendo em 15% a 20% dos casos; o acometimento pulmonar é raro,
estando presente em apenas 5% a 11 % dos pacientes11,54,55.
A crônica representa 90% dos casos e acomete, freqüentemente, adultos do
sexo masculino em idade produtiva, ou seja, entre 30 a 50 anos. A
doença surge a partir de um foco quiescente55,
caracterizando-se por apresentar curso de evolução lento, podendo
comprometer um único órgão (unifocal) ou disseminar-se para outros
órgãos (multifocal)11.
A
residual constitui forma clínica importante pela freqüência com que
se manifesta, mesmo após tratamento eficaz. As principais seqüelas
relacionam-se ao comprometimento pulmonar, adrenal, laríngeo,
digestivo, encefálico e tegumentar.
Diagnóstico laboratorial
Micológico
Na
PCM, como em outras micoses, o diagnóstico considerado como
padrão-ouro é o isolamento do agente etiológico em cultura. Para o
isolamento de P. brasiliensis
recomenda-se o emprego de meios de cultura enriquecidos com
extrato de levedura, contendo antibióticos ou, ainda, ágar infusão de
cérebro e coração (BHI). O material semeado é incubado a 25ºC-30oC,
crescendo lentamente (15 a 30 dias), sob a forma de micélio,
apresentando colônias brancas ou amarronzadas, cotonosas ou glabrosas57,58
Na
maioria das vezes, as leveduras de P. brasiliensis podem ser
facilmente visualizadas ao microscópio óptico. Normalmente,
empregam-se secreções do trato respiratório, raspado e crostas de
lesões ulceradas, tecidos de biópsia, pus de gânglios, urina e LCR,
entre outros. Em material de punção ganglionar, por exemplo,
visualizam-se células globosas, ovais ou elípiticas com 5µm a 25µm de
diâmetro, inclusões citoplasmáticas e multibrotamentos com parede de
duplo contorno refringente.
Nos
casos em que a biópsia é possível e menos lesiva para o paciente,
colorações especiais como o Gomori-Groccott ou ácido periódico de
Schiff podem auxiliar no diagnóstico, por meio da observação nos
granulomas de células típicas multibrotantes. As células em múltiplo
brotamento são esféricas (10 a 20 µm de diâmetro) e os brotos
esféricos ou em forma de limão encontram-se dispostos ao redor da
célula-mãe57.
Importante
salientar que a PCM, principalmente em sua forma pulmonar, deve ser
diferenciada de outras micoses e da tuberculose. Os achados clínicos e
radiológicos são inespecíficos; no entanto, calcificação extensa,
efusão pleural e localização apical são indicativas de histoplasmose
e tuberculose. O diagnóstico diferencial com leishmaniose também
assume grande importância, uma vez que as regiões endêmicas para esta
patologia coincidem muitas vezes com as da PCM, sendo que as lesões
orais, cutâneas e de fossas nasais são bastante semelhantes. O
comprometimento do sistema linfático simula doença de Hodgkin e outras
doenças malignas57.
Sorológico
É
evidente o fato de que o diagnóstico de certeza de processos
infecciosos derive da demonstração do agente etiológico em preparados
histológicos, exame a fresco ou cultivo3,57,58.
No entanto, em algumas situações o estado físico ou clínico dos
pacientes impossibilita o acesso ao local da lesão, impedindo assim a
coleta do material biológico59.
Historicamente,
na PCM a pesquisa de anticorpos59-64 e antígenos66-67
específicos no soro de pacientes empregando-se técnicas sorológicas,
além de importante auxílio diagnóstico, tem a função de monitorar o
curso da doença durante e pós-tratamento61,65-68,
permitindo a obtenção de resultados mais rápidos, quando comparados
aos exames de cultura e histopatológico3,57, sendo que em
alguns casos se traduz na primeira indicação da natureza micótica da
doença, principalmente naqueles indivíduos com sinais clínicos
inaparentes3. A técnica utilizada, portanto, há que aliar
sensibilidade à especificidade69,70, para que o valor
preditivo71 seja máximo e reprodutível.
Apesar
de técnicas sorológicas como imunodifusão dupla (ID)59,60,62,68,
imunofluorescência indireta72, contraimunoeletroforese61,64,69,
ELISA73-78,60-62,65-68 e
immunoblotting79-83,60,62,73
serem empregadas para o diagnóstico confirmatório da PCM,
visando à pesquisa de anticorpos e/ou antígenos, os índices de
resultado falso-positivos e falso-negativos ainda são muito elevados,
estando a especificidade e sensibilidade da técnica diretamente
relacionadas ao antígeno empregado62.
Segundo
Fava-Netto84, o primeiro teste amplamente utilizado no
diagnóstico e acompanhamento de pacientes com PCM foi a fixação de
complemento, desenvolvido por Moses85, empregando como
antígeno extrato de P. brasiliensis em salina, obtendo
sensibilidade de 80%. Posteriormente, o emprego de antígeno
polissacarídico de P. brasiliensis elevou a sensibilidade da
técnica para 90%86. Contudo, devido a sua baixa especificidade
e às dificuldades metodológicas envolvidas, como a instabilidade das
hemáceas e do complemento, esta técnica agora é raramente utilizada60..
A ID foi primeiramente utilizada no diagnóstico da PCM por Ferri87
e permanece há 47 anos como método de escolha, empregado
rotineiramente pelos laboratórios clínicos devido ao seu fácil
procedimento, baixo custo operacional, sensibilidade entre 65% a 100%,
especificidade e valor preditivo de 100%. Além disso, esta técnica
consente que os clínicos realizem o acompanhamento sorológico dos
pacientes, verificando a diminuição dos títulos de anticorpos anti-P.
brasiliensis, permitindo também avaliar a eficácia da terapia
antifúngica62.
Na ID, quando se utiliza como antígeno filtrado de cultura obtido a
partir de leveduras de P. brasiliensis frente a soros de
pacientes com suspeita clínica de PCM, é possível detectar até três
linhas de precipitação: linha 1 (perto do orifício do antígeno),
linha 2 (posição intermediária) e linha 3 (perto do orifício do
soro). A linha 1 é detectada em aproximadamente 95% a 98% dos soros de
pacientes portadores de doença ativa, sendo a última a desaparecer
após a instauração da terapia antifúngica88. A linha 2
tem sido identificada em 60% a 65% dos casos, sendo a segunda a
desaparecer após o início do tratamento específico, enquanto a
terceira linha tem sido observada em apenas 30% a 35% dos casos, sendo a
primeira a desaparecer. O número de bandas observadas no ensaio de ID
está intimamente relacionado à severidade da doença60,69.
Segundo Siqueira69, os resultados da ID podem variar devido a
diferentes parâmetros, entre os quais a preparação antigênica
utilizada, a forma da doença e o início do tratamento.
O teste de ELISA tem sido utilizado para a detecção de anticorpos em
quase todas as micoses sistêmicas, senão em todas. Apesar disso, em
relação ao imunodiagnóstico da paracoccidioidomicose a técnica ainda
oferece grandes porcentagens de reatividade cruzada, principalmente
frente a soros de pacientes com histoplasmose, candidíase, doença de
Jorge Lobo e, recentemente, frente a soros de pessoas aparentemente
sadias, residentes em áreas endêmicas para PCM60,62,78.
O teste de ELISA para o sorodiagnóstico da PCM foi utilizado
primeiramente por Arango89 e depois, simultaneamente, por
Camargo e cols.74 e Mendes-Giannini e cols.90, que
comprovaram a existência de reatividade cruzada frente a soros
heterólogos. Entretanto, os autores demonstraram que a absorção dos
soros de pacientes com PCM com células de Candida albicans ou Histoplasma
capsulatum tornava a reação mais específica62.
Del Negro e cols.68 avaliaram pelo método clássico de ELISA
o perfil de reatividade de 43 amostras de soro de pacientes com doença
ativa, verificando que soros de pacientes com a forma crônica unifocal
apresentaram baixa densidade óptica, com três pacientes apresentando
valores próximos ao cut
off,
observando ainda a existência de reatividade cruzada frente a soros de
pacientes com doença de Jorge Lobo e histoplasmose.
Visando minimizar os altos índices de reatividade cruzada e,
conseqüentemente, otimizar
a especificidade da técnica de ELISA para o diagnóstico da PCM,
Albuquerque e cols.78 empregaram como antígeno a fração de
43 kDa de P. brasiliensis tratada com diferentes concentrações
de metaperiodato de sódio, avaliando-se parâmetros como: a
pré-absorção dos sorotestes com antígenos de C. albicans e/ou
H. capsulatum e a
diluição dos soros de pacientes com PCM com galactose. Entretanto, os
autores obtiveram especificidade máxima de 84%, sugerindo que nenhum
dos procedimentos adotados foi suficiente na eliminação da reatividade
cruzada.
Técnicas imunoenzimáticas do tipo Western-Blot ou immunoblotting (IB) possuem alta sensibilidade e foram empregadas
originalmente para caracterizar a resposta imune humoral aos antígenos
de P. brasiliensis62.
Camargo e cols.79 avaliaram por IB a capacidade
discriminatória de exoantígeno obtido a partir de filtrado de cultura
da amostra B-339 de P. brasiliensis frente a 97 soros de
pacientes com PCM (25 soros de pacientes antes do tratamento
antifúngico e 72 soros de pacientes na vigência de terapia
específica) e a frente a soros heterólogos, bem como de indivíduos
saudáveis residentes em zona endêmica para esta patologia. A análise
dos resultados demonstrou que anticorpos anti-P. brasiliensis da
classe IgG reagiram preferencialmente frente a quatro frações
antigênicas: 70, 52, 43 e 20-21 kDa, sendo observado que a fração de
43 kDa (gp43) foi reconhecida por 100% dos soros de pacientes com PCM e
a de 70 kDa (gp70), por 96%.
Mendes-Giannini e cols.64 detectaram por immunoblotting a presença da gp43 em 28 soros de pacientes com PCM, divididos em três grupos.
Grupo 1, constituído de 12 soros de pacientes portadores da forma
juvenil, avaliados em três diferentes períodos: antes, 10 e 24 meses
pós-tratamento. Grupo 2:
cinco soros de pacientes com a forma crônica, que não se encontravam
na vigência de tratamento. Grupo 3: seis soros de pacientes
considerados clinicamente curados há mais de um ano. Soros de
indivíduos saudáveis foram utilizados como controle da reação. Em
relação aos pacientes com PCM juvenil, verificou-se que 100% das
amostras obtidas antes do início do tratamento reconheceram de forma
específica a gp43 e que a partir do décimo mês de quimioterapia a
detecção da mesma acontecia com menor freqüência, tornando-se
indetectável após 24 meses de tratamento. Observou-se que 100% dos
soros de pacientes com PCM crônica reagiram frente à fração de 43
kDa e que a mesma não foi detectada por soros de pacientes considerados
clinicamente curados.
Blotta e Camargo80 avaliaram por IB 60 soros de pacientes com
PCM, observando que 100% dos soros reconheciam de forma específica a
gp43. Ortiz e cols.81 demonstraram que o antígeno
recombinante de 27 kDa era reconhecido por IB por 91% dos soros com PCM
avaliados, não sendo observada reatividade cruzada frente a soros
heterólogos. Este achado é de considerável interesse, visto que
proteínas recombinantes fornecem uma fonte altamente reprodutível de
antígenos definidos.
Takahachi e cols.82 avaliaram por immunoblotting 78 soros de pacientes com suspeita clínica de PCM,
que apresentaram ausência de reatividade pela ID. Os autores empregaram
como antígeno filtrado de cultura da amostra B-339 de P.
brasiliensis,
observando que das 78 amostras, 51 (65,4%) reagiram de forma específica
frente à gp43.
Segundo
Del Negro e cols.91, são raros os casos de pacientes que
apresentam ausência de reatividade pelas provas de ID e
contraimunoeletroforese. Entretanto, quando isto ocorre e os soros são
avaliados por immunoblotting
os mesmos reagem frente à gp43.
Da Silva e cols.83 avaliaram por immunoblotting 23
soros de pacientes com confirmação clínica e micológica de PCM e com
ausência de anticorpos anti-P. brasiliensis, pela ID, frente a
duas preparações antigênicas distintas, observando que 95,4% dos
soros reconheceram de forma específica a gp43 e 100%, gp70, descritas
como marcadores sorológicos da doença.
Vidal
e cols.92 relatam o caso de um paciente com resposta
sorológica atípica, ou seja, o não reconhecimento por immunoblotting da gp43; reagindo, contudo, frente à fração
antigênica de 70 kDa, descrita na literatura como sendo reconhecida por
aproximadamente 96% dos soros de pacientes com PCM79 .
Os
resultados de Vidal e cols.92 e Da Silva e cols.83
podem ser explicados, talvez, pelos achados de Berzaghi e cols.93,
sendo que a ausência de reatividade à gp43 pelas provas de ID e IB se
deva a não secreção/expressão desta molécula pela amostra
fúngica responsável pela infecção dos pacientes; ou ainda pelos
achados de Campos e cols.94, relacionados à existência de
diferentes isoformas da molécula de 43 kDa.
Chamou
a atenção de Neves e cols.95 o fato de pacientes com PCM
ativa apresentarem ausência de reatividade frente a antígenos de P. brasiliensis pela ID.
Os autores observaram que estes pacientes continham baixos níveis de
IgG e IgG1 específicas, quando comparados aos elevados níveis de IgG2
de pacientes com ID positivas. Os mesmos sugerem que a ausência de
reatividade na ID pode estar relacionada à produção de IgG2 de baixa
afinidade direcionada a epítopos glicídicos.
Molecular
Bialek
e cols.8 utilizaram a técnica de Nested PCR para detectar
fragmentos de DNA de P. brasiliensis, empregando uma seqüência do gene da gp43 como alvo. A PCR foi
realizada com DNA obtido de homogenato de pulmão de 23 camundongos
infectados com conídios de P. brasiliensis, DNA de camundongos
não infectados e de camundongos infectados com H. capsulatum. Os
autores observaram que os 23 homogenatos foram positivos pela técnica
de Nested PCR, sugerindo que, pelo fato de ser uma metodologia sensível
e específica, poderá ser utilizada no diagnóstico da PCM em amostras
de tecido.
Gomes
e cols.96 relataram o emprego da PCR para a detecção de DNA
de P. brasiliensis na saliva de 11 pacientes com a forma crônica
da PCM. Segundo os autores, 100%
das amostras analisadas foram positivas, apresentando uma banda de 0,6 kb.
Devido
a sua alta sensibilidade e especificidade, é inevitável que a
identificação molecular de fragmentos de DNA de P. brasiliensis pela PCR, com aplicabilidade diagnóstica, seja
brevemente implantada para o diagnóstico da paracoccidioidomicose.
Antígenos
de P. brasiliensis
P.
brasiliensis
apresenta em sua constituição uma multiplicidade de componentes
antigênicos97, alguns próprios da espécie e outros comuns
aos demais fungos. Segundo Restrepo e cols.98, estes
antígenos podem ser extraídos da parede celular do fungo, do conteúdo
citoplasmático ou, ainda, do filtrado de cultura. Contudo, dados da
literatura demonstram variabilidade na metodologia utilizada pelos
diferentes laboratórios com o objetivo de produzir antígenos de P.
brasiliensis58. Entre estas, pode-se citar: a escolha da
amostra fúngica, tamanho do inóculo, meio de cultura, período, forma
e temperatura de incubação. A grande heterogeneidade destes
parâmetros muitas vezes interfere no produto final e compromete a
especificidade, estabilidade e reprodutibilidade dos antígenos,
características de vital importância no imunodiagnóstico da PCM e de outras micoses99,58,70. A reatividade cruzada,
comumente observada nestes casos, pode ser explicada pela grande
similaridade antigênica entre os fungos dimórificos, particularmente H.
capsulatum e Lacazia
loboi100,101.
Pesquisas visando à obtenção de antígenos de P. brasiliensis vêm sendo realizadas desde o início do século
passado. Na década de 1920, Arêa
Leão102 obteve antígenos com o objetivo de utilizá-los na avaliação da
imunidade humoral de pacientes com PCM. Lacaz103
os obteve com a mesma finalidade; contudo, os antígenos não se
conservaram. Fava Netto86 relatou a obtenção de antígeno
polissacarídico, empregando-o em ensaios de fixação de complemento e
precipitação em tubos. Este mesmo antígeno foi utilizado para ensaios
de intradermorreação, objetivando analisar a hipersensibilidade do
tipo tardio (HTT).
A partir de 1960, as pesquisas relacionadas à
caracterização de antígenos
de P. brasiliensis
apresentaram aumento significativo. Estudos foram realizados testando-se
diferentes parâmetros, entre os quais podem ser citados: a natureza
química, bem como diferentes concentrações dos nutrientes utilizados
no preparo de meios sintéticos, pH, temperatura, período de
incubação, amostras fúngicas utilizadas, condições de aeração e
processamento do antígeno obtido104-108.
Um
dos mais importantes avanços e contribuições ao estudo e
caracterização de antígenos de P.
brasiliensis foi a identificação e purificação da glicoproteína
de 43 kDa, descrita como antígeno exocelular e imunodominante88.
A gp43, porém, não é totalmente específica, visto que sua fração
glicídica contém epítopos capazes de serem reconhecidos por soro
heterólogo, principalmente os que contêm anticorpos anti-H.
capsulaum100,101.
Dados
da literatura indicam que a preparação antigênica adequada e com
aplicabilidade no sorodiagnóstico deve conter, em sua composição, a
molécula de 43.000 daltons80. Neste sentido, há necessidade
de escolher adequadamente a amostra a ser utilizada para este
propósito, pois, conforme demonstrado por Campos e cols.94,
existem amostras de P.
brasiliensis
que não
expressam gp43.
Berzaghi
e cols.93 relataram que as culturas de P.
brasiliensis
seriam compostas por diferentes clones, e por alguma razão apenas
alguns destes expressariam a molécula de 43 kDa. Para avaliar esta
hipótese, obtiveram clones de três diferentes amostras de P. brasiliensis
(113, B-339 e 18), avaliando-os quanto à capacidade de expressar gp43.
Os autores verificaram por immunoblotting
que os exoantígenos produzidos a partir de clones das amostras 113 e
339 apresentavam gp43 e que dos 26 clones obtidos da amostra 18, quatro
não secretavam esta molécula. Avaliando os clones não secretores de
gp43 verificaram que após dez subcultivos, estes clones voltaram a
expressar, de maneira extremamente variável, a glicoproteína de 43 kDa.
Segundo os autores, este fenômeno pode ser possivelmente explicado por
algum problema molecular no mecanismo de expressão da molécula de 43
kDa.
Considerações
finais
Mesmo após ter sido descrita há 100 anos, e apesar
dos expressivos avanços que permitiram a melhor compreensão da
epidemiologia, patogênese, diagnóstico clínico e laboratorial, a
paracoccidioidomicose ainda apresenta no Brasil alta prevalência, altas
taxas de mortalidade e letalidade, podendo ser considerada uma doença
negligenciada.
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