|
Introdução
A descoberta de que o AZT oferece proteção após exposição ocupacional ao
HIV fez com os serviços se organizassem e que programas fossem criados, com o
intuito de reduzir o risco de aquisição de HIV após exposição a fluidos
biológicos contaminados. Entretanto, as primeiras recomendações em relação
à dispensação de anti-retrovirais (ARV) para profissionais da área da saúde
(PAS), com acidentes com fonte desconhecida ou com sorologia ignorada, não
estabeleciam claramente as circunstâncias nas quais as medicações deveriam
ser prescritas. Em julho de 2001, o CDC (Centers for Disease Control and
Prevention), de Atlanta (EUA), publicou novas recomendações em relação a
condutas frente a acidentes ocupacionais com exposição a fluidos biológicos.
Em dezembro de 2001, as novas “Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em
Adultos e Adolescentes Infectados pelo HIV – 2001”, do Ministério da Saúde
(MS), incluíram uma revisão das recomendações previamente existentes e
tornou explícito que a maioria dos acidentes envolvendo fonte desconhecida ou
com sorologia ignorada não deveria ser medicada com anti-retrovirais.
Justificativa e objetivos
Este estudo objetiva medir o impacto das novas recomendações do MS na
recomendação do uso de anti-retrovirais em um serviço de referência para o
atendimento de acidentes ocupacionais com exposição a fluidos biológicos,
especialmente aqueles com fonte desconhecida ou com sorologia anti-HIV ignorada.
Material e métodos
Foram avaliados os prontuários de todos os pacientes atendidos no serviço em
dois períodos distintos, o primeiro semestre de 2001 (antes das novas recomendações
do CDC e do MS) e o primeiro semestre do ano seguinte (logo após a publicação
das novas recomendações do MS). Os seguintes dados foram coletados dos
pacientes: sexo, idade, função do funcionário, tipo de acidente, material
envolvido no acidente, categoria de exposição (CDC, 1998), categoria de status
da fonte em relação ao HIV, recomendação de ARV e tipo de ARV recomendado.
Resultados e conclusões
Foram incluídos 80 pacientes em 2001 e 91, em 2002. Os pacientes não diferiram
nos dois períodos do estudo em relação ao sexo (feminino em 75% em 2001 e 86%
em 2002), tipo de acidente (pérfuro-cortantes em 88% e 91%, respectivamente),
material envolvido no acidente (sangue em 78% e 63%, respectivamente), categoria
de exposição (categoria 1, isto é, acidente leve atingindo mucosa ou pele-não-íntegra,
em 9% e 14%, em 2001 e 2002) e a função (enfermagem envolvida em 65% e 57% dos
acidentes, respectivamente). A recomendação de ARV ocorreu em 69% de todos os
acidentes de 2001 e em 12% dos acidentes de 2002 (OR=0,05; IC 95% 0,02-O, 12;
p<0,0001). Quando analisamos separadamente os acidentes ocorridos com fonte
desconhecida ou com sorologia desconhecida, 40 de 46 acidentes (87%) receberam
ARV em 2001 e 3 de 74 acidentes (4%) foram medicados em 2002 (OR=164,44;
IC95% 33,92-952; p<0,0001).
Dessa forma, concluímos que o seguimento às recomendações atuais do MS
reduziu significantemente a dispensação de anti-retrovirais para os
acidentados em nosso serviço, especialmente entre pacientes com fonte
desconhecida ou com sorologia anti-HIV ignorada. Novos estudos deverão ser
conduzidos para que verifiquemos o impacto destas medidas sobre a chance
de abandono do seguimento do acidente e sobre a recuperação das sorologias do
paciente-fonte.
Notificações
de acidentes ocupacionais com exposição a fluidos biológicos no Estado de São
Paulo – 1999 a 2003
Entre janeiro de 1999 e outubro de 2003, foram
notificados 5.735 acidentes no Sinabio. Destes, 344 foram excluídos por
representarem duplicidade de notificação ou por não se incluírem na definição
de caso de acidente ocupacional com exposição a material biológico.
Dados gerais
Foram recebidas notificações de 138 diferentes municípios. A Capital paulista
foi responsável por cerca de 30% de todas as notificações recebidas
(tabela1).
Tabela 1 - Acidentes ocupacionais notificados, segundo municípios com maiores números
de notificações – Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
| Município
|
Nº
|
%
|
| Araçatuba
|
200
|
3,7
|
| Araraquara
|
161
|
3,0
|
| Diadema
|
177
|
3,3
|
| Marília
|
568
|
10,5
|
| Piracicaba
|
182
|
3,4
|
| São Bernardo do Campo
|
305
|
5,7
|
| São Carlos
|
161
|
3,0
|
| São João da Boa Vista
|
204
|
3,8
|
| São Paulo
|
1.638
|
30,4
|
| Taubaté
|
256
|
4,7
|
| Demais municípios
|
1.539
|
28,5
|
| Total
|
5.391
|
100,0
|
Fonte: Sinabio –
Divisão de Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
Entre os
acidentes notificados, 219 (4,1%) ocorreram em 1999, 1.695 (31,4%) em 2000,
1.670 (31%) em 2001, 1.209 (22,4%) em 2002 e 598 (11,1%) em 2003, dados
parciais. Dentre os 5.391 acidentes analisados, 4.357 (80,8%) ocorreram em
profissionais do sexo feminino. Observa-se na tabela 2 que a maioria dos
acidentes notificados ocorreu em profissionais entre 20 anos e 39 anos de idade.
Tabela 2 –
Acidentes ocupacionais notificados por faixa etária –
Estado de São
Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
|
Faixa etária
|
N°
|
%
|
|
< 20 anos
|
113
|
2,7
|
|
20-29 anos
|
1.969
|
36,5
|
|
30-39 anos
|
1.631
|
30,3
|
|
40-49 anos
|
1.171
|
21,7
|
|
50-59 anos
|
420
|
7,8
|
|
> 60 anos
|
53
|
0,9
|
|
Ignorado
|
34
|
0,1
|
|
Total
|
5.391
|
100,0
|
Fonte: Sinabio –
Divisão de Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
Mais da
metade dos acidentes notificados ocorreu entre auxiliares de enfermagem e os
funcionários da limpeza constituíram a segunda categoria mais freqüentemente
exposta (tabela 3).
Tabela 3 -
Acidentes ocupacionais notificados, segundo categoria profissional – Estado de
São Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
|
Categoria profissional
|
N°
|
%
|
|
Atendente
|
57
|
1,1
|
|
Auxiliar de enfermagem
|
2.754
|
51,1
|
|
Dentista
|
153
|
2,8
|
|
Enfermeiro
|
186
|
3,5
|
|
Estudantes
|
434
|
8,1
|
|
Laboratório
|
120
|
2,2
|
|
Auxiliar de limpeza
|
479
|
8,9
|
|
Médico
|
369
|
6,8
|
|
Técnico de enfermagem
|
266
|
4,9
|
|
Outros
|
499
|
9,3
|
|
Ignorado
|
74
|
1,4
|
|
Total
|
5.391
|
100,0
|
Fonte: Sinabio –
Divisão de Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
A maior parte
dos acidentes notificados foi percutâneo (gráfico 1) e o material biológico
envolvido, na maior parte das exposições, foi sangue (76,5%).
Gráfico
1 - Acidentes ocupacionais notificados por tipo de exposição — Estado de
São
Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
Fonte: Sinabio – Divisão de
Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
Nota-se no gráfico
2 que a grande maioria dos acidentes pérfuro-cortantes notificados foi causada
por agulhas ocas.
Gráfico
2 - Acidentes ocupacionais do tipo pérfuro-cortante, segundo agente causador da
lesão — Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
Fonte: Sinabio – Divisão de Vigilância Epidemiológica
– PE DST/Aids – SES/SP
Na análise
das circunstâncias relacionadas à ocorrência de acidentes, observa-se que a
administração de medicações foi a situação mais freqüentemente notificada
(gráfico 3). Esta análise, entretanto, fica prejudicada devido ao fato de este
dado não estar disponível em cerca de 50% das notificações.
Gráfico
3 – Acidentes ocupacionais notificados, de acordo com a circunstância do
acidente — Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
Fonte: Sinabio – Divisão de Vigilância Epidemiológica
– PE DST/ Aids – SES/SP
Em relação
ao uso de equipamentos de proteção individual (EPI), de acordo com alguns
tipos de acidentes, verificou-se que entre 374 indivíduos que se acidentaram
durante coleta de sangue, somente 236 (63%) usavam luvas; da mesma forma, entre
287 acidentados durante a administração de medicação EV, 166 (58%) referiram
uso de luvas; dentre 149 acidentes ocorridos por punção venosa ou arterial não
especificada, somente 63 (42%) usavam luvas.
Na avaliação
dos acidentes ocorridos durante procedimentos cirúrgicos (354), observou-se que
o uso de óculos foi referido em 59 ocasiões (16%). Somente em 4 (7%) dos
59 acidentes ocorridos com exposição de mucosa ocular o funcionário fazia uso
de óculos. Tais dados refletem a necessidade de treinamentos nos serviços
visando o uso de EPIs quando necessário.
O funcionário e o
paciente-fonte
O
paciente-fonte foi conhecido em 3.225 acidentes (60%). Destes, 2.732 (85%)
tiveram o resultado da sua sorologia anti-HIV conhecida; o HbsAg foi conhecido
em 1.686 (52%) acidentes; a sorologia para hepatite C foi registrada em 1.684
(52%) acidentes (gráfico 4). Cerca de 13% dos pacientes com sorologia para HIV
conhecida resultaram positivo para este vírus. O fato não reflete a prevalência
do HIV na população geral, mas uma maior preocupação do PAS em procurar
atendimento quando o acidente envolve uma fonte com HIV ou Aids. Chama a atenção
o fato de cerca de 48% dos registros de fontes conhecidas terem permanecido com
sorologia ignorada para hepatites B e/ou C.
Gráfico 4 – Acidentes
ocupacionais de pacientes-fonte conhecidos, segundo resultados de sorologia para
HIV e hepatites B e C dos mesmos — Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a
outubro de 2003
Fonte:
Sinabio – Divisão de Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
No gráfico
5 observa-se os resultados das sorologias dos funcionários acidentados. É
importante salientar que 62% dos funcionários testados para anti-HBs tiveram
resultado positivo. O anti-HBs é o marcador de proteção para hepatite B e
pode ser adquirido por vacinação ou infecção natural (com cura) pelo HBV. Não
foi obtido resultado de sorologia anti-HIV em 36% dos funcionários acidentados;
em relação ao HbsAg, a falha na informação ocorreu para 43% das ocasiões e
para o HCV a falha foi de 41%. Vinte e sete funcionários apresentavam
sorologia positiva para HIV no momento do acidente; 41 funcionários eram
portadores do HbsAg; e 59 resultaram positivos para hepatite C no
início do seguimento.
Gráfico 5 –
Acidentes ocupacionais notificados, de acordo com resultados de sorologias
para HIV e hepatites — Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro
de 2003
Fonte: Sinabio – Divisão de
Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
Conduta após o acidente
Do total de
4.917 acidentes para os quais se conhece a informação de vacinação prévia
contra hepatite B, 3.606 (73%) ocorreram em profissionais que referiram vacinação
adequada (gráfico 6).
Gráfico 6 – Acidentes
ocupacionais notificados, de acordo com vacinação prévia do profissional
acidentado contra hepatite B — Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro
de 2003
Fonte: Sinabio -Divisão de
Vigilância Epidemiológica - PE DST/Aids - SES/SP
Apesar dos
percentuais dos dados "vacinação completa" e "sorologia
Anti-HBs positiva" serem próximos (67% e 62%, respectivamente), tal
informação deve ser vista com cautela. Quando avaliadas as informações
conjuntamente, verifica-se que entre os 1.732 funcionários que referem ter
tomado pelo menos três doses de vacina contra hepatite B e dos quais se dispõe
de resultados de sorologia, 1.230 (71%) apresentaram anti-HBs reagente e 502
(29%) anti-HBs não-reagente. Como a eficácia da vacina contra hepatite B é
superior a 90%, algumas hipóteses devem ser elaboradas para explicar tal
diferença entre os resultados esperados e os encontrados:
1.
A informação do número de doses de hepatite B recebidas é verbal e a
apresentação da carteira vacinal é habitualmente dispensada. Portanto, a
qualidade deste dado pode estar prejudicada.
2. Pode estar havendo pouca clareza na interpretação dos exames, com conseqüente
erro no preenchimento desta variável no Sinabio.
3. A vacinação pode ter sido feita há muitos anos, podendo ter ocorrido redução
nos títulos de anti-Hbs.
Entre 2.431
funcionários que referiram ter sido vacinados com pelo menos três doses contra hepatite B, 159 (6,5%) foram encaminhados à vacinação novamente
logo após o acidente. Não se sabe se tais funcionários foram encaminhados de
forma inadequada, se não apresentaram resposta vacinal ao primeiro esquema
vacinal ou se o preenchimento do dado foi feito de forma errônea.
Entre 2.404
funcionários que referiram vacinação completa contra hepatite B, somente 32
(1,3%) receberam imunoglobulina específica contra hepatite B (HBIg) após o
acidente. Em contraste, entre 846 funcionários que referiram não ter recebido
vacinação completa contra aquele vírus, 103 (12,2%) receberam HBIg (p<0,001; OR= 0,1 (IC 95%: 0,06- 0,15).
Os dados
referentes à administração de anti-retrovirais pós-exposição ocupacional são
conhecidos em 4.146 acidentes. Em relação à conduta específica de profilaxia
com anti-retrovirais, 1.814 (43,8%) funcionários não receberam
anti-retrovirais após o acidente. Dentre os 2.332 funcionários que receberam
medicação, 1.604 (68,8%) foram medicados com AZT+3TC; 641 (27,4%) receberam
AZT+3TC+Indinavir; 74 (3,2%) receberam AZT+3TC+Nelfinavir; 13 (0,6%) funcionários
foram medicados com esquemas diferentes dos acima descritos (tabela 4).
Tabela 4 – Acidentes
ocupacionais, segundo indicação de profilaxia anti-retroviral pós-exposição
— Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
|
Anti-retrovirais
|
N°
|
%
|
|
Nenhum ARV
|
1.814
|
43,8
|
|
AZT + 3TC
|
1.604
|
38,7
|
|
AZT + 3TC + IDV
|
641
|
15,5
|
|
AZT + 3TC + NFV
|
74
|
1,8
|
|
Outros esquemas
|
13
|
0,3
|
|
Total
|
4.146
|
100,0
|
Fonte: Sinabio – Divisão de
Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
Entre os
2.332 acidentes nos quais os funcionários receberam medicamentos, foram informados
dados do tempo de tomada de medicações para 1.145 acidentes. Destes, 492
tomaram anti-retrovirais entre 1 e 7 dias e 534 entre 22 e 30 dias (gráfico
7).
Gráfico 7 – Acidentes
ocupacionais, segundo tempo de utilização de profilaxia anti-retroviral pós-exposição
— Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
Fonte: Sinabio – Divisão de
Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
Observa-se,
na tabela 5, os dados referentes à evolução dos casos. Chama a atenção o
grande número de casos em seguimento, que, na verdade, devem ser
reclassificados posteriormente, visto que "em seguimento" é uma condição
temporária. Entre os casos com seguimento conhecido até a alta definitiva do
sistema, aproximadamente 15% abandonaram o seguimento e 44% obtiveram alta
porque a fonte do seu acidente era negativa para as sorologias testadas.
Tabela 5 –
Acidentes ocupacionais, segundo conclusão dos casos — Estado de São Paulo,
janeiro de 1999 a outubro de 2003
|
Evolução
|
Número
|
%
|
|
Alta sem conversão sorológica
|
752
|
23,8
|
|
Alta com conversão sorológica
|
-
|
-
|
|
Alta por fonte negativa
|
833
|
26,3
|
|
Em seguimento
|
1.259
|
39,8
|
|
Transferência
|
28
|
0,9
|
|
Abandono
|
290
|
9,2
|
|
Óbito
|
1
|
0,0
|
|
Total
|
3.163
|
100,0
|
Fonte: Sinabio –
Divisão de Vigilância Epidemiológica – PE DST/ Aids – SES/SP
Na análise
dos dados de acidentes em seguimento, de acordo com o ano de sua ocorrência,
constata-se que 5,4% dos acidentes ocorridos em 1999, 15,8% dos ocorridos em
2000 e 33,5% dos ocorridos em 2001 permanecem com a conclusão em
seguimento, o que demonstra a necessidade de se reavaliar os casos para
alta definitiva do sistema.
Além disso,
entre os casos que receberam alta por paciente-fonte negativo, muitas vezes não
há informações que permitam avaliar tais altas como adequadas (tabela 11).
Globalmente, os dados disponíveis permitem inferir que as altas por
pacientes-fonte negativos foram inadequadas em pelo menos 20% das ocasiões.
Tabela 11 –
Resultados de sorologias do paciente-fonte para HIV, hepatite B e hepatite C de
acidentes ocupacionais com evolução “alta por paciente-fonte negativo”
— Estado de São Paulo, janeiro de 1999 a outubro de 2003
|
Exame
|
Resultado
negativo
|
Resultado
positivo
|
Resultado
ignorado
|
|
Anti- HIV
|
784
|
0
|
49
|
|
HbsAg
|
662
|
12
|
159
|
|
Anti-HCV
|
667
|
10
|
156
|
Fonte: Sinabio –
Divisão de Vigilância Epidemiológica – PE DST/Aids – SES/SP
Não foram
relatadas conversões aos vírus das hepatites B e C ou ao HIV até o presente
momento.
Ainda há um
longo caminho a ser percorrido em relação à notificação e a ações de
prevenção de acidentes ocupacionais com exposição a fluidos biológicos. É
necessário que se aumente o número de notificações em todos os níveis,
tanto do ponto de vista do indivíduo como no nível institucional e municipal.
A notificação gera mais conhecimentos e orienta as medidas de controle e
prevenção de modo mais acertado.
O uso de EPI
adequado às tarefas realizadas deve ser alvo de treinamentos e observações.
Nossos dados sugerem que existe uma grande falha no uso de luvas e óculos em
situações em que estes seriam recomendados.
A realização
de sorologias entre os pacientes-fonte deve ser estimulada e ressaltada a
necessidade de serem testados os três vírus mais importantes no contexto dos
acidentes biológicos (HIV, HBV e HCV). Além disso, o funcionário só poderá
receber alta por “paciente-fonte negativo” se for testado para os três
vírus e os resultados das sorologias forem negativos (ou, se o paciente-fonte
for positivo para hepatite B e o funcionário tiver marcador de proteção para
a hepatite B – anti-HBs positivo).
A vacinação para hepatite B precisa ser estimulada entre os PAS e estudantes
da área da saúde. É importante lembrar que os funcionários da limpeza também
são profissionais sob risco de aquisição de patógenos veiculados pelo sangue
e devem ser adequadamente imunizados contra o vírus.
O encerramento do caso é fundamental. Através dele, verifica-se possíveis
conversões e tendências em relação a abandonos de seguimento e definição
de seus fatores de risco. Além disso, no fechamento dos casos, habitualmente os
dados são revistos e a ficha tem o seu preenchimento completado. Sugere-se que
os casos que permanecem em seguimento por um período igual ou superior a
um ano sejam reavaliados pelos serviços de atendimento e recebam alta tipo
abandono.
Lembretes
Avaliação do acidente
O acidente deve ser avaliado
pela equipe responsável o mais precocemente possível, para medidas e condutas
para acompanhamento do funcionário.
Preenchimento da ficha de
notificação
Na elaboração
desse boletim, encontramos um grande número de ignorados ou campo não
preenchido (em branco) nos seguintes itens:
Item 1 – Identificação: é
fundamental preencher o campo cargo / função e setor onde ocorreu o acidente
para que possamos analisar qual categoria e setor em que ocorrem mais acidentes,
visando adoção de medidas de prevenção de acidentes.
Item 2 – Circunstância da
exposição: este item foi modificado e passou a abranger novas circunstâncias
que faziam parte das listadas no campo qual.
Item 5 – Uso de EPI: neste
item é importante saber se o equipamento de proteção individual está sendo
usado. O dado será sempre cruzado com o dado de circunstância do acidente para
definirmos se o uso dos EPI se faz adequadamente.
Item 11 – Acompanhamento sorológico
do funcionário acidentado: este campo não vem sendo preenchido, mas é de
grande importância na avaliação da consistência dos dados do banco. Poderá
ser completado quando da saída do funcionário do seguimento (alta).
Item 13 – Evolução do
caso:
é um campo existente a partir da segunda versão da ficha, que nos dá a informação
evolutiva de cada caso.
O correto preenchimento da ficha de notificação nos dará subsídios para o
controle e prevenção dos acidentes ocupacionais com material biológico. Para
isso existem alguns critérios a serem seguidos :
Definição de
caso de acidente ocupacional com fluido biológico
- Exposição a fluidos de risco, a saber: sangue, fluidos com sangue; líquor, líquidos
pleural, amniótico, pericárdico, ascítico, articular e secreções sexuais;
- Situações de atendimento à saúde (profissionais da área da saúde e não
profissionais da saúde com exposição a fluidos de risco em situações de
atendimento à saúde, tais como bombeiros, policiais, profissionais de limpeza
em serviços de saúde, cuidadores domiciliares, indivíduos em situação de
atendimento de saúde eventual).
Lágrima,
suor, fezes, urina e saliva são líquidos biológicos sem risco de transmissão
ocupacional do HIV. Portanto, fica a critério de cada serviço a forma de
registro destes acidentes. Vale lembrar que acidentes envolvendo estes fluidos não
devem ser notificados no Sinabio.
Autoras: Ramalho,
M.; Monteiro, A. L C; e Santos, N. J S, Centro de Referência e Treinamento
DST/Aids – São Paulo, SP
|