Passada a campanha de vacinação contra a influenza de 2000, que apresentou uma
cobertura vacinal inferior à de 1999, surgiu a preocupação de entender as razões
para a aceitação ou recusa da vacina por parte da população-alvo, pessoas
com 65 anos ou mais. Em 2002, houve a oportunidade de realizar uma pesquisa
semelhante - motivos para a aceitação ou recusa da vacinação de 2002 e
intenção para 2003, uma vez que a primeira pesquisa, realizada quase um ano
após a campanha (entre 15 e 20 de fevereiro de 2001), levantou questões sobre
se o intervalo de tempo decorrido entre a campanha e a pesquisa poderia ter
interferido na precisão das informações obtidas.
Em 2004,
conhecendo melhor a opinião da população-alvo e percebendo um baixo grau de
participação dos médicos em recomendar a vacinação para os seus pacientes e
um número significativo de entrevistados indecisos (na pesquisa de 2002), que
afirmaram que se vacinariam casos houvesse recomendação específica do seu médico,
buscou-se entender melhor a opinião desses quanto à vacinação contra a influenza.
Foram, portanto,
três pesquisas de opinião, conduzidas pela Divisão de Imunização do CVE em
conjunto com o Fomento de Educação Sanitária e Imunização em Massa contra
Doenças Transmissíveis (Fesima), órgãos da Secretaria de Estado da Saúde de
São Paulo, executadas pelo Instituto Datafolha e apoiadas pela Aventis Pasteur.
As pesquisas de 2001
e 2002
As duas
primeiras pesquisas foram semelhantes e tiveram os mesmos objetivos: conhecer o
perfil do idoso que aderiu ou não à campanha anterior; investigar os motivos
de adesão ou não à campanha anterior; e verificar a intenção de adesão à
campanha subseqüente.
Da mesma
maneira, a metodologia empregada foi semelhante. Ambas foram quantitativas com
abordagem pessoal, no domicílio do idoso, mediante aplicação de um questionário
estruturado. A técnica de amostragem foi probabilística, (probabilidade por área).
Os municípios foram divididos em clusters (conjunto de nove quarteirões) e em
cada cluster foram realizadas três entrevistas. O universo consistiu-se de pessoas
com 61 anos ou mais na primeira entrevista, uma vez que foi realizada quase um
ano após a campanha, e com 60 anos ou mais, na segunda.
A abrangência
da pesquisa foi o Estado de São Paulo, ainda que na segunda pesquisa tenham
sido conduzidos inquéritos em outros Estados. Mas essa parte da pesquisa não
integrou o conjunto conduzido pela Secretaria.
A amostra final foi de 603 entrevistas na pesquisa de 2000, das quais 292 na
Grande São Paulo e 311, no Interior; e 608 entrevistas, distribuídas
geograficamente de forma representativa no Estado, na pesquisa 2002.
Resultados
As duas
pesquisas apresentaram resultados semelhantes, mostrando que o tempo decorrido
entre a campanha e a realização da primeira pesquisa não influenciou a
qualidade das respostas. A quantidade de informações foi muito grande, mas
alguns aspectos merecem destaque.
A margem de erro
máxima para o total da amostra foi de cinco pontos percentuais para mais ou
para menos, dentro de um nível de confiança de 95%. De 884 médicos
contatados, 446 (50%) responderam e 438 (50%) não responderam. Desses últimos,
153 (35%, 17,3% do total) justificaram a recusa alegando que o assunto
“vacina” não era de sua pertinência.

Divulgação: Aventis e Instituto Datafolha

A porcentagem de
pessoas que afirmaram ter sido vacinadas na campanha precedente, assim como os
que afirmaram ter intenção de se vacinar na próxima campanha, foi muito próxima
à efetiva cobertura vacinal verificada nas campanhas de 2000, 2001 e 2002, o
que aponta para a confiabilidade das demais informações.
Ao contrário do
que se temia, o interesse em se vacinar foi grande: cerca de 95% dos
entrevistados entendiam que o governo deveria continuar a fazer as campanhas. A
maioria acabou não se vacinando por medo de eventuais reações. A ocorrência
de reações, no entanto, foi extremamente baixa, muito próxima à relatada
pela literatura médica: 90% dos entrevistados não referiram qualquer reação;
dos 10% que relataram alguma reação, apenas 2% relataram febre e 3% dor no
corpo, mostrando efetivamente que a vacina da gripe é muito bem tolerada,
conforme afirma a literatura. Cerca de 92% dos entrevistados, em ambas as
campanhas, têm uma visão positiva em relação à vacina.

Os entrevistados
que aderiram às campanhas o fizeram, em grande parte, por iniciativa própria
ou por insistência dos familiares; apenas 10% dos entrevistados se vacinaram
por recomendação médica. Ainda que uma porcentagem elevada dos entrevistados
afirme ir com freqüência ao médico (mais de 60%), o papel destes
profissionais em
recomendar a vacinação foi pequeno.
Cerca de 45% dos entrevistados relataram
que o médico não tocou no assunto vacina, enquanto pouco mais de 10% disseram
ter recebido recomendação médica para se vacinar e 2% relataram que o médico
contra-indicou a vacinação contra a influenza. Contrastando com a pequena
participação dos médicos, 32% dos entrevistados em 2002, que ainda estavam
indecisos quanto à vacinação na campanha seguinte (2003), afirmaram que se
vacinariam se houvesse recomendação específica do seu médico.
Esse pouco
entusiasmo dos médicos em relação à vacinação motivou a pesquisa de 2004,
em que se buscou conhecer a opinião dos médicos em relação à vacina contra
a gripe.


A pesquisa 2004
A terceira
pesquisa foi realizada com médicos do Estado de São Paulo. Tratou-se de uma
pesquisa quantitativa, com abordagem telefônica dos entrevistados, a partir de
uma listagem de médicos que atendem planos de saúde, construída
pelo Instituto Datafolha. Para esse estudo, a amostragem estabeleceu cotas por
especialidade, com base na pesquisa de 2002 com a população idosa sobre vacinação
contra a gripe. As entrevistas, realizadas mediante aplicação de questionário
estruturado, se limitaram às especialidades médicas que surgiram nas pesquisas
anteriores como as mais procuradas pelos pacientes com mais de 60 anos
(cardiologia, clínica geral, ortopedia, ginecologia, geriatria, endocrinologia,
urologia, pneumologia e infectologia).
O universo consistituiu-se dos médicos que atendem idosos1
em serviços públicos, convênios médicos ou mediante pagamento direto. A
amostra total foi de 446 entrevistas, com verificação em 30% do material de
cada entrevistador. As entrevistas tiveram início no dia 9 de fevereiro de
2004. De 884 médicos contatados, 446 (50%) responderam ao questionário, 438
(50%) não responderam e, desses, 153 (35%, 17,3% do total) justificaram a não
resposta alegando que vacina não era um problema seu.
A maioria (88%)
dos médicos, no entanto, entende que a gripe é uma doença grave com possíveis
complicações sérias para o paciente idoso. E mesmo que uma porção
significativa (79%) dos médicos relatasse uma visão positiva da vacinas,
apenas um terço deles incluía a vacinação como medida preventiva para seus
pacientes, contra dois terços que recomendava não fumar. Ainda que muitos
eventualmente recomendassem a vacinação, poucos efetivamente prescreviam a
vacina.

Discussão e conclusões
A pouca
participação dos médicos no estímulo à vacinação contra a gripe é
preocupante, principalmente quando se percebe que a população de idosos
valoriza sobremaneira as recomendações médicas. O valor da vacinação contra
a influenza é hoje um consenso, não só como fator de redução da morbidade e
mortalidade por infecções respiratórias, mas inclusive por doença
cardiovascular (Nichol & cols2).
Para alcançar
êxito e efetividade, as ações de saúde pública, aí incluídas as
iniciativas de controle de doenças transmissíveis, demandam um
comprometimento de todos os seus agentes, notadamente daqueles que lidam direta
e individualmente com os pacientes. Há necessidade, portanto, de uma intensa e
extensa ação educativa junto aos médicos, no sentido de valorizar seu
papel e, ao mesmo tempo, definir adequadamente o seu nível de
responsabilidade no processo de imunização.


Autores: Moura M., Fesima; Silva L.J, Sucen
1
Obs.: idoso foi definido como qualquer paciente com idade igual ou maior que 60
anos.
2 Nichol, K.L; Nordin, J; Mullooly, J; Lask, R;
Fillbrandt,
K; Iwanw, M – 2003. Influenza Vaccination and Reduction in Hospitalizations
for Cardiac Disease and Stroke among the Elderly. In The New England Journal
Medicine, 2003; 348: 1322-32. Minneapolis, MN.
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