Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272
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Abril, 2004   Ano 1   Número 4                                                                             retorna
Dengue: Velhos e Novos Desafios

Com a ocorrência de epidemias no Rio de Janeiro, Ceará e Alagoas, em 1986 o dengue passou a ser doença de notificação compulsória no Estado de São Paulo. Em 1987, foi confirmada transmissão no distrito rural de Ribeira do Vale, município de Guararapes, com 30 casos confirmados, e em Araçatuba, com 16. Nos anos 1988 e 1989 foram registrados apenas casos importados.

Desde o final de 1990, ocorrem epidemias todos os anos. A incidência tem variado de 0,12 a 137,3 casos por 100.000 habitantes, sendo as maiores incidências constatadas em 2001 e 2002, com 192 e 185 municípios com transmissão, respectivamente, correspondendo a 38% das cidades paulistas com infestação domiciliar por Aedes aegypti

Distribuição de casos confirmados de dengue e municípios com transmissão —
Estado de São Paulo, 1998 a  2004
 

ANO

Nº DE CASOS

INCIDÊNCIA/
100.000 HAB

Nº MUNICÍPIOS /
TRANSMISSÃO

1998

10.630

30,2

102

1999

15.082

42,3

101

2000

3.520

9,4

64

2001

51.472

137,3

192

2002

42.368

111

185

2003*

20.292

51,6

166  

2004*

1.209

3,08

166

*dados provisórios até 19/04/2004

Até 1998, os municípios com transmissão de dengue concentravam-se no interior do Estado, regiões Norte e Centro-Oeste. Desde então, epidemias de dengue começaram ocorrer também na Baixada Santista, Litoral Norte e na região Leste. Em 2002, 70% dos casos ocorreram nos municípios da Baixada Santista, que apresentam condições ambientais propícias para proliferação do Aedes aegypti. Em 2001 teve início a transmissão de dengue nas cidades da Grande São Paulo, onde há um processo de urbanização desorganizado e o abastecimento de água é precário nas regiões periféricas dos municípios, dificultando as ações de controle. Diante desse quadro houve aumento da incidência de dengue no Estado em 2001 e 2002, juntamente com a entrada em circulação dos sorotipos DEN-1, DEN-2 e DEN-3. Havendo, portanto, condições necessárias para ocorrência de dengue hemorrágico.

Em 2004 há uma situação estável em São Paulo, em relação à transmissão da dengue, com uma incidência de 3,08 por 100 mil habitantes. Entretanto, no município de Potim houve uma incidência de 3612,63 por 100 mil habitantes, mostrando que a situação ainda é preocupante, uma vez que a dispersão do vetor está cada vez mais rápida, em municípios vulneráveis à transmissão da doença, com população totalmente susceptível aos três sorotipos.

Incidência de Dengue (por 100 mil/hab.), segundo Regional de Saúde e ano
no Estado de São Paulo


Desde 1996, vem sendo detectada a circulação de vírus dos sorotípos 1 e 2 no Estado de São Paulo. No Brasil, além da ampla circulação desses dois sorotípos, em 2001 houve a introdução do sorotipo 3 no Rio de Janeiro. Em 2002, ocorreu a introdução do sorotipo 3 em território paulista, sendo detectada a circulação deste sorotipo em 20 cidades, o que corresponde a 62,5% dos municípios que realizaram isolamento viral.

Casos hemorrágicos de dengue vêm ocorrendo no Estado desde 1999, quando foi detectado o primeiro caso. Em 2000, 2001, 2002 e 2003 ocorreram, respectivamente, 2, 5, 30 e 22 casos. A letalidade em 2001 foi de 20%, mostrando a detecção apenas de casos de febre hemorrágica de dengue (FHD) graus III e IV e desconhecimento dos profissionais médicos no tratamento da doença.

Com o objetivo de melhorar a detecção de FHD e reduzir a letalidade da doença foram realizadas capacitações em atenção ao paciente com dengue para os médicos das unidades de saúde no período pré-epidêmico. Para tanto, foram selecionados os municípios com maior incidência de dengue e/ou circulação de mais um sorotipo do vírus.  Em 2002 foram treinados 796 profissionais e 2003, 950. Posteriormente, foi realizado acompanhamento da qualidade da notificação, investigação e tratamento dos casos através das FIEs (Ficha de Investigação Epidemiológica).

Em 2002 foram notificados 179 casos de FHD, com 30 casos confirmados, e em 2003, 79 notificados com 22 confirmados, todos por critério laboratorial. Em relação ao estadiamento da doença, observou-se um aumento do percentual de casos leves; foram 6 casos grau I e 12 casos grau II, em 2002, e 5 casos grau I e 14 casos grau II, em 2003, o que corresponde a 60% e 86% dos casos confirmados. A letalidade foi de 20% em 2002, e 4,5% em 2003. Em relação à faixa etária, em 2002 variou de 8 meses a 71 anos, média de 27,7 anos, e de 17 anos a 74 anos em 2003, média de 36,6 anos.

No ano passado, houve a descentralização dos sistemas de informação laboratorial do diagnostico de dengue. Isso permitiu maior agilidade no repasse dos resultados laboratoriais, auxiliando nas ações de vigilância e controle de dengue.

Observa-se, este ano, uma redução de 50% dos casos, apesar das maiores incidências estarem concentradas nos municípios da Grande São Paulo. Os dados mostram a necessidade de manutenção das ações de capacitação nas áreas de atendimento básico ao paciente, vigilância e controle da doença, com o objetivo de impedir a sua endemização e evitar casos de FHD e Síndrome do Choque do Dengue.

Autora: Spinola R., Divisão de Zoonoses, do CVE


Nota do editor:

Dengue ainda é um problema sério. Apesar de uma significativa redução da transmissão em 2004, isso não significa uma redução dos fatores de risco. O Aedes aegypti ainda está disseminado pelo Estado, ganhando novas áreas. A ocorrência de um surto no Vale do Paraíba, no município de Potim, ainda que rapidamente controlado, é um sinal de que as áreas com potencial de transmissão de dengue ainda são numerosas e a doença poderá causar problemas nos anos vindouros, se não forem intensificadas as ações de controle.


Agência Paulista de Controle de Doenças