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Resumo
O botulismo alimentar é uma doença
neuroparalítica grave causada pela ingestão
de neurotoxinas presentes em alimentos contaminados com a bactéria
Clostridium botulinum, freqüentemente
relacionados a conservas caseiras de vegetais, frutas e carnes. Este
trabalho tem por objetivo relatar a investigação epidemiológica de um
caso de botulismo que ocorreu em junho de 2007 no município de São
Vicente (SP), associado à ingestão de alimentos comerciais assados,
sobras doadas por comerciante. Foi identificada toxina botulínica no
soro do paciente. Com base no quadro clínico foi administrado
prontamente o soro antibotulínico ao paciente. Medidas sanitárias e
educacionais foram desencadeadas para a prevenção de novos casos.
Palavras-chave: botulismo; botulismo alimentar; alimento comercial;
segurança de alimentos; vigilância epidemiológica.
Abstract
Foodborne botulism is a severe neuroparalytic disease caused by the
ingestion of food containing preformed Clostridium
botulinun neurotoxin, usually caused by canned vegetables, fruits or
meat, generally in homemade products. We report the findings of the
botulism case investigation that occurred in June 2007, in the city of São
Vicente (SP), associated to
the ingestion of commercial donated roasted foods. Botulinun toxin was
detected in a serum sample from the patient. Based on clinical features
therapeutic antitoxin was promptly administrated to the patient.
Educational and sanitary measures were implemented to prevent new cases.
Key
words: botulism; foodborne
botulism; commercial food; food safety; epidemiologic surveillance.
Introdução
O botulismo é uma doença
neuroparalítica grave, potencialmente letal se não tratada
oportunamente, causada por toxinas produzidas pela bactéria anaeróbica
Clostridium botulinum. A forma alimentar é a mais comum e de
principal importância em saúde pública1,2,3,4,
tradicionalmente relacionada à ingestão de conservas caseiras, de
vegetais e de carnes5. O C.
botulinum é comumente encontrado no solo, em vegetais, em frutas e
em fezes humanas e de animais, podendo produzir toxinas
em alimentos preparados ou conservados de modo inadequado5.
Os esporos de C.
botulinum são inativados por aquecimento em temperatura de 121º C,
sob pressão de 15-20 1b/in², por pelo menos 20 minutos. A produção
da toxina pode ser inibida por refrigeração abaixo de 4º C, pela
acidificação (pH < 4,5) e baixa atividade de água (abaixo de 0,9).
A toxina presente no alimento é sensível ao calor (termolábil) e
destruída em temperatura de 85ºC, por pelo menos cinco minutos6.
A toxina botulínica produz
bloqueio das junções neuromusculares colinérgicas autonômicas e
motoras voluntárias, causando paralisia dos nervos cranianos e
paralisia flácida descendente de músculos, podendo comprometer os músculos
da respiração. O tempo de recuperação da doença, em geral, é
prolongado, podendo levar semanas, meses ou alguns anos. O tratamento
consiste fundamentalmente em cuidados intensivos de suporte ao paciente
para manutenção das condições vitais, ventilação mecânica, quando
necessário, e administração precoce da antitoxina eqüínea para
impedir a progressão do quadro neurológico6.
No Estado de São Paulo, no período
de 1990 a janeiro de 2007, foram registrados 11 casos de botulismo
alimentar, confirmados laboratorialmente: um por conserva caseira de
vegetais e ovos, em 19907; três por palmito industrializado
em conserva (duas das quais eram importadas da Bolívia),
respectivamente, em 1997, 1998 e 19998; um por alimento não
identificado ingerido em bar ou restaurante, em 20019; quatro
causados por conserva industrializada de tofu (queijo de soja) importada
da China, em 200510; um por torta comercial de frango com
requeijão, em 200611; e um, em janeiro de 2007, por torta
comercial de frango com palmito e ervilhas12.
Em 14/6/07 o Serviço de Vigilância
Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde Santos comunicou à Central CVE e à Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e
Alimentar (DDTHA), do Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof.
Alexandre Vranjac” (CVE) – órgão da Coordenadoria de Controle de
Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP)
– um caso fortemente suspeito de botulismo, internado na Santa de Casa
de Santos, notificado pela família do paciente, residente no município
de São Vicente.
O presente trabalho resume os
resultados da investigação realizada pelas equipes de vigilância dos
municípios de São Vicente e Santos, na Baixada Santista, com base nos
relatórios de investigação e nas informações fornecidas pelo
hospital de internação e laudos do Instituto Adolfo Lutz. Divulga,
também, as orientações e providências tomadas, destacando-se que
este caso representa o terceiro registro da doença associada à ingestão
de alimentos assados de origem comercial no Estado.
Métodos
Investigação epidemiológica
A
investigação epidemiológica constou de levantamento dos dados clínicos
do caso e do histórico alimentar detalhado sobre produtos consumidos
durante a semana imediatamente anterior ao início dos sintomas.
Indagou-se, também, a
origem dos alimentos e a existência de outros possíveis comensais que
pudessem ter compartilhado os alimentos suspeitos.
Inspeção sanitária
Os estabelecimentos envolvidos
foram inspecionados pelas vigilâncias sanitárias dos municípios de São
Vicente e Itanhaém, acompanhadas do Grupo de Vigilância Epidemiológica
e do Grupo de Vigilância Sanitária, GVE e GVS XXV – Baixada
Santista, rastreando-se as práticas de preparação dos alimentos,
origem dos ingredientes e armazenamento dos produtos, entre outros
aspectos para determinar possíveis erros que pudessem propiciar a contaminação do
alimento.
Investigação laboratorial
Foram coletadas amostras de soro,
fezes e lavado gástrico do paciente. Não havia sobras do alimento
consumido. O
diagnóstico laboratorial de botulismo em amostras de soro do paciente
foi feito na Seção de Microbiologia Alimentar do Instituto Adolfo Lutz
Central (IAL/CCD/SES-SP), por bioensaio em camundongos13, considerado ferramenta
eficiente na detecção da toxina. Vários outros testes in vitro
foram desenvolvidos, porém nenhum apresentou sensibilidade e
especificidade comparada ao bioensaio. Por
ser paciente menor de 15 anos, foi coletada amostra de fezes para teste
específico previsto no Programa de Vigilância das Paralisias Flácidas
Agudas/Erradicação da Poliomielite.
Resultados
O paciente L.A.N.F., de sexo
masculino, 12 anos de idade, nascimento em 24/1/95, residente no
município de São Vicente, apresentou no dia 11/6/07 queixa de tontura,
dor de estômago, “dor de garganta” e “olhos pesados”, tendo
sido levado a um serviço de emergência da cidade de São Vicente e
diagnosticado como apresentando conjuntivite e garganta inflamada. No
dia 12/6/07 seu quadro piorou, e foi levado à Santa Casa de Santos com
sinais e sintomas compatíveis com botulismo, tais como fala lenta,
ptose palpebral simétrica, visão embaçada, disartria, boca seca,
tontura, fraqueza e prostração, ainda deambulando.
Nos dias 13 e 14 de junho evoluiu
para insuficiência respiratória, sendo transferido para a UTI Pediátrica
com hipótese diagnóstica de paralisia descendente – botulismo. Foi
entubado e ventilado mecanicamente. Permaneceu em quadro estável,
sedado levemente, consciente, contatando por gestos discretos em membros
superiores e inferiores. Recebeu o soro antibotulínico AB no dia
15/6/2007, permanecendo na UTI por 56 dias e na enfermaria por 19, tendo
alta em 27/8/2007.
Como história alimentar,
constatou-se que no dia 09/06/07, à noite, comeu um pedaço de pizza
“portuguesa” e no dia 10/06/07, um pedaço de torta de frango ou de
palmito, ambos doados por uma padaria próxima de sua casa. Segundo
informações da família, toda noite o comerciante, antes de fechar o
estabelecimento, doava as sobras de alimentos preparados para a
comunidade.
Toxina botulínica foi detectada no
soro do paciente, não tendo sido possível a identificação de seu
tipo. Por não haver sobras, não foi feita a analise dos alimentos
suspeitos ingeridos.
Durante a investigação epidemiológica
desse caso foi identificada a ocorrência de óbito,
em 12/6/07, de uma criança de 13 anos, G.A.C., sexo feminino, residente
na mesma rua do paciente de botulismo, que teria ingerido um pedaço de
bolo adquirido na mesma padaria. A criança foi internada em 11/6/07 no
serviço de emergência da cidade de São Vicente com história de náusea,
vômitos, cefaléia, tontura, mialgia, “dor nos olhos”, visão embaçada
e dislalia há um dia, apresentando-se afebril, taquicárdica, com
confusão mental e dispnéica durante a internação. Na avaliação
neurológica não há menção de existência de ptose palpebral ou
outros sinais de comprometimento de pares cranianos.
As hipóteses diagnósticas feitas
foram: meningite, sepsis e pneumonia.
Liquor normal, raio X
de tórax normal. Tomografia de crânio revelou discreto
sangramento ventricular com edema cerebral. Entubada e ventilada evoluiu
para coma e óbito no dia 12/6/07, na parte da manhã. O laudo necroscópico
atesta como causa mortis hérnia de amígdala cerebelar e edema cerebral. Não
havia espécimes clínicos da paciente em quantidade e condição
adequadas para a realização de testes específicos para botulismo.
Exames para meningite e dengue, realizados pelo IAL Central, em vísceras
(em formol) e soro (pequena quantidade) da paciente foram negativos para
essas doenças.
A avaliação do prontuário da
paciente não acrescentou informações que possibilitassem a conclusão
de quadro clínico compatível com botulismo. Não foi possível
estabelecer elo epidemiológico entre os casos pela falta de informações
sobre os ingredientes do bolo consumido ou ingestão dos mesmos
alimentos do caso confirmado de botulismo. Não foram identificados
outros quadros clínicos similares na comunidade que consome os produtos
da mesma padaria.
Inspeções sanitárias no
estabelecimento constataram que os assados eram produzidos por outra
empresa sediada em São Vicente e que o palmito utilizado era de
fornecedor sediado no município de Itanhaém. Auto de infração foi
aplicado à padaria por inadequações à legislação, bem como foram
realizadas
interdição dos produtos e colheita de amostras para análise
de orientação. A empresa fornecedora de palmito foi interditada. A
investigação sanitária não conseguiu identificar os tipos de erros
que poderiam ter contribuído para a contaminação dos alimentos. Nota
técnica e alerta foram divulgados em toda a Baixada Santista.
Discussão
O botulismo é uma doença de baixa incidência no
mundo e no Estado de São Paulo, devido à melhoria de práticas e
processos de fabricação e conservação dos alimentos, que
impedem a sobrevivência e/ou germinação de esporos e a produção de
toxinas no alimento. Entretanto, mesmo em ambientes comerciais, é comum
deixar alimentos, especialmente os assados, em temperatura ambiente, sem
refrigeração ou aquecimento, práticas inadequadas que permitem o
desenvolvimento dos microorganismos e a produção de toxinas.
As falhas no processo de produção comercial de assados com recheios ou
coberturas, principalmente os gordurosos que podem favorecer a
anaerobiose, a manutenção do produto em temperatura ambiente e,
posteriormente, sua ingestão sem reaquecimento são fatores de alto
risco para botulismo.
O botulismo é uma doença de notificação imediata e obrigatória em
todo o território nacional. A notificação de caso suspeito às
autoridades de saúde deve ser rápida, pois, além de permitir a aplicação
do soro botulínico em tempo oportuno, possibilita o desencadeamento de
ações para prevenção de novos casos. No Estado de São Paulo o soro
antibotulínico deve ser solicitado à Central CVE/Centro de Referência
do Botulismo (0800 0555466), que fornece orientações para esta obtenção
a partir da discussão detalhada do caso suspeito. Além disso, informa
sobre os procedimentos para a coleta de amostras destinadas aos exames
laboratoriais específicos, entre outros aspectos para garantir o diagnóstico,
o tratamento, a investigação das causas, medidas de controle e prevenção
de novos de casos.
Conclusões
Em São Paulo este foi o terceiro registro de caso de botulismo associado
a assados (torta ou pizza) produzidos em estabelecimento comercial. Cabe
à Vigilância Sanitária fiscalizar o funcionamento desses
estabelecimentos e orientar os manipuladores de alimentos, de modo a
prevenir falhas que causem danos à saúde da população.
Alertas sobre a doença foram divulgados na Baixada Santista, com vistas a
orientar a população sobre os cuidados com os alimentos, bem como para
conscientizar os médicos sobre a necessidade de se notificar
imediatamente a suspeita de botulismo.
Ações
de educação em saúde para consumidores, manipuladores de alimentos e
proprietários de estabelecimentos comerciais devem ser implementadas
com com o objetivo de alertá-los para os cuidados com a higiene na
preparação, cocção adequada e cuidados rígidos de conservação
para se evitar doenças como botulismo, diarréia e outras intoxicações.
Agradecimentos
A Mauro Rozman e Jorge Antonio Vieira, do
Departamento de Vigilância Epidemiológica de São Vicente; à Maria
Angela Dellagarde Fernandes, da Vigilância Epidemiológica de Santos;
à Denise Torce Barjas e sua equipe de Vigilância Sanitária de São
Vicente; à equipe de Vigilância Sanitária de Itanhaém e a todos
que colaboraram com informações ou participaram desta investigação.
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