Publicação Mensal sobre Agravos à Saúde Pública ISSN 1806-4272

Cláudio Amaral Antonio, Márcia Lavalhegas; Denise Silva Rodrigues, Fernando Fiúza de Melo

Instituto Clemente Ferreira, Coordenadoria de Controle de Doenças,
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – (ICF/CCD/SES-SP)

 

Resumo

O Instituto Clemente Ferreira vem desenvolvendo um projeto de atenção à asma na infância alcançado resultados satisfatórios. O objetivo é desencadear a discussão sobre a asma como um problema de saúde pública. Foram avaliados 15 pacientes menores de 14 anos para verificar a repercussão do programa nos fatores determinantes da qualidade de vida dessas crianças. Foram avaliados o número de internações, a freqüência de broncopneumonias e o número de crises de asma apresentado. Antes da entrada no programa, a média de internações foi de 3,2 episódios/paciente; após o primeiro ano do programa esse valor caiu para zero. A freqüência de broncopneumonias caiu de 1,8 episódios/paciente para 0,06 após, o início do programa. Esses pacientes tinham em média 18,7 episódios de crises de asma, passando apresentar 2,2 episódios. Esses dados demonstram que a introdução de um programa específico para uma patologia crônica que tem tido pouca atenção dentro do universo do Sistema Único de Saúde determina uma melhoria na qualidade de vida dos pacientes, com queda nos índices de morbidade.

Palavras-chave: asma; asma na infância; tratamento intercrise.

Abstract

Instituto Clemente Ferreira has developed a Project designed to offer attention to childhood asthma, reaching satisfactory results. The objective is to start the discussion on asthma as public health problem. In this study, 15 patients under 14 years old were evaluated, in order to verify the repercussion of the program in the factors determining life quality of these children. We evaluated the number of hospital admittances, frequency of bronchopneumonias and the number of asthma crisis they presented. Before enrolling in the program, average hospital admittances was 3,2 episodes per patient; after the first year in the program, registers decreased to zero. Frequency of bronchopneumonias decreased from 1,8 episodes for 0,06 episodes/patient after the start of the program. These patients had an average of 18,7 crisis episodes, decreasing to 2,2 episodes. These data show that the introduction of a specific program to address a chronic pathology that has been receiving little attention in the universe of the Single Health System is crucial to determinate an improvement of life quality of patients and a decrease in the morbidity rates.

Key words: asthma; childhood asthma; treatment between crisis.

Introdução

A asma é a doença crônica mais prevalente na infância, sendo responsável pela maior parte das internações. Na faixa pediátrica a incidência mundial é bastante variável, mas com tendência crescente em todos os países. Na África gira em torno de 4%, ficando no Brasil entre de 19% - 22% e chegando a níveis alarmantes no Reino Unido e Nova Zelândia, com cerca de 36%1.

No município de São Paulo foi a 2º causa de internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2006, perdendo   para pneumonia, que pode ser considerada uma patologia secundária. Até agora o tratamento vem sendo conduzido apenas de modo assistencial, com custos para o Ministério da Saúde, representando o 4º orçamento gasto no Brasil entre os vários programas. No País, nos anos de 2003/2004 ocorreram 327.276 internações por asma, com repercussões e  morbidades nos indicadores de saúde2,3.  Urge que se implemente um programa de tratamento preventivo intercrises, para a melhoria na qualidade de vida dos pacientes e diminuição dos custos de internações e suas complicações.

O Instituto Clemente Ferreira é um centro de referência para tuberculose e doenças respiratórias. Desde 2001 vem desenvolvendo um projeto de atenção à asma na infância, alcançado resultados satisfatórios. O objetivo é desencadear dentro da Secretaria de Estado da Saúde a discussão sobre a asma como um problema de saúde pública; treinar profissionais para atender asma na ponta do sistema; e mostrar como o atendimento preventivo é mais econômico para o SUS que as condutas utilizadas atualmente.

O programa consiste em realizar cursos e treinamentos multiprofissionais, incluindo palestras de atualizações sobre o manejo da asma, além de discussões com familiares e com a comunidade sobre a doença. São realizadas, ainda, interfaces com os hospitais-escola para o atendimento de casos mais graves. Atualmente é priorizada a relação com o município para o intercâmbio com o programa de atenção à asma que foi recentemente implantado, sendo também importante a divulgação e prestação de serviços através das organizações não-governamentais.

Metodologia

Foram avaliados 15 pacientes menores de 14 anos, atendidos no Instituto Clemente Ferreira a partir do ano de 2001, com o objetivo de verificar a repercussão do programa nos fatores determinantes da qualidade de vida dessas crianças. Foram avaliados o número de internações hospitalares num período maior que 12 horas e a freqüência de complicações como broncopneumonias e número apresentado de crises de asma.

Resultados

Nos 12 meses anteriores à entrada no programa, a média de internações foi de 3,2 episódios/paciente, num total de 48 internações. As internações caíram para zero após o primeiro ano do programa, com um sucesso de 100%. Na avaliação de complicações, a freqüência de broncopneumonias caiu de 1,8 episódios/paciente para 0,06, após o início do programa, num total de 27 episódios contra um caso de broncopneumonia nas crianças avaliadas (Figura 1). 

 

Figura 1. Gráfico comparativo entre as internações e episódios de broncopneumonias, antes e depois da inclusão no programa de asma.

Nas crianças avaliadas antes do programa ser iniciado, o número médio de crises era de 18,7 episódios; esses pacientes passaram a apresentar 2,2 episódios, com sucesso de 99,88% (Figura 2).

 Figura 2. Número médio de episódios de crises de asma antes e após a inclusão no programa.

Do grupo de 15 pacientes, em apenas dois o mecanismo da imunidade envolvida não foi pesquisado. O mecanismo dependente de IgE representou 66% dos pacientes, com níveis de 170-2.492 uni/ml.

Em 2004, o custo do SUS por pacientes em atendimentos em nível ambulatorial foi de 182 Reais por dia de tratamento, incluindo material humano, medicamentos e exame radiológico. O custo elevou-se em caso de internação em UTI, passando a 441,27 Reais por dia. Como estas crianças têm em média 12-18,7 recorrências por ano, o custo per capita anual passa a ser de 3.403 Reais por ano.

No Instituto Clemente Ferreira, onde usamos medicamentos de ponta, dentro do arsenal terapêutico para a asma, o custo de medicamentos como o montelucaste-CP, associado a um beta-2 agonista de ação longa e a um corticosteróide inalatório, é de 137,70 Reais por mês; em caso de compras de um volume maior de medicamentos, esse valor poderá chegar a 87 Reais por mês. Considerando os dados do Instituto Clemente Ferreira, para o custo de 137,70 Reais por mês o dispêndio per capita anual será de 1.652,40 Reais por paciente. Usando o valor de 87 Reais por mês, esse custo cai para 1.044 Reais/ano. Portanto, em ambos os casos o gasto será 50% ou mais inferior ao tratamento apenas assistencial, com uma economia que pode chegar a 70%.

O orçamento direcionado pelo SUS para o tratamento da asma em 2004 foi de 327.426 milhões de reais. É o quarto maior orçamento da Saúde, acima da hipertensão arterial e diabetes, que possuem programas próprios. A asma é a maior causa de internações de crianças na cidade de São Paulo, e, se considerarmos a economia mencionada anteriormente, os gastos os gastos podem chegar a valores entre 157.164.480 e 229.198.2002 reais (Figura 3).

Figura 3. Comparação dos custos, em reais, gastos anualmente com o tratamento da asma em programas que valorizam o atendimento preventivo da doença e naqueles apenas assistenciais.

Esses dados demonstram que a introdução de um programa específico para uma patologia crônica, até então desassistida dentro do universo do SUS, determina uma melhoria brutal na qualidade de vida dos pacientes, com queda nos índices de morbidade.

Discussão

Esses e outros estudos apontam para a prioridade que deve ser dada a um programa em nível nacional, que valorize o atendimento preventivo e o tratamento intercrise da asma, a fim de conseguirmos melhoria na qualidade de vida dos pacientes e diminuição da morbidade, com conseqüente redução dos custos de internações e tratamento3,4. Para ser eficaz, o programa deverá atuar em unidades básicas de saúde (nível de atendimento primário) e contar com um sistema de referência e contra-referência de ambulatórios de especialidades (nível secundário) e hospitais-escola (nível terciário), distribuídos em toda Região Metropolitana. Além disso, deverá oferecer  treinamento para a  rede no âmbito do manuseio das medicações, suas indicações e constância na oferta dos medicamentos, como determinantes na estratégia de controle da doença.

Referências bibliográficas

1.        II Consenso Brasileiro de asma. Jornal Brasileiro de Pneumologia 2002; 28 (Supl 1): S6-S51.

2.        Brasil. Ministério da Saúde. Disponível em:
http://portal.saude.gov.br/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=23509

3.        Stein, RT. Asma pediátrica – O impacto das internações hospitalares. Jornal Brasileiro de Pneumologia 2006; 32 : 25-26.

4.        IV Diretrizes Brasileiras para o manejo da asma. Jornal Brasileiro de Pneumologia 2006; 32 (Supl 7): S447-S474.


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Cláudio do Amaral Antonio
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