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Resumo
Com base nos estudos realizados no período de 1993 a 2003, durante a
vigilância ecoepidemiológica de hantavírus em regiões de Mata Atlântica
e do Cerrado do Brasil, relata-se a prevalência e os fatores
relacionados à infecção pelos hantavírus Araraquara
e Juquitiba nas populações
de Bolomys lasiurus e Oligoryzomys nigripes, respectivamente. Foram realizadas capturas
mensais de roedores em diversas localidades do País, nas quais foram
detectados casos humanos de síndrome cardiopulmonar por hantavírus.
Foram coletadas amostras de sangue para sorologia e detecção de
anticorpos específicos para hantavírus e obteve-se de cada roedor
dados referentes à espécie, peso, idade, sexo, condições
reprodutivas e presença de cicatrizes. As variáveis qualitativas
nominais foram organizadas em software de planilha eletrônica e
analisadas pelo teste do qui-quadrado, sendo escolhido como critério o
nível de significância de 5%. Os resultados mostram, pelas altas
prevalências observadas em Bolomys lasiurus e Oligoryzomys
nigripes, que estas espécies atuam como reservatório no Cerrado e
na Mata Atlântica, respectivamente.
Observa-se que a dinâmica ecológica está intimamente relacionada com
a transmissão e manutenção de hantavírus na natureza, ficando claro
que a atividade reprodutiva é o que mais influencia a ocorrência de
roedores soropositivos com cicatrizes, devido às brigas por
acasalamento. A prevalência de hantavírus em roedores mostrou-se
associada a fatores de idade e sexo, sendo mais comum nos adulto e
discretamente mais freqüente nos machos. A sazonalidade da infecção
varia de acordo com a espécie de roedor reservatório, sendo que para o
Bolomys lasiurus o pico da infecção ocorre no inverno e para Oligoryzomys
nigripes, na primavera. Percebeu-se, também, que a prevalência da
infecção por hantavírus entre roedores foi maior no Cerrado que na
Mata Atlântica, e a sazonalidade dessa prevalência determinou picos na
primavera para a Mata Atlântica e no inverno para o Cerrado.
Palavras-chave:
hantavírus; infecções por hantavírus; vírus Juquitiba; vírus Araraquara;
síndrome pulmonar por hantavírus; ecoepidemiologia de hantavírus;
roedores; sigmodontinae; Bolomys
lasiurus; Oligoryzomys
nigripes; Cerrado; Mata Atlântica.
Abstract
On the basis of the studies carried through in the period of 1993 the
2003, during the ecoepidemiológica monitoring of hantavírus in regions
of Atlantic Rainforest and Cerrado of Brazil, prevalence is told to it
and the factors related to the infection for hantavírus Araraquara and Juquitiba
in the populations of Bolomys lasiurus and Oligoryzomys
nigripes,
respectively. Monthly captures of rodents had been carried through, in
diverse Brazil localities, where human cases of Cardiopulmonar Syndrome
had been detected for Hantavírus. Samples of blood had been collected,
for serology and detention of specific antibodies for hantavírus and
were gotten of each referring rodent, data to the species, weight, age,
sex, reproductive conditions and the presence of scars. The nominal
qualitative variable had been organized in “software” of electronic
spread sheet and analyzed by the test of the qui-square, being chosen
the level of significance of 5% as criterion. The results respectively
show for the high prevalence observed in Bolomys
lasiurus and Oligoryzomys
nigripes that these species act as reservoir in the Cerrado and
Atlantic Rainforest. It is observed that the ecological dynamics
intimately is related with the transmission and maintenance of hantavírus
in the nature, being clearly that the reproductive activity is what more
influences the occurrence of seropositive rodents with scars, had to the
fight for breeding. The prevalence of hantavírus in rodents revealed
associated the factors of age and sex, being more common in the rodents
adult and discrete more frequent in the male rodents. The seasonality
the infection in accordance with varies the species of rodent reservoir,
being that for the Bolomys
lasiurus the peak of the infection occurs in the winter and for Oligoryzomys
nigripes the same occurs in the spring. One also perceived that the
prevalence of the infection for hantavírus between rodents was bigger
in the Cerrado what in Atlantic Rainforest, and the seasonality of this
prevalence determined peaks in the spring for Atlantic Rainforest and in
the winter for the Cerrado.
Key words:
hantavirus; infections due to hantavirus; Juquitiba virus; Araraquara
virus; lung syndrome due to hantavirus; hantavirus echoepidemiology;
rodents; sigmodontinae; Bolomys
lasiurus; Oligoryzomys
nigripes; woodsy pasture; Atlantic forest.
Introdução
Os hantavírus são reconhecidos como um problema de
saúde pública mundial. No Velho Mundo, a febre hemorrágica por hantavírus
(FHSR) emergiu a partir de 1951 na Eurásia, envolvendo roedores da
subfamília Murinae e Arvicolinae4,8,9,10,12,16.
Os hantavírus que causam síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH)
estão associados a roedores da subfamília Sigmodontinae,
típicos do continente americano. Emergiram a partir de julho de
1993, com o isolamento do hantavírus Sin
Nombre, responsável pela epidemia de doença respiratória grave,
na região do Sudoeste dos Estados Unidos, representando o primeiro
registro de SCPH no mundo12.
Sabe-se que esta epidemia foi desencadeada por um
desequilíbrio da população do roedor hospedeiro “Deer Mouse” Peromyscus
maniculatus3, após um período prolongado de chuvas,
causado pelo fenômeno climático El Niño. Com as chuvas, a oferta de
alimento nessa região desértica aumentou, levando a um incremento da
população de roedores silvestres. Com o restabelecimento das condições
climáticas a oferta de alimento diminuiu, levando a população de
roedores a procurar alimentos nas residências rurais, ocasionando,
desta forma, o maior contato do homem com os animais transmissores do vírus
e, conseqüentemente, o aparecimento da doença13.
No Brasil, em dezembro de 1993, no município de
Juquitiba, no Estado de São Paulo, foi documentada pela primeira vez a
ocorrência de casos humanos de SCPH, causados por um vírus semelhante
ao Sin Nombre, posteriormente
denominado vírus Juquitiba7,9,17.
O súbito aparecimento deste surto relacionou-se a dois fatores. O
primeiro, a ocorrência do fenômeno natural conhecido como
“ratada”, que é um incremento da população de roedores após
aumento da oferta de sementes produzidas durante a floração cíclica
de várias espécies de bambus nativos da Mata Atlântica14.
O segundo está relacionado com o desmatamento de uma área de mata
nativa para a formação de uma chácara, concomitantemente à
“ratada”, o que provocou a invasão de roedores silvestres para o
interior da casa de pau-a-pique que abrigava família dos posseiros15.
A partir de 1994 foram notificadas centenas de casos
de SCPH associados ao vírus Juquitiba
em regiões de Mata Atlântica dos Estados de São Paulo, Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul. A ocorrência de casos foi observada
durante o ano, sendo que a maior incidência aconteceu durante a
primavera e verão. A maioria dos acometidos desenvolvia atividades
ocupacionais ligadas ao ramo da agricultura ou exploração florestal. A
proximidade das habitações em relação às áreas de mata e de
agricultura foi o fator que mais contribui para a ocorrência dos casos.
Posteriormente, estudos de biologia molecular permitiram identificar o vírus
Juquitiba e relacioná-lo aos casos ocorridos na região de Mata Atlântica
e ao Oligoryzomys nigripes,
seu roedor reservatório9,18.
A partir daquele ano foram detectados casos em diversas
regiões do Brasil e outros tipos de hantavírus foram identificados,
tais como: Castelo dos Sonhos, associado com um único caso SCPH humano
detectado na Mata Amazônica (município de Castelo dos Sonhos, Pará)9,
cujo roedor hospedeiro ainda é desconhecido; vírus Araraquara, responsável pela ocorrência de centenas de casos de
SCPH em regiões de Cerrado dos Estados de São Paulo, Minas Gerais,
Mato Grosso, Goiás e Brasília, posteriormente relacionado ao roedor Bolomys
lasiurus como seu reservatório9,18.
A maior incidência dos casos de SCPH ocorreu no
outono e inverno, provavelmente devido ao aumento da população de Bolomys
lasiurus infectados, o que pode ser explicado pela restrição do
ambiente durante os períodos secos, característicos dessas estações
do ano no Cerrado antropizado. Observou-se que a maioria dos casos
ocorreu principalmente em habitações humanas localizadas próximas de
culturas de capim braquiária, seguida, em menor escala, das de milho, cana-de-açúcar,
soja, arroz e plantio para reflorestamento.
O presente trabalho busca relatar a prevalência e os
fatores relacionados à infecção pelos hantavírus Araraquara
e Juquitiba nas populações
de Bolomys lasiurus e Oligoryzomys nigripes, respectivamente, conforme estudos de vigilância
ecoepidemiológica realizados em regiões de Mata Atlântica e de
Cerrado do Brasil, no período de 1998 a 2003.
Material e métodos
Amostras de roedores
Para os estudos ecológicos e sorológicos foram
analisados dados ecológicos e materiais biológicos obtidos de 3.469 Bolomys
lasiurus e de 1.254 Oligoryzomys
nigripes, capturados no período de 1998 a 2003, procedentes de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas
Gerais e Goiás.
Todos os animais utilizados neste estudo estão
depositados na coleção da Seção de Vírus Transmitidos por Artrópodos
do Instituto Adolfo Lutz, órgão da Coordenadoria de Controle de Doenças,
da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (IAL/CCD/SES-SP).
Localidades de coletas
As
localidades estudadas foram selecionadas em função da detecção de
casos humanos de SCPH associados aos biomas Mata Atlântica e Cerrado
(Figura 1). Foram consideradas como localidades pertencentes ao bioma
Mata Atlântica todas aquelas onde ocorreram casos dentro do Sistema da
Serra do Mar no Estado de São Paulo e áreas do Paraná, Santa Catarina
e Rio Grande do Sul. Para o Cerrado, foram levados em consideração os
casos ocorridos nas regiões Nordeste e Noroeste paulista e áreas de Minas Gerais e Goiás.
Os habitats estudados foram selecionados em função
da sua proximidade com o local freqüentado pelos casos de SCPH
comprovados laboratorialmente. As áreas estudadas foram aquelas que
apresentaram condições naturais para a manutenção de populações de
roedores silvestres.
Captura de roedores
Para a captura dos roedores foram utilizadas
armadilhas tipo “Sherman” de 8x9x22 cm (H.B Sherman Trap Company,
Tallahassee, FL. USA.), e “Tomahawk” de 41x13x13 cm (Tomahawk Live
Trap Company, Tomahawk, WI. USA). As armadilhas foram colocadas nos
ambientes domiciliar, peridomiciliar, agrícolas e silvestres.
Em cada expedição de captura foram utilizadas 400
armadilhas do tipo “Sherman”, organizadas em linhas de 40 unidades.
Como isca, utilizou-se uma mistura de pasta de amendoim e aveia em
flocos. As armadilhas foram colocadas em pontos estratégicos, antes do
escurecer, e verificadas no dia seguinte, logo ao amanhecer. As coletas
repetiram-se por quatro noites consecutivas em cada localidade, período
ideal para captura de roedores em uma área selecionada. Desta forma,
utilizou-se um esforço de 138.000 noites de captura (sucesso de captura
de 7,69%) no período de 1998 a 2003.
Coleta de material biológico
Amostras de sangue foram obtidas do sino retro
orbital de roedores anestesiados em éter etílico, utilizando-se um
tubo capilar heparinizado. Todo roedor que teve sangue coletado foi
sacrificado pelo deslocamento cervical, e, uma vez detectada a morte do
animal, foram tomadas medidas biométricas e procedeu-se à coleta de vísceras.
Os dados biométricos tomados de cada animal foram: peso, comprimento
total, da cauda, da orelha e das patas traseiras.
Os roedores foram identificados no campo até espécie, sexados e classificados quanto às condições reprodutivas no
momento (macho escrotado ou não escrotado, fêmeas com a vagina aberta
ou fechada). Em cada animal foi verificada, também, a presença ou ausência
de cicatrizes. Para cada um foi anotada a procedência específica
(localidade e linha de armadilha), permitindo assim o resgate de dados
ecológicos. Todo o processamento dos roedores em campo foi realizado
mediante normas de biossegurança nível três.
As vísceras – como fígado, rins, baço, coração
e pulmão – foram retiradas com auxílio de pinça e colocadas em
flaconetes criogênicos, devidamente etiquetados. Entre as fêmeas
prenhas foi verificado o número de embriões presentes.
As carcaças dos roedores receberam uma identificação
numérica e foram descontaminadas em formalina a 10% durante sete dias,
para, posteriormente, serem conservadas em álcool 70% ou taxidermadas.
Sorologia
As análises sorológicas dos roedores foram
realizadas utilizando-se teste de ensaio imunoenzimático (ELISA) para
detecção de anticorpos da classe IgG. Os antígenos recombinantes,
produzidos no Centers for Disese Control and Prevention (CDC), em
Atlanta (EUA), foram obtidos a partir dos vírus Sin Nombre e Laguna
Negra3.
Casos humanos foram diagnosticados pelo teste ELISA
para detecção, por captura, de anticorpos das classes IgM ou IgG10.
Em alguns casos, a validação do diagnóstico positivo foi feita pela
Seção de Patologia do IAL, por reação de imunohistoquímica,
utilizando anticorpos monoclonais e policlonais para confirmação da
presença do antígeno viral em tecidos e fragmentos de órgãos19,20.
Análise estatística
As variáveis qualitativas nominais foram organizadas
em software de planilha eletrônica (MS-Excel, versão 97, Microsoft
Co.) e analisadas bivariadamente pelo teste do qui-quadrado,
utilizando-se o software Minitab, versão 13.1 (Minitab Inc.), sendo
escolhido o nível de significância de 5% como critério.
Resultados
Foram capturados 4.723 roedores em regiões de
Cerrado e Mata Atlântica do Brasil, dos quais 3.469 (73%) Bolomys
lasiurus e 1.254 (27%) Oligoryzomys
nigripes. No bioma Cerrado foram capturados 3.440 (99,16%) Bolomys lasiurus e 451 (36%) Oligoryzomys
nigripes e na Mata Atlântica, 29 (2,31%) Bolomys lasiurus e 803 (64,03%) Oligoryzomys
nigripes. O total de 370 (10,7%) Bolomys
lasiurus apresentou soropositividade para hantavírus no Cerrado e
nenhum na Mata Atlântica. Com relação à espécie Oligoryzomys
nigripes, foram encontrados 49 (6,1%) exemplares soropositivos na
Mata Atlântica e 8 (06%) no Cerrado.
De forma geral, destaca-se a alta prevalência de Bolomys
lasiurus no ambiente de Cerrado (10,7%) e de Oligoryzomys
nigripes, na Mata Atlântica (6,1%), ambas as espécies muito bem
amostradas durante a coleta.
Com relação à freqüência e à sazonalidade da
infecção por hantavírus em Bolomys
lasiurus, reservatório do vírus Araraquara,
foram construídos os gráficos contidos nas Figuras 1 a 13, e nos quais são analisados dados referentes a todos os roedores
encontrados com anticorpos para hantavírus segundo idade, distribuição
sazonal, sexo e presença de cicatrizes.
A Figura 1 ilustra
os dados referentes à freqüência de anticorpos em Bolomys lasiurus,
de acordo com a idade dos roedores. Observa-se que a proporção de
adultos infectados (17%) é significativamente (p<0,001) maior que a
de jovens (7,1%).
Figura 1. Bolomys lasiurus encontrados com anticorpos para hantavírus, segundo a
idade, 1998 a 2003.
Na Figura 2 pode-se observar a variação sazonal da proporção de
Bolomys lasiurus infectados. Percebe-se significativo
(p<0,001) aumento na proporção de roedores infectados no inverno
(13,3%) e verão (12,8%), com taxas menores de roedores infectados no
outono (7,5%) e na primavera (6,3%).
Figura 2. Distribuição de Bolomys lasiurus encontrados
com anticorpos para hantavírus segundo a estação do ano, 1998 a
2003.
A distribuição percentual de Bolomys lasiurus encontrados
naturalmente infectados por hantavírus segundo o sexo pode ser vista
na Figura 3. Observa-se que a proporção de machos
infectados (12,0%) é significativamente (p=0,007) maior que a de fêmeas
(9,2%).
Figura 3. Bolomys lasiurus encontrados com anticorpos para hantavírus segundo o
sexo, 1998 a 2003.
A Figura 4 apresenta o número de Bolomys lasiurus encontrados
infectados com relação a cicatrizes. Verifica-se que a presença de
anticorpos é significativamente maior (p<0,001) nos roedores com
cicatrizes (17,5%) que nos roedores sem cicatrizes (8,0%).
Figura 4. Bolomys lasiurus encontrados com anticorpos para hantavírus segundo a
presença de cicatrizes, 1998 a 2003.
A Figura 5 mostra os dados relativos aos machos de
Bolomys lasiurus encontrados naturalmente infectados segundo a
idade. Observa-se que a proporção de machos adultos (19,7%) infectados
é significativamente (p<0,001) maior que a de jovens (6,5%).

Figura 5. Bolomys lasiurus machos encontrados com anticorpos para hantavírus
segundo a idade, 1998 a 2003.
Verifica-se na Figura 6 que a variação sazonal da proporção de machos
de Bolomys lasiurus encontrados infectados é significativamente
(p=0,001) maior no inverno (14,8%) e verão (12,2%), sendo menor no
outono (8,9%) e na primavera (7,3%).
Figura 6. Distribuição de Bolomys lasiurus machos
encontrados com anticorpos para hantavírus segundo a estação do ano,
1998 a 2003.
A freqüência sazonal de machos escrotados de Bolomys lasiurus
encontrados infectados pode ser verificada na Figura 7. Observa-se
que a proporção de machos de Bolomys lasiurus escrotados e
infectados (15,9%) é significativamente maior (p<0,001) que a de não escrotados (9,8%).
Figura 7. Bolomys
lasiurus machos encontrados com anticorpos para hantavírus
segundo a condição reprodutiva, 1998 a 2003.
Na Figura 8 temos a proporção de machos de Bolomys lasiurus
infectados com relação à presença de cicatrizes. Verifica-se que a
proporção de machos infectados é significativamente (p<0,001)
maior nos roedores com cicatrizes (21,2%) do que nos sem cicatrizes
(8,1%).
Figura 8. Bolomys lasiurus machos encontrados com anticorpos para hantavírus
segundo a presença de cicatrizes, 1998 a 2003.
Quanto à proporção de fêmeas de Bolomys lasiurus infectadas
segundo a idade, a Figura 9 retrata que a infecção é
significativamente (p<0,001) mais freqüente nas fêmeas adultas
(13%) do que nas jovens (7%).
Figura 9. Bolomys lasiurus fêmeas encontradas com anticorpos para hantavírus
segundo a idade, 1998 a 2003.
Na Figura 10 é descrita a variação sazonal da freqüência de infecção
por hantavírus em fêmeas de Bolomys lasiurus.
Percebe-se, com esta análise, que a infecção nas fêmeas é
significativamente (p<0,001) maior no verão (13,3%) e inverno
(11,7%) do que na primavera (4,9%) e outono (6,0%).
Figura 10. Distribuição de Bolomys lasiurus fêmeas
encontradas com anticorpos para hantavírus segundo a estação do ano,
1998 a 2003.
A freqüência de anticorpos com relação às condições reprodutivas
das fêmeas de Bolomys lasiurus é descrita na Figura 11. Nota-se
uma pequena diferença percentual da freqüência de anticorpos em relação
às fêmeas com vagina fechada (9,2%) e aberta (9,9%). Constatou-se que
não há diferença estatística (p=0,76) para esta relação.
Figura 11. Bolomys lasiurus fêmeas encontradas com anticorpos para hantavírus
segundo a condição reprodutiva, 1998 a 2003.
Temos na Figura 12 a proporção de fêmeas de Bolomys lasiurus
encontradas embrionadas, com relação à infecção por hantavírus.
Percebe-se que a infecção é significativamente (p=0,017) mais freqüente
nas fêmeas embrionadas (14,9%) do que nas não embrionadas (8,7%).
Figura 12. Bolomys lasiurus fêmeas
embrionadas encontradas com anticorpos para hantavírus, 1998 a 2003.
Na Figura 13 descreve-se a freqüência de anticorpos nas fêmeas
de Bolomys lasiurus com relação à presença de cicatrizes.
Observa-se que as fêmeas com cicatrizes (12,8%) são significativamente
(p=0,003) mais positivas para hantavírus do que as sem cicatrizes
(8,0%).
Figura 13. Bolomys lasiurus fêmeas encontradas com anticorpos para hantavírus
segundo a presença de cicatrizes, 1998 a 2003.
As análises dos dados de Oligoryzomys nigripes,
reservatório do vírus Juquitiba, segundo idade, distribuição
sazonal, sexo e presença de cicatrizes estão referidas nas Figuras 14
a 26, a seguir expostas.
A Figura 14 retrata os
dados referentes à freqüência de anticorpos em Oligoryzomys
nigripes de acordo com a idade dos roedores. Observa-se que a
proporção de adultos infectados (6,2%) é significativamente maior
(p<0,001) do que a de jovens (0,6%).
Figura 14. Oligoryzomys nigripes encontrados com anticorpos
para hantavírus segundo a idade, 1998 a 2003.
Na Figura 15 ilustra-se a variação sazonal da proporção de Oligoryzomys
nigripes infectados. Evidencia-se o significativo (p<0,001)
aumento na proporção de roedores infectados na primavera (10,7%) e
inverno (3,3%) em relação ao outono (1,2%) e verão (0,0%).
Figura 15. Distribuição de Oligoryzomys
nigripes encontrados com anticorpos para hantavírus segundo
a estação do ano, 1998 a 2003.
Pode ser visto na Figura 16 o percentual de Oligoryzomys nigripes encontrados
infectados segundo o sexo. Observa-se que a proporção de machos
naturalmente infectados por hantavírus (6,5%) é significativamente
(p<0,001) maior que a de fêmeas (1,9%).
Figura 16. Oligoryzomys nigripes encontrados com anticorpos para hantavírus segundo o
sexo, 1998 a 2003.
A Figura 17 apresenta o número de Oligoryzomys nigripes infectados
de acordo com presença de cicatrizes. Observa-se que a freqüência de
anticorpos é significativamente maior (p<0,001) nos roedores com
cicatrizes (10,3%) que nos sem cicatrizes (2,4%).
Figura 17. Oligoryzomys nigripes encontrados com anticorpos para hantavírus segundo a
presença de cicatrizes, 1998 a 2003.
Temos na Figura 18 a proporção de machos de
Oligoryzomys nigripes naturalmente infectados segundo a idade.
Verifica-se que a proporção de machos adultos (8,4%) infectados é
significativamente maior (p<0,001) que a de jovens (0,6%).
Figura 18. Oligoryzomys nigripes machos encontrados com anticorpos para hantavírus
segundo a idade, 1998 a 2003.
A distribuição sazonal de machos de Oligoryzomys nigripes
infectados descrita na Figura 19 evidencia o significativo (p=0,001)
aumento na proporção de roedores infectados na primavera (17,2%) e
inverno (4,1%), sendo menor no outono (0,7%) e verão (0,0%).
Figura 19. Distribuição de Oligoryzomys nigripes machos
encontrados com anticorpos para hantavírus segundo a estação do ano,
1998 a 2003.
A ilustração a seguir (Figura 20) mostra os dados referentes à freqüência
sazonal de machos de Oligoryzomys nigripes infectados encontrados
escrotados. Observa-se que a proporção de machos escrotados (10,8%) é
significativamente maior (p<0,001) que os não escrotados (1,8%),
demonstrando ser a proporção cinco vezes maior.
Figura 20. Oligoryzomys nigripes machos encontrados com
anticorpos para hantavírus segundo a condição reprodutiva, 1998 a
2003.
A Figura 21 mostra que a proporção de machos de Oligoryzomys
nigripes infectados naturalmente é significativamente maior
(p<0,001) nos roedores com cicatrizes (14,4%) do que nos sem
cicatrizes (2,8%).
Figura 21. Oligoryzomys nigripes machos encontrados com
anticorpos para hantavírus segundo a presença de cicatrizes, 1998 a
2003.
Na Figura 22 tem-se a proporção de fêmeas de Oligoryzomys nigripes infectadas
naturalmente em relação à idade. Embora não sendo considerada
significativa a diferença estatística entre as fêmeas jovens e
adultas (p=0,14), observa-se que a proporção de infecção é maior
nas adultas (2,6%) que nas jovens (0,6%).
Figura 22. Oligoryzomys nigripes fêmeas encontradas com anticorpos para hantavírus
segundo a idade, 1998 a 2003.
Na Figura 23, na qual se descreve a variação sazonal da freqüência da
infecção de hantavírus em fêmeas de Oligoryzomys nigripes,
percebe-se que a infecção não varia
estatisticamente (p=0,946) durante o ano.
Figura 23. Distribuição de Oligoryzomys nigripes fêmeas
encontradas com anticorpos para hantavírus segundo a estação do ano,
1998 a 2003.
A freqüência de anticorpos com relação às condições reprodutivas
das fêmeas de Oligoryzomys nigripes é descrita na Figura 24.
Observa-se, praticamente, a mesma proporção de fêmeas infectadas
tanto com a vagina aberta (1,8%) quanto fechada (1,9%). A associação não
foi estatisticamente significativa (p=0,94).
Figura 24. Oligoryzomys nigripes fêmeas encontradas com anticorpos para hantavírus
segundo a condição reprodutiva, 1998 a 2003.
A proporção de fêmeas de Oligoryzomys nigripes encontradas
embrionadas com relação à infecção por hantavírus é descrita na
Figura 25. Observa-se que as embrionadas (1,2%) apresentaram menor
positividade para hantavírus que as não embrionadas (2,1%), não
atingindo nível de significância (p=0,607) que diferencie tal relação.
Figura 25. Oligoryzomys nigripes fêmeas embrionadas encontradas com anticorpos para
hantavírus, 1998 a 2003.
Finalizando, na Figura 26 descreve-se a freqüência de anticorpos nas fêmeas
de Oligoryzomys nigripes
com relação à presença de cicatrizes. Nota-se que a proporção
de fêmeas infectadas com cicatrizes (2,4%) é pouco maior do que as sem
cicatrizes (1,8%). Esta diferença não foi estatisticamente
significativa (p=0,644).
Figura 26. Oligoryzomys
nigripes fêmeas encontradas com anticorpos para hantavírus
segundo a presença de cicatrizes, 1998 a 2003.
Discussão
A correlação entre a soropositividade para hantavírus
e a idade dos roedores identificados como reservatórios na natureza
revelaram maior proporção de soropositividade em adultos de Bolomys
lasiurus e Oligoryzomys nigripes em relação aos jovens
(Figuras 1 e 14). Esta maior ocorrência de resultados positivos no que
se refere à presença de anticorpos em roedores adultos, provavelmente,
deve estar relacionada ao maior tempo de exposição ao vírus, porque
os roedores mais velhos tiveram mais eventos de briga que os mais novos,
conforme observado por Childs et al.2,3 para Peromyscus
maniculatus, nos
Estados Unidos.
Verifica-se que a sazonalidade da freqüência de
infecção dos roedores de ambas as espécies é distinta. Para Bolomys
lasiurus o pico de infecção ocorre no inverno (Figura 2) enquanto
para Oligoryzomys nigripes aparece na primavera (Figura 15). No
caso de Bolomys lasiurus,
a elevação da freqüência de roedores com anticorpos no inverno pode
ser explicada pela restrição do ambiente devido ao período seco (média
de precipitação inferior a 60 mm), característico dessa estação do
ano, que provoca o adensamento da população de roedores,
principalmente no bioma Cerrado, como foi observado nos biomas norte-americanos por Engelthaler et al.5.
No caso de Oligoryzomys nigripes,
o pico acontece na primavera, o que talvez possa estar relacionado ao início
do período de procriação que induz os machos a se movimentarem mais
na procura de fêmeas, favorecendo os encontros entre os roedores que,
muitas vezes, levam a brigas por território e conquista de fêmeas.
Considera-se a possibilidade desta espécie, característica da Mata Atlântica,
não ser influenciada por fatores climáticos, da mesma forma que as espécies
de Cerrado, visto que a Mata Atlântica, por ser considerada um ambiente
mais estável que o Cerrado antropizado, não sofreria o fenômeno de
retração da vegetação, o que restringiria os habitats1,11.
Com relação à distribuição da freqüência de
roedores com anticorpos para hantavírus segundo o sexo, existe uma
diferença entre as proporções de soropositividade dos machos e das fêmeas.
Em Bolomys lasiurus (Figura 4) a diferença é um pouco maior nos
machos e para Oligoryzomys nigripes (Figura 16), é três vezes
maior do que nas fêmeas.
A maior ocorrência de soropositividade para hantavírus
nos machos, provavelmente, está relacionada às brigas durante o período
de procriação, pois há um aumento na procura de fêmeas receptivas
que se encontram com a vagina aberta. Quando se compara as duas espécies
reservatórias em relação às condições reprodutivas neste estudo,
nota-se que 36% dos machos de Bolomys lasiurus são escrotados e
apenas 10,1% das fêmeas são receptivas com a vagina aberta. Por outro
lado, em Oligoryzomys nigripes esta diferença é ainda maior,
sendo os machos escrotados 53,7% e as fêmeas receptivas somente 10,3%.
Talvez isso explique porque a predominância de machos soropositivos em
relação às fêmeas seja muito mais acentuada em Oligoryzomys
nigripes do que em Bolomys lasiurus.
Ressalta-se que para as espécies reservatórias de
hantavírus a condição reprodutiva nos machos é um fator determinante
para infecção, isto é, os machos escrotados são encontrados mais
soropositivos que os não escrotados (Figuras 8 e 21). No entanto, para
as fêmeas não se verifica diferença na soropositividade entre as
encontradas com a vagina aberta e fechada (Figuras 12 e 25). Este achado
reforça a idéia de que, realmente, existem mais brigas entre os machos
do que entre as fêmeas.
Conforme já mencionado, a competição por alimento,
território e acasalamento está entre as causas que mais contribuem
para as cicatrizes encontradas nos roedores capturados. Este parâmetro,
associado à reprodução, foi analisado no presente estudo quanto à
presença de anticorpos para hantavírus. Observou-se que a proporção
de roedores com cicatrizes encontrados infectados é mais do que o dobro
da verificada entre os sem cicatrizes. Quando se analisam as espécies
de roedores reservatórios de hantavírus verifica-se que Bolomys
lasiurus (Figura 5) apresenta o mesmo padrão das demais espécies.
Por outro lado, para a espécie Oligoryzomys nigripes nota-se a
predominância de quatro vezes mais roedores soropositivos com
cicatrizes do que sem (Figura 17). Esta predominância também foi
relatada por Childs et al.2 nos Estados Unidos. Estes achados reforçam a idéia,
que a forma principal de transmissão do hantavírus na natureza entre
os roedores é por brigas.
Com base nas grandes diferenças existentes entre
machos e fêmeas de roedores quanto à infecção por hantavírus, foram
analisados separadamente por sexo os parâmetros de idade, sazonalidade
e cicatriz nas espécies reservatórias de hantavírus. Nestas análises
quase não se observou diferença dos padrões descritos para ambos os
sexos. Porém, ressalta-se que para a espécie Oligoryzomys nigripes
(Figura 18 a 26) as diferenças foram sempre mais acentuadas que em Bolomys
lasiurus (Figuras 6 a 13).
Quando se comparou as fêmeas embrionadas de Oligoryzomys
nigripes com relação à presença de anticorpos para hantavírus,
notou-se uma predominância de não prenhas em relação às prenhas
(Figura 25). Por outro lado, observou-se em Bolomys lasiurus
percentual inverso, com as prenhas predominantes sobre as não prenhas
(Figura 12).
Os motivos deste padrão de soropositividade devem-se
provavelmente aos diferentes comportamentos observados nas fêmeas
desses roedores. Oligoryzomys
nigripes é uma espécie mais solitária, que constrói ninhos
individuais em ocos de arvore ou moitas de capim, nos quais as fêmeas,
quando prenhas, isolam-se dos demais indivíduos da espécie, defendendo
o território do ninho. Por sua vez, Bolomys lasiurus formam grandes colônias, fossoriais, nas quais as
fêmeas prenhas interagem intensamente dentro das galerias, onde ocorrem
pequenas disputas territoriais. Provavelmente estes padrões de interação
social são determinantes na diferença de freqüência de infecção
das fêmeas prenhas de ambas as espécies.
Em resumo, observa-se que a dinâmica ecológica está
intimamente relacionada à transmissão e manutenção de hantavírus na
natureza. Fica claro que a atividade reprodutiva é o que mais
influencia a ocorrência de roedores soropositivos com cicatrizes devido
às brigas por acasalamento.
Conclusões
Foi
possível caracterizar os biomas nos quais os hantavírus foram
encontrados no Brasil.
Determinaram-se duas espécies de roedores associadas como
reservatórios de hantavírus no País. O roedor Bolomys lasiurus
para o vírus Araraquara, nas
regiões de Cerrado, e o roedor Oligoryzomys nigripes para o vírus
Juquitiba, na Mata
Atlântica.
Foi possível determinar também que a presença de
cicatrizes está intrinsecamente relacionada ao ciclo reprodutivo, tanto
nos machos como nas fêmeas. A prevalência de hantavírus em roedores
mostrou-se associada a fatores de idade e sexo, sendo mais comum nos
adultos e discretamente mais freqüente nos machos.
A sazonalidade da infecção varia de acordo com a
espécie de roedor reservatório, sendo que para o Bolomys lasiurus
o pico da infecção ocorre no inverno e para Oligoryzomys nigripes,
na primavera.
Percebeu-se também que a prevalência de anticorpos
para hantavírus nestes animais é intrinsecamente relacionada com a
presença de cicatrizes, corroborando relatos
que indicam que a forma de transmissão entre os roedores
se dá por meio de mordidas.
A prevalência da infecção por hantavírus entre
roedores foi maior no Cerrado do que na Mata Atlântica, e a
sazonalidade dessa prevalência determinou picos no inverno e na
primavera, respectivamente. Esse é mais um retrato da existência
de dois hantavírus distintos, associados a duas espécies de roedores,
uma no Cerrado (Bolomys lasiurus) e outra na Mata Atlântica (Oligoryzomys
nigripes).
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