Em novembro de 2002, um surto de doença respiratória acometeu pelo menos 305 pessoas na província de Guangdong (China), causando cinco mortes. Grande parte dos indivíduos acometidos trabalhava manipulando alimentos. O surto passou relativamente despercebido até que, em fevereiro de 2003, um indivíduo procedente dessa província transmitiu a infecção para um grande número de hóspedes de um hotel em Hong Kong. A partir desse evento, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) apresentou rápida disseminação global.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um alerta sobre a doença em 12/3/2003. No mesmo mês foi identificado o agente etiológico, um Coronavírus. Esse vírus foi chamado Coronavírus Humano Relacionado à SRAG (HCoV-SARS). Ele não se mostrou geneticamente relacionado a outros membros do grupo, responsáveis por quadros de resfriado em seres humanos. Posteriormente, isolou-se um vírus bastante semelhante ao HCoV-SARS na civeta, ou “gato de Algalia”, mamífero bastante apreciado na culinária em algumas regiões da China. A hipótese corrente é de que a doença tenha atingido o homem a partir do consumo de civetas, o que explicaria a grande quantidade de manipuladores de alimentos infectados no surto de
Guangdong.
Epidemiologicamente, a SRAG se caracterizou por grande capacidade de transmissão respiratória, por contato e, possivelmente, fecal-oral. Houve grande transmissão para contatos domiciliares e profissionais da saúde. Esse último grupo correspondeu a 21% dos casos notificados até o final da epidemia. A transmissibilidade foi maior em pacientes graves, por volta do 10º dia de doença. É significativo o fato de que pacientes identificados e mantidos em isolamento adequado a partir dos primeiros dias da doença geraram poucos casos secundários.
O quadro clínico da SRAG se caracterizou por febre, tosse e dispnéia. Outros sintomas podiam estar presentes: rinorréia, calafrios, mialgias, cefaléia e diarréias. Ocorreu alteração radiologia significativa em 90% dos casos. Em 70% dos casos o envolvimento pulmonar era multifocal. Os pacientes com quadros graves evoluíram para insuficiência respiratória franca entre o 4º e 7º dias de doença. Após esse período, houve progressão para Síndrome da Angústia Respiratória do Adulto (SARA). A letalidade foi de 13% em Singapura e 14% em Hong Kong. Na faixa etária superior a 60 anos, essa letalidade atingiu 43%. Fatores de risco significativos para óbito foram: idade, presença de comorbidade (diabetes mellitus, hepatite B), tabagismo, infecções secundárias. Preditores laboratoriais de mau prognóstico foram: neutrofilia e elevação de
LDH.
A resposta mundial à pandemia de SRAG foi exemplar, tornando possível conter a doença em julho de 2003. Fizeram parte dessa resposta o incentivo à detecção rápida dos casos; o controle de fluxo de viajantes em aeroportos de países afetados; o manejo de pacientes em condições adequadas de precauções/isolamentos; a aplicação de medidas de quarentena domiciliar para contatos.
Nos hospitais, a rígida aplicação de medidas de controle de infecção foi importante para proteger pacientes e profissionais de saúde. Um estudo realizado em Hong Kong demonstrou que os profissionais infectados haviam falhado na utilização de pelo menos uma das seguintes medidas: uso de máscara, gorros e/ou lavagem das mãos. Sugeriu-se adequação do fluxo de pacientes para rápida identificação e isolamento de casos suspeitos. Normas para manejo adequado de superfícies e resíduos foram enfatizadas.
A rápida disseminação de informações (via Internet) pelos órgãos internacionais de saúde pública (Organização Mundial da Saúde, Centers for Disease Control and Prevention - CDC, EUA) e o esforço coordenado de grupos de pesquisadores foram importantes para a interrupção da circulação do HCoV-SARS. Em julho de 2003 o mundo foi declarado livre da doença. Ao todo, foram confirmados 8.098 casos, com 774 óbitos durante a epidemia. Entre dezembro de 2003 e janeiro de 2004, quatro novos casos de SRAG foram notificados na China. Entretanto, não houve óbitos ou evidência de transmissão da doença a outras pessoas.
Em São Paulo, o Centro de Vigilância Epidemiológica “Professor Alexandre Vranjac” (CVE) divulgou notas técnicas sobre a SRAG a partir de março de 2003. Quatro hospitais da rede pública foram designados para atendimento de casos suspeitos, selecionados pela capacidade técnica dos profissionais e pela disponibilidade de quartos de isolamento com pressão negativa. Os hospitais de referência foram: Instituto de Infectologia Emílio Ribas (24 leitos); Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas - HC/Unicamp (16 leitos); Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo - HSP/Unifesp (oito leitos) e Hospital do Servidor Público Estadual HSPE (dois leitos).
Foi disponibilizada a possibilidade de notificação on-line (www.cve.saude.sp.gov.br) ou por telefone (Central de Vigilância: 0800 555466). Entre março e junho de 2003, 17% dos telefonemas para a Central correspondiam a solicitações de informações sobre a
SRAG.
Foram notificados 37 casos suspeitos. A distribuição temporal das notificações (por semana epidemiológica) pode ser vista na figura 1. Vinte e cinco casos foram internados e mantidos em precauções para transmissão aérea (por aerossóis).
Inicialmente, três pacientes se enquadraram nos critérios da Organização Mundial da Saúde para “caso provável” e um foi considerado “caso suspeito”. Esses casos foram posteriormente descartados, com base na evolução clínica e resultados de exames laboratoriais.
Houve intenso trabalho de divulgação de informações para a população. Dentre as medidas tomadas, são dignas de nota a parceria com a Secretaria de Vigilância à Saúde (SVS/MS) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na monitorização de aeroportos; a troca de informações com a rede hoteleira; o acompanhamento de eventos internacionais; o contato com organizações não governamentais (ONGs), que prestam assistência à população de etnias asiáticas do município de São Paulo.
Essas medidas nos permitiram identificar casos suspeitos poucos dias após o início dos sintomas (média de 2,79 dias). Esse é um indicador satisfatório da capacidade de resposta a doenças emergentes no Estado.
Normas para identificação, notificação e manejo de casos suspeitos de SRAG podem ser encontradas no site do CVE:
www.cve.saude.sp.gov.br
Autor: Fortaleza CMCB, Centro de Vigilância Epidemiológica “Professor Alexandre Vranjac”
(CVE)
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