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Março, 2004   Ano 1   Número 3                                                                             retorna
Influenza Aviária Vietnã/Tailândia 2004
Introdução

A influenza humana acomete milhões de pessoas anualmente, sendo responsável por significativa morbidade e mortalidade. Embora haja evidência histórica da presença de epidemias periódicas há vários séculos, a ocorrência mais devastadora dessa doença se deu entre 1917 e 1919. A chamada “gripe espanhola” teve disseminação global, matando mais de 20.000.000 de pessoas. Acredita-se que em tempos remotos os vírus da influenza acometiam apenas aves. Atualmente, causam infecções em diversos mamíferos, como cetáceos, eqüinos e suínos. A grande capacidade de variação genética e a facilidade de transmissão do vírus fazem com que a influenza emirja todos os anos, com rápida disseminação global nos meses frios.

Os vírus influenza A são os que apresentam maior capacidade de variação genética. Eles podem ser classificados em subtipos, de acordo com dois importantes antígenos de superfície: a hemaglutinina (H) e a neuraminidase (N). Os vírus são designados HxNy, em que x e y especificam os antígenos H e N presentes. Os vírus H1N1, H2N2 e H3N2 são responsáveis pela influenza humana. Há diversos outros tipos de vírus influenza A circulando em aves. O H5N1 circula em aves selvagens, acometendo ocasionalmente aves domésticas, o que determina epizootias de grande impacto econômico.

Desde 1997, vêm sendo relatadas ocorrências de infecção humana por vírus aviários. O quadro 1 resume os casos e óbitos por cepas aviárias do influenza.

Influenza aviária em 2004

Uma epizootia de vírus H5N1 altamente patogênico em aves selvagens e domésticas foi detectada em oito países asiáticos desde dezembro de 2003. Essa ocorrência vem tendo grande impacto econômico nas áreas envolvidas. Esse vírus também tem apresentado uma peculiar capacidade de infectar humanos, acarretando significativa mortalidade. Casos humanos foram detectados no Vietnam e na Tailândia (quadro 2).

Quadro 2 - Casos confirmados de Influenza aviária humana (H5N1) em 2004
                (dados até 26/2/2004)

Estudos genéticos demonstram que a cepa envolvida não é a mesma relacionada à epidemia de Hong Kong em 1997. A epizootia é muito mais disseminada que a que ocorria naquele ano, acometendo grande parte do Leste e Sudeste asiático. Além disso, o vírus que circula neste ano causa grande mortalidade tanto nas aves domésticas como nas selvagens, o que não é usual.

No que diz respeito aos casos humanos, há características comuns entre as epidemias de 1997 e 2004. Em ambas as situações os vírus não são eficazmente transmitidos entre seres humanos (pessoa a pessoa). O quadro clínico é de doença respiratória grave, e as descrições da evolução apresentam similaridades importantes com as de 1997. Febre, dor de garganta, tosse e linfopenia são os sintomas iniciais. Há progressão para franca insuficiência respiratória em alguns dias. Outros órgãos são envolvidos detecta-se hepatite leve a moderada e, posteriormente, insuficiência renal e cardíaca. Mas, ao contrário dos casos de 1997, os atuais não apresentam sintomas gastrointestinais proeminentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou recentemente um informe com orientações para pessoas vivendo em áreas com epizootias notificadas. Entre elas destacam-se:

  • Evitar, sempre que possível, o contato com galinhas e patos.
  • Se houver criação domiciliar de aves, atenção para sintomas e/ou mortalidade entre elas. Cuidados especiais na sua manipulação (uso de máscaras, aventais, luvas).
  • Cuidados com a descontaminação de quintais e galinheiros.
  • Cuidados especiais com roupas e calçados.
  • Identificação e notificação de sintomas respiratórios em humanos.

Nos países aos quais a orientação é dirigida, a existência de aves em ambientes domésticos é muito comum. Em relação aos casos humanos suspeitos, indica-se a coleta de espécimes respiratórios para provas virológicas. O tratamento deve ser iniciado prontamente, com antimicrobianos (uma vez que a hipótese de pneumonia bacteriana não pode ser imediatamente excluída) e com antivirais (inibidores da neuraminidase). Como a transmissão entre humanos não está definitivamente excluída, medidas de controle de infecção (precauções/isolamentos para gotículas) têm sido recomendadas.

No Brasil, sabe-se que o vírus influenza A é encontrado em aves de vida livre. Esses vírus não foram subtipados. Não há registro de epizootias por H5N1. É digno de nota um surto recente de laringotraqueíte em aves no município de Bastos, região de Marília (SP). Essa doença é causada por um herpesvírus e não guarda qualquer relação com a influenza. A Secretaria de Vigilância à Saúde (SVS/MS) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informam a existência de rígido controle sanitário nas grandes unidades de produção de frangos no país.

Recomenda-se, atualmente, a intensificação da vigilância da influenza em nível global. Nesse sentido, deve-se ressaltar que o Brasil integra a rede mundial que monitora a circulação de subtipos do vírus Influenza A humano. Portanto, torna-se especialmente importante que municípios e regionais de saúde do Estado de São Paulo notifiquem e investiguem adequadamente surtos/epidemias dessa doença.

Autores: Fortaleza CMCB; Carvalhanas T - Centro de Vigilância Epidemiológica “Professor Alexandre Vranjac” - CVE, Divisão de Doenças de Transmissão Respiratória (DDTR-CVE).

Nota do Editor

A recente epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (veja abaixo) e, agora, a epidemia de Influenza aviária acabaram dando a impressão, em parte verdadeira, de que o grande risco de emergência de novas doenças está nos animais. Não só nos animais, mas, talvez, mais na maneira como nos relacionamos com eles. A avicultura moderna coloca muito próximas umas das outras centenas ou milhares de aves, geneticamente escolhidas por seu rápido crescimento e ótimo aproveitamento da alimentação, e não pela sua resistência às doenças.
Doenças infecciosas emergentes não são novidade. A novidade é a quantidade delas que está sendo detectada em anos recentes, e não apenas em função da nossa maior capacidade de identificá-las. O problema é a capacidade da sociedade moderna em criar condições para o surgimento dessas doenças, condições estas que muitas vezes fogem ao controle dos serviços de saúde. O que nos resta fazer? Ficar atentos, trocar informações com rapidez e agir sem demora.

Silva LJ, Ed.


Agência Paulista de Controle de Doenças