Toda ação baseada no
pressuposto da interdisciplinaridade busca dar conta da complexidade do
sujeito implicado nas suas relações sociais e pessoais. Na saúde,
quando trabalhamos com a concepção do processo saúde-doença
socialmente determinado, de cara, nos deparamos com um sujeito enredado
nos dispositivos psicossociais, afetivos, técnicos e científicos, que
movimentam a vida tanto na sua dimensão individual quanto coletiva.
Os serviços de saúde
são organizados levando em conta a diversidade de aspectos que os indivíduos/usuários
apresentam e demandam quando o procuram. As equipes de saúde,
principalmente nos serviços especializados, contam quase sempre com uma
equipe multiprofissional, ou seja, diferentes especialistas trabalham
seqüencialmente ou lado a lado de forma verticalizada. Cada um caminha
no sentido de aprofundar seu conhecimento e ficar melhor naquilo que
faz. Para fazer bem o que é próprio a sua especialidade.
A abordagem e a atenção
ao usuário, nestes casos, na maioria das vezes se dão de forma
estanque, sem comunicação e integração entre as especialidades na
atenção e na orientação aos pacientes.
A abordagem
interdisciplinar, longe de ignorar a necessidade das especialidades,
quer abrir vasos comunicantes entre estes diversos saberes; quer sim, a
partir deles, abrir trilhas horizontalizadas, construir redes de
conhecimento que permitam uma ação de saúde integradora deste
sujeito/usuário, quer favorecer uma visão expandida aos profissionais
de saúde para que estes possam, todos eles, trabalhar para este usuário
considerando a sua complexidade e sua biodiversidade.
O desafio que se coloca
é que a equipe multiprofissional possa ser capaz de uma ação
interdisciplinar, onde os saberes de cada um se ligam e se interconectam
na construção de outra forma de trabalho, na qual todos os
profissionais estão atentos, investigando e orientando os pacientes e
seus familiares sem perder de vista os diferentes lugares, situações e
(im)possibilidades de cada paciente.
Isto implica, sem dúvida,
num trabalho coletivo que exige disposição, muito estudo e
criatividade da equipe de saúde, pois a interdisciplinaridade não
facilita o trabalho do profissional, como muito se diz por aí. Ao contrário,
requer rigor das e entre as disciplinas, exige consensos e profissionais
envolvidos neste processo. Mas, se não facilita de um lado, de outro
sem dúvida agrega valor ao trabalho, imprime qualidade ao papel de
servidor e enriquece o usuário que se vê contemplado como sujeito
complexo, social e diferenciado. Pois a democracia na saúde não se faz
tratando a todos como iguais, mas sim a cada um de acordo com suas
especificidades e sua necessidade, como sujeito e cidadão.
Para contribuir com
esta questão trazemos Jurandir Freire Costa, em “Como se constrói a subjetividade das classes
populares”. (site 12/10/2006): “Quero
registrar uma última palavra que não vale somente para os psicólogos,
e mais especificamente para os psicólogos clínicos, mas também vale
para os psiquiatras e qualquer psicanalista. Em certo tipo de trabalho
psiquiátrico institucional, o resultado mais pernicioso possível é
essa espécie de divisão burocrática de saber. Se o leitor quiser,
essa retalhação do psiquismo ideal conforme áreas de competências e
atribuições técnica, saiba que, além de ser absolutamente dispensável,
isso está sendo responsável por uma espécie de incapacidade de os
trabalhadores de Saúde Mental nos locais coletivos conviverem de uma
forma mais produtiva no sentido de auxiliarem as pessoas. É como se
pensássemos que a experiência humana da loucura pudesse ser equiparada
à fabricação ou conserto de automóveis, onde existe técnico
especializado em eletricidade, em mecânica e assim por diante. Isso não
existe porque devemos criar um saber que poderá ser exercido por todos
os membros da equipe, conforme o momento do cliente; conforme o momento
da instituição e conforme a necessidade da história dele. Jamais
previamente a qualquer destes níveis e em função de competência
burocráticas”.
Este texto foi escrito como parte
do material instrucional do PNHV/MS – Equipe Multiprofissional e Ações
Interdisciplinares. O texto que abre esta questão teve por inspiração
a obra de Pedro Demo, em seu livro “Conhecimento Moderno – Sobre Ética e Intervenção
do Conhecimento”, mais especialmente no capítulo intitulado Interdisciplinaridade.
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