Publicação Mensal sobre Agravos à Saúde Pública ISSN 1806-4272

Márcia Oliveira

Divisão de Pesquisa e Capacitação em Epidemiologia, Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac”, Coordenadoria de Controle de Doenças, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – DPCE/CVE/CCD/SES-SP


Toda ação baseada no pressuposto da interdisciplinaridade busca dar conta da complexidade do sujeito implicado nas suas relações sociais e pessoais. Na saúde, quando trabalhamos com a concepção do processo saúde-doença socialmente determinado, de cara, nos deparamos com um sujeito enredado nos dispositivos psicossociais, afetivos, técnicos e científicos, que movimentam a vida tanto na sua dimensão individual quanto coletiva.

Os serviços de saúde são organizados levando em conta a diversidade de aspectos que os indivíduos/usuários apresentam e demandam quando o procuram. As equipes de saúde, principalmente nos serviços especializados, contam quase sempre com uma equipe multiprofissional, ou seja, diferentes especialistas trabalham seqüencialmente ou lado a lado de forma verticalizada. Cada um caminha no sentido de aprofundar seu conhecimento e ficar melhor naquilo que faz. Para fazer bem o que é próprio a sua especialidade.

A abordagem e a atenção ao usuário, nestes casos, na maioria das vezes se dão de forma estanque, sem comunicação e integração entre as especialidades na atenção e na orientação aos pacientes.

A abordagem interdisciplinar, longe de ignorar a necessidade das especialidades, quer abrir vasos comunicantes entre estes diversos saberes; quer sim, a partir deles, abrir trilhas horizontalizadas, construir redes de conhecimento que permitam uma ação de saúde integradora deste sujeito/usuário, quer favorecer uma visão expandida aos profissionais de saúde para que estes possam, todos eles, trabalhar para este usuário considerando a sua complexidade e sua biodiversidade.

O desafio que se coloca é que a equipe multiprofissional possa ser capaz de uma ação interdisciplinar, onde os saberes de cada um se ligam e se interconectam na construção de outra forma de trabalho, na qual todos os profissionais estão atentos, investigando e orientando os pacientes e seus familiares sem perder de vista os diferentes lugares, situações e (im)possibilidades de cada paciente.

Isto implica, sem dúvida, num trabalho coletivo que exige disposição, muito estudo e criatividade da equipe de saúde, pois a interdisciplinaridade não facilita o trabalho do profissional, como muito se diz por aí. Ao contrário, requer rigor das e entre as disciplinas, exige consensos e profissionais envolvidos neste processo. Mas, se não facilita de um lado, de outro sem dúvida agrega valor ao trabalho, imprime qualidade ao papel de servidor e enriquece o usuário que se vê contemplado como sujeito complexo, social e diferenciado. Pois a democracia na saúde não se faz tratando a todos como iguais, mas sim a cada um de acordo com suas especificidades e sua necessidade, como sujeito e cidadão.

Para contribuir com esta questão trazemos Jurandir Freire Costa, em “Como se constrói a subjetividade das classes populares”. (site 12/10/2006): “Quero registrar uma última palavra que não vale somente para os psicólogos, e mais especificamente para os psicólogos clínicos, mas também vale para os psiquiatras e qualquer psicanalista. Em certo tipo de trabalho psiquiátrico institucional, o resultado mais pernicioso possível é essa espécie de divisão burocrática de saber. Se o leitor quiser, essa retalhação do psiquismo ideal conforme áreas de competências e atribuições técnica, saiba que, além de ser absolutamente dispensável, isso está sendo responsável por uma espécie de incapacidade de os trabalhadores de Saúde Mental nos locais coletivos conviverem de uma forma mais produtiva no sentido de auxiliarem as pessoas. É como se pensássemos que a experiência humana da loucura pudesse ser equiparada à fabricação ou conserto de automóveis, onde existe técnico especializado em eletricidade, em mecânica e assim por diante. Isso não existe porque devemos criar um saber que poderá ser exercido por todos os membros da equipe, conforme o momento do cliente; conforme o momento da instituição e conforme a necessidade da história dele. Jamais previamente a qualquer destes níveis e em função de competência burocráticas”.

Este texto foi escrito como parte do material instrucional do PNHV/MS – Equipe Multiprofissional e Ações Interdisciplinares. O texto que abre esta questão teve por inspiração a obra de Pedro Demo, em seu livro “Conhecimento Moderno – Sobre Ética e Intervenção do Conhecimento”, mais especialmente no capítulo intitulado Interdisciplinaridade.


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