Resumo
O botulismo alimentar é uma doença
neuroparalítica grave causada pela ingestão
de neurotoxinas presentes em alimentos previamente contaminados com a
bactéria Clostridium botulinum.
No Brasil, casos registrados de botulismo são mais freqüentemente
causados pela toxina do tipo A, relacionados a conservas caseiras de
vegetais, frutas e carnes. Este trabalho tem por objetivo relatar a
investigação epidemiológica de um caso de botulismo que ocorreu em
janeiro de 2007, no município de São Paulo, causado pela ingestão
de torta comercial de frango com palmito e ervilhas. Foram encontradas
toxinas A e B no soro do paciente, bem como no alimento suspeito. Com
base no quadro clínico, e, adicionalmente, eletroneuromiografia compatível,
foi administrado prontamente o soro antibotulínico ao paciente. Medidas
sanitárias e educacionais foram desencadeadas para a prevenção de
novos casos.
Palavras-chave: botulismo; botulismo alimentar; alimento comercial;
segurança de alimentos; vigilância epidemiológica.
Abstract
Foodborne botulism is a severe neuroparalytic disease caused by the
ingestion of food containing preformed Clostridium
botulinun neurotoxin. In Brazil, reported cases of botulism have
been usually caused by toxin type A related with canned vegetable,
fruits or meat, in generally, homemade products. We report the findings
of the botulism case investigation that occurred in january 2007, in the
city of São Paulo (SP), caused by the ingestion of commercial chicken
pie with hearts of palm and peas. Type A and B toxin were detected in a
serum sample from the patient and in the suspected food. Based on
clinical features and additional electromyography findings, therapeutic
antitoxin was promptly administrated to the patient. Educational and
sanitary measures were developed to prevent new cases.
Key words: botulism; foodborne botulism;
commercial food; food safety; epidemiologic surveillance.
Introdução
O botulismo é uma doença
neuroparalítica grave, potencialmente letal se não tratada
oportunamente, causada por toxinas produzidas pela bactéria anaeróbia Clostridium
botulinum. São quatro as formas clínicas e epidemiológicas
descritas como botulismo: alimentar (a mais comum e de principal importância
em saúde pública), por ferimento, infantil e intestinal do adulto1,2.
Casos acidentais são conhecidos, ainda, associados à utilização da
toxina botulínica do tipo A ou B, através de injeções
intramusculares em doses consideradas terapêuticas, para tratamento de
diversas patologias ou para procedimentos estéticos, e por manipulação
de material contaminado de forma inadequada em laboratório3,4.
O C. botulinum é comumente
encontrado no solo, em vegetais, frutas e fezes humanas e de animais,
podendo produzir toxinas em
alimentos preparados ou conservados de modo inadequado5.
Os esporos de C.
botulinum são inativados por aquecimento em temperatura de 121ºC,
sob pressão de 15-20 1b/in², por pelo menos 20 minutos. A produção
da toxina pode ser inibida por refrigeração abaixo de 4ºC, pela
acidificação (pH<4,5) e baixa atividade de água (abaixo de 0,9). A
toxina presente no alimento é sensível ao calor (termolábil) e é
destruída em temperatura de 85ºC, por pelo menos cinco minutos6.
Ainda que na forma alimentar os
alimentos mais comumente envolvidos sejam as conservas caseiras, de
vegetais e carnes5, há registros de casos devido a uma
imensa variedade de alimentos7,8, inclusive assados com
recheios, como tortas e similares9,10,11,12.
Sete tipos de C.
botulinum são descritos, de A a G, classificados segundo as
características antigênicas de suas toxinas produzidas. Tipos A, B, E
e, mais raramente, F causam a doença em humanos. Tipos C e D causam a
doença em aves e mamíferos13. O tipo G, sem patogenicidade
comprovada, foi descrito somente no solo da Argentina na década de 197014.
De acordo com a classificação
genotípica e fenotípica, as cepas patogênicas para humanos podem
produzir toxinas A, B ou F (Grupo I) e B, E ou F (Grupo II), sendo que já
foram descritas cepas produtoras de duas toxinas (AB e BF). Isso ocorre
porque uma mesma cepa produtora de um tipo de toxina pode apresentar
material genético para produção de outra toxina15.
Embora todos os tipos possam
produzir quadros graves e fatais, estudos sugerem diferenças clínicas
e epidemiológicas entre eles, indicando que o botulismo devido à
toxina A é mais grave que o dos tipos B e E16. As toxinas
botulínicas induzem o bloqueio das junções neuromusculares colinérgicas
autonômicas e motoras voluntárias, causando paralisia dos nervos
cranianos e paralisia flácida descendente de músculos, podendo
comprometer os músculos da respiração. O tempo de recuperação da
doença em geral é prolongado, podendo ser de semanas, meses ou alguns
anos. O tratamento consiste, fundamentalmente, de cuidados intensivos de
suporte ao paciente para manutenção das condições vitais, ventilação
mecânica, quando necessário, e administração da antitoxina eqüínea
para impedir a progressão do quadro neurológico6.
No Brasil, no período de 1999 a
2006, foram confirmados 30 casos de botulismo por critério laboratorial
e/ou clínico epidemiológico, dos quais 29 de origem alimentar e um por
ferimento. Dos 20 casos de botulismo alimentar com confirmação
laboratorial (presença de toxina identificada em amostras de soro do
paciente e/ou alimento implicado), 15 foram devido à toxina tipo A
(75%), quatro devido a dois tipos de toxina, A e B (20%), e um, sem
identificação do tipo da toxina17,18.
No Estado de São Paulo, no período
de 1990 a 2006, foram registrados dez casos de botulismo alimentar,
confirmados laboratorialmente. Todos foram causados pela toxina A: um
caso por conserva caseira de vegetais e ovos; três por palmito
industrializado em conserva (duas das conservas eram importadas da Bolívia);
um por alimento não identificado ingerido em bar ou restaurante19;
quatro causados por conserva industrializada de tofu (queijo de soja)
importado da China20 e um por torta comercial de frango com
requeijão10.
Em 12/1/07 o Serviço de Neurologia
do Pronto Socorro do Hospital São Paulo, da Escola Paulista de
Medicina/Unifesp, notificou à Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica
e Alimentar, do Centro de Vigilância Epidemiológica “Professor
Alexandre Vranjac” (CVE), a internação de um caso fortemente
suspeito de botulismo, solicitando a liberação da antitoxina botulínica
e orientações para a realização dos testes laboratoriais específicos.
O presente trabalho resume os
resultados da investigação realizada, com base nos relatórios das
equipes de vigilância do município de São Paulo, nas informações
fornecidas pelo Pronto Socorro e Núcleo de Vigilância Epidemiológica
do Hospital São Paulo e laudos do Instituto Adolfo Lutz. Divulga, também,
as orientações e providências tomadas, destacando-se que este caso,
no Estado de São Paulo, representa o segundo registro devido à ingestão
de torta de frango assada, adquirida no comércio de alimentos, e o
primeiro por toxinas A e B.
Métodos
Investigação epidemiológica
A investigação epidemiológica
constou de levantamento dos dados clínicos do caso e de histórico
alimentar detalhado de produtos consumidos durante a semana
imediatamente anterior ao início dos sintomas. Indagou-se, também,
sobre a forma de armazenamento dos alimentos no domicílio, em especial
do alimento suspeito, e sobre a existência de outros possíveis
comensais que pudessem ter compartilhado os alimentos suspeitos.
Investigação sanitária
O estabelecimento implicado foi
inspecionado pela Vigilância Sanitária do município de São Paulo,
rastreando-se as práticas de preparação dos alimentos, em particular
das tortas, origem dos ingredientes, armazenamento dos produtos e práticas
de limpeza, entre outros aspectos para determinação de possíveis
erros que pudessem propiciar a contaminação do alimento.
Investigação laboratorial
Foram coletadas amostras de soro e
lavado gástrico do paciente, bem como do alimento, para testes de detecção
e identificação do tipo de toxina.
O
diagnóstico laboratorial de botulismo, em amostras de soro do paciente
e no alimento, foi feito na Seção de Microbiologia Alimentar do
Instituto Adolfo Lutz, São Paulo (SP), por bioensaio em camundongos21.
O
bioensaio em camundongos é considerado uma ferramenta eficiente na
detecção da toxina. Vários outros testes in vitro foram
desenvolvidos, porém nenhum deles apresentou sensibilidade e
especificidade comparada ao bioensaio. Não foi possível testar o lavado gástrico
por insuficiência de material coletado.
Resultados
O paciente, de sexo masculino, 59
anos, residente no município de São Paulo, procurou o hospital no dia
11/1/07, com sinais e sintomas compatíveis com botulismo, como ptose
palpebral simétrica, visão dupla e turva, disfagia, disfonia,
paralisia de pescoço, tontura e dispnéia, evoluindo para insuficiência
respiratória aguda um dia após a admissão no hospital. Relatou como
sintomas neurológicos iniciais visão dupla e embaçada, percebida no
dia 9/1/07. Consumia de rotina produtos enlatados e embutidos, bem como
alimentava-se, com freqüência, fora do domicílio, consumindo,
inclusive, refeições preparadas em barracas de camelô (comida de
rua).
O inquérito realizado sobre a
ingestão de alimentos indicou como alimento suspeito a torta de frango
com palmito e ervilhas, ingerida sem reaquecimento, em 7/1/07, adquirida
de uma rôtisserie no bairro do Cambuci, município de São Paulo,
não compartilhada por outros membros da família ou comensais.
Com base no quadro clínico, em
exames complementares que descartaram outros quadros neurológicos, e
adicionalmente no traçado compatível com botulismo apresentado pela
eletroneuromiografia, o soro antibotulínico foi prontamente liberado e
aplicado no dia 12/1/07, data da notificação.
Em 8/2/07, o paciente permanecia sob ventilação mecânica,
traqueostomizado, levemente sedado, com quadro neurológico inalterado,
não tendo evoluído para paralisia de membros.
Toxinas botulínicas do tipo A e B
foram encontradas no soro do paciente, assim como nas sobras da torta
analisada, não se identificando se produzidas por um único tipo de
cepa (AB) ou por dois tipos (A e B).
O rastreamento realizado pela Vigilância
Sanitária apontou falhas importantes nas etapas do preparo das tortas,
e os principais pontos críticos observados foram: ausência de controle
de qualidade no recebimento e utilização das matérias-primas;
resfriamento do recheio em temperatura ambiente por tempo prolongado em
suas várias etapas de preparação; conservação do produto acabado em
temperatura inadequada por tempo prolongado e ausência de informação
sobre o modo de conservação e consumo do produto (como reaquecer antes
de consumir). Além de problemas sanitários estruturais, o
estabelecimento não possuía manuais de boas práticas e não utilizava
os procedimentos de HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de
Controle) ou outro processo de controle de qualidade e inocuidade na
preparação e armazenamento. Não havia registro de procedimentos
realizados, medições de temperatura e outros controles necessários
para garantir a segurança dos alimentos. Foram encontradas conservas em
latas amassadas e armazenadas inadequadamente.
O estabelecimento foi prontamente
interditado pela Vigilância Sanitária do município. A investigação
prossegue visando o rastreamento da origem dos ingredientes componentes
da torta, inclusive da procedência e condições de produção da
conserva industrializada de palmito.
Não foram identificados outros
casos semelhantes na região que pudessem ter ocorrido em decorrência
de consumo dessas tortas.
Discussão
O botulismo alimentar em São Paulo apresenta baixa incidência – cerca de 1 caso/ano,
considerando-se os casos investigados a partir de 1999, ano em que a
doença tornou-se de notificação obrigatória no Estado.
Apesar da baixa incidência, os casos registrados foram muito graves
(exceto um caso leve), exigindo internação prolongada em UTI e, também,
um longo tempo para recuperação. Um óbito registrado e um com lesão
cerebral definitiva por parada cardiorrespiratória, antes da admissão
hospitalar, mostram essa gravidade e refletem, além dos danos à saúde,
os custos elevados que a doença também pode produzir para o paciente e
seus familiares, para o sistema de saúde e para a sociedade em geral.
Pode-se afirmar que o botulismo, na atualidade, é
uma doença rara em todo mundo, devido à melhoria de práticas e
processos de fabricação e conservação dos alimentos, que impedem a
sobrevivência de esporos e/ou germinação de esporos e produção de
toxinas no alimento. Entretanto, métodos inadequados de preparação e
conservação de alguns alimentos persistem ao longo do tempo, sendo
praticados não apenas em ambiente doméstico, mas em estabelecimentos
comerciais, propiciando condições para o desenvolvimento da toxina.
Persiste uma noção popular de que os alimentos assados não oferecem
riscos e, por isso, podem permanecer fora da geladeira, o que pode
contribuir para o desenvolvimento de vários tipos de toxinas e
microorganismos.
As falhas encontradas no processo de produção da torta podem ter sido
determinantes na ocorrência dos seguintes fatores: contaminação
inicial da matéria-prima por esporos; tempo e temperatura insuficientes
para a destruição dos esporos; germinação dos esporos e multiplicação
de células vegetativas; produção da toxina termolábil e a não
destruição da toxina. Além disso, o paciente consumiu a torta de
frango sem reaquecimento e, embora tenha armazenado o produto na
geladeira de sua casa até o momento do consumo, não havia qualquer
tipo de informação na embalagem sobre validade, modo de conservação
e de consumo do produto.
Cabe destacar que, no caso em questão, a suspeita clínica de botulismo
foi feita de forma rápida, possibilitando que o soro fosse aplicado em
tempo oportuno para impedir a progressão e agravamento do quadro.
A decisão pela aplicação de soro se apóia em dados clínicos, pois o
soro beneficiará o paciente somente se administrado precocemente,
impedindo a progressão do quadro. Ressalta-se que os testes diagnósticos
de toxina, realizados em camundongos, podem levar até 96 horas para a
conclusão final, tempo em que o soro não mais beneficiará o paciente,
pois as toxinas teriam sido absorvidas pelas terminações nervosas3,8.
Ainda que todos os casos anteriores de botulismo registrados no Estado
de São Paulo tenham sido devido à toxina A, e sua maioria tenha
recebido soro monovalente A, cautelarmente foi optado pela liberação
do soro antitoxina botulínica A e B, devido à gravidade do caso.
A decisão mostrou-se acertada, pois, além da aplicação oportuna, a
toxina botulínica identificada no teste de bioensaio foi do tipo A e B,
sendo o primeiro registro deste tipo de toxina no Estado de São Paulo.
Este caso, mais uma vez, mostra exemplarmente a importância de os serviços
de saúde estarem atentos
aos quadros neurológicos de início súbito que evoluem para flacidez
muscular em adultos ou crianças anteriormente sadios, sintomas que
podem indicar tratar-se de botulismo. A notificação rápida às autoridades de saúde permite investigações
epidemiológicas imediatas, que podem prevenir outros casos e
possibilitar a identificação de fatores de risco para a doença, bem
como medidas sanitárias mais adequadas.
O soro antibotulínico, no Estado de São Paulo, deve ser solicitado à
Central de Vigilância Epidemiológica do CVE/Centro de Referência do
Botulismo (0800-0555 466), que fornece orientações para esta obtenção
a partir da discussão detalhada do caso suspeito, bem como sobre os
procedimentos para coleta de amostras para os exames laboratoriais específicos,
entre outros aspectos para garantir o diagnóstico, tratamento,
investigação das causas, medidas de controle e prevenção de novos de
casos.
Conclusões
A maioria dos casos confirmados de botulismo no Estado de São Paulo foi
associada a produtos industrializados e a preparados no comércio de
alimentos. Apesar da baixa incidência, a tendência apresentada mostra
que a doença permanece como de importância em saúde pública,
principalmente porque os alimentos implicados são produzidos em âmbito
comercial e de distribuição em grandes quantidades, situação
potencial de risco para surtos de maiores proporções.
Este foi o segundo registro de caso de botulismo causado por torta
produzida em estabelecimento comercial, no Estado, impondo constantes
desafios à Vigilância Sanitária, que tem como função autorizar e
fiscalizar o funcionamento desses estabelecimentos de modo a prevenir
falhas que causem danos à saúde da população.
O caso em questão indica, também, a necessidade premente de se
ampliar as ações sanitárias com alertas, em nível municipal, quanto
aos riscos oferecidos por determinados produtos, inclusive os assados,
com recheios ou coberturas, que usualmente são conservados sem
refrigeração no balcão de venda de estabelecimentos comerciais, como
supermercados, padarias, rôtisseries etc.
Maior ênfase deve ser dada à educação em saúde para o
consumidor, seja quanto aos riscos de determinados alimentos e
requisitos a se observar no momento de adquirir produtos preparados ou
quanto aos cuidados de conservação e consumo dos mesmos em casa, para
se evitar doenças como o botulismo, diarréia e outras intoxicações.
Agradecimentos
Ao Hospital São Paulo/EPM/Unifesp, à equipe de Supervisão de Vigilância
em Saúde Jabaquara/Vila Mariana e à Subgerência de Alimentos da
Coordenação de Vigilância em Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde
de São Paulo.
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