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Justificativa
Desde
a descoberta do herpesvírus humano 8 (HHV-8)
como agente etiológico de todas as
formas de sarcoma de Kaposi (SK), vários estudos sorológicos vêm
sendo conduzidos para determinar populações de risco para adquirir
e/ou transmitir esta infecção viral.
No Brasil, a maioria dos
trabalhos publicados se refere à prevalência da infecção pelo HHV-8
na população geral e em populações expostas a risco epidemiológico.
Em São Paulo, vários estudos foram realizados e mostraram taxas
variando de 0 a 30%: em população sadia de banco de sangue,
profissionais da área da saúde e populações de regiões urbanas
foram detectadas taxas de até 8%, enquanto nos homossexuais masculinos,
HIV soropositivos de mais de 30%. Já em população
urbana da cidade de Belém (PA) foi detectada taxa de 16,3% de infecção
por HHV-8. Em estudo recente
conduzido com população indígena da Amazônia brasileira a prevalência
de infecção por HHV-8 foi superior a 50%.
No entanto, o único
trabalho que se tem conhecimento sobre a prevalência de infecção por
HHV-8 na população de doadores e receptores de transplante renal foi o
realizado por Gomes,
em 2003, no Hospital do Rim e Hipertensão de São Paulo. Ainda assim,
se faz necessário confirmar estes resultados ampliando a casuística
deste e acrescentando outros centros de diálise e de transplante de órgãos
do País.
O estudo da prevalência
de anticorpos anti-HHV-8 no grupo de pacientes renais crônicos,
submetidos ou não (grupo controle) à hemodiálise ou diálise
peritoneal, possibilitará conhecer o potencial de transmissão viral
através desses procedimentos e monitorar os pacientes soropositivos.
Ainda, poderá auxiliar na adequação do tratamento imunossupressor,
evitando assim o surgimento do SK e outras doenças associadas ao HHV-8
e a rejeição do transplante.
Apesar de existir uma
preocupação das autoridades brasileiras quanto ao sarcoma de
Kaposi-Aids,
a sorologia para o HHV-8 não é realizada de rotina nos bancos de
sangue e nas filas de transplante de órgãos. Devido à gravidade das
doenças relacionadas ao HHV-8 (sarcoma de Kaposi e linfomas com efusão
em cavidades), cabe ao Instituto Adolfo Lutz, enquanto laboratório de
saúde pública, prestar mais este serviço à população, como um
primeiro passo para uma estratégia profilática. A partir dos
resultados obtidos será avaliada a necessidade de se introduzir a
sorologia para o HHV-8 pelo SUS na bateria de testes sorológicos
realizados mensalmente, como acompanhamento nos centros de diálise e
nos exames pré-transplante renal.
Introdução
Em
1994 o herpesvírus humano tipo 8 (HHV-8) foi identificado como agente
etiológico do sarcoma de Kaposi (SK), e, posteriormente, de
linfoma de efusão em cavidades (PEL) e da doença multicêntrica de
Castleman associada à Aids (MCD-Aids).
O SK iatrogênico é uma variante clínico-epidemiológica do SK, que acomete
indivíduos sob terapia corticosteróide ou imunossupressora,
principalmente pós-transplante renal.
Alguns trabalhos relataram que pacientes submetidos a transplante renal
tinham cerca de 400-500 vezes mais chance de desenvolver o SK do que a
população geral. Outros evidenciaram que
a infecção pelo HHV-8 é mais comum em casos de transplante renal do
que em outros transplantes sólidos.
O SK iatrogênico pode
ocorrer também por vírus pré-existente no paciente, que é reativado
devido ao tratamento imunossupressor introduzido para evitar a rejeição
do órgão transplantado.
Em um artigo foi relatado que em pacientes que apresentavam anticorpos
anti-HHV-8, antes ou depois do transplante renal, 68% desenvolveram o SK,
sendo que 3% deles eram soronegativos antes do transplante. Em estudo semelhante,
conduzido na Suíça, foi demonstrado que houve soroconversão para o
HHV-8 em 12,1% dos pacientes (6,4 % dos receptores já eram
soropositivos e, após o transplante, 17,7% dos pacientes mostraram
resultado positivo).
Em relato sobre pacientes
em hemodiálise em Taiwan, 19,5% apresentaram sorologia positiva para o
HHV-8. Essa alta incidência de infecção pelo HHV-8 sugere que pode
ocorrer transmissão através da diálise peritoneal e hemodiálise. Porém, até
a presente data não foi efetivamente demonstrada transmissão do HHV-8
pela hemodiálise, embora alguns estudos tenham apontado o sangue como
veículo de transmissão viral.
Objetivo
Determinar a prevalência de anticorpos anti-HHV-8 em pacientes renais crônicos,
em hemodiálise em unidade de diálise de São Paulo.
Casuística e métodos
Grupo de indivíduos em hemodiálise:
estudo transversal com 70 amostras de soro provenientes de pacientes
que realizam hemodiálise na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
(São Paulo, SP) e, em sua maioria, estão em fila de transplante renal.
Estas amostras foram obtidas por conveniência, quando da realização
mensal de avaliação do perfil sorológico dos pacientes para hepatite
e Aids. Foram obtidas informações sobre idade, sexo, cor/raça, origem
étnica, número de transfusões, número de transplantes renais e tempo
de diálise, através de um questionário aplicado pela aluna, e foi fornecida uma explicação sobre o objetivo da pesquisa e obtido
o consentimento informado. Não houve risco algum e nem
desconforto maior ao paciente.
Foi coletado cerca de 1 mL
de soro de cada um dos pacientes. As amostras de sangue foram
encaminhadas para a Seção de Imunologia do Instituto Adolfo Lutz para
a análise. Foi mantido sigilo sobre a identidade dos pacientes que
foram identificados por números.
Reação de Imunofluorescência Indireta (IFI): para pesquisa de
anticorpos anti-HHV-8 dirigidos a antígenos de fase latente da infecção
viral (LANA) foram utilizadas células de linhagem celular obtida de
linfoma de células B com efusão em cavidades (BCBL-1), latentemente
infectadas pelo HHV-8, soro de pacientes diluídos a partir de 1:50,
conjugado anti-IgG humano marcado com fluoresceína e contracoloração
com azul de Evans, segundo técnica otimizada no Instituto Adolfo Lutz
Central, designada Imunofluorescência Indireta ao Antígeno LANA do HHV-8
(IFI-LANA),
e células BCBL-1 estimuladas com éster de forbol para a detecção de
antígeno de fase lítica da infecção viral, segundo técnica descrita
por SMITH et al., em 1997, e
adaptada na Seção de Imunologia do IAL, denominada Imunofluorescência
Indireta ao Antígeno Lítico do HHV-8 (IFI-Lítico).
As lâminas foram lidas em
um microscópio de fluorescência geralmente por três pessoas, mas no mínimo
por duas pessoas.
Os critérios de
positividade foram os seguintes:
-
IFI-Lítico:
padrão de fluorescência verde-maçã intenso de membrana (nuclear e
externa), às vezes difuso por toda a célula, em aproximadamente 30%
das células.
-
IFI-LANA:
padrão de fluorescência verde intenso com padrão nuclear pontilhado,
em aproximadamente 90% das células.
Foi considerada como título
a maior diluição do soro que resultou positivo.
O critério de
negatividade foi o seguinte:
Resultados
A
população compreendeu 40 homens e 30 mulheres com idade variando entre
9 e 82 anos. Trinta e cinco (50%) eram de cor branca, 34 (48,6%) de cor
parda/negra e 1 (1,4%) amarela. Dos 70 pacientes, 41 (58,6%) haviam
recebido transfusão sangüínea e 15 (21,4%) tinham se submetido a
transplante renal, sem sucesso.
A sorologia para o HHV-8
resultou reagente em 16 casos (22,9%): cinco soros resultaram positivos
para anticorpos contra antígenos de fase latente viral, oito para
anticorpos contra antígenos de fase lítica viral e três para
anticorpos de ambas as fases de replicação viral.
Comparando-se
os resultados obtidos nos 16 casos HHV-8 soropositivos e a população
total, foi observado maior número de casos de infecção pelo HHV-8 na
raça parda/negra (68,8%), em poli-transfundidos (75%) e transplantados
renais (56,3%).
Tabela. Características da população HHV-8 soro reagente.
|
DADOS
EPIDEMIOLÓGICOS
DADOS SOROLÓGICOS
|
|
Idade
|
Cor
|
Sexo
|
TS
|
TX
|
IFI-LANA*
|
IFI-Lítico*
|
|
56a
|
Negra
|
M
|
Não
|
Não
|
1:3200
|
1:1600
|
|
19a
|
Parda
|
M
|
Sim
|
Sim
|
-
|
1:200
|
|
48a
|
Negra
|
F
|
Sim
|
Sim
|
1:1600
|
1:400
|
|
24a
|
Branca
|
F
|
Sim
|
Sim
|
-
|
1:400
|
|
52a
|
Negra
|
M
|
Sim
|
Sim
|
-
|
1:800
|
|
|
Parda
|
M
|
Sim
|
Sim
|
-
|
1:100
|
|
29a
|
Parda
|
M
|
Não
|
Não
|
-
|
1:800
|
|
66a
|
Branca
|
F
|
Sim
|
Não
|
1:100
|
-
|
|
18a
|
Parda
|
M
|
Sim
|
Sim
|
1:800
|
-
|
|
44a
|
Parda
|
M
|
Não
|
Não
|
1:1600
|
-
|
|
55a
|
Branca
|
M
|
Não
|
Não
|
-
|
1:100
|
|
54a
|
Branca
|
M
|
Sim
|
Não
|
-
|
1:100
|
|
09a
|
Branca
|
M
|
Sim
|
Sim
|
1:3200
|
-
|
|
35a
|
Negra
|
M
|
Sim
|
Sim
|
1:50
|
-
|
|
65a
|
Negra
|
F
|
Sim
|
Não
|
-
|
1:100
|
|
40a
|
Negra
|
F
|
Sim
|
Sim
|
1:400
|
1:800
|
Legenda: M (masculino); F
(feminino)
TS (transfusão sangüínea)
TX (transplante)
* Maior diluição do soro com resultado reagente
(título)
Conclusão
Os
resultados obtidos mostram percentual elevado de infecção por HHV-8
(22,9%) em pacientes em hemodiálise de São Paulo. Ressaltam que
transfusões sangüíneas e transplante prévio podem ser fatores de
risco para adquirir esta infecção viral, e que indivíduos de cor
parda/negra são mais susceptíveis.
Tais
resultados podem estar refletindo as características gerais da população
atendida nesta unidade de saúde; portanto, mais estudos estão sendo
conduzidos em outra unidade de diálise de São Paulo, com vistas a
confirmar os resultados obtidos.
Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o
SUS 2006
O presente
trabalho foi escolhido como o melhor na categoria Especialização do Prêmio
de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o SUS 2006, do Ministério da
Saúde, após passar por duas etapas de classificação. A distinção
visa promover a produção científico-tecnológica, com alto potencial
de aplicação ao SUS, e reconhecer o mérito científico dos
pesquisadores, estudiosos e profissionais de saúde e áreas afins. No
âmbito da ciência e tecnologia, o Ministério da Saúde desenvolve
diversas atividades de geração, difusão e aplicação de novos
conhecimentos, buscando atender às necessidades do SUS e aproximar as
inovações científicas e o desenvolvimento tecnológico das ações de
prevenção e controle dos problemas de saúde que acometem a população
brasileira. A relação completa dos premiados está disponível no site do
Ministério da Saúde (www.saude.gov.br).
A monografia será publicada no começo de 2007, na Biblioteca Virtual em
Saúde (www.saude.gov.br/bvs).
Agradecimentos
Aos médicos Dr. Pedro Jabur, Dr. José Ferraz de
Souza e Dra. Ivoty Alves dos Santos Sens, do Departamento de Nefrologia
da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. À pesquisadora científica Dra. Elizabeth de Los Santos
Fortuna, da Seção de Imunologia, do Instituto Adolfo Lutz. Às enfermeiras Maria
Helena Caetano Franco, Patrícia de Oliveira Castro e Daniela Priscila
Denetrio.
Suporte
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) e Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap).
Referências bibliográficas
- Carbone PH. Pesquisa de anticorpos
dirigidos a antígenos de fase latente e lítica do herpesvírus
humano tipo 8 (HHV-8): prevalência em populações sob risco
epidemiológico e em população sadia de São Paulo [Dissertação
de Mestrado]. Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade
de São Paulo, 2002. São Paulo.
- Gomes PS. Avaliação
as soroprevalência de herpesvírus humano 8 (HHV-8, vírus
associado ao sarcoma de Kaposi) em doadores e receptores de
transplante renal. [Dissertação de Mestrado]. Universidade Federal
de São Paulo – Escola Paulista de Medicina. 2003. São Paulo.
- Mendez JC, Paya CV. Kaposi's sarcoma and transplantation. Herpes
7: 18-23, 2000.
- Farge D, Lebbé C, Marjanovic Z, Tuppin
P, Mouquet C, Peraldi M-N, Lang P, Hiesse C, Antoine C, Legendre C,
Bedrossian J, Gagnadoux MF, Loirat C, Pellet C, Sheldon J, Golmard
J-L, Agbalika F, Schulz TF. Human herpes virus-8 and other risk factors for Kaposi's sarcoma in
kidney transplant recipients. Transplantation 1999; 67:1236-1242.
- Dollard SC, Nelson KE, Ness PM, Stambolis V, Kuehnert MJ, Pellet PE,
Cannon MJ. Possible transmission of human herpesvirus-8 by blood
transfusion in a historical United States cohort. Transfusion 2005; 45:500-503.
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