|
Sabe-se que a redução da transmissão vertical do HIV e a eliminação
da sífilis congênita podem ser alcançadas se estes agravos forem
diagnosticados e tratados e/ou prevenidos durante o pré-natal. A taxa
de infecção da transmissão vertical do HIV pode chegar a 1%1
e a sífilis congênita é uma doença que pode ser totalmente evitada,
se a mãe e o seu parceiro sexual forem diagnosticados e tratados
adequadamente2.
No
entanto, apesar das estratégias tanto para a redução da transmissão
vertical do HIV quanto para a eliminação da sífilis congênita
estarem centradas e garantidas no mesmo período da assistência ao pré-natal
das mulheres gestantes, observa-se que os resultados esperados não são
os mesmos para estes dois agravos3.
A taxa de infecção da transmissão vertical do HIV
no Estado de São Paulo apresentou uma queda de 9,4% no ano de 2000 para
2,4% em20024,5, enquanto a sífilis congênita apresentou um
aumento na notificação de casos: 797 casos em 1998 para 1.026 em 20036,
isto é, um aumento de 29%.
Frente a essa desigualdade de expressão epidemiológica e de priorização
do ponto de vista político destas duas condições, é necessária e
urgente uma priorização no enfoque da sífilis na gestante, um agravo
que tem diagnóstico e tratamento disponíveis, mas que vem se mostrando
um incômodo desafio para a saúde pública.
A sífilis congênita é a infecção do feto pelo Treponema pallidum, em razão da passagem dessa bactéria pela
placenta. É, portanto, a transmissão do treponema da mãe para o
filho. Tal infecção pode provocar aborto ou a morte do bebê, quando
este nasce gravemente enfermo. Quando não há óbito da criança ou
quando o diagnóstico não é feito, seqüelas como cegueira, surdez,
retardo mental e deformidades físicas podem ser observadas2.
A sífilis é uma doença de elevada magnitude: no estudo sentinela
realizado em 20047 em uma amostra representativa de
parturientes, de 15 a 49 anos de idade, no Estado de São Paulo,
observou-se uma taxa de prevalência de 1,6% para sífilis ativa, com
uma estimativa de cerca de 10.400 parturientes com sífilis e de 2.600
nascidos vivos com sífilis congênita (considerando uma taxa de
transmissão vertical de 25%) ao ano.
Embora de notificação compulsória desde 19868, foram
notificados ao sistema de vigilância epidemiológica do Estado de São
Paulo, no período de 1998 a junho de 20066, apenas 7.058
casos de sífilis congênita, demonstrando, assim, os possíveis
subregistros e subdiagnósticos desse agravo. Entre os casos notificados
no período de 2001 a 20056, 76,3% das mães freqüentaram o
pré-natal, sendo que 59% foram tratadas durante a gravidez e apenas 13%
tiveram os seus parceiros sexuais tratados. Sem considerar o percentual
de informações ignoradas, tais indicadores refletem a baixa qualidade
do pré-natal no País e/ou a pouca importância que os profissionais de
saúde, sejam gestores ou aqueles diretamente envolvidos no atendimento,
têm dado ao diagnóstico e ao tratamento da sífilis, principalmente na
gravidez.
Esses indicadores apontam para um problema de grande magnitude, com a
necessidade de implementação de ações eficazmente direcionadas à
eliminação da sífilis congênita.
Como elemento fundamental para seu enfrentamento, as ações de prevenção
precisam ser reforçadas na assistência ao pré-natal e ao parto, com a
triagem laboratorial de todas as gestantes no pré-natal (na primeira
consulta e no início do terceiro trimestre) e no parto, com o conseqüente
tratamento oportuno e adequado e também do seu parceiro sexual.
O Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo implantou a Notificação
Compulsória de Sífilis em Gestante a partir da Resolução SS-59 de
22/7/2004, uma importante estratégia de controle da sífilis na gestação.
A inclusão da sífilis na gestação como doença sexualmente transmissível
de notificação compulsória justifica-se por sua elevada taxa de
prevalência e elevada taxa de transmissão vertical, que varia de 30% a
100% sem o tratamento ou com tratamento inadequado2.
Quando a sífilis é diagnosticada em uma gestante o tratamento deve ser
iniciado de imediato9. Os parceiros também devem ser
tratados, principalmente para evitar uma possível reinfecção da
gestante9. Algumas maternidades executam uma estratégia
bastante oportuna e eficaz, que é a de tratar o parceiro sexual após
consultar e discutir com a parturiente/puérpera esta possibilidade. O
diagnóstico da sífilis na parturiente ou na puérpera não impedirá o
caso de sífilis congênita, e o recém-nascido terá de ser submetido
ao tratamento com dez dias de penicilina cristalina ou procaína9.
Enquanto para o tratamento e/ou profilaxia do HIV são administradas
drogas antiretrovirais na gestação, por via oral, e há necessidade de
um trabalho de adesão junto às mulheres, já que estas drogas são
utilizadas ao longo de toda a gestação, o tratamento para a sífilis
é realizado eficazmente e simplesmente com a penicilina benzatina10,
que pode e deve ser administrada na unidade básica de saúde.
A
eliminação da sífilis congênita requer insumos de baixo custo que
precisam ser garantidos, assim como a qualificação dos recursos
humanos envolvidos na assistência pré-natal, momento crítico para a
prevenção da doença.
É de fundamental importância a priorização da sífilis na gestação,
com o envolvimento das Áreas Técnicas da Atenção Básica, da Mulher,
da Criança e DST/Aids em todos os níveis, e a inclusão do tema na
agenda dos gestores, pois o agravo tem diagnóstico e tratamento disponíveis
e de baixo custo. Mas ainda permanece, como já foi dito, um incômodo
desafio para a saúde pública.
A sífilis não tratada durante a gestação resulta em uma considerável
proporção de mortes fetais e neonatais precoces11,
agravando o quadro epidemiológico da sífilis congênita. Toda esta
situação descrita aponta para a necessidade urgente da qualificação
da atenção pré-natal, com garantia dos insumos necessários específicos
para a sífilis, momento crucial para se atingir a meta de eliminação
do agravo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a doença é
eliminada quando existe a ocorrência de menos de um caso para cada
1.000 nascidos vivos – esta é a meta do Ministério da Saúde e,
conseqüentemente, do Estado de São Paulo.
O Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo propõe que todo caso
diagnosticado e notificado de sífilis congênita seja investigado, a
fim de que sejam detectadas todas as oportunidades perdidas para que
esta gestante e seu parceiro sexual tivessem sido adequadamente
diagnosticados e tratados. A identificação destas oportunidades
perdidas deverá orientar os devidos planejamento, monitoramento e
avaliação das ações necessárias para o controle deste agravo, que
vem demandando novas estratégias de enfrentamento.
No Estado de São Paulo pretende-se amadurecer a ampliação do debate
nos vários segmentos da sociedade envolvidos com este enfrentamento,
diminuindo o estigma em relação às doenças sexualmente transmissíveis,
para que a sífilis se torne mais visível como um problema para a
população em geral e para os profissionais de saúde, e que isto
contribua para o tão almejado alcance da eliminação da sífilis
congênita.
Referências bibliográficas
-
Mofenson
LM, Munderi P. Safety of antiretroviral prophylaxis of perinatal
transmission for HIV-infected pregnant women and their infants. J
Acquir Immune Defic Syndr., 2002; 30:200-15.
-
Berman SM. Maternal
Syphilis: Pathophysiology and Treatment. Bull World Health
Organization 2004; 82: 433-8.
-
Matida LH, Gianna
MC, Gonçalves A, Tayra A, Succi RCM. Transmissão Vertical do HIV e
da Sífilis: Avanços no Controle do HIV e Descompasso no Controle
da Sífilis Congênita VI Congresso Brasileiro de Epidemiologia. 19
a 23 de Junho de 2004.
-
Succi
RCM., Grupo
Brasileiro de Estudo para Avaliar a Transmissão Vertical do HIV.
Estudo Multicêntrico para Avaliação da Taxa de Infecção da
Transmissão Vertical do HIV. XXXII Congresso Brasileiro de
Pediatria, São Paulo, Brasil, Outubro de 2003 [Resumo OR 840].
-
Matida
LH, Silva MH, Tayra A, Succi RCM, Gianna MC, Gonçalves A, Carvalho
HB, Hearst N. Prevention of mother-to-child transmission of HIV in
São Paulo State, Brazil: an update. AIDS 2005; 19 (suppl
4):S37-S41.
-
São
Paulo. Secretaria de Estado da Saúde. Boletim Epidemiológico do
CRT DST/AIDS 2006. São Paulo: Divisão de Vigilância
Epidemiológica, Programa Estadual de DST/AIDS, Secretaria de Estado
da Saúde de São Paulo.
-
Szwarcwald
CL. Relatório: Primeiros Resultados do Estudo-Sentinela Parturiente
2004. Brasília: Programa Nacional de DST e Aids, Secretaria de
Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde; 2004. Disponível em:
http://www.aids.gov.br/data/documents/storedDocuments/%7BB8EF5DAF-23AE-4891-AD36-
1903553A3174%7D/%7BBDD562E2-6074-4FF5-AD12-49809803C2B5%7D/relatorio_2004_sentinela_parturiente.pdf.
(Acessado em 19/5/2006).
-
Brasil. Ministério
da Saúde. Bases Técnicas para a Eliminação da Sífilis Congênita.
Brasília: Coordenação Nacional de DST/AIDS, Secretaria de Políticas
de Saúde, Ministério da Saúde; 1993.
-
Brasil. Ministério
da Saúde. Manual de Sífilis Congênita. Brasília: Programa
Nacional de DST e Aids, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério
da Saúde; 2005.
-
Brasil.
Ministério da Saúde. Testes de Sensibilidade à Penicilina –
Manual. Brasília: Coordenação Nacional de DST/AIDS, Secretaria de
Políticas de Saúde, Ministério da Saúde; 1999.
-
Saraceni
V, Guimarães MHSF, Theme Filha MM, Leal MC. Mortalidade perinatal
por sífilis congênita: indicador da qualidade da atenção à
mulher e à criança. Cad Saúde Pública 2005; 21:1244-50.
|