Publicação Mensal sobre Agravos à Saúde Pública  ISSN 1806-4272

Susy Mary Perpetuo Sampaio, Edna Ruiz Teixeira, Ivete da Rocha Anjolete, Ligia Maria A.O. Sinatura, Elizete Rodrigues Gabriel,Cristiane Tami Onezuka e Dalva Marli Valério Wanderley 

Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), Secretaria de Estado da Saúde (SES/SP)


Resumo

A dengue, a leishmaniose visceral americana (LVA) e a proliferação de escorpiões são problemáticas relacionadas ao meio ambiente de áreas urbanas que exigem intervenção da população local para um saneamento domiciliar adequado. Foram selecionados oito municípios da Região de Presidente Prudente para  implantação da proposta de visita domiciliar integrada com ênfase no manejo ambiental, precedida de coleta de informações sobre as condições sanitárias dos imóveis que permitiram classificá-los segundo níveis de risco para ocorrência dos vetores de dengue, LVA e de escorpião. Foram visitados 48.155 imóveis para o diagnóstico inicial e elaborados 2.852 (5,92%) protocolos em imóveis críticos, com apresentação das recomendações aos moradores. Nos cinco municípios que realizaram o cotejo da classificação, foi verificada diminuição do risco entre a primeira e segunda visita, para a presença de Aedes aegypti, Lutzomyia longipalpis e escorpião. Os resultados obtidos apontam que a proposta é factível, uma vez que houve boa resolução a partir das recomendações estabelecidas, em municípios de pequeno e médio porte, que se constituem na maioria daqueles localizados na região trabalhada. Destaca-se a necessidade do compromisso das lideranças municipais em todo o processo, desde a organização da coleta dos resíduos resultantes do manejo ambiental, até a resolução de problemáticas em terrenos baldios e casas desabitadas, além do papel do Estado, por meio da Sucen, na assessoria e avaliação das ações, contribuindo em conjunto para a implementação de políticas públicas frente à situação epidemiológica das doenças de transmissão vetorial e do controle de animais nocivos.

Palavras-chave: manejo integrado, Lutzomyia longipalpis, Aedes aegypti, Tityus serrulatus  

Abstract

Dengue, Visceral Leishmaniasis (VL) and the proliferation of scorpions are related to the environment of urban areas that demand intervention of the local population in order to achieve an adjusted domiciliary sanitation. We selected eight cities of the Region of Presidente Prudente for implantation of the proposal of integrated domiciliary visit with emphasis in environmental handling, previously collecting information on the sanitary conditions of the houses allowing their classification according to levels of risk for occurrence of the vectors of dengue, VL and of scorpion. 48,155 houses were visited for the initial diagnosis and 2,852 (5.92%) protocols were elaborated, in critical houses, in which the necessary recommendations were presented to the dwellers. In the five cities that had carried through comparison of the classification, reduction was verified in the risk between first and second visit for the presence of Aedes aegypti, scorpion and Lutzomyia longipalpis. The results obtained showed that the proposal is feasible, due to the good results obtained from the established recommendations, in small and medium cities, that constitute the majority of those located in the Region. It is important to emphasize the compromise of municipal leaderships in the process, from the organization of the collection of the resulting residues and their environmentally correct handling to the resolution of problems that result from vacant lots and uninhabited houses and the role of the public administration, represented by Sucen, offering aid for the assessment, and the evaluation of actions, contributing to integrated efforts for the implementation of public politics according to the epidemiological situation of vector transmitted diseases and the control of harmful animals.

Key-words: integrated handling, Aedes aegpti, Lutzomyia longipalpis, Tityus serrulatus

Introdução

O processo de trabalho em saúde inclui uma multiplicidade de ações que visam atender às necessidades percebidas ou sentidas pelos grupos sociais, e também àquelas que os profissionais de saúde identificam como prioritárias no contexto epidemiológico local, e para as quais propõem intervenções específicas.

De acordo com o disposto na Portaria 1172 que define as competências das três esferas de governo no desenvolvimento das ações de vigilância em saúde, cabe ao Estado a coordenação e acompanhamento das ações executadas pelos municípios. Neste contexto, o Serviço Regional da Sucen de Presidente Prudente elaborou proposta de ampliação das ações de vigilância e controle vetorial, enfatizando a promoção à saúde e a identificação de fatores de risco para o estabelecimento da transmissão da leishmaniose visceral americana (LVA) humana, a dengue e a proliferação de escorpiões. Tratando-se de problemáticas relacionadas ao meio ambiente das áreas urbanas dos municípios, exigem intervenção da população local para um saneamento domiciliar adequado, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida.

Um indicador entomológico que fornece informações valiosas para o direcionamento das atividades de controle do vetor da dengue, constitui-se nos recipientes existentes, isto é, aqueles com condições de acumular água. O indicador é obtido por meio de um levantamento por amostragem de conglomerados, quarteirões, realizado pelos municípios com periodicidade trimestral, onde são pesquisadas, no mínimo, 300 edificações1. Neste levantamento também são obtidas informações sobre os recipientes pesquisados e aqueles com larvas de Aedes aegypti. Os recipientes mais freqüentemente encontrados são vasos e pratos de plantas, inservíveis como latas, potes e frascos, garrafas e aqueles não removíveis como piscinas, bebedouros de animais, lonas e outros de utilidade para o morador. Pneus e caixas d’água, apresentaram maiores percentuais de positividade para A. aegypti  em relação aos outros tipos.

A LVA é uma infecção zoonótica que afeta animais e o homem. No Estado de São Paulo, vem se verificando um processo de expansão da doença, a medida em que o principal vetor, Lutzomyia longipalpis, se adapta ao ambiente doméstico, onde a oferta de resíduos sólidos orgânicos em locais com umidade e sombreamento e com disponibilidade de fonte de alimentação, principalmente a canina; considerada como a principal fonte de infecção, é abundante2 .

A análise da situação entomológica permitiu classificar as Regiões do Estado em vulneráveis, com transmissão, em investigação e aquelas receptivas, onde já foi detectado o vetor. O programa de controle da LVA contempla ações de vigilância epidemiológica, baseadas na detecção e tratamento oportuno dos casos humanos; vigilância entomológica e controle vetorial; e controle da população canina infectada. O controle vetorial vem sendo implementado por meio de atividades de saneamento ambiental, que visam reduzir os locais prováveis de criação do vetor, ou do seu repouso. Estas ações estão embasadas no manejo do ambiente por meio da retirada de matéria orgânica em decomposição no peridomicilio, poda de galhos e arbustos3 .

Na perspectiva de prevenção da ocorrência de LVA, ações de vigilância entomológica foram desenvolvidas na Região de Presidente Prudente, em municípios vulneráveis, ou seja, aqueles com possibilidade de introdução da fonte de infecção, resultando no encontro de Lu. longipalpis em 12 deles,  tendo sido constatada a ocorrência de transmissão canina em quatro deles e da canina e humana em dois.

No que respeita a problemática do escorpião, em todos os municípios foi detectada a presença da espécie de Tityus serrulatus, aracnídeo que provoca acidentes graves, tendo uma média de 50 notificações/ano por este animal peçonhento.

A proposta implementada na Região teve como objetivo racionalizar as atividades desenvolvidas e se constituiu numa reorganização do processo de trabalho em controle de vetores, levando em conta a análise dos problemas e a compreensão das necessidades de saúde dos diversos grupos da população, com ampliação da discussão para a transformação das práticas enfatizando o território local4. Para tanto, foi realizado um levantamento das condições sanitárias dos domicílios relacionadas com vetores de dengue e LVA, e de escorpiões, e, com base neste levantamento, os agentes de controle de vetores orientaram a população para a prática de ações de manejo ambiental e de controle mecânico integradas, visando a promoção à saúde e prevenção de riscos ambientais, por meio do planejamento,  organização, realização e monitoramento de atividades para a manipulação e/ou modificação de fatores ambientais ou a sua interação com o homem, a fim de prevenir ou minimizar a propagação de vetores ou diminuir o contato homem-vetor-patógeno.

Metodologia

A Região de Presidente Prudente possui uma população total de 682.823 habitantes em 45 municípios, dos quais 75% destes, inferior a 20.000 habitantes. Na primeira etapa, foi iniciado o planejamento para operacionalizar a proposta em conjunto com a equipe gerencial municipal e definir a programação das ações considerando a delimitação do problema, capacidade de acompanhamento, recursos necessários para enfrentá-los e analisar a forma de comunicação social para mobilização da comunidade com vistas a sua incorporação ao processo de execução das práticas de promoção.

Na etapa inicial do trabalho foram envolvidas as lideranças municipais de oito municípios; Vigilância Epidemiológica, Vigilância Sanitária, Secretaria de 0bras, Conselho Municipal de Saúde, Controle de Vetores e Veterinários, no diagnóstico da problemática de LVA e dengue e de acidentes por escorpião. Foi realizada uma avaliação dos indicadores entomológicos disponíveis com base na bioecologia dos vetores; discutida a posse responsável de animais domésticos, resultando na elaboração da proposta de visita domiciliar integrada com ênfase no manejo ambiental, de acordo com as normas estabelecidas pelas diretrizes técnicas adotadas no Estado de São Paulo1,5,6 .

A etapa seguinte consistiu da capacitação dos supervisores e do profissional de Informação, Educação e Comunicação e das equipes de campo dos municípios e da Sucen para a realização das atividades e coleta das informações que permitiram realizar: a classificação dos locais com probabilidade de servirem de criadouros para Lu longipalpis e de fontes de alimentação; presença de criadouros de  A. aegypti; locais propícios para o encontro de escorpião.

Para a coleta dos dados, foi utilizado durante as visitas domiciliares um roteiro para classificação dos imóveis segundo níveis de risco para ocorrência dos vetores de dengue, LVA e de escorpião (Anexo1). Foi elaborado em conjunto com os municípios um Protocolo de Orientação (Anexo 2), utilizado para estabelecer  com os moradores dos imóveis com risco, prazo para implementação das recomendações e agendamento de retorno para nova avaliação.  

Anexo 1: Roteiro para subsidiar a classificação dos imóveis quanto ao risco  para os vetores e animais nocivos durante a visita domiciliar realizada pelos agentes.

1 - DENGUE: Aedes aegypti

Situação observada

Classificação

Presença de larvas em qualquer recipiente

Alto

Presença de 3 ou mais recipientes existentes

Alto

Criadouro com potencial de produção de larvas (tamanho): piscina, tanque, caixa d’água

Alto

Avaliação do número de recipientes com água e recipientes existentes (criadouro potencial)

Prato e vasos, recipiente natural, pneu;

Caixa d’água, tambor, ralo, bebedouro, calha, laje, outros fixos;

Inservíveis, outros úteis

 

Médio, Baixo, Sem Risco

 

2 - LVA: Lutzomyia longipalpis

Situação observada

Classificação

Peridomicilio associado a vegetação com sombra:  matéria orgânica em decomposição: com acúmulo de folhas,frutos,troncos,raízes e -fezes de animais domésticos em local sombreado e úmido e presença de animais (avaliar tamanho e quantidade)

Alto/Médio/Baixo/Sem risco

Peridomicilio associado a vegetação com sombra:  matéria orgânica em decomposição: com acúmulo de folhas,frutos,troncos,raízes e -fezes de animais domésticos em local sombreado e úmido e presença de animais Avaliar aspecto higiênico- animal/ambiente (avaliar tamanho e quantidade)

Alto/Médio/Baixo/Sem risco

 

3 - ARACNÍDEOS: Tityus serrulatus

Situação observada

Classificação

 Materiais de construção,madeiras,tijolos,telhas (Avaliar a quantidade e disposição no ambiente domiciliar)

Alto/Médio/Baixo/Sem risco

 

Anexo 2: PROTOCOLO DE RECOMENDAÇÕES

NOME DO PROPRIETÁRIO/RESPONSÁVEL:

NOME DE QUEM ATENDEU:                              

ENDEREÇO:

AREA:                          SETOR:                                    QUADRA:

Na inspeção realizada em ____/_____/____, foram constatadas as irregularidades a seguir, que deverão ser sanadas em _______dias.

Providências a serem adotadas

Lutzomyia longipalpis

  1. Varrer ou rastelar folhas e frutos, ensacar e colocar para coleta de lixo;

  2. Recolher fezes de animais, ensacar e colocar para coleta de lixo;

  3. Aparar grama, recolher, ensacar e colocar para coleta de lixo;

  4. Retirar folhas de vasos de plantas, canteiros e jardins, ensacar e colocar para coleta de lixo;

  5. Capinar quintal, recolher, ensacar e colocar para coleta de lixo;

  6. Eliminar ou enterrar adubo orgânico armazenado ou em produção;

  7. Colocar  uma  camada  de  areia,  pedra  ou terra na parte superior dos vasos, floreiras, canteiro de flores, etc...;

  8. Eliminar a criação de porcos e cavalos;

  9. Melhorar as condições higiênicas /atualizar vacinação de cães e gatos;

  10. Restringir o número de galinhas, patos, coelhos e outros animais (área urbana);

Aedes aegypti

  1. Remover plantas cultivadas em água, plantando-as na terra;

  2. Eliminar, furar, colocar areia ou substituir por justaposto os pratos que estão sob os vasos e xaxins;

  3. Ensacar materiais inservíveis (latas, potes, frascos, sacolinhas plástica, embalagens, etc...) e colocar para coleta rotineira do lixo/ ou coleta seletiva;

  4. Tampar caixa d’água vedando-a totalmente, inclusive e saída (ladrão);

  5. Realizar limpeza de calhas, lajes, ralos e canaletas de drenagem de água;

  6. Realizar o nivelamento adequado de lajes/calhas que apresentam pontos de acúmulo de água;

  7. Lavar e escovar bebedouros de animais pelo menos 2 (duas) vezes por semana;  

  8. Guardar  seco  e  em  local  coberto:  pneus,  garrafas,  baldes  ou  qualquer  outro  recipiente  que possa acumular água;

  9. Realizar limpeza e tratamento das piscinas;

  10. Tampar adequadamente depósito para armazenamento de água;

  11. Recipiente natural ________

Escorpião

  1. Remover madeiras, tijolos, telhas ou outros matérias que possam servir de abrigo a escorpiões.

Outros:

Classificação

1ª visita (     ) Aedes_______________ (     ) ESCORPIÃO ________________ (     )Lu.longipalpis

2ª visita (     ) Aedes_______________ (     ) ESCORPIÃO ________________ (     )Lu.longipalpis

3ª visita (     ) Aedes_______________ (     ) ESCORPIÃO ________________ (     )Lu.longipalpis

O não cumprimento das providências, ficará Vossa Senhoria sujeita às penalidades capituladas na Lei Nº 12.342, Artigo 539 e Lei Nº 10.083, Artigo 12 do Código Sanitário.

 

CIENTE ______ /______ /______                                                         SP, ______ /_____ /_____.

 

  __________________________________________      ________________________________________

ASSINATURA DE QUEM ATENDEU                                   RESPONSÁVEL PELO PREENCHIMENTO

 

A visita de retorno foi realizada 10 a 30 dias depois, pelo mesmo agente que procedeu a primeira classificação do imóvel. Em situações de resistência por parte do morador, ou quando do encontro de situações complexas, a Vigilância Sanitária municipal foi acionada e, em alguns municípios, teve papel importante para o incremento das medidas cabíveis.

Com o objetivo de avaliar a percepção dos moradores que participaram da execução das atividades, foi aplicado um questionário aos moradores do município de Martinópolis, que permitiu classificar a atividade em bom, médio ou ruim, com justificativa da classificação, sendo as respostas categorizadas, de acordo com as idéias centrais e freqüência das respostas.

Resultados

Foram visitados 48.155 imóveis para o diagnóstico inicial e preenchidos 2.852 (5,9%) protocolos em imóveis críticos, com apresentação das recomendações aos moradores (Tabela 1).  

Tabela 1 - Número de imóveis trabalhados e de protocolos entregues e % de imóveis críticos  em que a situação foi resolvida.

Municípios

População

Imóveis trabalhados

Protocolos preenchidos

Martinopólis

22.344

6831

730

Monte Castelo

4.089

1275

92

Presidente Epitácio

39.274

1099

212

Rancharia

28.776

9544

357

Tupi Paulista

13.289

4654

352

Nova Guataporanga

2087

280

57

Dracena

40.479

22.129

956

Ouro verde

7.146

2.343

96

Total

 157.484

48.155

2852

Fonte: Sucen

De uma maneira geral não foi observada queda da cobertura nas visitas casa-a-casa pactuadas na Programação Pactuada Integrada de Vigilância em Saúde – PPI-VS, para a vigilância de A. aegypti com a incorporação das outras ações integradas nestes municípios. A cobertura média foi de 84,7%, com produção diária de 20 a 28,5 visitas, enquanto o rendimento médio para as visitas de rotina para dengue é de 25 a 30 imóveis /dia. Este resultado deve-se, por um lado, à suplementação do trabalho por servidores do Estado em alguns municípios e, por outro lado, à folga operacional constatada em municípios de pequeno e médio porte que acumulam condições de cobrir a periodicidade das pesquisas casa-a-casa, com número reduzido de agentes

O protocolo de recomendação aos moradores contemplou no mínimo 22 sugestões, as quais foram incorporadas de acordo com a realidade de cada município e discussão prévia com a Secretaria Municipal de Saúde. Maior dificuldade foi observada na implementação daquelas relacionadas às fontes de alimentação do vetor da leishmaniose visceral, quanto à presença de animais em área urbana: galinha, porco, entre outros. Dificuldades também foram encontradas para o destino de cães errantes, uma vez que, à exceção do município de Dracena, não existe canil ou centro de controle de zoonoses nessa região, e na retirada de matéria orgânica dos quintais. As recomendações efetivamente realizadas foram assim distribuídas: 56,4% para as ações de manejo, principalmente aquelas relacionadas com eliminação de matéria orgânica em decomposição, como folhas, frutos e fezes em locais prováveis de procriação do Lu.longipalpis; 27,9%  para locais de abrigo para escorpião, como madeiras e tijolos e 13,1% para controle mecânico dos criadouros do  A. aegypti, na sua maioria para retirada de  inservíveis dos quintais.

Para os cinco municípios que realizaram o cotejo da classificação de risco de imóveis, antes e após a adoção das medidas recomendadas, Martinópolis, Presidente Epitácio, Monte Castelo, Tupi Paulista e Rancharia; foi verificada a existência de diferença significativa da classificação entre a primeira e segunda visita, pela utilização do teste de Wilcoxon para dados pareados e para manipulação dos dados foi utilizado o software estatístico SPSS versão 117 . Os dados foram analisados conjuntamente e organizados em forma de tabelas para melhor visualização. As hipóteses foram testadas ao nível de significância de 5%, e concluiu-se que as mudanças ocorridas nas classificações para alto, médio e baixo na 2ª visita foram estatisticamente significativas em todos os municípios.

As Tabelas 2 a 4 apontam que do total de classificação dos riscos para A aegypti, escorpião e Lu.longipalpis, da 1ª visita em relação a 2ª visita, houve redução da categoria alta e média e aumento dos imóveis classificados como baixo e sem risco.

Quanto à classificação de risco alto para as três situações, o vetor da dengue  aponta como menos contemplado, devido já ser uma endemia trabalhada pelos agentes municipais no decorrer dos anos.

Observou-se que houve um aumento dos imóveis sem risco para a ocorrência de A. aegypti de 843 na primeira visita para 1.320 na segunda, assim como a diminuição do número de imóveis com alto, médio e baixo risco (Tabela 2).

Tabela 2 - Classificação do risco de ocorrência de Aedes aegypti encontrado na 2ª visita em relação a 1ª visita realizada.

CLASSIFICAÇÃO

2ª VISITA

1ª VISITA

Alta

%

média

%

Baixa

%

Sem
risco

%

Total
1ª visita

Alta

13

12,74

7

6,86

40

39,22

42

41,18

102

Media

0

 

14

4,83

131

45,17

145

50

290

Baixa

0

 

1

0,21

157

33,19

315

66,6

473

Sem risco

0

 

0

 

25

2,97

818

97,03

843

Total 2ª visita

13

 

22

 

353

 

1.320

 

 1.708

Fonte: Sucen

Da mesma forma, houve um aumento dos imóveis sem risco para ocorrência de escorpiões, de 288 na primeira visita para 1.058 na segunda, assim como a diminuição do número de imóveis com alto e  médio risco (Tabela 3).

Tabela 3 - Classificação do risco de ocorrência de escorpião encontrado na 2ª visita em relação a 1ª visita realizada

CLASSIFICAÇÃO

2ª VISITA

1ª visita

Alta

%

média

%

Baixa

%

Sem risco

%

Total  
1ª visita

Alta

18

4,3

57

13,6

120

28,64

224

53,46

419

Media

 

 

48

5,78

343

41,27

440

52,95

831

Baixa

 

 

1

0,59

55

32,35

114

67,06

170

Sem risco

 

 

 

 

8

2,78

280

97,22

288

Total 2ª visita

18

 

106

 

526

 

1.058

 

1.708

Fonte: Sucen

Também foi constatada queda acentuada do risco dos imóveis para ocorrência de Lu longipalpis, com maior destaque para aqueles com alto risco, de 466 para 22 e médio risco, de 902 para 78 (Tabela 4).  

Tabela 4 - Classificação do risco de ocorrência de Lu.longipalpis encontrado na 2ª visita em relação a 1ª visita realizada

CLASSIFICAÇÃO

2ª VISITA

1ª visita

alta

%

média

%

baixa

%

sem risco

%

total  1ªvisita

Alta

21

4,51

33

7,08

146

31,3

266

57,8

466

Media

 

 

44

4,88

292

32,3

566

62,7

902

Baixa

1

0,45

0

 

54

24,3

167

75,2

222

Sem risco

 

 

1

0,85

8

6,7

109

92,3

118

Total 2ª visita

22

 

78

 

500

 

1.108

 

1.708

Fonte: Sucen

Quanto ao resultado do questionário aplicado no município de Martinópolis em 280 moradores,  34,6% relacionou a atividade realizada com a idéia de promoção e prevenção, 33,2% com melhoria do aspecto do ambiente domiciliar, 19,2% sentiram-se mais orientados e 12,8% destacaram a parceria do poder público municipal (Tabela 5).

Tabela 5 - Questionários aplicados a 215 moradores do município de Martinópolis

Idéia central

Justificativa

Numero

%

Promoção/Prevenção

Evita doenças/bichos/mosquitos

Segurança/proteção

Saúde/bem estar  

97

34,6

Ambiente/Organização dos quintais

Limpeza-quintal mais claro, mais bonitinho

Higiene/melhor aspecto

Conforto

93

33,2

Ação Educativa

Orientação

Participação

Consciência

54

19,2

Secretaria municipal/prefeitura

Gratuito

Recolhimento de entulho/coleta especial

Ajudou o povo

Obrigou

36

12,8

Total

 

280

 

Fonte: Sucen

Discussão

Os resultados obtidos apontam que essa proposta de atividade integrada durante a visita domiciliar, apoiada a um protocolo de orientação aos moradores de imóveis mais críticos encontra factibilidade, uma vez que houve boa resolução a partir das recomendações estabelecidas, em municípios de pequeno e médio porte, que se constituem na maioria daqueles localizados na região trabalhada.

A classificação dos imóveis para o risco de ocorrência de doenças ou acidentes exige do trabalhador em saúde um esforço para interpretar as situações observadas, e, a partir daí, elaborar a proposta de intervenção e direcionamento, esforço este acentuado pelo enfrentamento de muitos problemas que requerem ações de diferentes setores da administração municipal para serem resolvidos.

Dois aspectos importantes na implementação dessas atividades merecem ser destacados: em primeiro lugar, é necessário existir o compromisso das lideranças municipais em todo o processo, desde a organização da coleta dos resíduos resultantes do manejo ambiental até a resolução de problemáticas em terrenos baldios e casas desabitadas. E ainda, a retaguarda da Secretaria Municipal de Saúde, por meio do envolvimento de veterinário na triagem de cães suspeitos de LVA e do profissional responsável pelas atividades educativas, na conscientização dos moradores para incorporação das ações, com vistas ao manejo dos locais de risco de proliferação de vetores e animais nocivos, numa prática sustentável de organização dos espaços domiciliares buscando uma qualidade de vida mais saudável.

O segundo aspecto foi incrementar o papel do Estado, por meio da Sucen, na assessoria, avaliação das ações contribuindo para a implementação de políticas públicas frente à situação epidemiológica das doenças de transmissão vetorial e do controle de animais nocivos.

Também não é demasiado acrescentar a necessidade de ampliar o olhar do profissional, principalmente para as ações de gerenciamento, educativas e de comunicação e também o entendimento da importância do entrelaçamento das atividades desenvolvidas no espaço do próprio município, respeitando a sua realidade e estrutura, para garantia da integralidade da prática de saúde.

Referências Bibliográficas

  1. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Estado da Saúde. Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Manual de Vigilância Entomológica de Aedes aegypti. São Paulo;1997.
  2. Camargo-Neves VLF, Glasser CM, Cruz LL, Almeida RG. Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral Americana do Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria de Estado da Saúde; 2006;145p.
  3. Camargo-Neves VLF. A Leishmaniose Visceral Americana no Estado de São Paulo: situação atual. Boletim Epidemiológico Paulista-Bepa. ano 1, número 6. 2004.
  4. Teixeira CF, Pinto LL, Vilasboas AL. O processo de trabalho da Vigilância da Saúde. Anvisa Agosto. 2002. mimeo. 
  5. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Estado da Saúde. Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Normas e Recomendações Técnicas para Vigilância e Controle do Aedes aegypti no Estado de São Paulo. São Paulo; 2002.
  6. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Estado da Saúde. Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Manual de diretrizes para atividades de controle de escorpiões. São Paulo,1994.
  7. Siegel S  Estatística não paramétrica para ciências do comportamento, Bookman Cia. Ed. 1975.

 


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Rua Paula Souza, 166 – São Paulo – SP
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