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Resumo
O objetivo do estudo foi
Identificar taxa de prevalência, fatores associados e de risco para
incontinência urinária (IU) bem como impacto na qualidade de vida (QV)
em mulheres que compareceram ao programa de prevenção do câncer
ginecológico (PPCG). Para isso,
foi feito um corte transversal em 646 mulheres que procuraram o
PPCG do Hospital Oncológico no mês de Outubro/2005. A prevalência, a
gravidade e o impacto da IU na QV foram avaliados por meio do ICIQ-SF.
Fatores de risco foram identificados por estudo de regressão logística
univariada e múltipla. A idade média foi de 37,7 anos. A prevalência
geral foi de 34,8%. O ICIQ Escore da amostra foi 3,1 aumentado para 8,9
para o grupo das pacientes incontinentes. Faixa etária, escolaridade,
diabetes e hipertensão arterial estavam associadas à IU e foram
identificados como fatores de risco juntamente com o número de gestações.
Renda familiar, presença de doenças neurológicas, paridade e via de
parto não foram considerados fatores de risco nesse estudo. Mulheres
com idade maior de 60 anos têm três vezes mais chances de apresentar
IU do que as mulheres mais jovens de 40 anos e mulheres com HA têm 1,7
vezes mais chances de ter IU comparadas àquelas que não têm HA.
A IU mostrou-se altamente
prevalente nessa amostra populacional e pode ser considerada um problema
de Saúde Pública na região estudada. Os fatores de risco identificáveis
foram faixa etária, escolaridade, diabetes, hipertensão arterial e número
de gestações. De maneira geral, mulheres idosas
com hipertensão arterial, têm
alto risco de apresentarem IU.
Palavras-chave: prevenção do câncer do colo do útero, teste de
Papanicolaou, incontinência urinária, qualidade de vida, ICIQ-SF
Abstract
To identify prevalence,
associated factors and risk factors for urinary incontinence (UI) as
well as impact on quality of life (QoL) in women seeking for cancer
prevention screening. Method
of choice was cross
sectional analysis of 646 women who sought cancer prevention screening
in Oncologic Hospital in October/2005. We assessed the prevalence,
severity and impact of UI on QoL by means of International Consultation
on Incontinence Questionnaire (ICIQ-SF). Risk factors were identified by
univariate and multivariate logistic regression models. Mean age was 37,7 years.
General UI prevalence rate reached 34,8%. The ICIQ Escore from the whole
population sample was 3,1 increasing to 8,9 in the incontinent group.
Age, literacy, diabetes e hypertension were associated to UI and were
considered and identified as risk factor along with frequency of
pregnancies. Family wages per month (< 4), neurological diseases,
parity and its mode (vaginal delivery or cesarean section) were not
considered risk factors in this study. Elderly women (older than 60
years) had three times the odds of UI compared to those younger than 40
years. Women with hypertension had 1.7 the odds of UI compared to those
with no hypertension.
UI is highly prevalent among
this sample of population of our area. Furthermore, UI caused moderate
impairment on QoL of women who sought cancer screening. UI should be
considered a major public health problem in the studied area. Risk
factor identified were age, literacy, diabetes, hypertension and
frequency of pregnancy. Overall, elderly women with hypertension are at
a high risk of UI.
Key words: cervical cancer
prevention, Papanicolaou test, urinary incontinence, quality of life,
ICIQ-SF
Introdução
A IU é uma condição estressante,
incapacitante, de alto custo financeiro e que causa grande impacto
negativo em vários aspectos da qualidade de vida (QV)1. É definida
pela Sociedade Internacional de Continência (ICS) como sendo “a
queixa de qualquer perda involuntária de urina”2.
A IU é um sintoma bastante
prevalente na população em geral. HUNSKAAR et al. publicaram
dados de prevalência geral de 13 estudos em IU onde mostraram
crescentes índices durante a idade adulta jovem (prevalência de 20 a
30%), amplo pico por volta da quinta década de vida (prevalência de 30
a 40%) e aumento regular e
constante em pacientes acima de 60 anos (prevalência de 30 a 50%)3.
GUARISI et al. (2001)4 realizaram trabalho de prevalência em
IU com mulheres brasileiras. Em pesquisa epidemiológica domiciliar, 35%
das entrevistadas declaram apresentar o sintoma “incontinência urinária
de esforço”.
A falta de dados epidemiológicos
adequados sobre a prevalência de IU no Brasil, nos levou a conduzir
este estudo em uma amostra populacional composta por mulheres que
procuraram, espontaneamente, um Programa de Prevenção do Câncer
Ginecológico. Os objetivos principais foram avaliar a prevalência de
IU e o seu impacto na QV das pacientes da amostra populacional,
verificar sua associação a variáveis sociodemográficas, clínicas e
obstétricas, bem como detectar fatores de risco (FR)
relacionados.
Pacientes e Métodos
O estudo realizado foi descritivo e
exploratório, de corte transversal.
Programa de Prevenção do Câncer
Ginecológico (PPCG)
Durante o mês de outubro de 2005, todas as mulheres
que procuraram o PPCG do Hospital Oncológico de nossa região para
coleta de Exame Papanicolaou foram
incluídas no estudo, com exceção das gestantes.
O
PPCG oferece atendimento durante 40 horas semanais e recebe pacientes
que se cadastravam nos postos fixos ou itinerantes.
O PPCG oferece atendimento durante 40 horas semanais e
recebe pacientes que se cadastravam nos postos fixos ou itinerantes.
O PPCG foi estruturado em níveis:
-
Primário : postos de atendimento fixos e itinerantes;
-
Secundário: ambulatório de ginecologia preventiva;
-
Terciário:
atendimento de pacientes com lesão invasiva.
O estímulo à participação das mulheres no
PPCG é feito por meio de campanhas educativas de massas, integração
de profissionais de saúde do Programa em grupos e instituições que
já realizam reuniões regularmente, como igrejas, associações de
moradores, grupos de mães de alunos, realizando palestras.
Coleta de dados
A coleta dos dados foi realizada por enfermeiras
treinadas para esse fim e que utilizaram questionário composto por
questões sociodemográficos e clínicas. O Termo de Consentimento Pós-Informação
era lido e, após aceitação espontânea, incluía a paciente no
estudo. A forma preferencial de coleta dos dados foi o autopreenchimento
dos questionários, mas a equipe de enfermagem lia o mesmo em casos de a
paciente não ser alfabetizada e ainda auxiliava quando as pacientes
apresentavam dificuldades de compreensão das questões.
Avaliação da Incontinência Urinária e Qualidade de Vida
Para
avaliação do estado de continência urinária a paciente era
solicitada a preencher o “International Consultation on Incontinence
Questionnaire – Short Form” (ICIQ-SF), instrumento breve,
traduzido para o Português, que teve suas propriedades psicométricas
como validade, confiabilidade e responsividade previamente testadas5,6. O ICIQ-SF é composto por três questões relacionadas
à freqüência, gravidade da perda urinária e seu impacto na QV. Uma
escala de oito itens que possibilita avaliar as causas ou situações de
perda urinária completa o mesmo (Anexo). O ICIQ Escore (ICIQ E) é
a soma dos escores das questões três, quatro e cinco e varia de 0 a
21. O impacto na QV foi definido de acordo com o escore da questão 5:
(0) nada; (1-3) leve; (4-6) moderado; (7-9) grave; (10) muito grave13.
Para fins estatísticos, foram
criados dois sub-grupos relacionados ao resultado do ICIQ E:
(A)
Pacientes com IU (3≥ ICIQ E ≤21) .
(B)
Pacientes
continentes (ICIQ E = 0);
Após essa fase, as pacientes eram submetidas ao Exame
de Papanicolaou de rotina.
O Comitê de Ética do Hospital Oncológico aprovou o
projeto de pesquisa.
Anexo 1

Estudo da associação de algumas
variáveis à IU e Pesquisa de Fatores de Risco (FR)
Foi avaliada a presença, ou não,
de queixa de IU e sua associação com algumas variáveis sociodemográficas
(idade, escolaridade, renda familiar), clínicas
(Diabetes mellitus Tipo II (DM), Hipertensão Arterial (HA), Doença
neurológica atual) e obstétricas (número de gestações, partos
vaginais, partos cesarianos e abortos). Pesquisou-se também a presença
de Fatores de Risco (FR) relacionados à IU.
Metodologia Estatística
Para verificar associação ou
comparar proporções foi utilizado o teste Qui-quadrado ou teste Exato
de Fisher, quando necessário.
Para comparação de medidas contínuas ou ordenáveis
entre 2 grupos foi utilizado o teste de Mann-Whitney e, entre 3 ou mais
grupos, o teste de Kruskal-Wallis.
Como medida da Consistência Interna foi aplicado o
coeficiente Alfa de Cronbach. Esse coeficiente é utilizado para
verificar a homogeneidade dos itens, ou seja, sua acurácia. Como regra
geral, a acurácia não deve ser menor que 0,80 se a escala for
amplamente utilizada, porém valores acima de 0,60 já indicam consistência
entre os itens.
Para identificar fatores de risco para a incontinência
urinária foi utilizada a análise de regressão logística univariada e
múltipla.
O nível
de significância adotado para os testes estatísticos foi de 5%.
Resultados
Durante o mês de outubro de 2005 foram incluídas no
estudo 646 mulheres que procuraram espontaneamente o PPCG, com
idade média (± DP) de 37,7 anos (± 13), com mediana de 37 anos e
intervalo de 12 a 79 anos. Em relação à Renda Familiar, 502 (77,7%)
pacientes ganhavam até quatro salários mínimos/mês. Quanto à
escolaridade, 21 (3,2%) eram analfabetas, 403 (62,4%) tinham o Primeiro
Grau completo ou incompleto, com média de 4,7 anos de estudo (variando
de 1a 8).
A grande maioria delas (554
ou 85,8%) apresentava atividade sexual. Do total, 20 pacientes (3,1%)
apresentavam DM, 95 (14,7%) HA e 18 pacientes (2,8%) algum tipo de doença
neurológica no momento da coleta dos dados. A média do número de
gestações foi 2,3 (± 2,1) e a mediana foi 2, variando de 0 a 19. A média
do número de partos normais foi de 1,0 (± 1,7), mediana de 0, variando
de 0 a 12. A média de partos cesarianos foi
de 1,0 (± 1,1), com mediana de 1, com intervalo de 0 a 4.
A grande
maioria (610/94,4%) nunca havia recebido tratamento prévio para IU, o
que ocorreu em 36 pacientes (5,6%). Desse pequeno grupo de pacientes
tratadas, a fisioterapia foi indicada em apenas 3 (8,3%).
Cerca de 58 pacientes (9%)
foram incapazes de auto-responder o ICIQ-SF ou tiveram dificuldade de
compreensão do mesmo, e solicitaram ajuda.
A prevalência geral de IU na
amostra populacional, de acordo com o ICIQ Escore, foi de 34,8 % (225 de
646). 113 (50,2%) das pacientes
com IU eram maiores de 40 anos.
O impacto da IU na QV das pacientes em geral, avaliado
pela questão 5 do ICIQ-SF, revelou média de 1,4 (± 2,9) variando de 0
a 10. O ICIQ Escore revelou média de 3,1 (± 4,9), variando de 3 a 19.
A Tabela 1 mostra o impacto
da IU na QV nas pacientes com queixa de IU.
A média da questão 5 foi de
4,1(± 3,7) (de 0 a 10).
A média do ICIQ Escore foi
de 8,9 (± 4,0) (de 3 a 19).
O Alfa de
Cronbach foi de 0,84. Esse resultado demonstra que o instrumento foi sensível
e realmente mediu o impacto da IU na QV das pacientes avaliadas.
Tabela 1. Classificação do impacto da IU na QV avaliado pelo
ICIQ-SF (n=225)
|
Graduação do Impacto na QV
|
Variação do Escore
|
n
|
%
|
|
Sem impacto
|
0
|
45
|
20
|
|
Leve
|
1-3
|
75
|
33,3
|
|
Moderado
|
4-6
|
45
|
20
|
|
Grave
|
7-9
|
20
|
8,9
|
|
Muito Grave
|
10
|
40
|
17,8
|
A Tabela
2 mostra análise descritiva e associação entre variáveis sociodemográficas,
clínicas e obstétricas nos dois grupos de pacientes da amostra
populacional (continentes e incontinentes).
Tabela 2. Associação entre variáveis
sociodemográficas e clínicas nos grupos de pacientes continentes (ICIQ
Escore = 0) e incontinentes (ICIQ Escore 3 ≥ ICIQ E ≤ 21)
(n=646)
|
Variáveis / Categorias
|
Incontinência urinária
|
|
Sim
|
Não
|
p-valor*
|
|
n
|
%
|
n
|
%
|
|
Faixa Etária (anos)
|
|
|
|
0,0002
|
|
10-40
|
122
|
18,9
|
268
|
41,6
|
|
41-60
|
78
|
12,1
|
137
|
21,3
|
|
> 60
|
25
|
3,9
|
14
|
2,2
|
|
Escolaridade
|
|
|
|
|
0,0609
|
|
A#
|
161
|
24,9
|
263
|
40,7
|
|
B#
|
64
|
9,9
|
158
|
24,4
|
|
Renda Familiar (SM)
|
|
|
|
0,3535
|
|
1 a 2
|
87
|
13,5
|
139
|
21,5
|
|
3 a 4
|
90
|
13,9
|
186
|
28,8
|
|
> 4
|
48
|
7,5
|
96
|
14,8
|
|
Diabetes mellitus (DM)
|
|
|
|
0,0164
|
|
Não
|
213
|
34
|
413
|
66
|
|
Sim
|
12
|
60
|
8
|
40
|
|
Hipertensão Arterial (HA)
|
|
|
|
0,0003
|
|
Não
|
177
|
32,2
|
373
|
67,8
|
|
Sim
|
48
|
50,5
|
47
|
49,5
|
|
Doença Neurológica prévia
|
|
|
0,8925
|
|
Não
|
219
|
34,9
|
409
|
65,1
|
|
Sim
|
6
|
33,4
|
12
|
66,7
|
*Teste Qui-quadrado
A#: Analfabetas + 1º Grau
B#: 2º Grau + Superior
A Tabela
3 mostra os resultados das análises de regressão logística univariada
para estudo dos Fatores de Risco para IU.
Tabela 3. Resultados das análises de regressão logística
univariada para estudo dos Fatores de Risco para IU.
Variável
|
Categoria
|
P-valor
|
OR
|
IC95%
|
|
Idade
|
(41-60)
x(10-40)
|
0,2115
|
1,252
|
0,881
-1,776
|
|
(>60)
x (10-40)
|
<0,0001
|
3,923
|
1,971
-7,808
|
|
Escolaridade
|
Analfabeto/1G
x 2G/Superior
|
0,0209
|
1,511
|
1,064
-2,145
|
|
Renda
Familiar (SM)
|
(1
a 2) x (> 4)
|
0,3149
|
1,252
|
0,808
-1,940
|
|
(3
a 4) x (> 4)
|
0,8807
|
0,968
|
0,631
-1,485
|
|
Diabetes
mellitus
|
Sim
x Não
|
0,0215
|
2,907
|
1,170
-7,218
|
|
Hipertensão
Arterial
|
Sim
x Não
|
0.0006
|
2,152
|
1,386
-3,342
|
|
Número
Gestações
|
|
0,0482
|
1,079
|
1,001-1,163
|
|
Número
Partos Normais
|
|
0,4971
|
0,952
|
0,825
-1,098
|
|
Número
Partos Cesarianos
|
|
0,3882
|
0,938
|
0,812
-1,084
|
|
Número
de Abortos
|
|
0,089
|
1,217
|
0,970
-1,526
|
A Tabela
4 mostra os resultados da regressão logística múltipla para estudo
dos Fatores de Risco para IU, modelo ajustado pelo processo stepwise.
Tabela 4. Resultados das análises de regressão logística
múltipla para estudo dos Fatores de Risco para IU, modelo ajustado
pelo processo stepwise.
Discussão
Este é o segundo estudo epidemiológico brasileiro
sobre IU feminina e o primeiro a ser realizado por meio de um questionário
condição-específico validado para o Português (ICIQ-SF).
As políticas públicas devem focar condições que
causam significante morbidade, piora da QV e aumento da mortalidade além
de identificar fatores de risco para as condições mais comuns nas
diferentes fases de vida da população em geral7,8.
A IU feminina insere-se nesse contexto por ser sintoma
bastante prevalente e, por isso, sua prevenção e tratamento deveriam
ser incluídos em todos os programas governamentais oficiais de prevenção
de doenças9. Sabe-se que muitas pacientes permanecem
sub-diagnosticadas e sem tratamento por não se queixarem de suas perdas
urinárias10,11.
Algumas limitações devem ser consideradas nesse
estudo. Os resultados subjetivos deste trabalho foram obtidos de dados
coletados por meio de questionário. Nenhum teste fisiológico
relacionado à IU foi realizado neste estudo. É improvável que
questionários substituam testes fisiológicos, apesar de ambas medidas
terem suas vantagens e limitações12. Em recente estudo, Riccetto et
al. encontraram que o ICIQ-SF correlacionou-se positivamente com o teste
de esforço mas não apresentou o mesmo desempenho em relação ao diagnóstico
urodinâmico da IU13.
Com relação à capacidade de autopreenchimento do
ICIQ-SF, apesar de 2/3 das pacientes terem estudo de primeiro grau
completo ou incompleto, apenas 9% do total teve dificuldades no
preenchimento do questionário. Em estudo que avaliou o modo de
administração do ICIQ-SF, não foram encontradas diferenças quando o
mesmo foi auto-administrado ou preenchido pelo entrevistador14.
Das pacientes com queixa de IU, apenas 36 (5,6%) havia
recebido algum tipo de tratamento, sendo que das tratadas, apenas 3
(8,3%) havia recebido algum tipo de tratamento conservador. Esses dados
demonstram a falta de assistência do Sistema Único de Saúde no Brasil
nessa área específica. Além de ser mais econômico por evitar
cirurgias desnecessárias em muitos casos, o tratamento conservador
deveria ser oferecido como tratamento de primeira opção para as
pacientes com sintomas de IU em todo o Brasil, como já acontece nos países
desenvolvidos15.
O ICIQ-SF foi utilizado pela primeira vez em pesquisa
epidemiológica na Turquia, onde foi encontrada prevalência geral de IU
feminina de 24%, sendo que 87% das pacientes sintomáticas consideraram
que a IU provocou impacto negativo em sua QV e esteve significantemente
associada à incontinência fecal9.
Atualmente, apenas questionários validados são
recomendados pela ICS para se avaliar o grau e o impacto da IU na QV ou
em pesquisas epidemiológicas6.
A prevalência geral encontrada em nossa pesquisa foi
de 34,8%. Metade dessas mulheres (n=113 ou 52,2%) tinham 40 anos ou
mais. O único estudo epidemiológico brasileiro já publicado aponta
taxa de prevalência de 35%4. Nossa taxa de prevalência também foi
muito semelhante àquela encontrada por Manonai et al. (2005)16, que
obtiveram índice geral de 36,5%, sendo a idade média dessa amostra
39,1 anos.
O fato de termos analisado uma amostra mais jovem que a
maioria dos trabalhos epidemiológicos sobre IU no Brasil pode ser
explicado pelos critérios de inclusão deste trabalho que foram
baseados em campanha de prevenção do câncer ginecológico, cujo público
alvo são, evidentemente, mulheres mais jovens4,9,15.
Observamos que 80% das mulheres sintomáticas disseram
que sua QV foi afetada negativamente pela presença de IU (Tabela 1). Além
disso, detectamos algumas variáveis significantemente associadas à IU.
De acordo com a Tabela 2, observamos que as variáveis
Idade (> 60 anos), Escolaridade (até primeiro grau completo ou
incompleto), presença de DM e HA associaram-se positivamente à IU.
Estes resultados estão de acordo com recente estudo de prevalência de
IU em mulheres tailandesas16.
As análises de regressões logísticas univariadas
para identificação de fatores de risco associados à IU são
apresentados na Tabela 3.
Muitos estudos epidemiológicos indicam que o
envelhecimento é um FR para a ocorrência de IU, embora não seja
considerado conseqüência natural desse processo3,9,16,17.
Nosso estudo mostra que mulheres com mais de 60 anos têm
quatro vezes mais chance de ter IU do que aquelas com idade inferior a
40 anos. A Escolaridade também se mostrou como FR, pois mulheres com
menor escolaridade (analfabetas ou com até o primeiro grau completo ou
incompleto) apresentaram maior chance de ter IU quando comparadas com
aquelas que tiveram segundo grau ou curso superior.
DM e IU são condições comuns e possivelmente
associadas em mulheres, ambas aumentando a prevalência com o
envelhecimento. Atualmente é considerado FR para mulheres idosas
institucionalizadas ou de meia-idade15,18. Em nosso estudo observamos
que DM foi fator de risco para IU, aumentado em quase 3 vezes a chance
do aparecimento do sintoma, quando comparado grupo sem DM.
HA é freqüentemente associada à IU. No presente
trabalho, pacientes com HA apresentaram duas vezes mais chances de ter
IU comparadas ao grupo sem HA. Outros estudos encontraram o mesmo
resultado, sem propor mecanismo fisiopatológico para o fato9.
Sabe-se que o uso de diuréticos no controle da HA pode provocar efeitos
colaterais como poliúria, freqüência e urgência e, conseqüentemente,
provocar o aparecimento de IU. Porém, o mecanismo de como a HA age como
fator de risco para IU ainda precisa ser esclarecido5,19.
Controvérsias existem na literatura sobre o efeito do
número de gestações como fator de risco para IU. Alguns trabalhos não
encontraram aumento do risco para IU em mulheres com uma ou mais gestações
quando comparadas com as nuligestas4,9. Entretanto, em
nosso trabalho demonstramos que o número de gestações foi FR para IU,
pois quanto maior o número de gestações maior o risco de IU (Tabela
3).
A paridade é um fator de risco controverso na
literatura. Danforth et al. (2006)15 encontraram que paridade foi
fator de risco para IU em estudo de corte transversal em mulheres de
meia idade. No presente estudo não foi observado aumento do risco
relacionado à paridade e nem ao tipo de parto (normal ou cesariana).
Esses resultados estão de acordo com alguns trabalhos encontrados na
literatura, os quais não encontraram a associação de paridade e tipo
de parto com IU4,9.
A IU é um sintoma de base fisiopatológica
multifatorial e essa pode ser a explicação para as divergências
encontradas na literatura em relação à paridade e a outros fatores de
riscos controversos.
No presente trabalho, o resultado da análise de
regressão logística múltipla para a identificação de fatores de
risco em conjunto mostrou que mulheres com idade maior de 60 anos têm
três vezes mais chances de apresentar IU do que as mulheres mais jovens
de 40 anos. Da mesma forma, mulheres com HA têm 1.7 vezes mais chances
de ter IU comparadas àquelas que não têm HA. Esses resultados
alinham-se perfeitamente aos da literatura9,15,16.
Finalmente,
devido a sua alta prevalência, de natureza crônica mas susceptível à
prevenção, a IU é considerada um problema de Saúde Pública, devendo
ter ênfase sua prevenção.
As populações
de risco devem ser identificadas, os FR demonstrados e tratados por
estratégias de políticas de saúde pública17.
Conclusão
A IU
apresentou prevalência de 34,8% nesse estudo de corte transversal,
sendo essa taxa similar às encontradas em trabalhos de outros países,
inclusive de diferentes continentes. A QV dessas mulheres foi afetada de
forma negativa, sendo que a grande maioria não recebeu tratamento para
seu sintoma.
De
maneira geral, mulheres idosas e com HA apresentam alto risco de
apresentarem IU.
A IU deve
ser considerada um problema de Saúde Pública em nossa região. Esses
resultados podem ser um incentivo aos gestores de Saúde no Brasil para
que tomem medidas de saúde preventivas concretas e eficazes na prevenção
e tratamento de IU para as mulheres de nossa região.
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