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Resumo
A meningite viral caracteriza-se
por um quadro clínico de alteração neurológica, que, em geral,
evolui de forma benigna. Os casos podem ocorrer isoladamente, embora o
aglomerado de casos (surtos) seja comum. Indivíduos de todas as idades
são suscetíveis, porém a faixa etária de maior risco é a de menores
de 5 anos. Aproximadamente 85% dos casos são devido ao grupo dos
Enterovírus, dentre os quais se destacam os Poliovírus, os Echovírus
e os Coxsackievírus dos grupos A e B 1,2. O manejo deve ser adequado
para cada etiologia. O presente artigo apresenta as principais
etiologias, manejo dos casos, possibilidade diagnóstica e tratamento
desta importante entidade nosológica.
Palavras-chave: epidemiologia e vigilância das meningites virais,
vigilância e controle.
Abstract
Viral meningitis has a characteristic clinical aspect that includes
neurological alterations and, in general, has benign evolution. Cases
may occur isolated, but case agglomeration (outbreaks) are common.
People of all ages are susceptible, but the age bracket at greater risk
are children under five years old. Nearly 85% of cases are due to
enterovirus, among which poliovirus, echovirus and coxsackievirus of
groups A and B 1,2 are the major causes. Case management must be
adequate to ethiology. This article presents the major ethiologies, case
management, diagnosis possibilities and treatment for this disease.
Key words: epidemiology and surveillance of viral meningitis,
surveillance and control.
Introdução
Meningite linfocitária, geralmente
benigna, na maioria dos casos com líquor de celularidade de 50 a 500 células/mm,
com predomínio de linfomononuclear. A meningite viral caracteriza-se
por um quadro clínico de alteração neurológica que, em geral, evolui
de forma benigna. Os casos podem ocorrer isoladamente, embora o
aglomerado de casos (surtos) seja comum. Indivíduos de todas as idades
são suscetíveis, mas a faixa etária de maior risco é a de menores de
5 anos1.
Agentes etiológicos mais freqüentes
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Vírus RNA
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Vírus DNA
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Enterovírus
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Adenovírus
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Arbovírus
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Herpes simples tipo 1 e 2
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Vírus do sarampo
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Varicela zoster
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Vírus da caxumba
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Epstein Barr
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Vírus da Coriomeningite linfocitária (arenavírus)
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Citomegalovírus
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HIV 1
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Aproximadamente 85% dos casos são devido ao grupo dos Enterovírus,
dentre os quais se destacam os Echovirus (3, 4, 6, 9, 11, 75, 21 e 30),
os Poliovírus e os
Coxsackievírus dos grupos A e B 1,22.
Santos et al, em trabalho
realizado no período compreendido de 1998 a 2003 em quatro estados
brasileiros (Rio de Janeiro,
Pernambuco, Rio Grande do Sul e Paraná), analisando 1.022 líquor
cefalorraquidiano (LCR), foram isolados
Enterovírus
em 162 (15,8%) casos; destes o Echovirus 30 foi identificado em 85,2%
dos casos, Coxsackievírus B5 em 3,7%, Echovirus 13 em 3,7%, Echovirus
18 em 3%, Echovirus 6 em 1,2%, Echovirus 25 em 1,2%, Echovirus 1 em 0,6%, e Echovirus 4 em
0,6%. Os pacientes tinham entre 28 a 68 anos de idade6.
Os Enterovírus têm comportamento
sazonal, predominando na primavera e verão, podendo ocorrer em número
menor nas outras estações do ano. Os lactentes são os mais suscetíveis
e a reinfecção pode ocorrer por sorotipos diferentes. A duração da
doença geralmente é menor que uma semana2.
Outros grupos menos freqüentes são
os arbovírus, o herpes simples vírus e os vírus da varicela, da
caxumba e do sarampo. O vírus da caxumba é um agente comum em população
não-imunizada, predominando entre pré-escolares, escolares e
estendendo-se a adolescentes e adultos jovens. Na meningite pelo vírus
da caxumba geralmente encontramos parotidite, no entanto, até 50% dos
casos evoluem para cura entre 7 a 10 dias3.
O vírus da coriomeningite linfocitária
é de ocorrência rara, sendo transmitida por roedores através de
contato direto ou indireto com as suas excretas. A via de transmissão
é a digestiva, pela contaminação de alimentos com a urina do roedor
ou exposição de feridas; não há transmissão interhumana nesta
etiologia.
Os herpes vírus (HSV-1 e HSV-2) são
responsáveis por 0,5% a 3% dos casos de meningite viral aguda. São
quadros autolimitados, todavia, quando cursam com encefalite, são
potencialmente fatais e estão associados ao HSV-25.
No grupo dos arbovírus merece
destaque o vírus do Nilo Ocidental, que nos últimos anos tem sido
responsável por vários casos de encefalite e meningite em indivíduos
acima de 50 anos, principalmente na América do Norte. O Citomegalovírus,
o vírus Epstein Barr (EB) e os Arbovírus são responsáveis por 5% a
10% dos casos, nas infecções primárias. A meningite recorrente de
Mollaret está associada ao HSV-1, HSV-2, EB vírus e o Herpes Vírus
tipo 64.
A transmissão é de pessoa a pessoa e varia de acordo
com o agente etiológico, sendo fecal-oral no caso dos enterovírus.
Características clínicas e laboratoriais
Caracteriza-se por quatro síndromes: infecciosa, síndrome
de irritação radicular, de hipertensão intracraniana e síndrome
encefalítica. É uma patologia mais freqüente nos meses quentes e pode
cursar com as seguintes características de cada uma das síndromes:
- síndrome infecciosa: febre ou hipotermia,
anorexia, apatia e sintomas gerais de um processo infeccioso;
- síndrome de irritação radicular com sinais meníngeos
característicos: rigidez de nuca, sinais de Köernig, Brudzinski e
Lasègue;
- síndrome de hipertensão intracraniana: cefaléia,
vômitos sem relação com a alimentação, fundo de olho com edema
de papila, e
- síndrome encefalítica: caracterizada por sonolência
ou agitação, torpor, delírio e coma.
A gravidade dependerá do agente
etiológico, faixa etária e estado imune do paciente, diagnóstico
precoce e habilidade da equipe de saúde. Apesar da maioria dos casos
evoluir de forma autolimitada e benigna, em alguns pode haver seqüelas
como retardo mental, surdez, convulsões e perdas motoras ou sensoriais.
O diagnóstico deve ser precoce e, na suspeita, deve-se realizar punção
liquórica, de preferência lombar, entre L3 e S1. Para a punção ser
realizada de forma segura é importante realizar-se exame de fundo de
olho nos adultos e em crianças com fontanela fechada.
Nas meningites virais, o aspecto do
líquor é geralmente claro, com menos de 500 células, porém, na
caxumba podemos ter turbidez devido celularidade de 300 a 3.000 células;
o predomínio inicial é de neutrófilos, podendo alterar para
linfomonocitário em 6 a 48 horas. Deve-se tomar cuidado para não
confundir com as meningites bacterianas parcialmente tratadas pelo uso
de antibióticos prévios.
Na bioquímica do líquor
costumeiramente encontramos proteína, cloreto e glicose normais ou com
discreta alteração. O nível normal de glicose do líquor deve
corresponder a 2/3 da glicemia normal, a proteína pode variar de 15 a
45 mg/dl e o cloreto de 680 a 750 mg/dl.
Líquor e sangue que se
apresentarem não reagentes nas provas de látex e
contraimunoeletroforese e negativas nas culturas bacterianas, devem ser
testados quanto à presença de vírus. Para a tentativa de isolamento
dos Enterovírus deverão ser testadas amostras de líquor e fezes, além
da pesquisa de anticorpos em amostras pareadas de soro.
No caso dos Herpesvírus e Citomegalovírus pode ser realizada a reação em cadeia de polimerase (PCR),
no LCR.
Epidemiologia, vigilância e controle
No Brasil, em média, são notificados 11.500
casos/ano de meningite de provável etiologia viral. Entretanto, para a
maioria dos casos não há identificação do agente etiológico.
A Figura 1 apresenta
os coeficientes de incidência das meningites por etiologia, nos últimos
15 anos, no Estado de São Paulo, com destaque para as meningites não-determinadas,
entre as quais estão inseridas as meningites de provável etiologia
viral. Observa-se na Figura 2 o comportamento das meningites virais de
1990 a 2005, em território paulista, com incidência média de
11,74/100.000 habitantes e com tendência a declínio a partir do ano de
2002.
Figura 1. Meningites: coeficientes de incidência (p/100.000 hab.) segundo
etiologia. Estado de São Paulo, 1990 a 2005.
Figura 2. Meningites não determinadas: coeficientes de incidência (p/100.000 hab.) segundo provável etiologia. Estado de São Paulo, 1990 a
2005.
A identificação de agentes virais
causadores de meningite no Brasil só tem sido possível em algumas
situações, tais como surto, nas quais existe um esforço conjunto para
o esclarecimento etiológico. Sendo assim, o sistema de vigilância
epidemiológica de meningites dispõe de poucos dados sobre estes
principais agentes.
Visando aumentar a especificidade do sistema e conhecer os principais
Enterovírus causadores de meningite, assim como o comportamento
epidemiológico em relação às meningites virais, aprimorar a detecção
e o esclarecimento diagnóstico em situações de surto e otimizar a
qualidade dos dados do sistema de informação,
desde outubro de 2005 a Divisão de Doenças de Transmissão Respiratória,
do Centro de Vigilância “Prof. Alexandre Vranjac” (DDTR/CVE) – órgãos
da Coordenadoria de Controle de Doenças, da Secretaria de Estado da Saúde
de São Paulo (CCD/SES-SP) –, em parceria com o Ministério da Saúde,
Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER) e Casa de Saúde Santa
Marcelina, iniciou um Protocolo de Implementação de Vigilância
de Meningites Virais no Estado.
Em suma, a abordagem de rotina para a vigilância de meningite viral tem
como base a estrutura e a metodologia já adotadas para a vigilância de
meningite.
Definição de caso
É considerado caso suspeito de
meningite o indivíduo apresentando três ou mais dos seguintes sinais e
sintomas: cefaléia, vômito, rigidez de nuca, sinais de irritação meníngea
(Kernig e Brudzinsky) ou abaulamento de fontanela (em menores de um
ano), sonolência e convulsão. Outros sinais e sintomas que podem estar
presentes são: fotofobia, exantema, diarréia e mialgia.
Considera-se como caso de meningite
de provável etiologia viral: caso suspeito com líquor de aspecto límpido
e celularidade apresentando pleocitose, com predomínio de
mononucleares.
Considera-se caso confirmado de
meningite viral: caso provável com confirmação laboratorial ou história
de vínculo epidemiológico com caso confirmado laboratorialmente por
isolamento e identificação.
Definição de surto
Surto ou epidemia pode ser definido como a ocorrência de uma
doença em uma freqüência inesperada. Para fins de vigilância será
utilizada a seguinte classificação de surto:
- Comunidade
institucional (Ex.: escola, creche, acampamento e alojamento): ocorrência
de dois ou mais casos suspeitos de meningite num intervalo de até
três semanas.
- Comunidade
aberta (Ex.: bairro, município e outros): ocorrência do dobro do número
de casos esperados de meningite de provável etiologia viral por três
semanas sucessivas.
Seleção
de casos
Devem ser selecionados pacientes que se enquadrem na definição
de caso de meningite de provável etiologia viral. No contexto de surto,
não serão analisadas amostras de todos os casos; por isso, a pesquisa
viral será limitada a no máximo 20 casos, conforme sugestão do
laboratório de referência.
Espécimes clínicos (amostras)
Além do líquor, deverão
ser coletadas amostras de fezes e soro pareado dos casos:
As amostras de soro pareadas deverão ser coletadas: uma
amostra em fase aguda e outra em fase convalescente (após 15 dias da
data do início dos sintomas). Destaque-se que só serão processadas as
amostras que estiverem pareadas. Além disso, é fundamental a correta
identificação de cada uma das amostras S1 – 1ª amostra (fase aguda)
e S2 – 2ª amostra (fase convalescente).
Ao ser caracterizada a ocorrência de surto deverão ser
selecionados, preferencialmente, pacientes que apresentem quadro clínico
mais sugestivo, encontrem-se em fase aguda da doença e que seja possível
o encaminhamento de todas as amostras (líquor, fezes e soro pareado).
Em caso de surto, usar o instrumento de notificação, ou
seja, o Boletim de Notificação de Surtos do Sinan (Sistema Nacional de
Agravos de Notificação). O Protocolo de Coleta para o Diagnóstico
Laboratorial dos Enterovírus encontra-se disponível no endereço eletrônico:
http://www.cve.saude.sp.gov.br/
Tratamento
O tratamento das meningites virais
é de suporte: antitérmicos como dipirona, antieméticos (metoclopramida),
cabeceira elevada a 30º. Se o paciente estiver sonolento ou confuso ou
com dificuldade de deglutição, deverá ser mantida sonda nasogástrica
para evitar broncoaspiração e hidratação adequada. Nos casos de
herpes vírus, pode ser utilizado o aciclovir com a seguinte posologia:
10 mg/kg/dose a cada oito horas, por 14 a 21 dias. A punção liquórica
alivia a cefaléia por diminuir a pressão intracraniana.
Os casos de internação são
excepcionais, apenas para evitar a desidratação provocada pelos vômitos,
diminuir a cefaléia e melhorar as condições gerais. O uso de
corticosteróides é discutível, assim como a gamaglobulina.
Em surtos decorrentes do vírus da
caxumba faz-se busca ativa dos casos e o bloqueio da transmissão por
meio da imunização.
Referências bibliográficas
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Bleck
TP, Greenle JE. Approch to
the patient with central nervous system infection. In Mandel GL, Bennett JE, Dolin R: Principles and practice of
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Brazil, 1998-2003. J Med Virol. 2006;78(1):98-104.
Correspondência/Correspondence
to:
Lena
Vânia C. Peres
Divisão de Doenças Respiratórias
Av. Dr. Arnaldo, 351, 6º andar, sala 601 – Cerqueira César - São Paulo/SP
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