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Resumo
Entre os diversos efeitos da violência na saúde das
pessoas encontra-se o estresse pós-traumático, que vem ganhando
espaço na literatura científica internacional. A população que vive
nas grandes cidades brasileiras é submetida à situação de sensação
de insegurança e violência crônicas. O presente artigo tem como
propósito apresentar e discutir o problema do estresse pós-traumático
do ponto de vista da saúde pública. Trata-se de um estudo de revisão
bibliográfica, que procura levantar as principais definições e
conceitos acerca do tema. O estresse pode ser agudo ou crônico,
dependendo do tempo em que os sintomas iniciam ou duram, e os sintomas
vão desde quadros leves até mais intensos, podendo se resolver
rapidamente ou demandar cuidados de saúde. O tipo de reação pode
variar de pessoa para pessoa. As reações podem ser físicas,
emocionais cognitivas e comportamentais. A sensação de insegurança,
medo e desesperança podem estar presentes.
Palavras-chave: Violência. Estresse
pós-traumático. Desastre.
Abstract
Among the many diverse effects of violence over
people’s health, there is post traumatic stress, which is gaining
space in the international scientific literature. People living in the
large Brazilian cities is subjected to a feeling of chronic insecurity
and violence. This paper intends to present and to discuss the problem
of post traumatic stress from the point of view of public health. This
is a bibliographical review study, designed to collect major definitions
and concepts on this subject. Stress may be acute or chronic, depending
on the time during which the symptoms start or last, and symptoms vary
from light manifestations to more intense forms; they may also solve
themselves quickly or demand health care. The type of reaction may vary
from person to person. Reactions can be physical, emotional, cognitive
and behavioral. Feelings of insecurity, fear and hopelessness may be
present.
Key words: violence, post-traumatic stress
disorder (PTSD), disaster
Introdução
Nos últimos meses, as duas maiores cidades
brasileiras sofreram episódios marcantes de violência. Em novembro de
2005, pessoas que voltavam do seu trabalho, da escola ou simplesmente
seguiam a rotina das próprias vidas, foram cruelmente incendiadas em um
ônibus que circulava na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, em uma
área considerada de menor poder aquisitivo. Cerca de um mês depois, na
antevéspera do Natal, uma bomba explodiu em uma rua comercial da cidade
de São Paulo, importante símbolo do comércio popular, por isso foco
de atração de milhares de pessoas. Ambos os atentados deixaram um
saldo de mortos (entre eles uma mãe com um filho de um ano nos
braços), feridos, forte indignação e uma população atônita e ainda
mais assustada.
A construção de uma proposta de vigilância de
acidentes e violências para o Estado de São Paulo tem como propósito
subsidiar políticas públicas para a prevenção e controle desses
agravos. Mas é preciso conhecer bem o problema para orientar as ações
de controle. Por isso, o estabelecimento de um bom sistema de
informação é atividade prioritária. Desse modo, os informes até
agora divulgados pelo Grupo Técnico de Prevenção de Acidentes e
Violências, do Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre
Vranjac” - órgão da Coordenadoria de Controle de Doenças (GTPAV/CVE/CCD)
- estiveram principalmente voltados para a disseminação de dados
epidemiológicos. A violência traduzida em números e taxas.
Porém, em muitas oportunidades, foi salientado que o sofrimento
humano determinado pelos acidentes e violências é considerável, não
podendo ser medido. Diante das circunstâncias que envolveram estes
episódios, considerou-se este momento oportuno para abordar um tema,
que vem se tornando, cada vez mais, uma preocupação entre os
profissionais que trabalham nesta área, que é o estresse
pós-traumático. O presente artigo tem como propósito apresentar e
discutir o problema do estresse pós-traumático do ponto de vista da
saúde pública.
Metodologia
Este artigo se caracteriza como um estudo de
revisão bibliográfica. O material utilizado é composto por documentos
disponibilizados pela Organização Mundial de Saúde e Centers for
Diseases Control and Prevention (CDC), de Atlanta (Estados Unidos). Foi
priorizada a apresentação dos conceitos e definições. Deve ser
ressaltado que estes conceitos e o próprio tema ainda se encontram em
construção. O propósito é chamar atenção para um problema ainda
pouco discutido e reconhecido no Brasil, não se pretendendo esgotar o
assunto.
Resultados e discussão
As reações ao estresse
Existem diferentes categorias de estresse, agudo ou
crônico, dependendo do tempo em que os sintomas se iniciam (podendo ser
imediatos ao evento ou aparecer depois de meses) ou duram. Também
existem diferentes níveis de estresse que vão desde quadros leves aos
mais intensos. O tipo de reação pode variar de pessoa para pessoa. O
quadro pode se resolver rápida e espontaneamente ou pode ser mais
difícil de resolver, demandando serviços de saúde.
Inicialmente vamos discutir o estresse agudo, que é
a resposta imediata a um estímulo. O estresse é uma resposta normal do
ser humano, sendo uma preparação adaptativa para a ação do homem
frente à situação ameaçadora. Uma ameaça física ou psicológica
produz reações fisiológicas no corpo, que envolvem principalmente o
sistema nervoso e endócrino. Quando estamos sob estresse há uma
descarga de neurotransmissores, o coração e a respiração aceleram, o
sangue é “desviado” para o sistema músculo-esquelético, mudam a
temperatura e a pressão sanguínea, a garganta fica seca, a digestão
pára e a visão melhora.
Este conjunto de reações prepara o corpo para a
fuga ou para a luta e são encontradas em todos os animais. Considera-se
que esta resposta foi muito útil aos nossos ancestrais para sobreviver
ao ataque de animais perigosos (muito provavelmente para correr deles)1.
Porém, na sociedade atual o que percebemos como perigo apresenta faces
bastante diferentes. Geralmente, apresentamos este tipo de reação
quando envolvidos em eventos como um acidente de trânsito ou durante um
assalto, por exemplo.
O que é um evento traumático?
Um evento ou uma série de eventos que causam
moderadas ou intensas reações de estresse é chamado de evento
traumático. O estresse pós-traumático é caracterizado por
sentimentos de terror, desesperança, por lesões ou ameaça de lesões
graves. Eles afetam os sobreviventes, os familiares e até os
profissionais de saúde neles envolvidos. Também podem afetar as
pessoas que testemunham tais eventos, ao vivo ou pela televisão. As
reações mais comuns estão relacionadas no quadro abaixo. A literatura
também registra a ocorrência de sonhos e lembranças recorrentes do
evento traumático, sensação de perda de controle sobre o presente e o
futuro.
O estresse pós-traumático pode afetar às vítimas
de violência sexual, crimes violentos, seqüestros, acidente de
trânsito, de avião, entre outros. Entre os exemplos de eventos
traumáticos sociais encontrados na literatura estão os grandes
acidentes, os desastres naturais, os ataques terroristas2,3.
Pensando na realidade brasileira, entre estes exemplos não poderia ser
incluída uma noite de intenso tiroteio em uma das favelas cariocas?
Por ser um tema novo, não foram encontrados dados de prevalência
para o nosso meio. Estima-se que nos Estados Unidos mais de cinco
milhões de adultos com idades entre 18 e 54 anos tenham sofrido da
doença. Também se estima que cerca de 30% dos veteranos do Vietnam
desenvolveram estresse pós-traumático depois da guerra4,
bem como os veteranos da Guerra do Golfo5. As mulheres
norte-americanas são duas vezes mais suscetíveis à doença que os
homens5.
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Respostas mais comuns aos eventos traumáticos3
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Cognitivas
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Emocionais
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Físicas
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Comportamentais
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- Baixa concentração
- confusão
- desorientação
- indecisão
- pouca atenção
- perda de memória
- dificuldade de tomar decisões
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- choque
- numbness
- depressão
- sensação de perda
- medo de ferir a si próprio ou pessoas queridas
- sentimento de nada
- sentimento de abandono
- incerteza das emoções
- volatilidade das emoções
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- náusea
- tontura
- problemas gastrointestinais
- taquicardia
- tremores
- cefaléia
- ranger de dentes
- fadiga
- insônia
- dores
- sobressaltos
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- desconfiança
- irritabilidade
- conflitos com amigos ou pessoas queridas
- depressão
- silêncio excessivo
- humor inadequado
- aumento ou diminuição do apetite
- mudanças no desejo ou na função sexual
- fumar mais
- aumento no uso/abuso de substâncias
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E quanto ao estresse crônico?
Enquanto as reações ao estresse agudo são mais
conhecidas e o estudo sobre o pós-traumático vem ganhando espaço na
literatura2,4,5, ainda pouco se publica acerca dos efeitos
decorrentes do estresse crônico a que estão submetidos os
sobressaltados habitantes de cidades violentas. Quais são os problemas
para o corpo e a mente humanos quando nos sentimos constantemente
ameaçados ou, em linguagem mais científica, submetidos a múltiplos
estressores? Sabe-se que o estresse crônico tende a ter solução mais
complexa, até porque submete o organismo aos estímulos por longo
tempo. Entre estes efeitos pode ser citada a fadiga crônica, as
doenças coronarianas e a depressão6. Mas, o que fazemos para continuar
tocando a vida como se tudo estivesse dentro da normalidade? Certamente
esta resposta, se existe, não é fácil.
A complexidade da violência
De fato, a violência é um fenômeno muito complexo.
Não existe um único fator para explicar por que uma pessoa e não
outra se comporta de uma maneira violenta nem por que uma determinada
comunidade é afetada pela violência enquanto outra comunidade vizinha
não está afetada. A Organização Mundial da Saúde considera que a
violência decorre da interação de vários fatores: individuais,
familiares, sociais, culturais, econômicos e políticos7.
Hoje, mais do que nunca, é preciso reconhecer e
transpor a profunda desigualdade existente na sociedade brasileira, para
que possamos superar a situação de violência a que estamos expostos8.
Porém, diante das circunstâncias que envolveram os chocantes
episódios referidos no primeiro parágrafo deste artigo ou também os
episódios de tiros em massa em escolas norte-americanas (o mais famoso
deles, ocorrido em Columbine High School, uma pequena comunidade do
Colorado, em 2000), é difícil acreditar que apenas diferenças
sociais, níveis de pobreza e outras explicações exclusivamente
socioeconômicas sejam suficientes para explicar as manifestações de
violência.
Conclusões finais
Mas não podemos nos considerar impotentes diante das
adversidades. Sabemos que o ser humano tem a habilidade para suportar a
adversidade, adaptar-se, recuperar-se e aceder a uma vida significativa
e produtiva. Tal capacidade é chamada de resiliência9
(também um conceito em construção). Os
apoios do sistema familiar e da comunidade fazem com que indivíduos e
comunidades possam resistir mais fortemente às situações de
violência. Além disso, a coesão social é fator protetor para a
ocorrência de situações de violência.
Se entendermos que as raízes da violência estão em
vários níveis, a paz pode ser construída por investimentos na área
social, na economia, na redução das desigualdades etc. Mas também
será construída por todos os gestos de solidariedade com o outro que
pudermos fazer; com todas as palavras de gentileza que pudermos dizer no
nosso dia-a-dia; com a compreensão de que pensar ou ser diferente de
nós não é uma ameaça, é apenas um dado natural da vida e por todo o
cuidado e carinho que pudermos oferecer às nossas crianças e jovens.
Referências
- Kowalski KM. Component in Your Emergency Management Plans: The
Critical Incident Stress Factor. Consulta em 27/12/2005. Disponível
em <http://www.cdc.gov/niosh/mining/pubs/pdfs/safety.pdf.
Consulta em 27/12/2005>
-
US Department of Veterans Affairs. The effects of
natural disasters. Consulta em 09/1/2005. Disponível em
<http://www.ncptsd.va.gov/facts/disasters/fs_natural_disasters.html>.
- Centers for Disease Control and Prevention, USA. Coping With a
Traumatic Event: Information for Health Professionals.
- Kulka RA, Schlenger WE, Fairbank JA et al. Contractual
report of findings from the National Vietnam veterans readjustment
study. Research Triangle Park, NC: Research Triangle Institute,
1988.
- National Institute of Mental Health, USA. Reliving Trauma:
Post-Traumatic Stress Disorder.
- Agency for Toxic Substances and Disease Registry. Surviving Field
Stress for First Responders. USA, maio 2005.
- Krug EG, Dahlberg LL, Mercy JA, Zwi AB, Lozano R, eds. Violence
and Health. Geneva, Switzerland: World Health Organization;
2002.
- Gawryszewski VP, Costa LS. A mortalidade por homicídios e as
desigualdades sociais no município de São Paulo. Rev Saúde
Pública, abril 2005, v.39 (2).
- Junqueira MFPS, Deslandes FS. Resiliência e maus-tratos a
crianças. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro,
19(1):227-235, jan-fev, 2003.
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