Resumo
Busca-se,
neste trabalho, identificar os tipos de maus-tratos, vítimas,
agressores e local de proveniência em notificações de maus-tratos,
por meio de estudo retrospectivo de 560 casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças e adolescentes. O estudo
foi realizado a partir da análise das Fichas de Notificação Compulsória
encaminhadas à Secretaria Municipal de Saúde de São José do Rio
Preto, Estado de São Paulo, no período de maio de 2002 a setembro de
2005. Foram identificados 445 (80%) casos de violência isolada e 115
(20%) de violência associada. A negligência foi o tipo mais freqüente
de maus-tratos e as vítimas, de ambos os sexos, com idade abaixo de 9
anos completos. A mãe foi o principal agressor e o Serviço de Emergência
de Pediatria do Hospital de Base com n = 204 (28%) apresentou o maior número de notificações.
Palavras-chave: maus-tratos infantis, violência doméstica, crianças e abusos.
Abstract
This paper is designed to identify the types of
mistreating of children and adolescents, as well as assessing victims,
aggressors and local of the occurrences of the compulsory
notifications of mistreating, employing a retrospective study of 560
cases suspected or confirmed of mistreating children and adolescents.
The study was performed with the analysis of the forms used to report
Compulsory Notifications which are forwarded to the Municipal
Secretary of Health of São José do Rio Preto , a city located in the
state of São Paulo, during the period comprised between May, 2002 to
September, 2005. There
were 445 (80%) cases of isolated violence and 115 (20%) of associated
violence reported. Negligence was the more frequent type of mistreat,
and victims, of both sexes, were under 9 years old. Mothers were the
major aggressor and the Pediatrics Emergency Service of the Base
Hospital registered the highest number of reports, with n= 204 (28%)
Key words: childhood
mistreat, domestic violence, children and abuse.
Introdução
O Brasil tem carência de estatísticas oficiais sobre a violência
praticada contra crianças e adolescentes1. Embora a
notificação de suspeita de maus-tratos contra crianças e
adolescentes seja legalmente obrigatória, estima-se que entre 10 a 20
casos deixam de ser registrados para cada notificação realizada2.
A dificuldade para identificar casos, por falta de informações básicas
que permitam o diagnóstico, é um dos principais responsáveis pela
subnotificação da violência ou maus-tratos contra crianças e
adolescentes3.
A violência contra crianças e adolescentes é
hoje, no Brasil, um grave problema de saúde pública, primeira causa
de morte na faixa etária de 5 a 19 anos e a segunda causa de morte
entre crianças de 1 a 4 anos4.
Os maus-tratos contra crianças e adolescentes devem ser
obrigatoriamente notificados e estão classificados em quatro
categorias: negligência e abandono, sevícias ou abuso físico, abuso
sexual e abuso psicológico. Negligência e abandono constituem atos
de omissão de cuidados básicos e de proteção à criança frente a
agravos evitáveis5. Abusos ou sevícias físicas
consistem no uso da força física contra a criança pelos seus
cuidadores4. Abuso sexual é todo ato ou jogo sexual
envolvendo crianças e adolescentes, cujo agressor está em
desenvolvimento psicossexual mais adiantado4.
O abuso psicológico é toda forma de rejeição, depreciação,
discriminação, desrespeito, cobrança ou punição exagerada4.
Segundo observação de Minayo & Souza “...até
bem pouco tempo... o setor saúde olhou para o fenômeno da violência
como mero espectador, um contador de eventos e um reparador dos
estragos provocados pelos conflitos sociais”6. A
partir da década de 1960, entretanto, a atuação da área da saúde
começou a mudar, quando a Academia Americana de Pediatria, em 1961,
reconheceu a síndrome da criança maltratada. No Brasil, a
violência e maus-tratos contra crianças e adolescentes passaram a
receber maior atenção no final da década de 19807.
Com
a implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) –
Lei Federal 8.069, de 13/7/1990 – ficaram assegurados direitos
especiais e proteção integral à criança e ao adolescente. O ECA
tornou compulsória a notificação, por parte do profissional de saúde,
de casos suspeitos ou confirmados. E, em março de 2001, a Portaria de
nº 1968/2001, do Ministério da Saúde, regulamentou a
obrigatoriedade da notificação compulsória dos casos suspeitos ou
confirmados de maus-tratos contra a criança e o adolescente pelos
profissionais dos estabelecimentos de saúde que atendem no Sistema Único
de Saúde (SUS).
De
acordo com estas resoluções, a Secretaria Municipal de Saúde e
Higiene (SMSH) de São José do Rio Preto – cidade situada na região
noroeste do Estado de São Paulo, com 400.000 habitantes, dos quais
85.000 abaixo de 19 anos – elaborou, em 2001, uma normalização de
o todo processo de notificação. O trabalho, feito em parceria com o
Centro Regional de Maus-Tratos na Infância (CRAMI), uma instituição
de referência para o atendimento de maus-tratos, visava sensibilizar
e capacitar os profissionais de toda a rede pública para identificar
e notificar os casos de suspeita de maus-tratos atendidos nas Unidades
Básicas de Saúde e Unidades de Saúde da Família. O objetivo deste
estudo é a avaliação dos dados obtidos a partir das fichas de
notificação.
Metodologia
Foram analisados 560 casos de suspeita ou confirmação de
maus-tratos contra crianças ou adolescentes, a partir de todas as
Fichas de Notificação Compulsória encaminhadas à Secretaria
Municipal de Saúde e Higiene de maio de 2002 a setembro de 2005.
Todas as informações foram transcritas para um banco de dados DBase
III, por meio de um programa EPI-INFO, a partir do qual foram
produzidas as tabulações das informações.
Resultados
Caracterizando
os tipos de maus-tratos
Das 560 notificações analisadas, 445 (80%)
foram casos de violência isolada e 115 (20%) de violência associada
(figura 1). Nos casos de violência associada, 11 (9%) incluíram
quatro tipos de violência, 25 (22,0%) incluíram três tipos e 79
(69,0%) casos incluíram dois tipos, totalizando 722 ocorrências de
violência nas 560 notificações analisadas.

Figura 1- Freqüência de casos de violência isolada e
associada identificados nas Fichas de Notificação. Município de São
Jose do Rio Preto, maio de 2002 a setembro de 2005
A figura 2 mostra a freqüência com que
ocorreram os diferentes tipos de notificações de suspeita de
maus-tratos. Negligência/abandono foi o tipo mais freqüente (n:388;
53%), seguido por abuso físico (n:158; 22%), sexual (n:98; 14%) e
psicológico (n:78 11%).

Figura 2 - Freqüência dos diferentes tipos de suspeita de maus-tratos
identificados nas Fichas de Notificação. Município de São Jose do
Rio Preto, maio de 2002 a setembro de 2005
Caracterizando
as vítimas dos maus-tratos
Faixa
etária
A idade das crianças e adolescentes vítimas
de maus-tratos variou entre recém-nascido (horas após o nascimento)
e 19 anos. A figura 3 indica que as crianças que mais sofreram violência
estavam na faixa entre 1 e 4 anos (n:164; 29%) e 5 a 9 anos (n:120;
22%) e 10 a 14 anos
(n:97; 17%), seguidas pelas menores de um ano (n:74; 13%) e de 15 a 19
anos (n: 51; 9%). Cinqüenta e quatro fichas (10%) não continham
informação acerca da faixa etária da vítima.

Figura 3 - Freqüência dos casos de suspeita de maus-tratos por faixa etária
identificados nas Fichas de Notificação. Município de São Jose do
Rio Preto, maio de 2002 a setembro de 2005
Sexo
A freqüência dos casos de suspeita de
maus-tratos em relação ao sexo indicou o mesmo número para o sexo
feminino (n:280; 50,0 %) em relação ao masculino (n: 280; 50,0%)
(figura 4).

Figura 4 - Freqüência dos casos de suspeita de maus-tratos em relação ao
sexo da vítima identificados nas Fichas de Notificação. Município
de São Jose do Rio Preto, maio de 2002 a setembro de 2005
Caracterizando
o agressor
A mãe foi responsável, isoladamente, pela
maioria das suspeitas de maus-tratos (n:277; 38,0 %), seguida por
outras pessoas (n:175; 24,5%), por mãe e pai juntos
(n:99; 13,5 %), pelo pai ( n: 88; 12,0% ) e desconhecidos
(n:83; 11,5%). O agressor é proveniente do próprio núcleo familiar
(n: 464; 64,0%).

Figura 5 - Identificação dos agressores de acordo com as Fichas de Notificação.
Município de São Jose do Rio Preto, maio de 2002 a setembro de 2005
Local
de proveniência da notificação
O local que encaminhou o maior número de
notificações de suspeita de maus-tratos foi o Serviço de Emergência
de Pediatria do Hospital de Base (n:204; 36,5%), seguido da Unidade Básica
de Saúde Jaguaré (n:150; 27,0 %) e Unidade Básica Santo Antonio
(n:58; 10,5%).
Discussão
A violência contra crianças e adolescentes é um grave
problema social, presente em paises desenvolvidos e em
desenvolvimento. Trabalhar esta questão ainda é um desafio para os
profissionais de saúde, principalmente por falta de informações técnicas
e científicas. Poucos têm abordado a questão da violência durante
a graduação e existe a necessidade urgente de incluir o tema nos
currículos e capacitar os profissionais já graduados3.
Ao avaliarmos as Fichas de Notificações encontramos várias
dificuldades, tais como identificação incorreta e incompleta, letra
ilegível, desconhecimento da ficha, classificação do tipo de
maus-tratos incorreto, de acordo com o relato da situação ocorrida,
desconhecimento da ficha por falta de capacitação (novos funcionários)
e falta de envolvimento com a questão da violência.
A análise das notificações identificou uma predominância
de casos de violência isolada. A presença de violência associada em
20,0% das notificações indica que crianças e adolescentes podem
sofrer várias formas de violência concomitantemente; lembrando a
questão das subnotificações, é bem provável que esse número seja
maior ainda.
A negligência foi o tipo mais freqüente de maus-tratos e
estes dados são compatíveis com resultados de estudos realizados no
Brasil e em outros paises, como Estados Unidos, Inglaterra, Austrália
e Canadá8-9. Analisando as notificações observamos que o
principal tipo era a falta de seguimento da conduta médica após a
realização do atendimento.
As
vítimas de maus-tratos em relação ao sexo não apresentam diferenças,
mas quando avaliamos o abuso sexual observamos que o feminino foi
acometido em 72,0%, quase três vezes mais. Várias são as interpretações
para explicar porque o sexo feminino sofre com maior freqüência
agressão. Nos casos de abuso sexual, na maioria das vezes o agressor
é do sexo masculino e heterossexual; os homens revelam com menor freqüência
pensando ser um ato homossexual, e também são mais capazes de se
defender ante esta situação10.
Quanto
à idade, crianças abaixo de 9 anos foram as mais acometidas A alta
prevalência da violência nesta faixa etária pode ser explicada pela
menor capacidade de defesa destas crianças, bem como pelos longos períodos
em que permanecem em suas casas, pela necessidade de ajuda e dependência
dos seus cuidadores11.
O
principal agressor foi a mãe, que é a pessoa que tem um contato mais
freqüente com os filhos. O segundo agressor mais freqüente foi
“outras pessoas”, que são os cuidadores ou responsáveis pela
criança, desconhecidos, o pai; pai e mãe juntos também foram
identificados como importantes agressores. Ao avaliarmos os casos de
abuso sexual o principal agressor é o padrasto, seguido do pai. O
agressor é proveniente, na maioria das vezes, do próprio núcleo
familiar (n: 464; 64,0%), local que deveria oferecer cuidados e proteção
à criança.
O
local com maior número de notificações foi o Serviço de Emergência
de Pediatria do Hospital de Base, que faz parte do Hospital Universitário.
Este dado pode ser analisado a partir da existência neste serviço do
Comitê de Defesa da Criança e Adolescente, formado por uma equipe
multiprofissional. O local que vem a seguir é a Unidade Básica de Saúde
do Jaguaré, localizada numa área de risco e vulnerabilidade social,
como também durante a capacitação e sensibilização observamos uma
maior adesão e comprometimento com a questão dos maus-tratos.
Conclusões
Considerando o número de notificações
analisadas, o estudo permite concluir que:
-
O principal tipo de maus-tratos encontrado nas notificações
foi negligência;
-
O principal agente agressor nos casos de negligência e
abandono, abuso físico e abuso psicológico foi a mãe, nos casos de
abuso sexual o padrasto;
-
Ambos os sexos foram acometidos igualmente; entre 1 e 9 anos
ocorreu o maior número de casos;
-
A violência ocorreu principalmente dentro do ambiente
doméstico;
-
A procedência das notificações concentrou-se principalmente
Serviço de Emergência de Pediatria do Hospital de Base.
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