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Resumo
A varicela é
uma doença infectocontagiosa altamente transmissível causada pelo vírus
varicela-zoster. Assume maior importância quando acomete
imunodeprimidos e pacientes internados, que podem desenvolver doença
grave ou fatal. Em agosto de 2005, um hospital universitário de
grande porte de São José do Rio Preto (SP) notificou um provável
surto de varicela intra-hospitalar com três óbitos. O objetivo dessa
investigação foi conhecer a real magnitude da varicela nesse
hospital, confirmar um possível surto intra-hospitalar e estabelecer
medidas de controle. As fontes de informação foram: busca ativa de
prontuários, entrevistas de funcionários, contato com pacientes após
a alta e investigação das unidades de emergência por onde passaram
os casos de varicela. Após extensa investigação das fontes de infecção
de 31 casos no período de 2 de julho até 8 de outubro de 2005,
evidenciou-se a transmissão intra-hospitalar da doença, acometendo
quatro pacientes e oito funcionários. Tal fato pode ter sido um
reflexo do aumento de casos da doença na comunidade, aliado a uma alta taxa de suscetíveis
entre os profissionais de saúde. A partir da detecção dos primeiros
casos, diversas medidas foram desencadeadas: notificação e investigação
oportuna de novos casos, vacinação contra a varicela ou
imunoglobulina,
quando indicada, reforço às
normas de isolamento, afastamento dos funcionários infectados,
divulgação ampla do surto aos profissionais de saúde e integração
entre as equipes hospitalares, municipais, regionais e estaduais. Tais
medidas viabilizaram o controle da transmissão da varicela num
hospital de referência regional.
Abstract
Varicella is an infectious disease highly transmittable, caused by the
varicela-zoster virus. The
disease is cause of more concern when occurring in immune depressed
persons and interned patients, who can develop more serious or fatal
forms of this hazard. In August, 2005, a major academial hospital in São
José do Rio Preto (São Paulo) reported a probable outbreak of intra
hospital varicella, with three deaths. The
investigation aimed to assess the real magnitude of varicella within
this hospital, confirming the possibility of an intra hospital
outbreak and to establish
control measures. Information sources were: active search for medical
forms, interviews with the personnel, contacting patients after
hospital leave and investigation of the emergency units in which
varicella cases were admitted. After throughout investigation of
infection sources of the 31 reported cases occurring from July, 2 to
October, 8, 2005, intra hospital transmission of the disease was
identified, with the infection of four patients and eight workers.
This outbreak may be a reflex of the increase in the number of cases
of this disease in the community, linked to a high rate of susceptible
persons among health professionals. Starting from the detection of the
first cases, many measures were taken: reporting and timely
investigation of new cases, vaccination against varicella or
immunoglobulin when indicated, reinforcing isolation procedures,
concession of immediate sick leaves to infected professionals, wide
information of the outbreak to health professionals and integration
between hospital teams in the three government levels: municipal,
regional and state. These measures rendered possible the control of
varicella transmission in a hospital that is the regional reference
service.
Descritores: varicela;
surtos de doenças; infecção
hospitalar
Key-words: varicella (Chickenpox);
disease outbreaks; cross infection
Introdução
A varicela é uma doença infectocontagiosa altamente transmissível,
causada pelo vírus
varicela-zoster (VVZ)1,2.
Caracteriza-se pela presença de febre e lesões polimórficas (pápulas,
vesículas e crostas) disseminadas por todo o corpo. A transmissão
ocorre por contato direto com pacientes com varicela, tanto pela
disseminação aérea de partículas virais (aerossóis) quanto pelo
contato com as lesões cutâneas2,3. Apresenta distribuição universal, incidindo com
maior freqüência no final do inverno e início da primavera3-7.
Essa doença assume grande importância em duas situações: quando
acomete crianças internadas, levando a uma rápida disseminação
pelas enfermarias, e quando incide em pacientes imunodeprimidos, nos
quais o VVZ geralmente determina doença grave ou fatal4,8.
Em agosto de 2005, o Núcleo de Vigilância Epidemiológica (NVE) do
Hospital de Base (HB) da Faculdade de Medicina de São José do Rio
Preto (Famerp) notificou à Vigilância Epidemiológica (VE) da
Secretaria Municipal de Saúde e Higiene (SMSH) de São José do Rio
Preto (SJRP) e à VE da Direção Regional de Saúde de SJRP (DIR-XXII)
a ocorrência de casos de varicela entre pacientes e uma funcionária
do hospital, com provável transmissão intra-hospitalar, além de três
óbitos em pacientes com patologias de base e varicela associada.
Na ocasião, iniciou-se a investigação do surto e a efetivação das
medidas de controle. O surto foi informado à Divisão de Doenças de
Transmissão Respiratória (DDTR) do Centro de Vigilância Epidemiológica
“Prof. Alexandre Vranjac”, da Coordenadoria de Controle de Doenças,
da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CVE-SES/SP); para
auxiliar na investigação de campo, dois técnicos do EPISUS-SP
estiveram no município.
O HB-Famerp é referência secundária e terciária para a população
de São José do Rio Preto e demais cidades da DIR-XXII, além de
municípios de outras regionais de São Paulo e Estados vizinhos.
Essa instituição recebe pacientes provenientes do SUS, convênios
e, excepcionalmente, particulares.
Trata-se de uma unidade de grande porte, contando com 754 leitos. Possui
serviços de clínica médica, pediatria, ginecologia e obstetrícia,
cirurgia, unidades de terapia intensiva (UTI) neonatal, infantil e de
adultos, enfermaria de doenças infectoparasitárias, hospital-dia e,
dentre outros, unidade de transplantes. Dispõe de dez quartos com
pressão negativa, assim distribuídos: quatro quartos na
UTI e semi-intensiva,
dois quartos na UTI pediátrica,
três quartos na enfermaria de pediatria e uma sala de inalação no
hospital-dia.
Além de contar
com aproximadamente 3.600 funcionários, o HB-Famerp caracteriza-se
por grande fluxo de voluntários, docentes, acadêmicos de Medicina e
Enfermagem, residentes e estagiários, totalizando 5.280 profissionais
(tabela 1).
Tabela 1 – Distribuição
(nº e %) dos profissionais de saúde do Hospital de Base de São José
do Rio Preto, segundo categoria, outubro de 2005.
|
Profissionais
do Hospital de Base
|
Nº.
|
%
|
|
Funcionários
|
3.600
|
68,18
|
|
Estudantes
de Medicina
|
360
|
6,82
|
|
Residentes
de Medicina
|
219
|
4,15
|
|
Estudantes
de Enfermagem
|
240
|
4,55
|
|
Aprimorandos
de Enfermagem/outros
|
140
|
2,65
|
|
Funcionários
da Famerp
|
500
|
9,47
|
|
Estagiários
|
145
|
2,75
|
|
Voluntários
|
76
|
1,44
|
|
Total
|
5.280
|
100,00
|
|
Fonte:
Núcleo de Vigilância Epidemiológica do HB-Famerp/São José do Rio
Preto.
|
O
objetivo dessa investigação foi conhecer a real magnitude da varicela no
HB-Famerp, confirmar um possível surto intra-hospitalar e estabelecer medidas
de controle complementares.
Metodologia
Os casos de varicela foram identificados por
meio de notificação dos profissionais do HB-Famerp e da busca ativa
de rotina do NVE-HB nos diversos setores do hospital. Foram realizadas
reuniões para a discussão dos casos e planejamento da estratégia de
investigação e intervenção. Todos os prontuários dos pacientes
internados com diagnóstico de varicela foram revisados.
A
equipe visitou as dependências do HB-Famerp onde inicialmente se
detectaram casos de varicela. Os funcionários que desenvolveram a
doença foram entrevistados. Realizou-se uma busca ativa de varicela
entre os pacientes internados no HB-Famerp no mesmo setor e período
de exposição dos casos com provável transmissão intra-hospitalar.
Essa busca teve como objetivo a identificação de pacientes que
desenvolveram varicela após a alta e que poderiam ter transmitido a
doença no hospital, previamente ao início de seus sintomas.
As
fichas de atendimento de outras unidades de emergência por onde
passaram os casos de varicela internados no HB-Famerp foram levantadas
com a finalidade de se identificarem possíveis fontes de infecção.
As definições de infecção hospitalar por varicela utilizadas no
presente surto foram:
Caso
suspeito: funcionário
ou paciente internado no HB-Famerp suscetível à varicela, com
aparecimento agudo e difuso de lesões pápulo-vesiculares compatíveis
com a doença, no período de 2
de julho até 8 de outubro de 2005.
Caso confirmado:
caso suspeito de varicela que esteve em todo o período provável
de exposição, exclusivamente, no ambiente intra-hospitalar do
HB-Famerp.
Caso possível:
caso suspeito de varicela que esteve em algum momento do período
provável de exposição no ambiente intra-hospitalar do HB-Famerp,
sem história de contato reconhecido com casos de varicela fora desse
hospital.
Caso comunitário:
caso suspeito de varicela em que todo o período provável de
exposição ocorreu fora do HB-Famerp.
Suscetível à varicela:
indivíduo sem referência de história prévia da doença (diagnóstico
clínico ou informação verbal) e sem vacinação prévia contra a
varicela há mais de 21 dias do início dos sintomas.
Comunicante (contato) de caso de
varicela: indivíduo com
contato íntimo e prolongado com caso de varicela, por mais de uma
hora, em ambiente fechado.
Período de transmissibilidade da
varicela: inicia cinco dias
antes do aparecimento das vesículas e perdura enquanto houver vesículas
(normalmente até seis dias após).
Período provável de exposição à varicela: de 10 a 21 dias antes do aparecimento das vesículas,
com média de 14 a 16 dias.
Resultados e discussão
Foram
investigados 31 casos de varicela no HB-Famerp (17 pacientes e 14
funcionários), no período de 2 de julho a 8 de outubro de 2005.
Enquadraram-se na definição de caso suspeito de infecção
hospitalar 23 casos, dos quais 14 pacientes e 9 funcionários. Três
pacientes e cinco funcionários foram descartados com outros diagnósticos,
tais como neurite herpética, reação alérgica medicamentosa, fenômeno
de Lúcio, dermatite seborréica, picada de inseto e rosácea.
Além
disso, foi coletada a sorologia para varicela em uma funcionária que
realizava plantão administrativo em todos os setores de internação
do HB-Famerp. Ela havia apresentado uma sintomatologia frustra
da doença, com três vesículas, e referia história de contato há
cerca de 20 anos, com três filhos que tiveram varicela. O teste de
avidez de IgG realizado pela Seção de Virologia do Instituto de
Medicina Tropical de São Paulo resultou em alta avidez, o que indica
infecção passada, auxiliando no descarte desse caso.
Após extensa investigação das fontes de infecção, quatro pacientes
e oito funcionários foram considerados casos associados à infecção
intra-hospitalar. Desses, somente um paciente permaneceu como caso
confirmado, pois durante todo o período provável de exposição
esteve internado no HB-Famerp. Três pacientes foram classificados
como casos possíveis, uma vez que estiveram internados durante
a maior parte do período provável de exposição e não referiam
história de contato com casos de varicela fora do hospital. Os demais
pacientes já internados com diagnóstico de varicela ou que estiveram
em todo o período de exposição fora do HB-Famerp foram considerados
casos comunitários.
Os
quatro pacientes classificados como casos possíveis ou confirmados
permaneceram na enfermaria de pediatria durante sua internação.
Entretanto, não foi possível determinar se todos foram infectados
nesse local, uma vez que dois deles estiveram na UTI pediátrica em
algum momento do período de exposição. A fonte de infecção não
foi comprovada em nenhum dos quatro pacientes; apenas para dois casos
foi sugerida uma fonte provável no HB-Famerp.
Suspeita-se
que um dos casos possíveis tenha adquirido a varicela de um
paciente proveniente de Ouroeste (SP), internado na enfermaria de
pediatria durante o período de transmissão da doença, que
apresentou sintomas (vesículas) somente após a alta. Esse paciente
foi identificado através da busca ativa realizada pelos profissionais
do NVE-HB e equipes de VE da DIR-XXII e SMSH-SJRP, que entraram em
contato com 71 pacientes internados
na enfermaria de pediatria concomitantemente aos casos de varicela. O
segundo caso possível pode ter adquirido a doença durante sua
permanência na UTI pediátrica, no período em que também esteve
internado o caso confirmado de varicela hospitalar durante o
estágio de transmissão da doença.
A
faixa etária dos quatro pacientes variou de 4 meses a 7 anos. Os
casos eram procedentes de diferentes municípios, dos quais apenas um
pertencente à DIR-XXII. Dois casos residiam em municípios de outros
Estados.
Com
relação aos profissionais infectados, a maioria relatou outro vínculo
de trabalho em hospitais do município de São José do Rio Preto,
onde também internaram casos de varicela. Não obstante, como não
foi possível descartar a transmissão intra-hospitalar no HB-Famerp
nem confirmá-la em outras instituições, esses funcionários foram
classificados como casos possíveis.
A
média e mediana de idade dos funcionários foram de 34,5 anos. Três
deles trabalham na enfermaria de doenças infectoparasitárias e os
demais estão distribuídos em diversos setores do hospital.
Dos
oito funcionários classificados como casos possíveis de
varicela intra-hospitalar, a fonte de infecção foi identificada em
apenas dois casos que tiveram contato com outros profissionais do
HB-Famerp infectados. Os demais não souberam relatar contato
reconhecido com casos de varicela, mas admitiram trabalhar em outros
hospitais onde foram atendidos pacientes com a doença.
Algumas características dos pacientes e funcionários
do HB-Famerp com varicela associada a surto intra-hospitalar estão
resumidas nos quadros 1 e 2, respectivamente.
Quadro 1 – Pacientes
com varicela associada a surto intra-hospitalar. Hospital de Base de São José
do Rio Preto, 2 de julho a 8 de outubro de 2005.

Quadro 2 – Funcionários
com varicela associada a surto intra-hospitalar. Hospital de Base de São José
do Rio Preto, 2 de julho a 8 de outubro de 2005.

Fonte: Núcleo de Vigilância Epidemiológica do
HB-Famerp/São José do Rio Preto.
Os
setores do HB-Famerp onde ocorreram os casos de varicela foram: emergência de
pediatria, enfermaria de pediatria (SUS), UTI pediátrica, enfermaria de doenças
infectoparasitárias, centro cirúrgico e central de materiais. A distribuição
dos casos segundo setor de internação (pacientes) e local de trabalho (funcionários)
está demonstrada na figura 1.

Fonte: Núcleo de Vigilância Epidemiológica do
HB-Famerp/São José do Rio Preto.
Figura 1 –
Distribuição dos casos de varicela associada a surto intra-hospitalar, segundo
setor de internação (pacientes) ou trabalho (funcionários). Hospital de Base
de São José do Rio Preto, 2 de julho a 8 de outubro de 2005.
Para
o presente surto foram considerados os casos de varicela em pacientes e funcionários
do HB-Famerp a partir de 2 de julho de 2005 (data de internação do primeiro
caso comunitário). No entanto, o primeiro caso associado à transmissão
intra-hospitalar ocorreu em 6 de agosto, com provável exposição a partir de
16 de julho de 2005. A curva epidêmica está demonstrada na figura 2.

Fonte: Núcleo de Vigilância Epidemiológica do
HB-Famerp/São José do Rio Preto.
Figura 2 – Curva
epidêmica dos casos de varicela associada a surto intra-hospitalar. Hospital de
Base de São José do Rio Preto, 2 de julho a 8 de outubro de 2005.
A
varicela se dissemina pelo contato direto pessoa a pessoa, por meio do
exantema vesicular ativo ou de partículas aéreas (aerossóis) de
secreções respiratórias transmitidas pelo ar2,5,6,9-13.
Pode ocorrer, ainda, a transmissão indireta por fômites3.
O
período de incubação da varicela varia de 10 a 21 dias, com média
de 14 a 16 dias; todavia, em indivíduos imunocomprometidos este período
pode ser mais curto2,3,5,13.
Não foi possível determinar o período médio de incubação dos
casos investigados, uma vez que as fontes de infecção da maior parte
dos pacientes não foram identificadas.
O
período de transmissibilidade da varicela tem seu início, por via
respiratória, cinco dias antes (sobretudo dois dias antes) da erupção
cutânea e perdura até que todas as lesões estejam em fase de
crostas, o que geralmente ocorre após seis dias do aparecimento das
primeiras vesículas3,4,9,14,15. A transmissibilidade é mais prolongada nos
pacientes imunocomprometidos3.
Consideramos
importante realizar a descrição dos quatro óbitos detectados nessa
investigação, uma vez que tais pacientes apresentavam, além da
varicela, outras patologias de base ou adquiridas que podem ter
contribuído para o óbito. Dois óbitos ocorreram em casos associados
à transmissão intra-hospitalar e os demais, em pacientes que já
apresentavam quadro de varicela no momento de sua admissão.
O
caso confirmado era uma criança de 4 meses, procedente de
Mirassol (SP), internada com diagnóstico de meningite por Streptococcus
pneumoniae. Esse paciente desenvolveu complicações importantes
da meningite, evoluindo com broncopneumonia bilateral, e apresentou
lesões de varicela alguns dias antes do óbito. O caso possível,
uma criança de 5 meses, proveniente de Mogi-Mirim (SP), era portador
de cardiopatia congênita e aguardava uma cirurgia cardíaca.
Apresentou sintomas da varicela um dia antes do óbito, não se
observando complicações relacionadas a essa doença.
Com
relação aos óbitos de dois casos comunitários de varicela,
um deles era uma criança de 9 anos, proveniente de Jales (SP),
portadora de doença do colágeno e que estava em redução do uso de
corticóide. Internou com diagnóstico de varicela ativa, desenvolveu
complicações hemorrágicas e evoluiu com sepsis por Gram-negativo.
Esse paciente tinha história de contato reconhecido com casos de
varicela no domicílio. O segundo caso comunitário, de 8 anos
de idade, residia em Santa Fé do Sul (SP). Era portador de diabetes
mellitus insulino-dependente e foi internado no HB-Famerp com quadro
de toxemia importante e insuficiência hepática. Esse paciente tinha
história de contato com irmão com varicela.
A descrição
desses óbitos é compatível com o que é relatado na literatura,
pois a varicela, em geral, apesar de se apresentar como uma doença
benigna em crianças sadias, pode produzir graves complicações e
maior letalidade em neonatos, gestantes, indivíduos
imunocomprometidos, com neoplasia ou em uso de terapia
imunossupressora1-3,7,13-18.
Em recém-nascidos a letalidade pode chegar a 30%2,3. Pacientes com comprometimento da imunidade possuem
um risco maior de disseminação visceral e envolvimento de órgãos
vitais como fígado, pulmões e medula óssea. Essa forma disseminada
da infecção tem um desfecho potencialmente fatal, com uma taxa de
letalidade variando de 7% a 20%2,3,17.
A necessidade de hospitalização ocorre em cerca de 1 a cada 600
casos2,3.
A varicela não
é doença de notificação compulsória no Brasil, exceção feita a
surtos deste agravo em hospitais, creches, pré-escolas, escolas e
comunidade em geral2,3,7. Quando da ocorrência de surtos, deve ser feita a
notificação no Sinan (Sistema Nacional de Agravos de Notificação),
por meio do boletim de notificação de surtos. Por se tratar de um
agravo de alta transmissibilidade, na ocorrência dos primeiros casos
em ambientes de risco para surtos, as medidas de controle devem ser
prontamente desencadeadas com o objetivo de se bloquear a disseminação
da doença e prevenir o surgimento de complicações2,3,17.
O
município de São José do Rio Preto, a partir de 1990, iniciou a prática
de registrar agravos que não constam da lista de doenças de notificação
compulsória, dentre os quais a varicela. Segundo dados da SMSH-SJRP,
até 23 de setembro (semana epidemiológica 38) de 2005, foram
notificados 1.146 casos de varicela, distribuídos em 166 bairros.
Metade dos casos ocorreu em 14 bairros populares localizados nas zonas
Norte e Noroeste da cidade, variando de 16 a 67 (média de 41)
notificações por bairro. Os outros 152 bairros distribuídos por
todo o município apresentaram uma média de apenas 3,8 casos cada um.
Os menores de 5 anos responderam por mais da metade dos casos
notificados (56,7%), o que é esperado, uma vez que grande parte das
notificações é proveniente de surtos em creches e pré-escolas,
motivadas, ainda, pela distribuição da vacina em tais ocasiões.
A varicela incide, com maior freqüência, no
final do inverno e início da primavera2,4-7,9.
Contudo, no município de São Jose do Rio Preto observa-se um aumento
no número de casos a partir de meados de julho de 2005 (figura 3).

Figura 3 – Casos
notificados de varicela, segundo semana epidemiológica (SE) de primeiros
sintomas. São José do Rio Preto, 2005 (até 38ª SE).
A disseminação
intra-domiciliar da varicela pode ser tão alta quanto 90% a 95%; além
do mais, a severidade da doença parece aumentar a cada caso subseqüente
dentro de um mesmo domicílio2,10,11,13,17.
Estabelecimentos
de ensino também podem refletir o aumento de casos de varicela na
comunidade. Nesses locais, a taxa de ataque secundária da doença é
elevada, variando entre 20% e 40%17,
e ocasiona relativa morbi-mortalidade, pois crianças
institucionalizadas ou que permanecem parte do dia em creches,
habitualmente, apresentam quadros mais graves2.
Do início de
2005 até a 38ª semana epidemiológica foram detectados 268 casos de
varicela relacionados a surtos em 27 creches do município de SJRP,
com uma média de dez casos por creche. Não houve predominância de gênero,
sendo 130 crianças do sexo feminino e 138 do masculino. A média de
idade desses casos foi de 3,35 anos. Também ocorreram surtos em 58 pré-escolas
e escolas, onde foram notificados 262 casos, com média de 4,5 casos
por estabelecimento de ensino.
A transmissão intra-hospitalar do VVZ é bem descrita na
literatura. As fontes intra-hospitalares de exposição para pacientes
e profissionais de saúde incluem outros pacientes com a doença,
funcionários ou visitantes infectados18.
Em muitas circunstâncias, o caso índice de um surto pode ser um
paciente admitido no período de incubação da varicela, e a propagação
continuada da doença ocorre devido à infecção de funcionários
suscetíveis expostos19,20.
Sabe-se que a
disseminação do VVZ é influenciada pela duração do exantema
ativo. Dessa forma, a propagação intra-hospitalar, mesmo em crianças
saudáveis, após uma exposição de quatro dias ou mais, é estimada
em aproximadamente 55% a 60%17.
Em ambientes
hospitalares, a transmissão aérea do VVZ de pessoas com varicela ou
herpes-zoster a indivíduos suscetíveis, que não tiveram contato
direto com o caso índice, tem sido descrita18.
Estudos
realizados com a vacina contra a varicela demonstraram alta eficácia,
sendo de 90% contra a infecção e 95% contra as formas graves2.
O impacto da varicela nos profissionais suscetíveis em hospitais
justifica a implantação de programas preventivos de vacinação
nessas instituições20,21.
Além do mais, a vacinação no período pós-exposição nem sempre
resulta em proteção total contra a doença18.
A transmissão intra-hospitalar da varicela
verificada em hospitais do município de São Jose do Rio Preto pode
ter sido um reflexo do aumento de casos da doença na comunidade,
aliado a uma alta taxa de suscetíveis entre os profissionais de saúde.
Além disso, o surto ocorrido no HB-Famerp contou com um incremento de
casos provenientes de outros municípios da DIR-XXII e até mesmo de
outros Estados.
Conclusões e recomendações
Evidenciamos a
ocorrência de transmissão intra-hospitalar de varicela acometendo
funcionários e pacientes internados no HB-Famerp, com a introdução
de pequenas cadeias de transmissão originadas por casos comunitários.
A partir da detecção dos primeiros casos, as seguintes medidas de
controle foram desencadeadas pelas equipes do hospital (NVE, CCIH,
Chefia de Enfermagem, Diretoria Clínica e SESMT) e Vigilâncias
Epidemiológicas da DIR-XXII e SMSH-SJRP:
¨
investigação de
profissionais suscetíveis à varicela por meio de um questionário
distribuído a todos os setores do hospital e respondido por 1.616
funcionários;
¨
vacinação pós-exposição,
dentro de período oportuno (até 72 horas após a exposição), de
todos os pacientes e funcionários suscetíveis que tiveram contato
com casos de varicela;
¨
vacinação pré-exposição
dos profissionais suscetíveis que trabalham em setores de risco, tais
como: UTI, oncologia, onco-pediatria e enfermaria de doenças
infectoparasitárias;
¨
elaboração de um
cronograma para a vacinação pré-exposição dos funcionários
suscetíveis de todo o hospital, priorizando aqueles que circulam nos
setores de internação: equipes de nutrição, fisioterapia, laboratório,
limpeza e radiologia, dentre outras. Para tanto, a DIR-XXII
disponibilizou 1.000 doses de vacina. Até o momento foram vacinados
683 funcionários em todo o HB-Famerp;
¨
para os funcionários
suscetíveis que tiveram contato com casos de varicela e receberam a
vacina pós-exposição, foi recomendado o uso de máscara
(preferencialmente N95) do 8º ao 21º dia após o contato, pela
possibilidade de desenvolvimento da doença e transmissão no período
anterior ao aparecimento das vesículas2;
¨
todos os pacientes suscetíveis
acima de um ano que necessitarem de internação nas enfermarias com
casos de varicela deverão ser vacinados contra a doença;
¨
administração de
imunoglobulina anti-varicela zoster (VZIG) aos pacientes suscetíveis
imunodeprimidos que tiveram contato com casos de varicela2 – até o momento foram administradas 25 doses de
imunoglobulina;
¨
remanejamento de funcionários
não suscetíveis para o cuidado de pacientes suscetíveis expostos a
casos de varicela, ainda que estes últimos tenham recebido profilaxia
pós-exposição;
¨
isolamento imediato
(aerossóis e contato) tanto de casos novos de varicela
intra-hospitalar como de pacientes com varicela comunitária;
¨
isolamento dos pacientes
que tiveram contato com casos de varicela por até 21 dias após o último
contato (período máximo de incubação) ou até 28 dias, caso
tenham recebido imunoglobulina2;
¨
afastamento imediato de
funcionários com sintomas de varicela até a completa resolução do
quadro;
¨
manutenção dos quartos
com pressão negativa em funcionamento permanente;
¨
reativação de uma UTI
pediátrica para o isolamento de nove crianças que tinham recebido
VZIG;
¨
busca ativa de casos de
varicela em creches e pré-escolas freqüentadas pelos casos
internados com varicela comunitária;
¨
estabeleceu-se que a
Central de Vagas comunicaria à VE da DIR-XXII a transferência de
casos de varicela, com o objetivo de facilitar e tornar oportunas as
medidas de controle indicadas;
¨
os funcionários da recepção
do HB-Famerp foram instruídos a permanecer em alerta para casos suspeitos de varicela,
a fim de evitar a exposição dos demais pacientes e viabilizar a adoção
imediata de medidas de controle;
¨
pronto estabelecimento de
um programa de alerta para a detecção de novos casos em funcionários,
com informativos técnicos sobre varicela elaborados pelas equipes do
HB-Famerp e VE da SMSH e DIR-XXII – informes distribuídos a todos
os setores do hospital, incluindo o relógio de ponto dos funcionários;
¨
as equipes de voluntários
do HB-Famerp foram orientadas quanto à detecção precoce de varicela
neste grupo e cooperação na identificação de possíveis casos na
comunidade;
¨
a VE da DIR-XXII realizou
reunião com alguns municípios de sua abrangência para alertar sobre
o risco de surtos de varicela e discutir as medidas de controle –
foram encaminhados ofícios versando sobre a doença;
¨
sugerida a realização
de um evento com ampla abordagem sobre a varicela para os 101 municípios
da DIR-XXII, além de proposta a
vacinação de todos os profissionais de saúde suscetíveis que
trabalham em hospitais;
¨
as mesmas medidas de
controle visando o bloqueio da disseminação intra-hospitalar de
varicela foram adotadas nos outros hospitais onde trabalham os funcionários
do HB-Famerp que adquiriram a doença, com a aplicação de 387 doses
adicionais de vacina contra a varicela; e
¨
identificada a
necessidade de melhorar a integração entre as Comissões de Controle
de Infecção Hospitalar dos hospitais e municípios, a fim de se
estabelecerem programas integrados de prevenção e controle.
Na
vigência de uma fase hiperendêmica da varicela, que facilita a inserção
de uma quantidade significativa de casos comunitários desse agravo em
hospitais, faz-se necessário maximizar a oportunidade e eficácia das
medidas de controle.
Na
presente investigação de varicela intra-hospitalar foi de
fundamental importância a sensibilização e envolvimento dos
profissionais de diversos setores do HB-Famerp (NVE, CCIH, Chefia de
Enfermagem, Diretoria Clínica, SESMT, Coordenação da Residência Médica
e Aprimoramento, Diretoria de Alunos e Diretoria de Pessoal), equipes
de VE da SMSH-SJRP e DIR-XXII e técnicos do CVE
(DDTR, DIH, Imunização e EPISUS-SP).
Tal trabalho de equipe, com a finalidade de auxílio mútuo na
notificação, investigação oportuna e busca ativa de casos durante
a internação e no pós-alta, vacinação de funcionários e
pacientes suscetíveis, cumprimento das normas de isolamento, supervisão
do uso de equipamentos de proteção individual e fornecimento de
materiais educativos, viabilizou o controle da transmissão
intra-hospitalar de varicela num hospital universitário de grande
porte.
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Agradecimentos
Vanda
Akico Ueda – Seção de Virologia do Instituto de Medicina Tropical de São
Paulo;
Ana
Maria Sardinha Afonso – Seção
de Vírus
Produtores de Exantemas
do Instituto Adolfo Lutz/São Paulo;
Helena Keiko Sato – Divisão de Imunização
do CVE/CCD/SES-SP;
Clélia Maria Sarmento de Souza Aranda
– Divisão de Imunização do CVE/CCD/SES-SP;
Eliseu Alves Waldman – Departamento de
Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São
Paulo;
Telma Regina Marques Pinto Carvalhanas
– Divisão de Doenças de Transmissão Respiratória do CVE/CCD/SES-SP;
Maria Stella de Carvalho Jorge Oliva Sidi –
Divisão de Doenças de Transmissão Respiratória do CVE/CCD/SES-SP;
Geraldine Madalosso – EPISUS/CVE/CCD/SES-SP;
Flávia Aparecida de Moraes – EPISUS/CVE/CCD/SES-SP
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